sexta-feira, 29 de maio de 2020

Passos atrás?

COVID-19: o plano de desconfinamento para Portugal – Jornal ...


Chegados à terceira fase de desconfinamento as coisas parecem complicar-se. Os números dos novos casos de infecção na grande Lisboa activam sinais de alarme e sugerem passos atrás. Os números, mas também as circunstâncias da propagação do vírus. 


A taxa de transmissão da doença nas zonas suburbanas da grande Lisboa está fora de qualquer padrão nacional e o vírus está, final e claramente, a revelar a dinâmica de desigualdade social, de miséria e de pobreza que se sabia que arrastaria consigo. Situações de pobreza, de habitação degradada e de precariedade social aceleraram a taxa mas também o paradigma da transmissão da doença: aos idosos, em lares, do Norte há algumas semanas, sucedem-se agora, na grande Lisboa, adultos jovens em contexto laboral, como no concelho da Azambuja, ou de bairros degradados, como nos de Loures ou do Seixal.


Não são apenas realidades sócio-sanitárias muito diferentes, são realidades com riscos muito distintos. E esta é bem mais perigosa!  


As regras que o governo se prepara para anunciar para esta terceira fase de desconfinamento terão naturalmente isso em consideração. Poderão não dar alguns passos atrás, mas anularão certamente outros passos em frente. Sobre o aprofundamento das desigualdades sociais que se desenham a traço grosso é que não poderão fazer muito. Talvez os 26 mil milhões de euros que se espera que aí venham possam fazer alguma coisa...


Não se esqueçam!

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Lidar com a bazuca

Após proposta de Merkel e Macron, Comissão Europeia anuncia fundo ...


 


A Comissão Europeia definiu e apresentou a bazuca, ainda com mais poder de fogo do que a revolucionária proposta franco-alemã, de há pouco mais que uma semana.


É uma bazuca de 750 mil milhões de euros, dois terços - 500 MM - de financiamento a fundo perdido, e o restante de financiamento reembolsável. Um camião de dinheiro, mas com menos rodas do que Centeno projectara, que falava em doze. Só tem nove. 


Não é um camião com doze rodas mas, nas contas da resposta à pandemia, está colado ao de  540 mil milhões de ajuda imediata já aprovada, ambos na coluna de três camiões de doze rodas que integra ainda o camião do novo quadro comunitário 2021-2027, ou Quadro Financeiro Plurianual, como agora se chama, de 1.100 milhões de euros. 


Independentemente do número de zeros, e da forma de os olharmos, todos juntos ou compartimentados entre quadro comunitário e fundo de recuperação, o que importa é que a União Europeia percebeu que este era o momento decisivo, o ponto onde não poderia falhar. E está a responder com imprevisível convicção! 


Esta proposta da Comissão Europeia seguirá agora para o Conselho Europeu (onde terá de enfrentar o bando dos quatro, ou os quatro frugais - como carinhosamente lhe chamam, como poderiam chamar os quatro "tios patinhas" - a realizar em apenas em Julho, três meses depois de lá terem nascido os seus pressupostos. E depois para aprovação no Parlamento Europeu, caso os ditos quatro não furem as rodas do camião.


Destes 750 MM caberá a Portugal cerca de 26 MM de euros, 15 MM a fundo perdido e 11 MM de empréstimo. É curto, não dá para festa nenhuma. Basta lembrar que na intervenção da troika o pacote foi de 72 MM. Ou que o impacto financeiro das medidas de combate à pandemia no Orçamento de Estado para este ano está avaliado em 13 MM de euros.


Por isso vai ser duro, independentemente da semântica da austeridade. E vai ser necessário que nem um cêntimo seja desperdiçado ou mal gasto. Mas essa é, como se sabe, sempre a nossa maior dificuldade!


 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Destinos e delírios

Twitter classifica publicações de Trump como 'potencialmente ...


 


Em plena guerra das máscaras, Trump foi apanhado por um dos seus mais usados instrumentos de guerra, o Twitter. 


Na sua delirante visão da covid-19, Trump encontrou nas máscaras novos moinhos de vento alinhados contra a sua reeleição e, no país mais atingido pelo vírus, já à beira dos 100 mil mortos, transformou o uso de máscara numa questão político-ideológica. Em mais um factor de divisão dos americanos, que agora também se dividem entre os que usam e os que não usam máscara. 


Andava Trump entretido de espada em riste contra as máscaras quando o Twitter entendeu reforçar as suas regras para combater a desinformação e as fake news, criando sinalizações que identificam os conteúdos  como "potencialmente enganosos" e associando-lhe links para informações sobre o tema. Onde, como não poderia deixar de ser, Trump foi apanhado logo à primeira.


O governador da Califórnia, o democrata Gavin Newsom, decidiu enviar boletins de voto por correspondência a todos os eleitores registados no Estado, como medida excepcional para a votação no contexto da pandemia. Porque isso era dar importância à pandemia que continua empenhado em desvalorizar, Trump correu a postar contra o voto por correspondência, com supostas consequências fraudulentas. 


O Twitter não deixou passar sem sinalizar com a mensagem "aceda aqui a todas as informações sobre a votação por correspondência". Foi o suficiente para Trump acusar a rede social de "interferência directa nas eleições", e de  "sufocar completamente a liberdade de expressão", o que ele nunca permitiria.


É esse o seu ponto de chegada. A um ponto em que nunca, nada nem ninguém o impeça de mentir, como lhe apetecer, à medida dos seus interesses ou simplesmente à dos seus delírios... Esperemos que fique pelo caminho, e nunca lá chegue!


 

terça-feira, 26 de maio de 2020

OMS - confusão em vez de doutrina

OMS declara pandemia de coronavírus | Coronavírus | G1


 


Para além de deixar o mundo de rastos, à mercê de uma depressão económica devastadora, o coronavírus acabou por ferir de morte a Organização Mundial de Saúde (OMS). Provavelmente não haverá já ventilador que resgate a OMS à covid 19.


A organização sediada em Genebra sucumbiu ao vírus, deixa uma péssima imagem e, pior, acaba por legitimar os ataques de Trump quando, em pânico, com o país a afundar-se na pandemia e a bater todos os recordes mundiais, para salvar a reeleição antes tida por certa desatou a disparar para todos os lados, entre eles a própria OMS.


Entrou mal, desvalorizando o vírus, especialmente o seu enorme potencial de propagação, e a própria declaração de pandemia foi já tardia. Ontem, e numa altura crucial em que por todo o mundo se vai abrindo as portas à vida, mas também ao vírus, acabou a lançar a confusão geral, garantindo que o vírus ... já era, e que uma segunda vaga era altamente improvável... Mas também que a doença pode disparar em qualquer altura e que, à mínima oportunidade, este vírus desencadeará novos surtos. 


Tudo isto disseram, por esta ordem e praticamente em simultâneo, a directora do Departamento de Saúde Pública da OMS, a médica espanhola Maria Neira, em funções há 15 anos. O director executivo do Programa de Emergências em Saúde e líder do  programa de Emergências Sanitárias da OMS, o médico irlandês Michael Ryan. E Maria Van Kerkhove, a líder técnica de resposta à Covid-19, epidemiologista americana.especialista em patógenos de alta ameaça.


Ora, OMS tem no mundo um papel demasiado importante a cumprir, e não se pode desacreditar desta maneira. É que nos lembramos do tempo em que as declarações da OMS faziam doutrina... 


 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Plano de Estabilização Económico e Social

Costa quer “nervos de aço” no PS: “Não há impossíveis”, mas é ...


 


António Costa inicia hoje uma nova caminhada pelas rotas do consenso que he garantam, para esta nova fase, uma tranquilidade idêntica à do primeiro embate com a pandemia.


Depois do "pára tudo e fiquem em casa", com os lay-off simplificados, os subsídios, os financiamentos e os congelamentos de algumas obrigações, nesta altura a ordem é para sair, deixar o medo em casa fechado na gaveta donde se tirou a máscara, passear, trabalhar mas, acima de tudo, consumir, até que a União Europeia se descosa, seja lá de que forma for.


O governo chama Plano de Estabilização Económico e Social à cartilha para esta fase, neste entretanto. E é com isso que, no fim da jornada desta semana, conta para estabelecer consensos com partidos políticos e parceiros sociais, e prolongar por mais uns dias o estado de graça pandémico, até que chegue ajuda. É uma espécie de primeiros-socorros, essencialmente uns pensos mais ou menos improvisados para estancar o sangue até chegar apoio médico.


Vamos ver como corre. E se os pensos chegam...


 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Notícias

British American Tobacco usa folhas de tabaco na fabricação de uma ...


 


Na sequência deste meu texto recebi da British American Tabacco (BAT) uma nota informativa em que confirma que "no passado mês de abril ... anunciou que a sua filial de biotecnologia Kentucky BioProcessing (KBP) estava a desenvolver uma possível vacina para a COVID-19". Que "após a conclusão dos testes pré-clínicos, a potencial vacina demonstrou produzir uma resposta imunológica positiva". Que "já disponibilizou a documentação preliminar sobre o novo medicamento à Food and Drug Administration (FDA)", e que "está pronta para testes clínicos em humanos", já a partir de Junho, se para tal obtiver autorização das entidades supervisoras.


Informou ainda que está disponível "para investir em equipamentos adicionais para aumentar a capacidade de produção da vacina".


 


 

Desconfinamento político

Rio sobre TGV: "O Dr. Costa ouviu a notícia, acreditou nela. Já ...


 


O desconfinamento chegou também à política. O André Ventura desconfinou do CM - jornal e TV - onde tão confortavelmente estava há anos confinado, tranquilamente a tecer a teia que teceu.


Há quem diga que esse chega para lá tem alguma coisa a ver com a ajuda do Estado aos media, a que o também desconfinado Rui Rio se atirou como gato a bofes, e com a fatia - a terceira maior do bolo, logo atrás da que calhou à Media Capital e à Impresa, a maior de todas - que chegou à Cofina, agora entretida em dar cabo do tipo dos cruzeiros do Douro, que se limitou a correr aos saldos que o Paulo Fernandes obrigou a Media Capital a abrir. Quem sabe?


Rui Rio, que em confinamento jurava, todo ele fervor patriótico, apoio ao governo para o que desse e viesse, saltou fora. E de repente, de político altamente responsável, dos interesses do país acima de tudo, concentrado no apoio ao governo no combate ao inimigo invasor, passa a vilão. A simples populista, a quem tudo serve para se abater sobre as instituições do país, algumas delas, como a Justiça e a Comunicação Social, velhos - e sempre suspeitos - ódios de estimação pessoal.


Poderá parecer que estes extremos estão demasiado esticados. Mas é apenas um zoom para melhorar a nitidez da imagem.


É certo que as coisas não estão nada fáceis para Rui Rio. As sondagens não ajudam nada, e até as presidenciais, donde nada de mal haveria a esperar, provam que, para que nos piores momentos as coisas corram mal basta que possam correr mal, como, para fazer lei, dizia o engenheiro Murphy, lá para meados do século passado. Mas, aproveitar o desconfinamento para logo começar a ziguezaguear por aí fora, não as melhora. E cada vez mais se sujeita a ser preso por ter e por não ter cão!


 


 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Ilusão de regresso

Tem havido "uma sintonia muito grande" entre Presidente, Governo e ...


 


Todos percebemos da urgência em regressar à normalidade, mesmo que nos digam será sempre uma nova normalidade, e não a normalidade normal.


O trambolhão de 2,5% da economia no primeiro trimestre, que contou com apenas 15 dias de  confinamento, metade de um mês e apenas um sexto do trimestre e um vinte e cinco avos do ano, e os 22% de crescimento do desemprego só no passado mês de Abril, são bem mais assustadores do que os mais pessimistas  poderiam fazer crer. Para minimizar a catastrófica dinâmica natural destes números - sabendo que três meses já ninguém nos tira, é só  fazer contas - é mesmo indispensável criar um espectro de normalidade.


Os nossos dirigentes políticos percebem isso, e temos que reconhecer que estão a fazer tudo para que as coisas se pareçam o mais possível com a normalidade. Almoçar no restaurante, com autênticas conferências de imprensa cheias de coisa nenhuma à porta de entrada, é uma das suas mais mediáticas iniciativas. 


Ontem viu-se o Presidente Marcelo despreocupadamente a conversar cá fora com os jornalistas, mas sentado à mesa, lá dentro, com máscara e luvas, com o seu chefe da casa civil com viseira, e percebemos que não consegue passar por aquilo qualquer mensagem que não seja a de criar uma nova normalidade. 


Criar uma nova normalidade não tem nada a ver com o regresso à normalidade. Não passa de ilusão de regresso. E as ilusões não dão normalmente bons resultados! 


 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

"Killer instinct"

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Quando há uma semana António Costa, na já célebre visita de ambos à Auto-Europa, lançou a recandidatura de Marcelo declarando-lhe o apoio e a certeza da reeleição, a maior parte dos observadores da coisa política fixou-se na oportunidade e na mestria política do primeiro-ministro para desviar as atenções do conflito aberto com Mário Centeno.


Não foi preciso sequer uma semana para percebermos que foi bem mais que isso. E que terá até sido este dispensável conflito a constituir-se na oportunidade certa para Costa fazer o que tinha de ser feito. E que se calhar não era fácil de fazer.


Como qualquer mortal entende o PS não tinha qualquer candidato que pudesse verdadeiramente disputar as eleições a Marcelo. Em rigor não tem o PS como não tem mais ninguém. Se na História desta terceira república nunca apareceu ninguém a impedir uma reeleição, não será agora, com um presidente que bate recordes de popularidade e que tem como aposta estabelecer um novo máximo eleitoral, e bater os 70,35% de votos de Mário Soares, em 1991, que tal venha a acontecer.


Marcelo vai ser reeleito, e seria sempre reeleito, fossem quais fossem os adversários. Com um governo minoritário, com a geringonça arrumada num canto esquecido, com um historial de bom relacionamento institucional, e à beira de uma das maiores - se não mesmo a maior - crises económicas desta República, António Costa estava obrigado a colar-se à recandidatura de Marcelo.


Não tinha simplesmente alternativa e, nessas circunstâncias, o pior é mostrá-lo. Quem, em qualquer circunstância, mostrar que não tem alternativa perde todo o espaço. Ao tomar a iniciativa, no momento em que o fez, ainda antes do próprio anunciar a recandidatura, António Costa ganhou o que de outra forma perderia. E em política, como em tudo na vida, para uns ganharem outros terão de perder.


Não poderia ter sido mais oportuno. É claro que não foi elegante com o seu partido, mas é assim com os partido no governo. E a contestação passará depressa e sem mossas. Até porque junta pessoas que não dá para misturar, deixando que o oportunismo faça o seu próprio trabalho... 


O PSD deixou-se mais uma vez apanhar e cair no ridículo de andar à procura de um adversário para o seu candidato natural. Ridículo que Alberto João Jardim caricatura na capa de um jornal de hoje...


É certo que as coisas não correram muito bem quando, em 1991, Cavaco fez com Mário Soares algo que, podendo parecer idêntico, era no entanto substancialmente diferente. E é certo que os segundos mandatos são sempre mais rasgadinos, quando não de confronto aberto. Mas, agora, António Costa fez apenas o que tinha que fazer quem sabe o que anda a fazer.


Há quem lhe chame killer instinct


 

terça-feira, 19 de maio de 2020

UE - agora é que é!

Merkel e Macron querem fundo de 500 bi de euros contra crise


 


Tudo aponta para que desta é que seja. Que desta vez a União Europeia faça prova de vida, e se relance como projecto de futuro. Ou, pelo menos, para já com futuro.


O plano de financiamento à economia europeia de 500 mil  milhões de euros, que ontem Macron e Merkel apresentaram, confirma isso mesmo; que desta vez é que é. Porque, em cima de todas as esperanças que têm vindo a ser semeadas pelo BCE, e especialmente pela nova líder da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen,  sai agora directamente das duas maiores potências da União.


Não sei se é o dinheiro suficiente, mesmo que seja muito. Mas o compromisso da Alemanha com um financiamento desta ordem, obtido por mutualização de dívida e a distribuir a fundo perdido pelas economias mais profundamente atingidas pela pandemia, é verdadeiramente revolucionário. É a própria revolução: "de cada um conforme as suas possibilidades, a cada um conforme as suas necessidades"!


Macron e Merkel não falaram de mutualização, nem de fundo perdido. É certo que não, sabem que essas são ainda palavras proibidas. São palavras que chocam os suspeitos do costume, e que requerem por isso certos cuidados. Mas as coisas são o que são, independentemente das palavras utilizadas para as descrever.


Tal como a Alemanha é o que é. E, sem ela, os suspeitos do costume não são o que são!


 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Era uma vez na América...

Coronavírus: Protesto contra quarentena nos EUA tem carreata ...


 


A The Atlantic, a velha revista de Boston, que já vem do início da segunda metade século XIX, divulgava por estes dias uma sondagem que revela que cerca de um terço (31%) dos americanos estão convictos de que o vírus foi criado pela China como poderosa arma química. Os mesmos - muito provavelmente mesmo os mesmos -   mas a mesma percentagem dos que acreditam que o SARS-CoV-2 é muito menos perigoso do que se diz, e que o seu grau de ameaça está a ser deliberadamente exagerado para prejudicar a reeleição de Donald Trump.


Há dois meses, logo na fase inicial deste susto que o mundo está a viver, procurando coisas positivas que as portas abertas da pandemia poderiam deixar à vista, escrevi aqui que "bastaram os primeiros dias desta crise" para ver a ignorância e a incompetência deTrump e Bolsonaro. Para que "toda a gente pode facilmente comparar tudo o que estes dois fizeram e disseram deste vírus... o que têm vindo a fazer e a dizer do ambiente, tão só a maior emergência da humanidade. E concluir que não passam de dois idiotas".


É verdade que muita gente percebeu a sua verdadeira incompetência política, e a dimensão da mentira a que dão corpo, e arrependeu-se de lhes ter dado o voto. Mas isso não os enfraqueceu. Pelo contrário.


Os meios e as técnicas que os levaram ao poder não são - não foram -  meros instrumentos de conquista de poder. São armas poderosíssimas de que não abrem mão e que, em tempos como estes, de limitação e condicionamento das liberdades individuais e de devastação económica e social, a partir do poder, se tornam mais poderosas ainda. Teorias da conspiração, manipulação da informação e propagação da mentira (fake news) circulam hoje pelo mundo sem barreiras da internet à velocidade da luz. E com elas, à mesma velocidade e da mesmíssima forma, poderosos meios de recrutamento e mobilização de adeptos fanáticos transformados em exércitos dispostos a quebrar todas as convenções e a desafiar todas as instituições. E com armas nas mãos.


Não. Trump não se limita a mentir, a manipular, ou a condicionar. Acossado, o que Trump está a criar na América é uma rede de terrorismo interno que, do ponto de vista de concepção política, não se afasta muito das redes do terrorismo internacional.


 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Deslealdades*

Guia de Meta - Bruxo Deslealdade (Deck do Modo Livre de ...


 


À entrada para a segunda fase do desconfinamento, com a perspectiva da abertura condicionada de creches, escolas, restaurantes e cultos religiosos, já com vista para centros comerciais e para o futebol, mas ainda a ajustar as contas para a abertura da época balnear, e em particular para o acesso às praias, o país ouviu o estrondo abafado do rebentamento de uma crise política.


Era tudo o que não precisávamos neste momento. Combalidos, desconfiados e cheios de incertezas, tudo o que não precisávamos era mesmo de mais incerteza e de mais desconfiança, sob a forma de crise política.


Fica-se com a ideia que com tanta acrimónia da oposição, e com tanta cumplicidade entre o chefe do governo e o Presidente que até o anúncio da recandidatura foi feito, e o tabu desfeito, pelos dois em conjunto, o governo sentiu alguma falta de adrenalina e resolveu dinamitar a sua própria estabilidade.


Mesmo que há muito tenhamos dado conta da guerra surda entre o primeiro-ministro e o ministro das finanças, em grande parte sustentada em distintas, e por vezes até antagónicas, concepções políticas, temos alguma dificuldade em perceber como de repente descambou, e rebentou com estrondo na transferência de mais 850 milhões de euros para o buraco sem fundo em que se tornou o Novo Banco.


Tanta mais dificuldade quanto mais nos pareça que tudo foi propositado. Que a falha de informação, que serve de desculpa a Mário Centeno, não foi uma simples e acidental falha. Tal como a confusão de auditorias, que no fim serviu a António Costa para o desculpar, não foi uma simples e acidental confusão.


Menos dificuldade teremos, no entanto, em perceber a intervenção do Presidente da República no conflito. Que, em vez de apaziguador, como se esperaria, tomou ele próprio a iniciativa de accionar o detonador, ao acusar o ministro das finanças de desleal ao primeiro-ministro.        


Se nos lembramos que, logo no início desta pandemia, Mário Centeno, chamado a Belém pelo Presidente especificamente para o efeito, lhe terá dado garantias de se manter no posto durante este período crítico, percebemos qual a deslealdade que realmente doeu a Marcelo.


E deslealdade é coisa que Marcelo até pode esquecer. Mas não perdoa!


* A minha crónica de hoje na Cister FM

Mútuo acordo, prazo e indemnização

Mário Centeno fica a prazo no Governo


 


Mantendo o registo na metáfora do futebol pode dizer-se que António Costa e Mário Centeno acordaram as condições da rescisão e, como sucede quando os presidentes reafirmam a confiança nos treinadores, Centeno foi ontem despedido. A prazo. Sim, não há só contratos a prazo, também há despedimentos a prazo.


Não sendo naturalmente conhecidas as condições de rescisão acordadas, há no entanto uma certeza. É que o orçamento suplementar, e o fim de dois mandatos - os do governador do Banco de Portugal e do presidente do eurogrupo - têm encontro marcado na mesma estação do calendário, algures ali por volta de Junho -Julho. 


E esta certeza dá como certo o prazo. Com o comunicado divulgado, esta certeza dá como certa a indemnização: o lugar de Carlos Costa no Banco de Portugal. Que não é menos que absolutamente lamentável!

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Jogo furado

Costa e Centeno reunidos em São Bento - JN


 


Depois do ataque de Marcelo, o "Cristiano Ronaldo" saiu disparado em direcção à baliza de Costa. Foi apanhado em fora de jogo, e tudo indica que  esteja neste momento a acertar as condições da rescisão. Parece inevitável!


E ainda há tão pouco tempo o Presidente dava "Cristiano Ronaldo" por indispensável na equipa...

Da série Novo Banco

Centeno aprovou nova injecção no Novo Banco em Abril


 


A transferência dos 850 milhões de euros para o Novo Banco efectuada por Mário Centeno, quando António Costa garantia na Parlamento que nem mais um  cêntimo seguiria sem que fossem conhecidos os resultados da auditoria, não é um mero problema de comunicação, como afirmaria o ministro das finanças. Nem um simples lapso que se resolva com um pedido de desculpas, como fez o primeiro-ministro.


Não será também apenas mais um episódio de uma nova temporada da série de clássicos desaguisados entre primeiro-ministro e ministro das finanças em governos do Partido Socialista. Nem uma ardilosa montagem de Centeno para romper com António Costa, depois da deselegante despromoção de que foi alvo neste segundo governo, e zarpar. Para o Banco de Portugal, o que seria de todo inadmissível, ou para outro lado qualquer compatível com o estatuto que conquistou.


Era público - tem sido objecto de larga discussão e consta até do Orçamento de Estado - que este montante era mesmo para entregar a esse poço sem fundo do Novo Banco, velho em tudo. E por isso tinha evidentemente de ser do conhecimento de António Costa. Não era público, ao contrário do que os analistas e comentadores profissionais vão dizendo, que essa entrega fosse incondicional, isto é, que não dependesse de qualquer auditoria, fosse ela qual fosse - já que são tantas, e todas sem resultados públicos. Não era público pelas simples razão que, sendo um condição contratual, o contrato da "venda" ao Lone Star não o é. Ninguém conhece esse contrato, nunca foi divulgado, vá lá saber-se por quê.


António Costa, tem no entanto que ser uma das pessoas que o conhece. E deverá ter lá a sua assinatura. Pelo que não é aceitável a trapalhada em que se meteu. Que tem tudo para parecer propositada.


E no entanto houve falha de comunicação. Tratando-se do que se tratava, de uma operação politicamente altamente sensível, não é aceitável que nem o "Cristiano Ronaldo", nem o Mourinho, das Finanças, tivessem informado António Costa da saída do dinheiro. Menos aceitável é ainda que, tendo o primeiro-ministro, no mesmo Parlamento, já anteriormente referido a tal expressão de "nem mais um cêntimo...", a equipa das finanças não lhe tivesse de imediato comunicado que não poderia dizer tal coisa. Que tem também tudo para parecer propositada!


  Mas se calhar sou eu que ando ver a séries de mais... 


No fim, fica a ideia que nem tudo tem de ser sempre assim, sempre sem alternativa, como Mário Centeno defende. E a ligeira sensação que, para o ministro das finanças, nestas coisas do Novo Banco, não é preciso mais que assinar de cruz. 


É que soube-se, por exemplo, que a administração do Novo Banco, que está impedido de distribuir prémios até 2021, tratou de reservar, desde já para si, 2 milhões de euros nas contas de 2019 para que lhe possa deitar a mão em 2022. E que o Fundo de Resolução, considerando isso moralmente inaceitável, descontou esse valor no montante que tinha a transferir para o Banco, coisa que o Ministério das Finanças nem se lembrou de fazer ao transferir estes 850 milhões para o Novo Banco, via Fundo de Resolução.


São 2 milhões de euros. Não é muito. Mas neste contexto é muito mais que muito!


 


 


 

terça-feira, 12 de maio de 2020

Diário do regresso à vida

Covid-19. Itália está preparada para uma eventual segunda vaga da ...


 


Passou já a primeira semana da nossa experiência de desconfinamento. O balanço dessas experiências está ainda por fazer, até porque a agenda mediática está especialmente ocupada com o que aí vem. E nada preocupada com o que já veio, como correram as coisas...


Já se sabe como vai regressar o futebol. Ou talvez não porque, olhando com atenção para o que se ouve e se lê, percebem-se uns ziguezagues que trazem água no bico. Como vão regressar os restaurantes, que estão a encontrar nas esplanadas uma escapatória de viabilidade. Como vão reabrir as creches, com as mais contra-natura das regras: isolar crianças e impedi-las de partilhar. E até como vai ser a abertura das visitas a idosos nos lares, mesmo que não se perceba como vai ser. 


Já se sabe tudo isso mas, no fim, percebemos que não se sabe nada disso. Como não se sabe nada do acesso às praias, que estava para ser divulgado há uma semana e entretanto ficou congelado. Porventura pela temperatura da água do mar, ainda bem fria, imagino.


Sabe-se que é grande a ânsia do regresso. De todos os regressos, mesmo dos que não acontecerão mais. E que a única certeza que temos é que tudo é incerto. 


Cientistas dizem que não está fácil encontrar forma de derrotar o vírus. E que a vacina que as cabeças mais tolas deste mundo anunciavam eminente, pode até nem surgir. Boris Johnson - parece outro, o homem, e não será por entretanto ter sido pai, que a isso já ele estava habituado - alerta até para que possa nunca vir a haver vacina. 


Ele, que estará agora bem informado. Também quer que os britânicos regressem à rua, mesmo que não tenha a certeza que quer. Foi isso que explicou ontem no Parlamento, para que ninguém percebesse...


“Isto não acaba até acabar”, alertou o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, onde tudo tinha corrido tão bem até ter já começado a correr mal. A China volta a não dizer nada, mesmo que baixinho se vá ouvindo qualquer coisa parecida com segunda vaga. Em mandarim, claro!


 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Informar

Valentina terá sido asfixiada pelo pai - JN


 


"Depois de três dias de buscas foi encontrado o corpo da menina dada por desaparecida na Atouguia da Baleia". Não sei quantas notícias vi começadas exactamente assim. Mas foram muitas.


Não foi assim, tanto quanto percebi. Terá antes sido assim: ao quarto dia, depois de três dias de buscas e provavelmente outros tantos de interrogatórios, o pai da menina revelou o local onde escondera o corpo.


Não é, evidentemente, a forma como o corpo da infeliz menina foi encontrado que importa na maneira de dar a notícia. E, no meio do drama que é a morte violenta de uma criança, maior ainda quando ocorre às mão do próprio pai, estes preciosismos de linguagem podem até ferir algumas sensibilidades.


Não é essa a intenção. A ideia é apenas dar nota da falta de objectividade com que se dá notícias. E mais ainda destas, que nunca deveriam acontecer. É evidenciar como da notícia de faz espectáculo, como se usa a notícia na exploração de sentimentos e de emoções, e como isso nunca é informar.


Sem surpresas, a televisão do Correio da Manhã lá esteve, com horas e horas em directo, a cumprir o seu papel de desinformação. Provavelmente a esta hora os senhores da TSF estarão a preparar o seu "forum" para colocar a questão da pena de morte ao auditório. 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

II guerra mundial - 75 anos de memória

O fim da II Guerra Mundial


 


Fez ontem 75 anos que a Alemanha nazi anunciou a rendição. Hoje cumprem-se três quartos de século sobre o fim, na Europa, da mais terrível das guerras que o mundo conheceu.


Em 8 de Maio de 1945 foi declarado o fim da II grande guerra no continente europeu. O fim da guerra mesmo, esse tardaria ainda três meses sobre a capitulação nazi. Pouco tempo, mas tempo demais. O suficiente para lhe acrescentar o mais terrível dos horrores da guerra: as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, e 6 e 9 de Agosto.


O fim chegaria finalmente a 2 de Setembro, com a rendição do Japão. Não tão incondicional como a da Alemanha, mas nem por isso com tão diferentes consequências...


Hoje não se pode festejar. Menos ainda como na icónica fotografia de Times Square, do imigrante alemão Alfred Eisenstaedt!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Oportunidade perdida*

Expresso | Marcelo. A bala perdida da política portuguesa


 


A celebração do 1º de Maio constituiu motivo para uma onda de indignação muito parecida com a que fora motivada pela sessão evocativa do 25 de Abril na Assembleia da República, uma semana antes. 


Muito do que se disse e escreveu fará certamente sentido. Nem tudo, mas também não seria preciso. O que não faz sentido, e deita por terra até as críticas mais acertadas, é tudo ser resumido a chicane política.


As comemorações do 1º de Maio foram expressamente, letra por letra, subscritas pelo Presidente da República e aprovadas na Assembleia da República com os votos a favor do PS, PSD, BE, PAN e CDS. Nada que impedisse a agitação nem que, por um momento que fosse, fizesse desviar a discussão de um foco político previamente escolhido, muito na linha do que se passara na semana anterior.


O Presidente da República, sempre com um pé dentro e outro fora, sempre à procura do pleno, da quadratura do círculo, de agradar a gregos e a troianos acabaria na primeira fila dessa manifestação. Sempre a sacudir a água do capote, para que nenhum espaço lhe fuja, e para que espaço nenhum sobre para mais ninguém.


Com níveis de popularidade estratosféricos, sempre próximos dos 90%, e com o partido no governo a seus pés, prestes a declarar-lhe o apoio para a recandidatura, esperar-se-ia um presidente mais afirmativo e menos permeável às escapatórias do regime.


Com estes níveis de popularidade a exigência sobe. Não é aceitável que um mandato presidencial neste nível de aceitação se reduza à simples e clássica passadeira de acesso á reeleição. Exige-se que combata a baixa política, a politiquice, o taticismo e o oportunismo populista, para puxar pelo lado nobre da política. Por aquilo que a dignifica, e engrandece os que a exercem.  


Talvez devesse ser esta a reflexão a fazer a partir dos acontecimentos deste 1º de Maio. Não o é, evidentemente. É, antes e apenas, mais uma oportunidade perdida…


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

O populismo não precisa de argumentos. Basta-lhe a atoarda!

Cigano7Online-->Dedicated To RICARDO QUARESMA


 


O sombrio André Ventura vai espalhando impunemente a sombra do racismo que apregoa pela sociedade portuguesa. Desta vez saiu-lhe ao caminho um cigano. Com voz, que é coisa que os ciganos não têm.


Chama-se Ricardo Quaresma, e é jogador de futebol. Internacional português. Tem voz e soube usá-la, o que não é menos meritório. E deixou o mais que tudo do Correio da Manhã sem argumentos de resposta. O discurso populista é assim, não tem argumentos. Não precisa, basta-lhe a atoarda.


Sem argumentos, o deputado, líder auto-suspenso do Chega, e candidato presidencial declarou "lamentável que um jogador da selecção nacional se envolva em política" e apelou às autoridades do futebol para não deixarem passar em claro um intromissão destas. Logo ele que fez do pior que o futebol tem o trampolim para a política. Naturalmente para o pior que a política tem...


 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Diário do regresso à vida

Covid-19. As novas regras das escolas no regresso às aulas desta ...


 


Já sabemos como vão regressar às aulas professores e alunos dos 11º e 12º anos. Bom, na verdade, dos professores sabemos pouco. Sabemos que terão de usar máscara, pouco mais. Parece que não contam muito...
Dos alunos, sabemos. Sabemos que não são obrigados a ir às aulas, ao contrário dos professores. Mas, se forem, estão também obrigados ao uso de máscara. Que só senta um por carteira, e que nos intervalos terão que permanecer na sala. 


Se, para além de permanecerem na sala, não permanecerem na carteira alguma coisa fica em causa. Diria eu... Permanecendo exactamente no mesmo lugar nem é intervalo. Será uma pausa para o telemóvel.


E fala-se também de horários desafazados das aulas, nos grandes centros urbanos. Por causa dos transportes públicos. Para evitar que todos os alunos e todos os professores tenham de utilizar os mesmos transportes à mesma hora. Fora dos dois grandes centros urbanos não é preciso. É mais ou menos como quando não era preciso usar máscaras ... 


Ainda não sabemos é como é que vamos à praia. Mas vamos ainda hoje ficar a saber. 


Horários desfazados talvez não dê. E o uso de máscara, não sei não...  Aqui há uns anos, no início da massificação dos telemóveis, havia um anúncio da Telecel -  não sei se se lembram (do "tou xim, é p´ra mim" todos se lembrarão, este é contemporâneo) - justamente na praia, que mostrava como as coisas ficavam. 


Pois é, não dá para copiar. Nem o desenho do telemóvel nem as medidas para as escolas. Há que ser criativo. No mínimo tanto quanto os publicitários daqueles tempos.


 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia mundial da língua portuguesa

Dia Mundial da Língua Portuguesa - 5 MAIO 2020 - YouTube


 


Ao segundo dia do início do nosso regresso à rua, e ao primeiro capítulo do regresso à vida e à normalidade perdida, tropeçamos com o primeiro dia mundial da língua portuguesa. Da pátria de Pessoa, que 260 milhões de pessoas espalham pelos cinco continentes.


Não podia calhar em pior altura, no meio de uma pandemia que não está para festas. A não ser na internet. Façamo-la então por aqui. Luiz Vaz de Camões há-de vir cá deixar um "gosto". 

Cara de pau

Jornalistas Cara de Pau – As Cartas Do Pai


Marcelo, sempre com um pé dentro e outro fora. Seja lá do que for... Sempre à procura do pleno, da quadratura do círculo, de agradar a gregos e a troianos... Para que nenhum espaço lhe fuja, todo ele ocupe, que nada sobre para mais ninguém e que nada mais se vislumbre que ele próprio.


Assinou por baixo destas palavras: "Tendo em consideração que no final do novo período se comemora o Dia do Trabalhador, as limitações ao direito de deslocação deverão ser aplicadas de modo a permitir tal comemoração, embora com os limites de saúde pública previstos no artigo 4.º, alínea e), do presente Decreto".


Mas o que realmente quis assinar, o que tinha na cabeça não era que fossem além das "limitações ao direito de deslocação"; nem que simplesmente se sujeitassem aos "limites de saúde pública previstos" na lei. O que Marcelo defendia era "uma ideia simbólica para a celebração do 1º de Maio". Não era nada daquela pouca vergonha que se viu. E muito menos daquilo que assinou!

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O 1º de Maio e a geringonça

CGTP repudia críticas às celebrações do 1.º de Maio e garante que ...


 


A celebração do 1º de Maio pela CGTP, na Alameda, constituiu motivo para uma onda de indignação muito parecida com a de há de uma semana antes, motivada pela sessão evocativa do 25 de Abril na Assembleia da República. 


Pese embora alguma diferenciação na qualidade dos argumentos, e sendo outra, apesar de tudo, a realidade de contexto de cada um desses actos públicos, a indignação não foi menos exuberante. Nem os seus protagonistas deixaram de ser os mesmos. 


Fátima, e o  13 de Maio, veio de novo a terreiro (deu até para lá deixar uma casca de banana para Ministra da Saúde pisar), e o dedo ficou ainda mais em riste, apontado à geringonça. Nos jornais, nas televisões, nas redes sociais e nas missas... "Não há dúvida que a geringonça manda neste país", disse-se e escreveu-se por estes dias por todo o lado.


Muito do que se disse e escreveu fará certamente sentido. Nem tudo, mas também não seria preciso. O que não faz sentido, e deita por terra até as críticas mais acertadas, é essa tendência primária de culpar a geringonça. As comemorações do 1º de Maio foram expressamente autorizadas pelo Presidente da República no decreto presidencial nº 20-A /2020, de 17 de Abril, que renovou pela segunda e última vez o estado de emergência nos seguintes termos:


"Tendo em consideração que no final do novo período se comemora o Dia do Trabalhador, as limitações ao direito de deslocação deverão ser aplicadas de modo a permitir tal comemoração, embora com os limites de saúde pública previstos no artigo 4.º, alínea e), do presente Decreto".


Que foi aprovado na Assembleia da República com os votos a favor do PS, PSD, BE, PAN e CDS. Sim, viram bem: PSD e CDS. 


Que grande geringonça!


 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Administração pública

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Continuando na saga do poder executivo, hoje fala-se da máquina do Estado. Aqui ao lado, como é costume.

Cabeça no lugar*

PENSANDO IMPUNIMENTE: COLOCAR A CABEÇA NO LUGAR


 


Com o passar dos dias, semanas e já meses, a abertura à vida é inevitável. As pessoas já não têm mais tolerância para o confinamento e a economia não pode esvaziar-se mais.


Temos que sair de casa. E a economia tem que ser reaberta. Porque já não aguentamos lá mais tempo, e a falta de ar na economia sufoca. E mata, mais que o vírus...


Daí o fim do estado de emergência, já amanhã. Que, mais do que para qualquer outra coisa, serviu para o Presidente da República apanhar o comboio que tinha perdido. Que partira enquanto ele estava fechado em casa, pensando que tinha o maquinista no bolso.


Serviu Marcelo, não serviu o país. Nada do que foi feito durante o estado de emergência teria deixado de se fazer. E o que era necessário fazer estava já a ser feito, com os portugueses já em auto decidido confinamento.


Acabar agora, quando as pessoas começam a esgotar a resiliência e têm que começar a regressar á vida, reforça ainda mais essa ideia. Que não serviu mesmo para nada, que simplesmente andou sempre a reboque da disponibilidade das pessoas. Só que transmite também a ideia que, se não passou já tudo, passou pelo menos o pior. E essa é neste momento uma ideia perigosa.


A abertura será feita em três fases, com a primeira a iniciar-se já no início da semana. A segunda duas semanas depois, a 18 de Maio, e a última mais duas semanas depois, a 1 de Junho. Se tudo correr bem, e não for preciso dar passos atrás, como referiu o primeiro-ministro.


Que tudo corra bem. E que o grupo de investigadores da Universidade de Singapura, que aponta já o fim da pandemia em Portugal para próximo dia 17 de Julho, não se tenha enganado em conta nenhuma…


Uma boa semana. E todos com a cabeça no lugar, já com os cabelos todos certinhos no seu sítio.


* A minha crónica de hoje na Cister FM

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...