terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nunca antes

Por Eduardo Louro


 


 


Acabei de regressar do Brasil, onde voltei precisamente dez anos depois. Por mera coincidência, de novo em tempo de campanha eleitoral!


Voltei pois a encontrar um país em campanha eleitoral. Encontrei um país com algumas diferenças mas uma campanha eleitoral bem diferente.


Sempre um Brasil de dupla face – sinais de desenvolvimento próprios de uma potência mundial convivem, lado a lado, com os mais evidentes sinais de terceiro-mundismo –, mas agora um país que todo o mundo cobiça. Qual garota de Ipanema, filha adoptiva do talento de Vinícius (…olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…) que todos querem para namoradinha!


Nunca antes o mundo olhou para o Brasil deste jeito!


Um país que todos os dias atinge novos máximos nos mais diversos índices, a fazer lembrar aquelas semanas loucas das bolsas. Batem-se sucessivos recordes e cria-se a ideia que o limite é o céu. Depois cai tudo, mas isso é outra estória! Esperemos que seja!


Foi este país que vim encontrar, mas … em campanha eleitoral.


A primeira sensação foi que não tinha chegado a sair de Portugal. Sucesso atrás de sucesso, cada indicador melhor que o outro. Os milagres do Estado Social… Estava ali tudo, não faltava nada: aquilo era o discurso que eu ainda levava nos ouvidos. E, no entanto, estava do outro lado do oceano! O país era outro mas o discurso era o mesmo. Fantástico! Nunca antes tinha visto uma coisa assim!


Depois do choque inicial comecei então a perceber as nuances do discurso. Comecei por perceber que os dados e os indicadores que sustentavam o discurso faziam sentido. São produzidos pelo INE lá do sítio – o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – variam a sério, não em cagésimos, são lidos correctamente e impressionam mesmo!


Mas era um discurso cheio de “nunca antes”. Nunca antes de Lula, claro!


Todos aqueles dados e indicadores impressionantes têm uma única referência: o Presidente Lula. O mérito por tudo o que de bom se passa hoje no país é dele. E só dele! Há já quem diga que se eliminará Pedro Álvares Cabral para entregar a Lula o mérito do descobrimento do Brasil!


É este o registo de uma campanha eleitoral onde o presidente se sobrepõe ao candidato. Destinada a assegurar uma continuidade dinástica, bem mais própria da velha linha latino-americana que das democracias modernas do mundo que hoje namora o Brasil, e onde o presidente não se comporta de forma condizente com o seu prestígio pessoal. Bem maior no exterior do que internamente!


É preocupante, e bastante questionado em sectores insuspeitos da sociedade brasileira, este envolvimento e esta personalização meio chavista da campanha. Tão mais preocupante quanto se sabe que nunca foi desmantelada a rede de corrupção com epicentro na sua Casa Civil. Que todos os dias faz prova de vida.


Parece-me que nem o Brasil nem a senhora Dilma Roussef mereciam isto. Nem, acima de tudo, Lula!

3 comentários:

  1. Bem regressado seja.
    Sem nunca ter postos os pés em terras de Vera Cruz, e por isso sem essa visão privilegiada de quem lá esteve, também retenho a ideia de que o Brasil atingiu uma maioridade enquanto potência de nível mundial, que sempre soubemos ser o seu destino. A grande conquista dos últimos anos será o facto de finalmente ter uma classe média com capacidade de consumo e por isso com acesso a uma vida mais digna, e tudo aponta para que essa classe média venha a aumentar significativamente.
    Fica a satisfação de ver um pais irmão muito melhor do que foi não há muitos anos atrás.
    Portugal vai precisar de ajuda para sair da actual situação e o Brasil será sempre um parceiro de peso presente na primeira linha das nossas relações internacionais.

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    1. Viva Paulo,

      É um prazer voltar a vê-lo por aqui. O crescimento dessa classe média, endeusamentos e abusos à parte, que engloba já 50% da população (192 milhões), é a mais evidente e marcante alteração que notei no país neste intervalo de dez anos. Estou a pensar abordar o tema num próximo post.
      Sobre o país irmão, já agora uma piada de taxista, lá como em todo o mundo, o barómetro do sentimento popular e sempre do contra:
      "Vocês portugueses é que são os culpados de tudo isto. Descobriram mas não taparam, deixaram isto a descoberto durante este tempo todo"!

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  2. Olá !

    Não é a primeira vez que se vê o o Brasil aparecer como um gigante. Só que o gigante está a ficar gigantão.

    Já Georges Clemenceau falava "de país de futuro e que sempre o ficará ".

    Nos anos oitenta falava-se de milagre económico Brasileiro ( quem não lembra a canção de Chico Buarque de Holanda, "Construção" ? )

    O Brasil não é só o feito de Portugueses. Talvez seja bom lembrar que desde 1504 Franceses e Holandeses chegam massivamente ao Brasil. E na altura o pequeno Portugal apenas tem, salvo erro meu, cerca de dois milhões de habitantes. Seguirão, Italianos, Espanhóis,Alemães, Japoneses, etc...

    O que é muito curioso é que o Brasil tenha guardado a língua Portuguesa ( nas suas variantes ) e, feito muito interessante, tenha sabido ser um só país ?

    É uma pergunta questionante !

    Encontra-se no Brasil uma unidade feita pela língua, tal como em Portugal. Curioso de ver também que Portugal é um país cuja noção de nação só aparece nos finais do século XIX. Indo por atalhos, a tv globo desempenhou o mesmo papel que os republicanos em Portugal.

    Lula reduziu de 46 milhões o número de pobres. Qual corrupção a que dar de comer a quem necessita ?

    A cultura Brasileira entra pelo mundo dentro.

    Antigamente o Brasil pedia dinheiro emprestado ao FMI ; Hoje empresta !

    Para concluir, há que não esquecer que o envolvimento dos ianquis na guerra do Iraque permitiu o aparecimento dum mapa vermelho e cor de rosa na América do Sul ( dossiê apresentado por um aluno meu que integrou a escola de Sciences Politiques ). Daí a pressa da administração ianque em se voltar de novo para o que considera a sua reserva natural ( América do Sul ).

    Lula foi o primeiro presidente operário a ser eleito democraticamente no mundo. O primeiro presidente eleito no mundo que não sabia falar Inglês.

    Deixará a presidência com mais de 80 porcento de opiniões favoráveis. Lula deu dignidade e esperança ao seu povo.

    Este mês a imprensa Francesa especializada, desde os inrockuptibles ( melhor revista fr segundo Prado Coelho filho/ na altura ) até o Le Monde ou o Le Monde Diplomatique, etc. prestam uma grande homenagem a Lula.

    O que mostra que Lula goza de grande prestígio internacional. Quer se goste ou não !

    "et c'est ainsi que Lula é grand " !

    Em oito anos reduziu de 46 milhões o número de pobres !

    Dá que pensar né ?

    Nuno





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