terça-feira, 30 de novembro de 2010

Do Bidonville à Sorbonne

Por Portomaravilha


   


Penso que foi Carlos Batista, actual tradutor de Lobo Antunes, quem melhor resumiu ou sintetizou a evolução e a presença da Cultura Portuguesa em França.


Em meio século a Cultura Portuguesa conheceu três etapas distintas em França.


A primeira corresponde ao período do Fascismo. É a noite de breu e a história da foto cortada ou rasgada em dois. Uma maneira de lutar contra os passadores e outros negreiros. A fome era tanta que só “O Salto” antevia a vida.


A e/imigração condensa-se nos bairros de lata na periferia de Paris. Analfabeta, habituada a trabalhar de sol a sol, a e/imigração Portuguesa começa a integrar no seu vocabulário conceitos que lhe eram desconhecidos: Vacanças (por férias), Retrete (por reforma) …


 A chegada de intelectuais e de refugiados políticos, já urbanizados, influenciará a história da e/imigração Portuguesa que, debaixo da ajuda do movimento associativo Espanhol, se começa a organizar. Talvez seja bom lembrar que Manuel Alegre foi militante associativo em França.


Há que recordar que o movimento associativo Espanhol tinha e tem uma consideração enorme em França. Qualquer pessoa sabe que a primeira coluna das tropas do General Leclercq que libertou Paris era composta por Republicanos e Anarquistas Espanhóis.


Apesar desta evolução e organização da e/imigração Portuguesa, a cultura Portuguesa continuava sem existência palpável na sociedade Francesa. Os pensadores Franceses que se interessavam por Portugal nem sempre eram bem vistos pelos já quadros da e/imigração Portuguesa. Estes, condicionados pelo “orgulhosamente sós”, nem sempre viam com agrado quem os questionasse, com argumentos, sobre os seus mitos, a sua literatura...


Sobre a problemática do “orgulhosamente sós”, creio que Manoel de Oliveira, no seu filme “Non ou a vã glória de mandar”, faz uma abordagem pertinente.


Fernando Namora, na sua obra Diálogo em Setembro, (1966) resume muito bem este primeiro patamar. Passo a citar: “ Que é isso um português? Donde vem? Onde se esconde a sua terra?...Que jornais há em Portugal? E existem lá pintores, sábios, cidades?...


O segundo patamar corresponde ao desencadear da Revolução dos Cravos e à queda do Fascismo. A actualidade Portuguesa desagua na imprensa Francesa e torna-se Francesa. A tal ponto que Mário Soares e Cunhal debatem (na antiga ORTF) em directo num excelente Francês.


Uma espécie de parto tinha visto o dia. Porém, o que parece mostrar a validade conceptual do primeiro patamar é a incapacidade da imprensa Francesa em transcrever, correctamente, os nomes Portugueses nos primeiros dias da Revolução.


Junto da sociedade Francesa nasce a ideia que a e/imigração Portuguesa também têm uma história, uma memória e uma existência. Já é palpável.


A Cultura Portuguesa passou da não existência a Cultura de porteiro/a...


Esta existência, por mínima que fosse, graças ao 25 de Abril, permitiu um melhor diálogo e o conhecimento, por exemplo, de quem há anos trabalhava sobre Fernando Pessoa.


As pesquisas de Armand Guibert, Bréchon, a tese de Seabra, dirigida por Barthes (e que me perdoem os não citados), começaram a serem lidas por um número de leitores cada vez mais importante.


Pois: Quando se começa a prestar atenção ao porteiro/a...


E, assim, finalmente, chega-se ao terceiro patamar. A afirmação da Cultura Portuguesa passa a existir, em França, no âmbito do diálogo cultural da universalidade com as suas especificidades próprias e que alimentam o conhecimento humano.


Para este patamar muito contribuiu a divulgação da obra de Pessoa (graças a Bréchon e Guibert., citando os mais conhecidos). A obra de Pessoa é, nos anos oitenta, uma revelação para os leitores Franceses não iniciados. Com especial destaque para “O Livro do Desassossego”, Pessoa é o único autor Português que está publicado na prestigiada colecção La Pléiade.


A descoberta de Pessoa alargará portas a uma escola de tradução Francesa que se empenhará no estudo da Língua Portuguesa. Teria, sem esta escola, Saramago chegado ao Prémio Nobel?


É muito difícil sintetizar, em poucas linhas, a evolução e a presença da Língua e da Cultura portuguesas em França. E seria injusto esquecer o apoio das artes Brasileiras nos momentos mais difíceis. Mas uma data como marco: 25 de Abril de 1974. Que a tese de Carlos Batista lembra como a caravela que permitiu ao homem do leme navegar!


 


Nuno

Convidado: Portomaravilha

Por Eduardo Louro


   


O Quinta Emenda, e não é para imitar o Delito de Opinião, onde o Pedro Correia estende diariamente a passadeira a um convidado, recebe hoje o seu primeiro convidado. Já no seu lançamento lançara um desafio aos seus leitores, convidando-os a participar com textos sobre os temas que mais lhes interessem. Apenas hoje chegou o primeiro!


Espero que muitos outros se sucedam: é com o maior dos gostos que as portas do Quinta de Emenda se abrem a todos os que quiserem aparecer!


Não conheço o Nuno, o Portomaravilha, de outro lado que não seja a blogosfera. “Conhecemo-nos” do extinto Vila Forte, onde o Nuno era comentador regular, e do COSMéTICAS, onde integra o trio de autores. Está radicado em França, onde é professor universitário, e, mais do que o portista e activista da Dragon cause que se descobre no nick name, é um homem de cultura. E, apesar da relativamente ténue ligação a Portugal – que também se percebe desta convivência virtual –, especialmente preocupado com a cultura portuguesa. Como se percebe deste seu texto: o primeiro de muitos, espero!


Um aplauso para este dragão, muito bem recebido neste ninho da águia!


PS: a responsabilidade pelo título é exclusivamente minha. O Nuno quis deixar isso nas minhas mãos!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Banho de bola

Por Eduardo Louro


   


Barcelona de sonho em Real pesadelo (SAPO)Por culpa das eleições de ontem na Catalunha (também por lá, os socialistas levaram uma grande banhada:"votar foi um prazer"... mas nos outros) disputou-se hoje o grande clássico do futebol espanhol – um Braça v/s Real Madrid – de enorme expectativa. Lá, onde os bilhetes chegaram a atingir os 3 mil euros no mercado negro, e cá! Também por cá se seguiu o clássico espanhol a par e passo, com os portugueses divididos entre um Barcelona que encanta e fixa as maiores fatias das nossas simpatias – os clubes de fãs culés já vêm dos anos 90, do Barcelona de Robson (e Mourinho), Ronaldo e Rivaldo, – e um Real Madrid, agora transformado no maior fornecedor do onze titular da selecção nacional, onde três portugueses e meio (que me perdoe o Pepe) activam indisfarçáveis sentimentos nacionalistas.


Bastou ver a imprensa do fim-de-semana para nos apercebermos desses corações divididos. Pelo menos dos corações mais mediáticos! Os outros também não interessam…


Em confronto estavam duas coisas antagónicas. Sim, duas coisas e múltiplos sentimentos contrários: duas representações distintas – uma representação de uma comunidade e de uma região em oposição a uma representação de um estado que, em vão, se procura projectar numa nação; duas ideias distintas de construção de uma equipa – uma que o faz a partir das suas escolas de formação, da sua cantera (no onze do Barça apenas dois jogadores haviam sido adquiridos no mercado – Abidal e David Villa) e outra que o faz através de investimentos multimilionários na aquisição de jogadores por esse mundo fora (apenas um jogador da cantera no onze, o guarda-redes Casillas); duas ideias de jogo completamente diferentes – um que privilegia a posse de bola, o jogo rendilhado que encanta o espectador, com quinze a vinte passes antes de chegar à finalização e outro que o faz através de apenas dois ou três, um que encurta o campo e outro que o alonga. E até duas imagens opostas. Duas imagens que as principais figuras de cada lado bem personificam: um Mourinho superstar, arrogante (porque não dizê-lo com frontalidade! como diz o outro) e exuberante a par de um Pepe Guardiola que transpira humildade e recato. Ou um Cristiano Ronaldo de porte altivo e atlético, figura de grande inspiração mediática à custa das mais variadas extravagâncias, de namoradas e até de um filho e um Leonel Messi, atarracado e pacato, que limita o seu protagonismo ao rectângulo verde de jogo.


O jogo rendilhado do Barça, feito de uma interminável cadeia de passes e de uma obscena posse de bola, asfixiou por completo o Real Madrid de Mourinho. Um banho de bola, foi o que foi! Um banho que deixou em êxtase todos os que gostam de futebol, desse espectáculo fabuloso que Messi, Iniesta, Xavi, Pedro e Villa conseguem produzir com uma simples bola. Não sei se o Mourinho já percebeu bem o banho que o Guardiola lhe ofereceu: banho de bola, de humildade ou ambos?


Claro que esperávamos um grande jogo entre as tais duas ideias de jogo: as mesmas duas ideias de jogo que tão bem sucedidas vinham sendo até aqui. Era aí que residia a grande expectativa que rodeava o jogo.


Deu apenas Barcelona! É na frustração dessa expectativa que também está a humilhação de Mourinho!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Futebolês #52 FOLHA SECA

Por Eduardo Louro


 


      


Folha seca é a expressão que o futebolês criou para identificar um gesto técnico de remate: um remate desferido com a parte interior do pé que leva a bola a descrever uma curva no sentido do pé contrário. A bola parte de um ponto e descreve a curva que a leva a fugir … fugir… Vai fugindo do guarda-redes como se de uma folha seca se tratasse: leve, levemente levada pelo vento, que nos foge a cada vez que a tentamos agarrar!


Daí que, a exemplo de todas as que por aqui têm passado, a expressão faça todo o sentido, o que só abona em favor do próprio dialecto.


Mas falar da folha seca sem falar da sua irmã gémea – a trivela – seria deixar de fora uma parte de si própria. É conhecida a fortíssima ligação dos gémeos: num, há sempre um pouco do outro, ou não estivéssemos perante um dos mais interessantes mistérios de partilha e de cumplicidade!


A trivela pode nascer do mesmo pé – gémea verdadeira – ou do pé contrário – falsa gémea, mas igualmente irmã gémea. Mas, ao contrário da folha seca, é impulsionada com a parte exterior do pé: chama-se-lhe também pontapé dos três dedos, o que permitiria chamar à folha seca pontapé do joanete. A partir daí faz a sua vida, que é como quem diz, faz a sua curva – agora no sentido do próprio pé que remata. Depois tudo continua igual: a bola sempre a fugir do guarda-redes que, por mais que se estire, nunca a conseguirá encontrar.


Como duas belas jovens gémeas, também a folha seca e a trivela cultivam uma certa rivalidade. Afinal uma quer sempre ser a mais bela das duas…


Não sei se é a trivela a mais bonita, mas talvez seja a que mais deu nas vistas! Por ter dado umas voltas com um ciganito que por aí andava? Acredito que sim!


Por isso hoje dei a ribalta à folha seca!


Por isso e porque me faz lembrar esta equipa do Benfica. Porque, sabendo-se de onde partiu, não se sabe onde irá acabar por cair. Sabe-se que anda por aí, à toa, ao sabor do vento, sem destino certo e afastando-se de todos os objectivos, um a um, como a bola em folha seca se afasta de quem a possa deter. Porque, como as folhas secas, também começou a cair no Outono. E, também como elas, não demonstra capacidade para alterar o rumo que os ventos lhe traçam nem fugir ao terrível destino de estatelar ao comprido e, quem sabe, acabar pisada, esmagada e triturada. Reduzida a pouco menos que nada!


Desde o início de Agosto que aqui se tem falado no que falhou. Não vale a pena repeti-lo.


Agora, se nada for rapidamente feito, se ninguém puser ordem na casa e assumir as responsabilidades que não podem ser negligenciadas, o Benfica corre o risco de nada ganhar e de voltar a recuar no difícil percurso da recuperação do prestígio perdido. Corre sérios riscos de, como o país, continuar a divergir.


Em circunstâncias normais, no final desta e a exemplo da última época, teria de vender os passes dos jogadores mais valorizados. Na calha estavam, vindos já da última época, David Luiz, Fábio Coentrão e Cardozo! Afastado dos milhões da champions tem agora, em compensação, de vender mais e mais cedo. O problema é que o acelerado processo de desvalorização em curso não transforma apenas as cláusulas de rescisão em miragens. Vai obrigar mesmo a vender em saldos!


É o resultado de evidente falta de competências na gestão dos recursos que fazem hoje o negócio do futebol. É difícil de entender como é que ninguém foi capaz de pôr mão no David Luiz, deixando transformar um grande jogador de futebol numa pseudosuperstar displicente e irresponsável. Como se está a matar o melhor jogador da equipa – Fábio Coentrão – transformando um dos melhores laterais esquerdos do mundo num jogador esforçado mas pouco mais que vulgar.


É evidente que as responsabilidades principais não podem ser imputadas a Jorge Jesus. Terão que o ser a quem permitiu que ele se blindasse da forma que o fez e que se auto barricasse transformando-se em refém de si próprio.


Recordam-se dos deprimentes últimos jogos de Camacho, quando ele surgia invariavelmente incapaz de encontrar explicação para aquilo? Quando se ficava por “um não sei explicar, não encontro explicação”? Jorge Jesus, como se vê, já está nessa fase …

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Greve geral - umas impressões

Por Eduardo Louro


   


Hoje tivemos greve geral… Pareceu-me pouco geral, mas pode ser só uma impressão. Para esclarecer isso aí estarão, mais logo nos telejornais, as centrais sindicais a reivindicar uma adesão … vá lá, de 90% e o governo a dizer que não deu por nada. 10%, se tanto!


Pronto, está bem, ficamos nos 80-20 e não se fala mais nisso!


Apesar do que já ouvi hoje por aí, a propósito da vox populi que nos chega através desses autênticos tesourinhos deprimentes que são as antenas abertas das rádios e até das televisões, estou convencido que, entre todos os outros portugueses que não entram nesses comboios, os portugueses bem pensantes, chamemos-lhe assim, nunca houve uma greve geral que recolhesse tanto apoio como esta. Mais uma vez pode ser apenas uma impressão, mas cheira-me que, desta vez, a greve geral não produziu qualquer clivagem na sociedade portuguesa. Foi pacífica, não obstante ter aparecido por aí um artista a atropelar uns empregados. Mas deve ter sido por terem atravessado fora da passadeira!


Mas a verdade é que também me parece que a greve geral mais consensual de sempre corresponde à greve geral mais inútil de sempre. É só mais outra impressão, mas parece-me mesmo que esta greve geral não serviu para nada. Amanhã estará tudo na mesma, quer dizer, pior, como todos os nossos amanhãs!


A greve, esse direito dos trabalhadores que, é bom não esquecer, apenas as democracias garantem, é um instrumento vocacionado para o espaço laboral. Quando passa essa fronteira e invade o espaço da política dá mau resultado. Fico com a impressão que perde a eficácia. É assim como utilizar um garfo para comer a sopa! Também serve para comer, mas não dá muito jeito para a sopa...


Pode ser apenas mais uma impressão, mas a greve geral, á nossa maneira – pacata, cívica ou mansa, como muitos dizem – para estas coisas, para as coisas que realmente estão agora em causa, não passa de folclore. Não é como os franceses e até mesmo os gregos. Aí não é só folclore. Aquilo assusta! E se assusta mete medo...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ufa...que fim-de-semana

Por Eduardo Louro


   


Finalmente de regresso a mais uma semana. Uma semana mais calma, esperemos – só temos que ir pedir mais umas massas para, agora, dar uma ajuda à Irlanda –, depois de um fim-de-semana agitado. Tudo menos calmo! Até o Papa … vejam bem!


Mas pronto. Já toda a gente regressou casa: o Obama, com Air Force One cheio de mimos para o Bo, e aqueles manifestantes anti-Nato, vindos dos quatro cantos da Europa, com mais umas nódoas negras. Os que conseguiram entrar, evidentemente! Porque muitos já tinham ido sem sequer chegar a vir…


Não há qualquer dúvida sobre a necessidade de se filtrar a entrada dessa rapaziada perigosa e de proveniência mais que duvidosa: até de Helsínquia, essa conhecida capital do terrorismo internacional! Nós bem gostávamos de receber toda essa gente, de os receber a todos, sem deixar ninguém de fora. Os americanos é que são uns desmancha-prazeres e os culpados disto tudo. Tivessem eles correspondido a toda a nossa boa-vontade e entregue os carritos blindados que lhe compramos à pressa e à nossa boa maneira – com as nossas celebérrimas boas práticas, sem concurso e nem sequer contrato (não é possível imaginar um contrato sem cláusulas de incumprimento, se as não é porque não há mesmo contrato) – e toda a gente poderia entrar. Agora assim, sem os blindados, não havia condições… É certo que havia uns da GNR, mas não eram esses. Tinham que ser novinhos em folha, feitos de propósito para a PSP. Para a PSP e para esta cimeira!


Para receber sem condições, mais vale não receber!


E foi assim que os americanos nos tramaram. Não fosse aquela nossa grande arma que nos torna únicos - a nossa celebrada capacidade de desenrascanço - e ficaríamos bem mal na fotografia. Coisa que, como se sabe, detestamos!


Na fotografia é que temos de ficar bem. Se recebemos tão bem, e somos tão distintos organizadores de eventos, não podíamos, de repente e apenas porque os americanos nos tinham deixado de calças na mão, deixar ir tudo por água abaixo.


Vamos lá fixar um numerus clausus e estabelecer critérios: mãos à obra! Se, ao contrário do que bem gostaríamos, não os podemos receber a todos, vamos ao crivo que nos permita fazer boa figura e receber bem aqueles que forem recebidos.


Parece que a coisa se ficou pela indumentária preta. Dizia-se por aí que bastava que trouxessem na bagagem umas T shirts pretas para ficarem do lado de lá da fronteira.


Confesso que gostei do critério: a mim pareceu-me bem essa da roupa preta. É uma coisa tristonha, escura… Tristes já nós somos! Macambúzios já nós andamos, não precisamos de mais gente que nos venha pôr tudo ainda mais negro!


Não sei se o crivo chegou ao underware, onde, como se sabe, o preto é eterna moda. Talvez não tenha chegado. Afinal aquela raparigada tem a fama de não ser muito dada a esses usos. Pelo menos tinha, no meu tempo!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Futebolês #51 QUEIMAR

Por Eduardo Louro


 


          


O verbo queimar é seguramente um dos mais ricos do futebolês. No futebolês, como numa incineradora, tudo se queima!


Não muito longe do que também acontece no futebol: muito se queima e muita coisa arde. Incendeia-se! Por tudo e por nada, ou mesmo por dá cá aquela palha, coisa altamente inflamável, como se sabe!


Incendiários são coisa que não falta no futebol. Sempre prontos a incendiar os ânimos, em quaisquer circunstâncias. São os meninos das claques, que vivem obcecados por chamas e que queimam que se fartam: já não são só as verdadeiras queimadas que fazem nas bancadas, chegam até a queimar autocarros. São os dirigentes, sempre prontos a atear fogo com declarações incendiárias. E são os jornalistas (?), que na maioria das vezes são autênticos pirómanos. Não têm apenas intervenções provocatórias. São verdadeiramente incendiárias. Cirurgicamente!


Então os das televisões constituem autênticos case studies. Se um jogo até nem correu mal de todo – foram lançados para o campo um ou dois telemóveis, duzentas ou trezentas bolas de golfe e o árbitro expulsou dois ou três jogadores, assinalou ou deixou de assinalar, mal, três ou quatro foras de jogo e dois ou três penaltis – está tudo bem. Quer dizer, está tudo devidamente incendiado, e eles limitam-se a manter a chama acesa, não vá o diabo tecê-las e aquilo entrar rapidamente em fase de rescaldo. Mas se o jogo correu mesmo mal – os adeptos portaram-se todos bem e da arbitragem não há nada dizer –, o que é raro mas às vezes acontece, então é vê-los desenfreadamente à procura de um problema, um pequenino problema, o suficiente para libertar uma pequena labareda que seja. 


Para garantir a arte de bem foguear convidam ainda uns comentadores, os chamados paineleiros – atenção que escrevi paineleiro –, membros de um painel, constituído por representantes dos chamados três grandes, dispostos a mandar as suas achas para a fogueira. Não estão lá para outra coisa, apesar de uns mais passarinhos e outros mais passarões!


Não admira pois que, no jogo a sério, no jogo jogado, hajam jogadores a queimar tempo: apanham-se com o resultado que lhes dá jeito e pronto. Tudo serve para fazer com que o relógio ande e o jogo pare: rebolam-se no chão por tudo e por nada, o guarda-redes nunca mais repõe a bola, fogem com a bola para a sombra da bandeirola de canto … Enfim, mais umas coisas capazes de incendiar … as bancadas!


Enquanto isto, do outro lado, queimam-se os últimos cartuchos. Lança-se mão, com inevitável dramatismo, de todos os meios que permitam, à última da hora ou já mesmo fora-de-horas, inverter o tal resultado que, ao contrário, não lhes dá jeito nenhum. Nesta fase tudo é altamente inflamável.


Ao mínimo rastilho tudo se incendeia!


Se a bola queima a linha está lançada a confusão – saiu ou não saiu? Entrou ou não entrou? Se é uma falta a queimar a linha da grande área, a fogueira ateia-se mesmo: foi dentro, para uns. Fora, para outros. Queimar a linha é coisa de incendiário, está visto!


E quando o fumo, de tanto incêndio, deixa tudo negro, no campo a bola passa a queimar. A bola queima, os jogadores não a querem nos pés, querem ver-se livre dela como quem se quer livrar da batata quente. Era o que se via na selecção nacional ainda há bem pouco tempo. A mesma selecção, que não a mesma equipa, que tão mal estivera na África do Sul, que empatava com a selecção do Chipre e perdia com a Noruega, com a bola a queimar tudo e todos, dá um banho de bola e goleia a selecção espanhola, campeã da Europa e do Mundo.


Só porque se mudou o treinador. Um treinador que queima jogadores (queimou os que levou para o Mundial mas também os que por cá deixou) torna-se rapidamente num treinador queimado pelos jogadores! Claro que um treinador pode queimar um jogador. Para queimar um treinador não basta um só um jogador. Mas uma equipa tem muitos!


Claro que há outras formas de queimar treinadores, os dirigentes também sabem da coisa. Há mesmo cemitérios de treinadores, com crematórios e tudo!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Desiquilíbrios

Por Eduardo Louro


   


Na passada sexta-feira o Diário de Notícias anunciava que as empresas cotadas que integram o PSI 20 da bolsa nacional aumentaram os seus lucros nos primeiros nove meses deste ano em 40%, atingindo os 3.477 milhões de euros.


Haverá quem veja aqui uma boa notícia: afinal, num ano de crise como este ainda há empresas que conseguem excelentes desempenhos. Aumentar em 40% os lucros em tempos como os que vão correndo é obra! Serão certamente empresas muito bem geridas e com planos estratégicos de excelência. Serão as mesmas que contribuíram para uma outra boa notícia desta sexta-feira: as exportações aumentaram 15% e permitiram que a nossa economia tenha crescido 0,4% no terceiro trimestre, fugindo assim ao início da recessão anunciada. As mesmas que alimentam a esperança do ministro das finanças no milagre de cumprir os objectivos de crescimento do Orçamento de Estado!


Tenho que lhes dar uma má notícia: é que não é nada disso!


Das empresas que constituem o PSI 20 – o cabaz que constitui o índice bolsista nacional (PSI – Portuguese Stock Índex) – muito poucas são industriais e exportadoras. As que o são não apresentam lucros, mas prejuízos.


Pois é. Estes lucros fabulosos não têm nada que ver com a produção de bens e serviços transaccionáveis, esse jargão do economês que classifica a produção económica que faz a verdadeira riqueza das nações. Estes lucros que crescem desta maneira são realizados no sector bancário – BPI, BCP e BES –, na distribuição – Jerónimo Martins e Sonae –, nas telecomunicações – PT, Sonae e ZON, no sector energético – EDP, EDP Renováveis, REN e Galp – e, como não podia deixar de ser, dois dos melhores exemplares das PPP (Parcerias Público Privadas) – Brisa e Mota Engil.


Nestes sectores altamente protegidos, e que em boa verdade sugam o resto da economia, concentram-se 14 das 20. 70% do PSI 20!


Apenas as restantes 6, das quais quatro operam na fileira do papel, são empresas industriais e exportadoras: Cimpor, Altri, INAPA, Portucel, Semapa e Soane Indústria. Mas, como é público, parte destas está no vermelho!


Como está bom de ver estes lucros fabulosos, que continuam a crescer independentemente do que se passe na economia e na sociedade, são construídos à custa da economia. São transferências dos sectores produtivos, dos que criam efectivamente riqueza, para outros que vivem de rendas em vez de viver de negócios. São autênticos regimes de rendas que o Estado colocou nas mãos de uns poucos à custa da imensa maioria dos outros, limando-lhes todos os factores de risco: autênticos monopólios de serviços de primeira necessidade, garantias de preços e até indemnizações!


Os bancos são ainda um caso à parte. Ao Estado vão buscar o favorecimento fiscal que lhes tributa lucros de elefante com impostos de pulga. Ao comportamento cartelizado vão buscar o resto, usando e abusando dos clientes sem qualquer alternativa em mais um serviço de primeira necessidade. Repare-se: o cliente não tem condições para lhes comprar o que eles querem vender e obrigam-no a pagar as chamadas despesas de manutenção; fazem um pagamento com o nosso dinheiro, com o dinheiro que temos na conta, na mesma conta cuja manutenção pagamos para fazerem do nosso dinheiro tudo o que entendam, e fazem-nos pagar por isso: é a comissão de processamento; emitem um documento para nos debitar todas essas coisas e, naturalmente, fazem-nos pagar essas despesas: o papel, a tinta, o ordenado do funcionário, a amortização do computador, etc., etc.


Quer dizer, ganham o que querem na venda do seu produto – o dinheiro, que vão buscar ao BCE a 1% e a grande parte dos depositantes a 0% – e ganham ainda em tudo aquilo que, para qualquer outra empresa, são os seus custos operacionais (logísticos, administrativos, etc.)!


Pois aqui está um dos mais flagrantes desequilíbrios do sistema. Os bloqueamentos que vão marcando estes tempos e estas crises, feitas também destas coisas. A economia não tem só que sustentar um Estado monstro e uma classe política clientelar e incompetente. Tem ainda que sustentar todas estas empresas de sucesso

sábado, 13 de novembro de 2010

Que chatice!

Por Eduardo Louro


   


Hoje foi, de há 40 anos a esta parte, o primeiro sábado em que, estando no país, não comprei o “A Bola”. Por solidariedade com o Ricardo Araújo Pereira (RAP) que, por sua vez, se solidarizara com o Zé Diogo Quintela (ZDQ)!


Já aqui referi diversas vezes a minha forte ligação a este jornal e aos seus grandes mestres, com quem aprendi, não só a ler e a escrever, como a gostar de escrever. Por isso esta minha decisão de hoje não foi nada fácil. Pareceu-me estar a separar-me de muitos anos da minha vida, como que a deixar para trás uma boa parte de mim. E isto não é fácil!


O RAP escrevia em “A Bola” aos sábados. O ZDQ fazia-o aos domingos e, às terças, o Miguel Sousa Tavares (MST).


O MST não é exactamente uma personalidade pacífica no panorama mediático. Antes pelo contrário, é uma personagem dada à conflituosidade o que, obviamente e por si só, não é mal nenhum. A não ser quando se não consegue ser absolutamente coerente e quando se muda de posição ou de barricada. O MST é portista! Nada de mal, mais uma vez. Fanático! Bom, aceita-se. Afinal nestas coisas dos clubismos há sempre muito exacerbo, frequentemente próximo do fanatismo.


Perde a razão e fica com a vista turvada quando escreve sobre futebol. Bom, não é bonito! Nem sequer muito abonatório para a personagem que pretende interpretar neste jogo da vida, mas, se ainda por cima lhe pagam… E, claro, esquece-se da coerência, uma velha pecha. Daí que, se isso lhe interessar para o argumentário do seu clubismo cego, hoje diga o contrário do que disse ontem. Hoje defenda o que ontem atacou ou desminta a sua verdade de ontem…


Claro que as famosas escutas do Sr Pinto da Costa são palco privilegiado para esta peça!


O RAP, perante tão repetidos e grosseiros atentados à coerência, provavelmente porque teve meios para a necessária pesquisa, resolveu começar a revelar na sua coluna dos sábados as verdades/mentiras do MST: em tantos do tal escreveu isto para em tal dos tantos escrever exactamente o contrário…


O MST ia respondendo na sua coluna das terças-feiras. Como podia. Quase sempre mal, no estilo de pior a emenda que o soneto. E ia-se enterrando, dando o flanco e expondo-se. Até que começou a expor insuspeita ignorância, logo aproveitada pelo RAP para dar uma lição sobre a matéria.


Foi aqui que acabou a paciência do MST. Por falta de argumentos, porque contra factos não os há, passou ao ataque pessoal. Bem, até foi ao ataque colectivo – aos Gatos Fedorentos. Aí, entrou em cena o ZDQ, na sua coluna do domingo, expondo ainda mais as fragilidades do MST. Que não resistiu a ameaçar com o abandono!


No último domingo a crónica do ZDQ foi censurada. Sim. CENSURADA! “A Bola” cortou o que entendeu e, evidentemente, o ZDQ tomou a única atitude que os nobres de carácter podem tomar. E o RAP foi solidário e deixou também de escrever em “A Bola”.


O MST faz alarde em declarar-se feroz opositor das redes sociais e da blogosfera. Tenho a impressão que, se fosse ele a mandar, até a Internet proibiria. Até aqui eu não percebia porquê, só agora entendi: é que na blogosfera ele não pode ordenar a nenhum director, nem a ninguém, que corte e censure o que se escreve. A blogosfera não lhe garante a imunidade que os jornais e as televisões lhe asseguram, nem lhe protege o estatuto que o berço lhe deixou. Na blogosfera até os plágios se descobrem! Que chatice!


 


PS: Esta matéria traz a nação benfiquista em ebulição, como se pode ver aqui e ali.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Futebolês #50 TÚNEL

Por Eduardo Louro


 



O futebolês tem destas coisas: na anterior edição o tema era a goleada. Como, por estranho que pareça, depois da goleada se voltou a falar de túnel … o tema de hoje só poderia ser o túnel!


Porque logo se voltou a falar no túnel, nessa arma de arremesso que alguns criaram na época passada e que agora voltam a tentar ressuscitar. O Hulk está em grande forma, assustou (e de que maneira!) o Jorge Jesus, e lá se volta a falar em túneis, como se fosse possível trocar de culpados, inverter a realidade ou mesmo esquecer um túnel do terror que esteve á guarda de um famoso guarda da PSP, mais influente que o comandante geral.


Mas não é desse túnel que vou falar. Nem tão pouco do verdadeiro túnel do futebolês, aquele gesto técnico que não mata mas desmoraliza como nenhum outro. Desse já aqui falei como uma das maiores maldades que se podem praticar num jogo de futebol.


O túnel de aqui quero falar é outro.


Entre o muito que se escreveu sobre o desastre do Benfica no Dragão houve alguém que o comparou a um cataclismo numa mina, sugerindo-me o drama daqueles 33 mineiros chilenos.


Aquilo mais parecia uma equipa de mineiros abandonados por uma estrutura que não lhes criou as condições mínimas para que pudessem desenvolver o seu trabalho. E, ao contrário dos mineiros chilenos, sem sequer um chefe de turno que pudesse emergir e assumir a liderança que permitisse recuperar alguma da ordem perdida…


Agora há que começar a escavar o túnel que os há-de trazer de volta. E que proceder a uma avaliação séria do que falhou, do que os enterrou lá em baixo!


Começaria por aqui. Já aqui falei por demais no erro da supertaça, que desde logo mostrou a deficiente preparação da época, que se tentou esconder num discurso errático (saídas de Di Maria e Ramires, antes dados por convenientemente substituídos), inoportuno (o Hapoel como a surpresa da Champions ou a normalidade do Benfica ganhar em França) e desmobilizador (o insubstituível Cardozo), que culminou, agora, numa nota de culpa muito simples: Hulk e os jogadores que não o conseguiram parar!


Diz-se por aí que a estrutura do Benfica não soube gerir o sucesso. Não sei se não soube gerir o sucesso, sei que não soube gerir o que tinha que gerir. O topo – leia-se Luís Filipe Vieira (LFV) – não soube gerir nem o ego nem o espaço do Jorge Jesus, permitindo-lhe que extravasasse funções e entrasse em esferas de decisão que deveriam constar de outras competências. Que, por sua vez, ao arrepio do princípio de Peter e inchado pelo sucesso, se demitiu da gestão dos imensos recursos que tinha à disposição para, de mestre da táctica, passar a catedrático do futebol, matando a maior e a mais apreciada das virtudes: a humildade, o primeiro elo da cadeia do sucesso.


Já aqui me referi a Jesus à luz de um princípio do Prof. Manuel Sérgio: “Pode saber-se muito de futebol mas, quem só sabe de futebol, nem de futebol sabe”. A gestão de uma enormidade de factores que actualmente são determinantes para marcar a fronteira entre o sucesso e o insucesso no futebol, entre os quais recursos humanos tão especiais como são os jogadores de futebol de topo, dificilmente estará ao alcance de quem apenas saiba, mesmo que muito, de futebol.


Mais importante e decisivo que inventar na constituição e disposição da equipa no Dragão, foi a evidente demonstração do medo de jogar com o Porto. Jesus ressuscitou, não Lázaro, como há 2 mil anos, mas um fantasma de décadas que se julgava definitivamente morto e enterrado! Um medo que já vinha de trás e que aquele último quarto de hora do jogo com o Lyon, como aqui se previra a semana passada, transformou em terror. Terror que a goleada do Dragão transforma em pesadelo, numa escalada a que há que saber pôr fim de imediato: o tal túnel de resgate a que há que deitar mãos!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Correu bem?

Por Eduardo Louro 


    


Hoje voltamos a estender a mão. Precisávamos de mais 1,2 mil milhões e lá fomos … aos mercados!


Pagamos caro. Muito caro: 6,83%, já roçar os tais 7%! 


Mas Teixeira dos Santos veio dizer que tinha corrido bem. “Correu bem” – disse, como na maioria das vezes a mentir, dizem os miúdos à saída de um teste no meio do período.


A nós, como aos pais daqueles miúdos que sabem que estão a mentir, pareceu-nos mal. Nem conseguimos perceber o que pudesse ter corrido bem!  


Este “correu bem” lembrou-me aquele ar de “desta já me safei” do primeiro-ministro quando da aprovação do orçamento na semana passada!  


Está estendida a passadeira para receber o FMI … Por culpa dos mercados, claro!


 


 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O frente a frente

Por Eduardo Louro


   



Passaram no sábado, dia 6, 35 anos sobre o famoso frente a frente televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal e a RTP decidiu reproduzi-lo no seu canal Memória.


Tinha sido alertado para essa emissão na véspera, num programa da Antena 1, que há muito sigo (o seu horário, às 19 horas de sexta-feira, tornou-o companhia de viagem no meu regresso a casa das sextas-feiras): o Contraditório, moderado por João Barreiros e com a participação de Carlos Magno, Luís Delgado e Ana Sá Lopes.


O Carlos Magno e o Luís Delgado, rapazes da minha idade, tinham na altura deste debate 20-21 anos de idade, os restantes dois eram então ainda crianças. Os dois primeiros, pela idade e pela intensidade da vivência própria daquele período da nossa vida colectiva, tinham a “obrigação” de conhecer toda a envolvência e o contexto daquele que ficou como o marco do debate político televisivo. Aos outros dois, mais jovens, seria exigível um conhecimento documental mas igualmente rigoroso daquele acontecimento.


Fazer da análise e do comentário político profissão terá de ter algumas exigências. Não se podem ignorar acontecimentos políticos determinantes da nossa história recente e, em especial, daquela que também protagonizamos.


Tudo isto para dizer que achei lamentável que aquelas quatro personalidades tenham abordado aquele acontecimento, a propósito da emissão da RTP Memória, em regime de manifesta ignorância do seu enquadramento. Um deles – o Luís Delgado, de resto num registo que lhe é muito próprio – apressou-se a enquadrar o debate num período eleitoral, sem contudo o identificar. Logo seguido por todos os outros, como também é habitual.


Fora de causa estava, para ele, ter acontecido em Novembro de 1975 porque, acrescentava, “era o que faltava era nessa altura alguém estar preocupado com debates”. Também dizia que, ao contrário do Carlos Magno, não tinha então acompanhado o debate porque, nessa altura, tinha coisas mais interessantes com que se preocupar.


O mesmo Luís Delgado teria outra tirada digna de registo, quando comparou a influência do PCP nos jornais de 1975 ao que se passa hoje com o Bloco de Esquerda, comparando “alhos com bugalhos”. Então, a influência do PCP nos jornais, nos nacionalizados – entenda-se – decorria do “assalto” transversal ao aparelho de estado. A dita influência actual do BE é completamente diferente e decorre de uma certa “moda”, de um certo “politicamente correcto” à la page com os temas da actualidade, geralmente ditos de fracturantes, É uma questão de produto, um produto que hoje tem mercado, e não tem nada a ver com exercício de poder e com controlo da informação, como então sucedeu.


A verdade é que, até que da régie tivesse vindo o ponto de ordem para pôr ordem naquilo, aquilo foi um autêntico regabofe. E um triste espectáculo que nos mostrou como muitas destas pessoas entende que a sua omnipresença no espaço mediático lhes permite um compromisso leviano com a verdade e com o rigor!


Bom. Mas no sábado à noite lá me fixei em frente ao ecran para rever, pela primeira vez, o mais famoso dos frente a frente da política portuguesa que tornou famosa a expressão de Álvaro Cunhal: “olhe que não … olhe que não!”. Que eu recordava ter sido utilizada uma única vez quando, afinal, viria agora a confirmar, foi-o em duas ocasiões.


E recordei um tempo que, parecendo tão perto, está afinal tão longe. Um tempo em que se fumava ali, em frente às câmaras. Em que apenas o fumo que saía dos cigarros denunciava dois entrevistadores (e que jornalistas!) que se limitavam a não interromper aquelas duas figuras, lado a lado em simultâneo num duplo plano muito raro em televisão. Um tempo em que não havia tempo em televisão. Aquilo só acabaria quando toda a gente, telespectadores incluídos, estava cansada. Porque, como disse Álvaro Cunhal, “as pessoas trabalham e amanhã é dia de trabalho”…


E recordei o alto nível do debate político, com análise e sem demagogia. Com sagacidade e sem lugares comuns. E mesmo sem a famosa cassete: Álvaro Cunhal não usava cassete. Criou-a mas para uso de terceiros!


E recordei como se abriram naquele dia as portas do 25 de Novembro. E como a guerra civil esteve tão perto!


E como a descolonização era Angola, Moçambique e Guiné. Nada mais, numa altura em que Timor já estava ocupado pela Indonésia…


Pois é, aquele debate também nos ajuda a entender melhor muito do que se passou depois. Se calhar até muito do que se passa ainda hoje…

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Futebolês #49 GOLEADA

Por Eduardo Louro


 




O futebolês atinge hoje a quinquagésima edição!


A primeira edição, a edição 00, foi publicada no dia 7 de Novembro do ano passado. No Vila Forte (que saudades!), faz agora um ano. Comemora também o primeiro aniversário!


Confesso que não esperava que aquela ideia inicial de dar expressão à língua, ainda rudimentar, de Alves dos Santos e Gabriel Alves ou, já mais erudita e actual, de Luís de Freitas Lobo, durasse tanto. Não imaginava, no arranque, que houvesse matéria para tanto. Que fossem assim tantas as expressões do futebolês!


Não sei se haverá expressões, muito menos da minha parte, engenho e, da vossa, paciência, para manter esta rubrica por outro tanto tempo. Vamos a ver!


Este é pois um número festivo: duplamente festivo! O futebol é (tem de ser) festa, e os golos a festa do futebol. E a goleada a festa dos golos !


Creio que consegui, para todas as expressões do futebolês que aqui trouxe ao longo deste ano, encontrar a forma precisa e mais ou menos clara e objectiva de as traduzir. Foi sempre possível encontrar uma definição própria, afinal aquilo que era o objectivo – um dicionário de futebolês/português!


Pois desta feita temos um problema!


A goleada é mais que a festa dos golos. É um festival de golos! Muitos, portanto!


Mas quantos? Aí é que está o problema…


É que parece que à medida que o golo começou a transformar-se num bem escasso o critério foi baixando. Se tempo houve em que a goleada começava aos cinco, abaixo disso nem pensar, agora já vai para aí nos três. André Vilas Boas, por exemplo, ainda tentou fazer alguma doutrina sobre a matéria: depois dos 4-0 da Académica na Luz na última época, declarou-se satisfeito por ter escapado à goleada. Fora de causa, portanto, fixarmos o patamar de arranque da goleada!


Mas há ainda outro problema: a goleada depende só dos golos marcados? Então e os sofridos?


Ganhar por 5-0 é goleada! E por 5-4? São duas goleadas? Ambas as equipas golearam? A equipa que goleou também foi goleada?


É complicado! Talvez por isso, porque o futebolês existe para simplificar e não para complicar, criou-se outra expressão: a cabazada!


A cabazada é clara: um cabaz cheio de golos marcados. E o outro vazio!


O Benfica podia ter dado uma cabazada ao Lyon na última terça-feira mas acabou por apenas golear. E ser quase goleado nos último quarto de hora, naquilo que foi mais uma oportunidade perdida por Jorge Jesus.


Que nesta época vai perdendo oportunidades, umas atrás das outras. Começou, como sempre aqui se fez eco, por perder a oportunidade da supertaça, a tal que permitiu ao FC Porto recuperar a máquina de ganhar, que estava a ficar perra. Perderia, um mês depois em Gelsenkirchen, num jogo de evidente superioridade perante o Schalke 04 que se permitiu perder, a oportunidade de afirmação na Champions. E acabou de perder a oportunidade de se redimir dessa falha através de uma goleada que, para além resgatar prestígio internacional, dava vantagem no confronto directo com um dos principais adversários nas contas do apuramento. E que, the last, not the least, transportava para o decisivo confronto deste domingo com o FC Porto, um élan de valor inestimável. Uma confiança que marcaria a entrada em campo das duas equipas, mais ainda depois da exibição (pobre e nervosa) e do resultado (um empate, com os turcos a enviarem duas bolas aos ferros) do Porto na noite de ontem.


O Jorge Jesus do ano passado teria estado a empurrar a equipa para o quinto e para o sexto golos. Depois do 4-0 exigiria aos jogadores ainda mais concentração, mais entrega e mais velocidade. Não teria feito as substituições que fez, trocando as principais figuras da equipa – à excepção do inesgotável Fábio Coentrão – por outras que, podendo até ser boas segundas linhas, estão hoje transformados em jogadores sem confiança e sem motivação para cumprir os mínimos de um rendimento aceitável. Não teria permitido a ressureição de fantasmas...


No próximo domingo, dia do primeiro aniversário do futebolês, e quando passam precisamente 3 meses sobre o tal jogo da supertaça, disputa-se o clássico que pode começar a desenhar o campeão desta época. Apesar de tudo apenas um jogo de futebol, que tem de ser sempre uma festa. Que as pedras sejam substituídas por flores, como por aí ouvi dizer!


 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Branquinho pouco claro

Por Eduardo Louro


   


Quando na semana passada o país andava entretido com umas brincadeiras a que chamavam negociação do orçamento, e ainda antes dos puxões de orelhas dados àqueles dois meninos em Bruxelas (ou será que foram postos à janela com orelhas de burro?), um deputado da nação anunciava a despedida do parlamento.


Chama-se Agostinho Branquinho, um nome cheio de “inhos”, e é deputado do PSD!


Desiludido com a política, pensarão uns: afinal ninguém é de ferro, ainda há muita gente que passa por lá e que não tem estômago para aquilo! Regressou à vidinha dele, fez muito bem – pensarão outros.


Não. Nada disso. Foi contratado para a On Going, o grupo que o deputado, ainda há poucos meses – por altura do inquérito parlamentar ao chamado negócio PT/TVI, cuja comissão integrava – avaliava depreciativamente, criticando causticamente a linha editorial dos seus títulos. O mesmo grupo que, depois de alinhar ao lado da PT na estratégia de compra da TVI, com o intuito público de anular o papel casal Moniz, acaba por contratar o hiper indemnizado José Eduardo Moniz, ainda à porta da Media Capital. Isto é, para além de todos os eventuais pouco claros contornos, contrata o Senhor Televisão (sim, hoje já só há um, o outro foi exterminado) … sem ter televisão! Para que servirá um Senhor Televisão sem televisão?


Perguntarão: e o que é que o deputado Branquinho tem a ver com isto?


Se calhar pouco. Além de ser figura do PSD e de, ao que consta, ser um fervoroso adepto da privatização da RTP. Nada de mal em ser figura do PSD e nada de mal em defender a privatização da televisão pública. Eu também a defendo: é cara de mais para o serviço que presta – que em nada se distingue do das estações privadas – é alvo permanente de instrumentalização e agência de emprego e de influências das clientelas partidárias.


Mas se repararmos que o país está entregue a grupos de interesses acomodados nos poderes que a política foi criando, se repararmos na apetência da On Going por essa acomodação, como se viu pela proximidade ao actual governo, e ainda no intenso cheiro a poder que grassa lá pela S. Caetano, e lhe juntarmos a forte probabilidade de privatização da RTP, começa a perceber-se o que este é um Branquinho pouco claro. Um branquinho mais escurinho que clarinho!


Prefiro por isso o tintinho!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Aprovado

Por Eduardo Louro


   



Pronto. O OE para 2011 está aprovado! Como tinha de ser?


Sim, como tinha de ser … por imposição externa. Mas sem o mínimo de dignidade, sem o mínimo sentido de responsabilidade e sem tranquilizar ninguém. Antes pelo contrário!


Resultado de uma enormidade esquizofrénica, de uma negociação de costas viradas para a seriedade, sem convicção e entre pessoas que desconfiavam umas das outras, a aprovação deste orçamento, que deixou o país em suspenso durante tanto tempo, não deixa ninguém tranquilo. Poderá deixar alguém aliviado, momentaneamente aliviado. Mas só isso.


À vergonha das negociações da semana passada sucedeu-se a vergonha da discussão de ontem e hoje na AR.


Como é que é possível que duas partes que acabam de negociar um acordo estejam em total desacordo sobre o que acordaram?


O mote havia sido dado com a rábula da assinatura do acordo. E com a fotografia! O PSD não queria por nada ficar naquela fotografia… O governo, já que fora, também ele, obrigado àquele acordo, queria mesmo a fotografia. Com o PSD ali ao lado, bem à vista!


Claro que, sem fotografia mas com muitas câmaras de filmar, o plenário da AR transformou-se numa enorme arena onde valeu tudo. Tudo mesmo e, para que não faltasse nada, até o discurso de encerramento ficaria a cargo, imagine-se, do trauliteiro-mor do governo: Santos Silva.


Por que é que é o Ministro da Defesa a encerrar o debate do OE? Bom, aquilo era mais guerra que orçamento, talvez esteja aí a explicação …


Mas pronto, chegou ao fim mais uma farsa das muitas com que nos vamos entretendo. É evidente que o orçamento não é para cumprir. Qualquer pessoa percebe que vem aí uma recessão que põe em causa a receita fiscal. E qualquer pessoa percebe que, com um governo minoritário, fazer o maior corte de sempre na despesa, é uma miragem. É um corte bem superior ao de 1984, na altura com um governo do bloco central a representar mais de 2/3 do eleitorado e ainda com a protecção dos guarda-costas do FMI!


É mais uma farsa. Que não acalma mercados nenhuns (como é que poderiam acalmar com o que se passava na AR?) mas que deixa aliviados Durão Barroso e, em especial, o primeiro-ministro José Sócrates que, com um ar de tenebrosa irresponsabilidade, nos fazia lembrar aqueles tipos que só vivem de expedientes e que, no fim de mais uma aldrabice, ostentam aquele aspecto travesso de quem acha que “desta já me safei, vamos a outra…”!

Há 10 anos

  Ouvidas as declarações das delegações partidárias que ontem se deslocaram a Belém, ficamos a perceber que esta ronda para que Marcelo conv...