![]()
Debaixo de fogo, Roger Schemidt mudou. O jogo desta noite, em Arouca, na estreia da equipa na Taça da Liga desta época, era mais que um jogo praticamente decisivo nas contas do apuramento para a "final four" de Leiria, lá para o início do ano. Era um jogo que o Benfica teria forçosamente de ganhar para interromper estes dois últimos desaires consecutivos.
Era isso que era exigido - a inversão dos resultados. Já que - sabe-se -a inversão da qualidade exibicional não é coisa tão imediata. Não basta esfregar a lâmpada para que o génio se solte. É preciso, primeiro, ganhar. Jogos e confiança!
Por isso, Schemidt mudou. Começou a mudar não comparecendo na conferência de imprensa de ante-visão do jogo. Fez bem. Fez bem porque o discurso não lhe está a sair bem. E porque, sabia que não seria da ante-visão do jogo de Arouca que o quereriam ouvir. Dar-lhe-iam nós cegos, uns atrás dos outros. E ele não tem rins para tanto.
Depois, para o jogo, mudou tudo. Mudou jogadores, mudou a táctica, e mudou até os jogadores que não mudou. No onze inicial entraram Morato, Gonçalo Guedes e Di Maria. Na táctica, mudou para três centrais, num 3x4x3. Com o trio da frente móvel - Di Maria, Rafa e Guedes - sem qualquer ponta de lança. E nos jogadores que não mudou, à excepção natural de Trubin, baralhou-os todos: Aursenes regressou à função que lhe é natural (mas pronto, lá teve que acabar a lateral direito, depois da entrada de Bernat), na ala esquerda. Donde saiu João Mário, para jogar a médio centro, ao lado de Florentino. Donde saiu João Neves, para jogar na ala direita.
As coisas acabaram por correr como tinham de correr mas, francamente, não é experiência para repetir. Não que a opção dos três centrais não possa ser uma ideia a desenvolver. Tem é que ser bem trabalhada, porque o que se viu foi António Silva (parabéns pelos 20 aninhos) um bocado atrapalhado com aquilo. Tanto que até assistiu um tal Trezza para a única oportunidade de golo do Arouca na primeira parte. Há muitos treinadores que não prescindem dela. E outros que a ela recorrem em função das circunstâncias. Não se perceberam bem as de Schemidt, hoje.
A aposta mais bem sucedida foi João Mário. Não tem grande voltagem, como sabemos, mas tem visão de jogo e qualidade de passe para a função. Só que, com isso, perdeu precisamente a energia que João Neves dá àquela posição. O miúdo não sabe jogar mal, e dá sempre tudo. E sabe-se como é imenso o "tudo" dele. Mas isso não faz dele um ala. Não é justo. Nem ele merece.
A opção por um trio de ataque móvel cabe também nas ideias de muitos treinadores. Mais pelas circunstâncias que por opção estrutural. E mais ainda quando a circunstância é ... não haver ponta de lança. Não era hoje o caso. A circunstância é que Cabral e Tengstedt não dão garantias ao treinador.
A ideia já tinha sido posta em prática na primeira parte do jogo da Supertaça, com o Porto. Não tinha resultado como experiência, mas acabou bem ... depois de abandonada. Hoje voltou a acabar bem, e voltou a ser abandonada, mesmo que em circunstâncias completamente diferentes.
Da outra vez tinha sido abandonada para mudar o jogo. E para o ganhar. Hoje foi abandonada quando a equipa estava por cima do jogo, e já ganhava. Curiosamente aconteceu quando o Benfica acabava de marcar o segundo golo. Que afinal não foi, porque o VAR aproveitou um fora de jogo a de Di Maria, que ninguém viu, para anular o golo de João Mário. Ninguém viu mesmo e, meia hora depois, lá mostraram umas linhas tão manhosas que o fora de jogo até já sobrava para Guedes...
Com aquele trio móvel na frente o Benfica, apesar da baralhação que se percebia, teve muita bola, e criou bastantes situações de golo. A primeira logo no primeiro minuto, na classe de Di Maria, com a bola a sair a rasar o ângulo superior esquerdo da baliza do Arouca. E mais duas (Guedes e Aursenes) ainda dentro dos primeiros 10 minutos. Mas a verdade é que, à baliza, durante todo esse tempo só no livre do mestre Di Maria que abriu o marcador, a pouco mais de meio da primeira parte. E no tal golo anulado ao João Mário, no preciso momento (55 minutos) em que o trio foi desfeito, com as entradas de Cabral, Tengstedt e Tiago Gouveia.
O golo anulado deu alma ao Arouca. É o costume: com o resultado em aberto o adversário acredita. E o Arouca acreditou um bocadinho. O suficiente para num momento se adiantar no campo, e deixar o Arthur Cabral partir de trás da linha de meio campo, correr isolado até à baliza para, já acossado por dois adversários que entretanto conseguiram chegar, picar a bola sobre o guarda-redes a selar finalmente, 20 minutos depois, o segundo golo. Como estava ainda no seu meio campo o senhor do VAR teve que se conformar.
Este sim, foi um golo à Cabral. Disto já tínhamos visto na Fiorentina. Mas disto há pouco nos jogos que o Benfica tem para disputar.
O que tem que haver muito nos jogos que o Benfica tem para disputar é Tiago Gouveia. Se Schemidt não o sabia não pode, a partir de hoje, fingir que não sabe. Tem tudo o que o Benfica precisa neste momento. A começar no benfiquismo. E a acabar na velocidade, na capacidade técnica e na resistência física!
Tiago Gouveia é a vitamina que falta ao Benfica. Como há seis meses foi João Neves!








/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/z/A/lN8OriT8GOzOEvyWtvMQ/104589081-editors-note-graphic-content-people-standing-on-a-rooftop-watch-as-a-ball-of-fire-and-sm.jpg)