segunda-feira, 31 de outubro de 2011

APENAS MAIS UM DIA?

Por Eduardo Louro 


 Danica representa simbolicamente a chegada da população mundial aos 7 mil milhões de pessoas


O dia de hoje – este dia 31 de Outubro de 2011 - nasceu lindo, cheio de sol e de promessas! O último de um Outubro que fugira do Outono porque quis ser Verão. Deixou-se apanhar já perto do fim e não resistiu a uns dias de chuva e vento, de temporal que fez das suas, de Norte a Sul. Roubando vidas a Norte e bens a Sul. Onde deixou de cabelos em pé centenas de turistas que, à procura do sol que ninguém nos consegue tirar, rumaram ao aeroporto de Faro destruído pelo temporal de há precisamente uma semana!


Também este último dia de Outubro, que nasceu lindo, vai ficando Outono. É o Outono a lembrar-lhe que o apanhou, que não vale a pena fugir-lhe porque é e será sempre seu!


Este não é apenas o dia em que Outubro se despede, um Outubro finalmente convencido que é Outono. É o dia em que, na proclamação simbólica da ONU, a Humanidade passa oficialmente a contar com 7 mil milhões de seres humanos. Um número esmagador, certamente mais impressionante se olharmos para trás: 300 milhões há 2 mil anos, ao tempo de Cristo e 2 mil milhões no final do primeiro quartel do século passado.


O ser humano 7 mil milhões, na simbologia da ONU, é uma menina que nasceu pouco depois da meia-noite em Manila, capital das Filipinas - no profundo terceiro mundo que alimenta a vida mas ainda mais a morte - e chama-se Danica May Camacho (na foto).


Eu esperava muito deste dia, confesso. Percebi que terei que esperar por amanhã, já Novembro, no dia de Pão por Deus!


 

IMPRESSIONANTE

 


Por Eduardo Louro 


 


Impressionante não é que Passos Coelho diga agora aquilo que sempre negou – isso já nem é novidade nem impressiona - e que já toda a gente há muito sabia: que temos de renegociar o acordo com a troika! Impressionante é que o tenha dito no Paraguai!

domingo, 30 de outubro de 2011

PAÍSES IRMÃOS?

Por Eduardo Louro 


 


O caso Duarte Lima, a que regresso sem de novo entrar propriamente nele, trouxe ao de cima a inexistência de acordo de extradição entre Portugal e o Brasil. Não é o primeiro caso de figuras públicas protegidas por essa lacuna, ainda há não muito tivemos a Fátima Felgueiras a tirar proveito dessa situação.


O Brasil tem acordos de extradição com uma imensidão de países – a começar já aqui em Espanha – mas não tem com Portugal. Ao ponto de ter já apanhado por aí – creio que vinda do bastonário da Ordem dos Advogados – uma ideia curiosa. A ideia é esta e foi expressa mais ou menos assim: Duarte Lima, para não ser preso, sujeita-se a ficar preso em Portugal.


Pois é. O Brasil tem acordos de extradição com toda a gente menos com o país irmão. E vice-versa! É estranho! Em vez de cooperarem entre si para a sã aplicação da justiça aos seus cidadãos, parece que os dois países irmãos se preocuparam mais em servir de recíproco covil de malfeitores. Uma solidariedade com o crime pouco explicável! Entre irmãos espera-se mais!


Esta é uma solidariedade nada fraternal, mais própria de outros laços familiares… De outras famílias. E dos seus padrinhos!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Futebolês #99 OFERECER O CORPO À BOLA

Por Eduardo Louro


Esta é a centésima edição do Futebolês. É o número 99, mas como o primeiro foi o número zero… Não é razão para festejar, se o fosse comemorar-se-ia hoje o número 100, que só surgirá na próxima semana. Como se faz com as passagens de década, de século e de milénio. Em 1999, com a passagem para o ano 2000, festejou-se a passagem do milénio. Em 2009, a primeira década deste século. Indevidamente, porque não houve ano zero; o primeiro ano foi o ano 1, ao contrário do que se passa aqui no Futebolês.


Talvez porque estes números mais redondos nos levam sempre a olhar para trás, hoje regresso a uma certa dimensão erótica da bola que por aqui passou, em particular no número 1 (Beijar), que foi justamente o segundo, mas também noutros dos primeiros números. É aquela ideia da bola transformada na mais apetecida das beldades, que 22 rapazes disputam até ao limite das suas forças (o futebol feminino começa a dar cabo desta narrativa idílica, mas deixem passar). Numa beldade rebelde e insinuante que tão depressa se entrega, dócil e meiga, apaixonada, como, de repente, ultrapassa todos os limites da irreverência, salta de uns braços (leia-se pés) para outros sem que ninguém a segure, ninguém a domine e ninguém lhe possa chamar sua.


Evidentemente que, num campo cheio de rapazolas na flor da idade, não faltaria quem lhe quisesse oferecer o corpo. Uma beldade destas - insinuante, rebelde, muito dada a uma certa vadiagem e pouco a fidelidades - tem muito por onde escolher. Atrevida, manda-se a eles!


E é este manda-se a eles que reverte a situação, acabando por transformar a oferta do corpo – bem diferente de venda do corpo, como se percebe, e que estabelece as fronteiras desta dimensão erótica, fechadas à pornografia – numa missão de sacrifício. Oferecer o corpo à bola não é, assim, uma simples oferta que se aceita ou rejeita. Nem junta o prazer da oferta – oferecer é normalmente um acto de prazer – aos prazeres do corpo.


Oferecer o corpo à bola é sempre um acto deliberado. O corpo entrega-se – dir-se-ia de corpo e alma - à bola, ao contrário do que acontece noutros encontros de ocasião. Que os há, e bem suspeitos!


E não pensem que tenho apenas em mente aqueles encontros de particular abuso, em que a bola ultrapassa os limites da rebeldia e do atrevimento e atinge o puro descaramento, atirando-se directamente às chamadas partes baixas dos rapazes. Não, estou também a pensar em fugazes e escondidos jogos de mãos, de carícia aqui e afago ali, sempre que a ocasião o permita.


Não tem, claro, o arrebatamento da grandeza destemida de oferecer o corpo à bola, às claras e à vista de todos. Dê no que der. Nem a exuberância de movimentos contorcionistas de uma bolada nas ditas partes baixas. Mas tem a adrenalina do flirt, a sensação única da transgressão e aquele prazer indescritível da cumplicidade escondida ou mesmo secreta. Como sempre acontece nestas circunstâncias, toda a gente está a ver. Eles é que, como os jovens de antigamente, tão enamorados quanto ingénuos, pensam que ninguém vê. Acontecem no recato e no aconchego da grande área, precisamente para onde toda a gente tem os olhos virados, tão expostos quanto num banco de jardim numa tarde de sábado cheia de sol. O Rolando, por exemplo, é um dos maiores especialistas desta marmelada. É useiro e vezeiro em passar a mão pelo pêlo da bola em plena grande área, pensando que, lá porque conta com a cumplicidade do árbitro, ninguém mais vê. Mas lá está, toda a gente vê. Menos quem deveria!


Não digo que não seja rapaz de dar o corpo à bola – embora tenha por lá colegas bem mais dados à tarefa - mas do que ele gosta mesmo é destes encontros de ocasião. Que, como se vai vendo - especialmente em ambientes a que está menos habituado, na selecção ou mesmo nos jogos europeus do seu clube – lhe começam a criar algumas dificuldades. Logo a ele que foi o primeiro a falar em dar o salto, contando até que o André Vilas Boas não perdesse o seu número de telefone.


E, já que isto foi desaguar ao novo Dragão de Ouro, cá estamos já todos à espera – 30 anos passam num instante - das suas memórias, com prefácio de Pinto da Costa. Prefácio e título: A Cadeira de Sonho!


Um verdadeiro especialista em dar o corpo à bola, este Pinto da Costa!


 


 


 

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

Por Eduardo Louro 


 


A presunção de inocência é um instituto das sociedades civilizadas plasmado nos conceitos de Direito e de Justiça: todas as pessoas são inocentes até prova em contrário. Apenas os tribunais, depois transitado em julgado, podem selar o rótulo de condenado!


Visa-se, assim, preservar o bom nome – direito sagrado das pessoas.


Assim é e assim deve ser, nenhuma dúvida a esse respeito!


Sabemos, porém, que raramente assim é e todos os dias vemos esse direito atropelado. Irremediavelmente, quase sempre!


Da suspeita à condenação pública, ao assassinato do bom nome, é um passo de criança. É sempre assim, e é tanto mais assim quanto mais pública for a figura do suspeito. A presunção da inocência é, no entanto, logo invocada sempre que o assunto chega aos telejornais e são ouvidos, a propósito, os diferentes especialistas da justiça. Dizer que é invocado porque o suspeito é figura de proa é redundante, porque apenas esses casos chegam ao espaço mediático com direito a consultas de opinião especializada.


Vem isto a propósito da acusação de homicídio a Duarte Lima pela Justiça Brasileira, que está a ocupar as manchetes de jornais e telejornais. Depois de dadas as mais diversas explicações sobre os contornos processuais em causa, sobre o que a Justiça Portuguesa pode ou não pode fazer ou sobre a impossibilidade de extradição, lá vem o alerta final da presunção de inocência. Que, como sempre, para a opinião pública já não serve de nada.


Duarte Lima tem, evidentemente, esse direito. Mas a verdade é que não está a fazer nada para que lhe seja reconhecido. E devia!


O lugar de destaque que ocupa (ou ocupou) na sociedade obrigá-lo-ia – mais ainda pelo papel que assumiu na sequência da grave doença que o afectou há uns anos do que propriamente pelas funções políticas que assumiu - e que lhe garantiram também esse estranho direito a uma dessas subvenções vitalícias, de que não abdicou - a defender esse seu direito à presunção da própria inocência. Assim, desaparecido em parte incerta ou escondido num buraco qualquer, é que não! Por si, por nós todos e pelo fundamental princípio da presunção da inocência!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

NOTÍCIAS DA CIMEIRA EUROPEIA

Por Eduardo Louro 


 


Durou até às tantas. Entrou pela madrugada dentro mas, ao ouvirmos Durão Barroso, e mesmo Passos Coelho, parece que valeu a pena. Um diz que a cimeira acordou finalmente no que ele anda há muito a dizer, e vê-se que isso o deixa feliz. O outro, o nosso primeiro-ministro, diz que a cimeira, também finalmente, resolveu o problema da Grécia e, com isso, Portugal ficou livre de pedir nova ajuda! Via-se que, se não ficara também ele feliz, ficara pelo menos aliviado.


Vamos por partes, e comecemos pelo corte - o hair cut, como se diz – de 50% da dívida grega, com a participação da banca privada. Quer dizer, sem incidente de crédito, que iria desencadear os resseguros, os chamados CDS (credit default swap) e provocar uma autêntica guerra atómica que pouco do edifício financeiro global deixaria de pé.


O problema não é quem é que sai mais ajudado desta medida. Se a Grécia, que fica ainda a correr atrás do objectivo de fixar a sua dívida nos 120% do PIB lá para 2020, se a banca credora que, em boa verdade, fica a perder metade quando já tinha perdido tudo: a dívida da Grécia valia zero! O problema é que a Grécia nunca conseguirá pagar uma dívida dessa ordem. Parece-me que cortar 50% é curto e, nesse sentido, isto é mais um adiamento, mais uma das habituais medidas a conta-gotas, que em vez de decisivamente resolver os problemas os empurra com a barriga.


O reforço do FEEF para mais do dobro – de 440 mil milhões para um bilião de euros – também não foge muito disto. Do conta-gotas. Não chega para Portugal – ninguém tem dúvidas que teremos de lá voltar a curto prazo, pois não? -, para a Itália e para a Bélgica - que provocará réplicas de alguma intensidade em França -, já para não falar da Espanha nem da Irlanda, que parecem empenhadas em transformar os PIGS em PIB, que é muito mais saudável.


A terceira medida que saiu da cimeira foi a implementação da tão badalada governação económica. Durão Barroso anunciou, já hoje no PE, que apresentará em Novembro um plano geral de governação económica, com base no reforço do papel do executivo comunitário saído da cimeira. Coisa vaga, mais uma vez! Sobre a verdadeira solução – o inevitável orçamento comunitário – nem uma palavra!


Por último a recapitalização da banca que, até por ser uma medida complementar - directamente relacionada com a decisão do corte da dívida grega - é a mais objectiva, pacífica e consensual. É efectiva – terá que estar concluída até ao final de Junho de 2012 -, tão efectiva que resolve de vez a rábula da banca portuguesa. Os principais banqueiros nacionais, que ainda ontem continuavam a garantir que não precisavam, porque não queriam dizer que de não quereriam (não queriam o Estado lá dentro, apesar das garantias do primeiro-ministro de que o Estado seria um sleeping partner), já todos hoje anunciaram a adesão ao plano de recapitalização. E as suas cotações subiram de imediato na sessão de hoje da Bolsa, com o BES – o único a dizer que cumpre o respectivo aumento de capital através dos seus accionistas, sem recorrer ao fundo estatal dos célebres 12 mil milhões – a bater recordes.


E foi isto o que saiu da cimeira que, dizem alguns optimistas militantes, voltou a meter o euro no trilho certo. Longe disso, bem longe disso, digo eu!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CONSELHO DE ESTADO

Por Eduardo Louro 


 Conselho de Estado apela a "espírito de diálogo construtivo"


O Conselho de Estado é o órgão político de consulta do Presidente da República, por ele presidido.


Ao Conselho de Estado compete pronunciar-se sobre um conjunto de actos da responsabilidade do Presidente da República


Se nos dermos ao trabalho de ir saber o que diz a Constituição sobre este Órgão lá encontraremos, no artigo 145º, as competências do Conselho de Estado:



  1. Pronunciar-se sobre a dissolução da Assembleia da República e das Assembleias Legislativas das regiões autónomas;

  2. Pronunciar-se sobre a demissão do Governo, no caso previsto no n.º 2 do artigo 195.º;

  3. Pronunciar-se sobre a declaração da guerra e a feitura da paz;

  4. Pronunciar-se sobre os actos do Presidente da República interino referidos no artigo 139.º;

  5. Pronunciar-se nos demais casos previstos na Constituição e, em geral, aconselhar o Presidente da República no exercício das suas funções, quando este lho solicitar.


Coisa séria, portanto!


Quando me fui apercebendo de certas pessoas que por lá se sentavam – algumas mesmo pouco recomendáveis e que, apesar de saberem que já toda a gente o sabia, se recusaram a levantar e dar o lugar a outros – comecei a pensar que, afinal, sendo coisa séria, nem sempre seria para levar a sério. Daí que já não tivesse levado a coisa muito a sério quando, há cerca de um mês, o Presidente anunciou a convocatória do dito. Coisas da crise, pensei eu!


Calma, não é o que pensam. Coisas da crise porque a vida não está fácil e o valor da senha de presença dá uma ajudita! Realmente não via outra razão, e convido a reler o primeiro parágrafo para confirmar esta conclusão.


Já sei. Releram e descobriram que aquela última alínea do tal artigo tem uma escapatória: “…e, em geral, aconselhar o Presidente da República no exercício das suas funções, quando este lho solicitar”. Esta pequena frase dá cobertura a tudo, cá está a justificação da convocação deste Conselho de Estado!


Mas, que se saiba, não aconselhou o Presidente a coisa nenhuma. Não se percebe nada disso do comunicado final. Seis horas – seis – para, depois, sair isto: "No momento em que, na Assembleia da República, decorrem os trabalhos para a aprovação do Orçamento do Estado para 2012, o Conselho de Estado apela a todas as forças políticas e sociais para que impere um espírito de diálogo construtivo capaz de assegurar os entendimentos que melhor sirvam os interesses do país, quer a estabilização financeira, quer o crescimento económico, a criação de emprego e a preservação da coesão social"


Isto poderia o Presidente escrever no facebook, não era necessário maçar aquela gente toda e sempre se poupava nas senhas de presença e numas viagens da Madeira e dos Açores. E não se tinha dado mais uma martelada nas instituições: se, pela sua composição e pelas próprias birras que arrasta, já não era pelo Conselho de Estado que as instituições da nossa democracia se salvavam, estas reuniões e estes comunicados condenam-nas sem remissão.


Quando o governo diz que a solução está no empobrecimento o Conselho de Estado faz apelo a entendimentos que sirvam o crescimento económico, a criação de emprego e a coesão social. É tudo brincadeira, não é?


 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

CUIDADO COM A SAÍDA DOS ESTÚDIOS!

Por Eduardo Louro 


 


A tempestade a que fiz referência no texto anterior, em baixo, não deixará de condicionar fortemente o debate político mediático, em particular o debate espectáculo que anima os serões televisivos da programação alternativa às telenovelas.


Não sei se o elenco de actores destes autênticos talk-shows irá ou não sofrer cortes tão drásticos como os do Orçamento de Estado. Se ainda houvesse vergonha, ou ponta dela, certamente que o campo de recrutamento estaria substancialmente restringido: depois de descobertas as carecas das subvenções vitalícias, a maior parte desta gente não deveria sentir-se muito confortável à frente das câmaras…


Sabemos todos que vergonha é coisa do passado – hoje já ninguém sabe o que isso é – e, por isso, não acredito que, de repente, os directores das diferentes estações de televisão andem, de candeia na mão, à procura de outras caras.


Vão continuar lá todos. Mas com mais trabalho, espero. Mesmo sem vergonha, não poderão manter o mesmo discurso; terão que puxar mais um bocadinho pela cabeça para encontrar narrativas de substituição para os eixos centrais do seu discurso. É que, como não são parvos, sabem que se continuarem com o discurso dos direitos adquiridos e acusar os portugueses de viverem acima das suas possibilidades, arriscam-se a ter alguém à espera à saída do estúdio!


 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SUBSÍDIOS DE FÉRIAS E NATAL

Por Eduardo Louro 


 


O corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos veio desencadear a tempestade que acabou de vez com este Verão que, nada incomodado com o que de mal se vive neste país, ia teimando em resistir e ficar por cá, bem ao contrário da vontade da maioria de todos nós.


Uma tempestade maior que a da noite passada: foi o Presidente, foi a Associação Sindical dos Juízes, foram até ministros e secretários de Estado, que lá tiveram que deitar fora os seus subsídios de alojamento. Até o ministro da defesa, que não só renega ao subsídio como recusa utilizar a residência oficial, no Forte de S. Julião da Barra, outrora habitado por Portas e onde, há muitos anos, alguém caiu de uma cadeira. Chegou mesmo às subvenções vitalícias da infindável lista de antigos titulares de cargos públicos que, coitados, se vêm agora na eminência de perder o seu rendimento mínimo de inserção. Que há-de ser da vida deles, agora que se vêm na contingência de ter de viver com os míseros ordenados dos múltiplos lugares nas administrações e demais órgãos sociais das empresas do regime, que a sua desinteressada e missionária passagem pelo poder lhes havia garantido?


Desconfio bem que haja já muita gente arrependida de ter tomado esta medida!


A verdade é que – talvez por não acreditarem muito nas previsões meteorológicas e admitirem que o sol continuaria a brilhar – muitos dos ideólogos desta ofensiva liberal defendiam a medida com unhas e dentes. E apostavam na sua institucionalização definitiva, alargando-a, evidentemente, ao sector privado porque, dizem (ou diziam) que não faz sentido nenhum trabalhar onze meses e ganhar por catorze. Coisa que só em Portugal, garantiam! No Expresso deste último sábado lá vinha o inultrapassável Mário Crespo a dizer que tinha tentado explicar a um casal amigo americano que, em Portugal, havia um mês em que não se trabalhava e se ganhava a dobrar. A aberração é tal que os seus amigos, não conseguindo compreendê-la, apenas riram perdidamente. Enfim, problemas de quem só tem amigos na América…


Como a troika também se refere vagamente a esta idiossincrasia portuguesa, a ideia de acabar de vez com os subsídios de Natal e de férias está fazer caminho. Mesmo que não se corte no rendimento anual há que acabar já com esta aberração que nos cobre de vergonha por esse mundo fora: repercutem-se os catorze meses de vencimento nos doze do calendário, e aí estamos de novo de cara lavada e cabeça bem erguida!


Parece-me que, com esta febre toda que por aí vai, com a ânsia incontrolável de carregar cada vez mais o pé no pescoço de tudo o que tenha a ver com o factor trabalho, há gente que perde por completo a noção das coisas.


Vamos lá a ver. A economia de consumo fez do Natal a sua estação alta. Transformou esse período no maior pique de consumo do ano, ao ponto de muitos sectores da sociedade, crentes e não crentes (não é aí que fica a fronteira), verberarem - sem contudo lhe conseguirem resistir – e condenarem a febre consumista que há muito tomou conta do Natal. Desvirtuando-o, diz-se amiúde!


Não preciso de dizer muito mais. Já se percebeu a origem do subsídio de Natal. E a sua utilidade!


As férias – conquista, do ponto de vista histórico, bem recente – tornaram-se no segundo ponto alto da curva de consumo. Enquanto as pessoas trabalham não estão a consumir, tem que se lhes dar tempo para isso. E dinheiro, evidentemente! Pronto, também já se percebeu…


Esta gente, que agora quer atirar sobre tudo o que mexe, deveria perceber que o sistema precisa destes dois subsídios. Que, se não precisasse, não os tinha criado. E que os criou para que funcionassem como um plano de poupança, como um mealheiro onde se guarda o dinheiro para gastar nos bens não essenciais que o mercado obriga a consumir. Distribuir o rendimento dos catorze meses pelos doze é acabar com esse mealheiro e promover um ligeiro acréscimo de consumo corrente de bens essenciais e matar os consumos de Natal e das férias. E com eles de largos sectores da economia!


Estão a passar-se coisas que tenho dificuldade em perceber. Defeito meu certamente!


 


 


 

domingo, 23 de outubro de 2011

CONTRASTES

Convidado: Luís Fialho de Almeida


 


Poderia aqui falar dos contrastes entre as expectativas que tínhamos para o nosso futuro e a realidade que nos cai em cima, entre a verdade que tem sido escondida e a mentira que nos oferecem no discurso político. Acentuam-se as assimetrias sociais e os contrastes ao nível dos sacrifícios e privações que recaem sobre os cidadãos, no esforço para reduzir a enorme divida interna e externa - a tornar-se eterna - divida resultante da tirania do mercado financeiro global e dos diversos protagonistas desta sociedade que, na liderança, deveriam ter o saber, a competência e a honestidade para, com verdade e sem ocultações, resolver em vez de adiar.


O tema é recorrente e quotidianamente agravado, pelo que, para não acentuar os sintomas depressivos, falarei de outros contrastes, entre os sentimentos que nos ficam de outras realidades.


Da glória ao repúdio


Recentemente, ao percorrer alguns dos territórios que estiveram sob o domínio do Império Austro-Húngaro, Budapeste pareceu-me fascinante. De dia, a monumentalidade da arquitectura distribuída linearmente ao longo do Danúbio. De noite, essa mesma grandeza iluminada, reflectia-se nas águas do rio ao som de Strauss, evocando a nobreza desse Império em salões festivos.


Viena e Praga são, igualmente, a expressão dessa grandeza, cujos sinais também podem ser vistos em muitas outras cidades, sendo hoje lugares destacados da divulgação do património histórico, cultural e artístico, fonte de importante actividade turística.


Nos territórios que estiveram posteriormente sob o domínio soviético, no período pós 2ª guerra mundial, nomeadamente na Republica Checa, Eslováquia e Hungria, somos confrontados com o contraste entre os sinais de glória de um Império e a memória, ainda recente, dos tempos da ocupação soviética geradora de manifesto repúdio. Recolhem-se frequentes testemunhos dessa ocupação e das fortes restrições na economia, nos direitos e liberdades individuais, designadamente, como afirmava uma residente em Bratislava, a propósito da repressão do culto religioso “… como processo reactivo, procurávamos manter a vitalidade das igrejas, não tanto por fé, mas porque nos dava uma certa adrenalina."


Do horror ao sublime


Em outro tempo e circunstância, ao percorrer a “Rota do Vinho da Alsácia” subi ao Monte Sainte Odile, onde um convento venera a Sante Odile, protectora da Alsácia. A altitude do lugar permite uma vista deslumbrante sobre toda a região envolvente. As vinhas na proximidade, mais longe, o vale do Reno a separar França da Alemanha, e muitas cidades destes dois países, identificadas em painel informativo no local. Ficamos fascinados pela dimensão, harmonia da paisagem e pela paz do lugar.


No dia seguinte, já em Estrasburgo, procurei informação sobre a existência, naquela região, do que foi um campo de concentração nazi na França ocupada durante a 2ª guerra. Constatei que a sua localização é próxima do Monte Sainte-Odile, pelo que regressei praticamente onde estivera anteriormente.


“Struttof”, nome do campo, rodeado de luxuriante vegetação, é agora um memorial da morte. Percorre-se em silêncio, por respeito aos mártires que ali tiveram a morte brutalmente antecipada. Da visita às áreas do campo, incluindo a câmara de gás e o crematório, interioriza-se o sentimento de inexplicável atrocidade e genocídio cometido pelo ser humano contra o seu semelhante, e de que a história tem muitos e infelizes exemplos.


Naquele dia luminoso, comparando Struttof com Monte Sainte-Odile, ali ao lado, não pude evitar de olhar para o azul infinito do céu, na esperança de ter do Sobrenatural a explicação de como é possível misturar ali, no Paraíso, o Inferno e o Céu, o horror e o sublime?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Futebolês #98 MEXER NA EQUIPA

Por Eduardo Louro

Mexer é tocar. Também pode ser apalpar, agitar ou até misturar. Depende das circunstâncias, e às vezes da hora e do local. Mexer na equipa é futebolês, o que quer dizer que não é nada disso!


E é caso para dizer que ainda bem. Quando os adeptos – mais as adeptas, deve dizer-se – se empurram e se esticam todos, em ambiente de maior ou menor histeria, pretendem a penas tocar nos jogadores. Admitamos que um(a) ou outro(a) possa mesmo querer apalpar este ou aquele, mas nunca mexer na equipa!


Mexer na equipa é privilégio único do treinador. Por muita que seja a tentação de alguns presidentes este é, entre muitos outros, um privilégio do treinador. Mesmo que, para muitos, isso se transforme num autêntico calvário!


Alguns treinadores são mesmo tentados a tocar nos jogadores, não por qualquer tendência ou orientação mais íntima, mas porque, às vezes, se comportam mesmo como adeptos. Lembrar-se-ão, pelo menos alguns dos menos jovens, de Quinito – um setubalense de gema que, depois de uma interessante carreira como jogador, por cá (Académica, Belenenses e Braga, que me recorde) e por Espanha (integrou aquela primeira vaga – se é que se pode chamar vaga – de emigração para o lado de lá da fronteira, onde jogou no Santander), teve uma curta carreira de treinador, onde se celebrizou mais pelas suas expressões patuscas (muitas entraram directamente no léxico do futebolês) que pelo sucesso dos seus resultados – que, quando Pinto da Costa o contratou para treinador do Porto, apareceu nos jornais a dizer que a primeira coisa que faria era pedir autógrafos aos jogadores. Correu mal, um mês depois estava desempregado e, se não estou em erro, nunca mais voltou a treinar!


Na verdade o Quinito não pretendia portar-se como adepto. Ele não queria tocar nos jogadores, queria tocar os jogadores! Com aquilo ele não pretendia exactamente mexer na equipa mas, aumentando-lhes o ego, mexer com a equipa. Que é outra coisa, e esta já não exclusiva do treinador!


Quando o treinador mexe na equipa está, na realidade, a mexer na sua constituição, a introduzir alterações. A substituir jogadores mas também a substituir ideias, a corrigir posições individuais ou posicionamentos colectivos, ou a emendar opções tácticas, seja no decorrer do jogo seja entre jogos, no decorrer da competição. Quando mexe com a equipa está a entrar no domínio mental e psíquico da equipa, introduzindo-lhe, se bem sucedido, factores de motivação. Ou destruindo-os quando, como aconteceu ao Quinito, as coisas, por erro de cálculo – na circunstância o ego dos jogadores encheu em demasia e roubou a autoridade ao treinador - não correm bem!


Em equipa que ganha não se mexe - é o axioma mais dogmático do futebol! Ninguém o discute. Mas foi isso que tramou Paulo Bento no jogo da selecção na Dinamarca: a equipa não tinha jogado nada no Dragão, com a Islândia. A defesa fora miserável, sofrendo três golos de uma equipa da terceira divisão europeia. Mas, como a equipa tinha ganho, o seleccionador nacional seguiu a regra e não lhe mexeu! Foi o que se viu…


Quem já não consegue dormir só de pensar em mexer na equipa é Vítor Pereira, o treinador do Porto. É cada tiro cada melro! Quando chega a hora de mexer na equipa invariavelmente retira do campo o que estiver a jogar melhor. Quem estiver menos mal, assim é mais bem dito.


Claro que estas coisas têm muito de sorte e azar, ao ponto de muitos treinadores gostarem de comparar as substituições aos melões. Só depois de abertos… E o Vítor Pereira não tem realmente sorte!


Reparem: integrava uma equipa técnica de onde saiu apenas o seu membro mais mediático. O mais competente – ele próprio, que ensinava o miúdo Vilas Boas e que, por isso, foi de imediato a primeira opção do infalível Pinto da Costa – e a restante equipa ficaram. Do quadro de jogadores apenas saiu um. Um único, e entraram mais uns dez, num plantel que acabara de ganhar quase tudo o que havia para ganhar. Tudo perfeito, nada havia para mexer! Era só continuar, a inércia faria o resto!


É mesmo preciso ter azar! Com tudo tão perfeito, só mesmo com muito azar seria obrigado a mexer na equipa! E isso não de lhe poderia acontecer. Logo a ele que, caramba, pode não ter muito jeito para mexer na equipa, mas sabe mexer com a equipa. Nota-se logo num discurso colado com cuspo ao de Mourinho. Ou ao de Vilas Boas? Ele que até sabe como se recortam jornais para colar no balneário…


 

VISTAS CURTAS NA EUROPA

Por Eduardo Louro 


 


O mundo estava suspenso da cimeira europeia de domingo. O G20 tinha avisado que agora é que teria de ser, que nada mais poderia ser adiado!


Merkel e Sarkosy trataram de a matar à nascença! Marcando uma nova cimeira para a próxima quarta-feira – prática recorrente desta dupla - já ninguém percebe para que servirá a de domingo, que o Eurogrupo está neste momento a preparar. Talvez se perceba! Percebe-se que é a UE no seu ritmo próprio, a preparar a cimeira de domingo que irá preparar a de quarta-feira… À espera de milagres!


Mas não há milagres. Ao adiar o inadiável a França e a Alemanha continuam presas às suas vistas curtas. Querem fugir com o rabo dos seus bancos à seringa do hair cut da dívida grega. Não percebem que não vale a pena! Que, assim, apenas se aproximam mais e mais seringas. Cada vez com agulhas mais compridas e - quem sabe? – se já sem rabo para tanto!


Nesta altura do campeonato já não é só o mexilhão que se lixa. Lixam-se todos, vejam lá se percebem!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PRESO POR TER CÃO E PRESO POR NÃO TER

Por Eduardo Louro 


 


O Presidente Cavaco Silva tem alguns problemas com o sentido de oportunidade. Quando deve falar não fala, e fala quando deve ficar calado! Raramente diz o que deve e é frequente dizer o que não deve!


Na semana passada, no Instituto Universitário Europeu, em Florença, com a excepção, confirmou a regra. Quando, no seu melhor discurso sobre a Europa – de que raramente o tínhamos ouvido falar – apontou as origens da crise europeia, os seus responsáveis - a Alemanha e a França, os primeiros a violar o limite do défice – e as medidas que importa urgentemente tomar, foi oportuno: disse exactamente o que deveria ser dito, no momento próprio, e no local apropriado. Já quando permaneceu mudo perante a situação da Madeira ou quando, como ontem, se pronunciou sobre o Orçamento, os cortes nos subsídios de natal e férias e a desigualdade na distribuição dos sacrifícios, regressou ao seu normal desempenho: calado quando teria de falar e a falar quando teria de estar calado!


Devo começar por dizer que estou inteiramente de acordo, como não poderia deixar de ser pelo que por aqui tenho escrito, com tudo que o PR disse. Acontece que ele não pode dizer aquilo que eu, ou qualquer outro cidadão normal, posso. E não é sequer pelas abismais diferenças de responsabilidade, é simplesmente pelas consequências.


O que o Presidente ontem disse sobre as medidas constantes no Orçamento tem que ter consequências, num momento em que não pode ter nenhuma!


Quando, no seu discurso de posse, Cavaco afirmou que os sacrifícios dos portugueses tinham limites, abriu a caixa de Pandora. Naquele momento ficou impedido de, agora, ficar calado. Dizendo o que então disse, Cavaco não poderia deixar de criticar os imensamente maiores sacrifícios que agora este governo está a exigir; não poderia deixar de dizer que não mudou de opinião porque mudou o governo.


O problema é as consequências. Quando, em Março, produziu aquele discurso, as consequências foram imediatas. E óbvias: a corda esticou e partiu de imediato, com o famoso PEC IV a não servir de mais que simples adereço fúnebre do governo de Sócrates. Agora, as consequências não seriam menos óbvias: pedido de verificação de constitucionalidade ou mesmo veto do orçamento! O PR não pode promulgar um orçamento com medidas que condena e reprova e que, embora o não tenha expressado directamente, deixa entender serem inconstitucionais.


Cavaco não pode deixar de tomar esta atitude. Mas também não a pode tomar!


Cavaco, para além do político no activo com mais anos de actividade e com mais experiência política, é ainda apresentado pelos analistas políticos como o mais sagaz, calculista e matreiro de todos. Custa a perceber como se deixou enrolar nesta ligadura gigante…


A primeira consequência deste imbróglio é evidente: o PS, que o governo tanto queria colar à aprovação deste orçamento, fica completamente desobrigado de não votar contra. E com as costa bem quentes!   


 


 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

E A ECONOMIA, PÁ?

Por Eduardo Louro 


 


Afinal, ao contrário do que por aí se dizia, o governo está preocupado com a economia. E tem estratégia!


Questionado sobre o assunto quando apresentava o OE 2012, o ministro das finanças disse claramente que a estratégia para a economia portuguesa era a consolidação orçamental e a estabilidade financeira. Eu não percebi! Como que por milagre – provavelmente o mesmo que irá impedir que a economia caia mais que os 2,8% previstos – percebeu que eu não estava convencido e resolveu explicar melhor, explicar como só ele sabe: a consolidação orçamental e a estabilidade financeira vêm trazer credibilidade, que é o que a economia precisa!


Continuei sem perceber. Mas como não houve mais milagres fiquei a pensar que o problema era meu!


Estava eu nisto quando eis que surge novo milagre: o ministro da economia veio falar! Bom, apenas meio milagre. Milagre completo seria se, para além de simplesmente falar, dissesse alguma coisa. Alguma coisa importante, bem entendido, e com algum jeito!


O Álvaro disfarçou-se de vendedor da banha da cobra e veio dizer alto e bom som que há vida para além da austeridade. É pouco? Não é nada?


Não, não! É muito! Afinal o homem está a fazer-se, já não falta tudo para termos aí um ministro da economia à séria. Produziu o seu primeiro sound byte! Coisa de que não o julgávamos capaz e que, como bem sabemos, é a essência da condição de ministro!


Pela minha parte fiquei muito feliz com esta entrada do ministro da economia – na conferência “O Estado e a Competitividade da Economia Portuguesa”, organizada em Lisboa pela Antena 1 e pelo Negócios – e à espera do viria a seguir. Do que seria essa vida!


Explicou que a isso se chamava combater a subsídio dependência, reformar sem medos e receios contra lóbis e proteccionismos. Bem dito, gostei de ouvir! Chamo a isso limpar a economia, são medidas de higiene económica. Mas então por que é que, quando se apresenta um orçamento destes, não se fala das PPP? Por que é que, quando o escândalo das estradas está na ordem do dia - com o Estado obrigado a entregar aos concessionários 600 milhões de euros em razão de um contrato revisto à medida – subsistem medos e receios contra lóbis e proteccionismos?


Depois, para compor o ramalhete, umas não medidas (não se pode voltar a relançar o crescimento económico através de subsídios; não se pode voltar a obras públicas faraónicas…) e uma grande novidade, que nem estamos fartos de ouvir: "Portugal tem de levar a cabo as reformas estruturais de que precisa”!


Ora aí está um governo cheio de ideias para a economia! E a gente a pensar que o governo não passava duma gigantesca Repartição de Finanças… Estamos bem entregues! Estamos, estamos…


 


 


 

DAS AUTO-ESTRADAS AOS CAMINHOS

Por Eduardo Louro 


 


Andámos anos e anos a fazer auto-estradas, por todo o país, muitas vezes umas ao lado de outras. Sem dinheiro para as portagens, deixamo-las ao abandono e, agora, restam-nos apenas dois simples caminhos: o caminho da Grécia e o da Irlanda!


Nunca soubemos bem para onde íamos - sempre tivemos problemas de orientação - mas parece-nos que vamos a caminho da Grécia. Lá de Bruxelas, dizem que vamos no outro, a caminho da Irlanda. Mas nós bem sabemos como eles se vêm gregos com a nossa sinalética, que nunca foi famosa!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ERRO DE TERAPÊUTICA

Por Eduardo Louro 


 


No segundo semestre de 2007 a crise financeira internacional começou a mostrar a cara. Era uma crise com origem no subprime americano, que toda a gente já sabe o que é e no que deu. Um ano depois, em 2008 – faz agora três anos – surge o acontecimento que veio virar do avesso o sistema financeiro internacional: a falência do Lehman Brothers.


Por cá atravessávamos uma grave crise económica, com o país já em recessão, depois de quase uma década sem crescimento económico. Depois da entrada do euro, no início da década - e do século e do milénio – a nossa economia não mais crescera. Roubaram-lhe o único instrumento de crescimento que conhecia: a desvalorização cambial!


Mas o governo de José Sócrates, pese embora os sinais de capacidade reformadora, e até de controlo orçamental, que começara por dar, não quis saber. Já a pensar nas eleições do ano seguinte, Sócrates anunciava que Portugal, porque se tinha preparado bem, não seria afectado pela crise internacional e o ministro da economia – o incontornável Manuel Pinho – declarava solenemente o fim da crise. Até às eleições de 2009 todos sabemos o que se passou, com BPN, aumento dos salários da função pública, tudo a esconder e negar a crise. Que, só depois das eleições, o governo finalmente admitiria!


Mas já não era crise, velha de anos, que Manuel Pinho declarara extinta. Não! Agora diziam que era a crise importada, a crise internacional, a tal que Sócrates garantira de que estávamos a salvo. O país começara a perceber que Sócrates mentia, que a crise era a mesma, a velhinha, que não nos largava. Que, PEC atrás de PEC, se agravava a cada dia. A oposição nega qualquer vestígio estrangeiro no genes da crise e o Presidente da República só já depois da entrada em funções do actual governo – que, agora que já não é oposição, também muda de posição - se converte à ideia de que tudo isto provém lá de fora, e que é mesmo a União Europeia a culpada disto tudo.


A crise é evidentemente de origem interna e resulta de mais de uma década sem crescimento, do esgotamento de uma economia desestruturada e viciada. O resto veio depois! Os mercados financeiros, que começaram a pressionar Grécia pela simples razão de que não poderia ser de outra forma – não foi por critérios económicos que a Grécia integrou a UE, foi razões de estratégia geopolítica, cujo preço algum dia teria de ser pago – e, logo a seguir, a Irlanda, porque teve que acorrer ao seu sistema financeiro – esse sim atingido pelo efeito subprime – voltaram-se para Portugal. Por uma simples razão: repararam que um país que não cresce há mais de dez anos, e que nem sequer tem condições de inverter esse bloqueamento, não consegue pagar o que deve.


É esse o nosso problema. O nosso défice orçamental e a nossa dívida pública não seriam problema nenhum se não fosse a nossa crise económica endémica. Não conseguimos, nem ninguém consegue, pagar o que deve quando está cada vez mais pobre! E quando um credor percebe isto não só não empresta nem mais um chavo como exige de volta o que emprestou…


A troika, à boa escola do FMI, aplica a mesma receita para todos os casos, fazendo crer que a terapia não tem que ter a ver com a doença. Que lhe basta ser punitiva: o tratamento está na punição severa!


É como alguém estar com uma doença hepática, eventualmente até por alguns excessos alcoólicos e, em vez de se lhe retirar o álcool e tratar do fígado, lhe receitar exercício físico. Do mais violento e com umas cervejas para matar a sede!


Discute-se agora – tanto e nas mesmas bases (de conveniência política ou ideológica) como, há bem pouco, se discutia se a crise era interna ou externa – se as medidas poderiam ser outras. Se, afinal, isto poderia ser diferente. Claro que sim, que as medidas poderiam ser outras, as acertadas para a doença. Se o mal está na falta de crescimento, medidas que agravam o mal resolvem o quê?


Mas não podemos esperá-las de quem já se percebeu que não está preparado para as exigências do momento. E esse é, há muito, outro dos nossos grandes dramas!


 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Futebolês #97 SORTEIO

Por Eduardo Louro


O futebolês também se faz de termos correntes da nossa língua como este: sorteio. Que tem a ver com sorte, às vezes com sorte e azar, e que tanto serve de instrumento de marketing, e mesmo de comunicação – então em tempos de crise como este não há mãos a medir, seja para ajudar a vender qualquer coisita ou pura e simplesmente para enganar os mais incautos – como instrumento de receita para qualquer iniciativa, das mais nobres às mais obscuras, ou ainda como instrumento de alimentação de fantasias excêntricas de milhões de pessoas a sonhar com milhões. Só que em futebolês não tem o mesmo significado: limita-se à arrumação dos jogos numa competição, o sorteio dos jogos para os campeonatos nacionais, para as diferentes taças, para as competições de clubes e de selecções da UEFA e da FIFA. Que têm a ver com sorte – basta ver, por exemplo, como muita gente fala das suas expectativas de êxito com a sorte nos sorteios – mas também com muita manipulação de interesses. Sempre financeiros, como não poderia deixar de ser!


No campeonato nacional os três grandes não se podem defrontar nas cinco primeiras jornadas: não vindo daí mal ao mundo não deixa de ser uma manipulação! Já nas provas da UEFA, quer de clubes quer de selecções, e nas de selecções da FIFA, a coisa pia mais fino: os sorteios são completamente manipulados para favorecer os mais fortes, com a história dos potes e dos cabeças de série, que evitam caprichos da sorte e, com eles, indesejáveis processos de canibalização dos mais fortes.


Ainda agora, neste sorteio do derradeiro play-off de apuramento dos mais atrasados na corrida à fase final do Euro 2012, para onde a nossa selecção se deixou cair, se viu que os designados cabeças de série se não podiam defrontar, sem que ninguém tivesse percebido muito bem por que razão, por exemplo, a Irlanda ficou com esse estatuto em desfavor da Turquia. Pela parte que nos toca veremos se justificamos esse estatuto quando, daqui por um mês, tivermos que nos haver com a Bósnia!


Não fosse o futebol um jogo com forte dose de imprevisibilidade – afinal aquilo que o torna no mais apaixonante dos jogos – e seriam sempre os mesmos a ganhar. Quer dizer, aqueles que teriam por principal missão defender o jogo, são os que mais agridem a sua principal fonte de vida: precisamente essa ideia mítica de que são onze contra onze, que a bola é redonda e que, no fim, qualquer um pode ganhar. Um paradoxo que o dinheiro ajuda a explicar!


Em Portugal, a prova onde o sorteio é mais flagrantemente manipulado é a Taça da Liga – chamo-lhe assim porque, com os patrocinadores a mudarem todos anos, só mesmo assim poderá ser conhecida – onde não é possível evitar a presença de pelo menos um dos grandes na final. Não fosse a tal imprevisibilidade, e também algum facilitismo circunstancial de algum desses grandes, e o desígnio do sorteio ditaria mesmo uma final vedada a intrusos. É que, doutra forma, não haveria nem patrocinadores nem espectadores!


A UEFA é o mais descarado manipulador de sorteios, quer na milionária Liga dos Campeões quer na pobre Liga Europa, porque o truque é o mesmo. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que uma equipa de um clube que não integre o grupo dos tubarões passar da fase de grupos! Longe vai o tempo da Taça dos Campeões Europeus, disputada apenas pelos campeões de cada país que se defrontavam em regime de sorteio puro!


As grandes potências europeias do futebol – Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha – asseguram logo quatro representantes cada. Passa-se ao sorteio e as equipas são arrumadas em quatro potes: no pote 1, os multimilionários, no 2, os ricos, que vêm a seguir, no 3, os pobres e, no 4, os bobos da festa, constituindo-se cada grupo por um de cada pote. Apurando-se os dois primeiros, está-se mesmo a ver que possibilidades restam para os pobres e para os bobos da festa!


Segue-se o sorteio do calendário que estabelece a ordem dos jogos. Que, para que nada corra mal, é também manipulado tratando de, na fase decisiva do calendário da prova – o último jogo da primeira volta e o primeiro da segunda – agendar os dois jogos consecutivos entre o milionário e o bobo da festa. Ou seja, se alguma coisa estiver a correr menos bem ao milionário – veja-se o caso actual do Manchester United, do grupo do Benfica, com apenas 2 pontos à entrada do último jogo da primeira volta, que terá agora oportunidade de fazer seis nos dois jogos com o bobo que veio da Roménia – é-lhe dada a oportunidade dar uma sacudidela na crise e de embalar para o lugar que desde sempre lhe está reservado.


Passada esta fase, e apurados naturalmente o milionário e o rico, por esta ordem, segue-se a fase dos jogos de eliminação directa. À sorte? Qual quê, sempre o milionário contra o rico!


Excepcionalmente – a excepção que confirma a regra – os sortilégios do futebol pregam uma partida a esta gente. Aconteceu uma única vez - em 2004 – e deu numa irrepetível final entre o Mónaco e o Porto. Que o Porto soube aproveitar bem e Mourinho melhor! Em 2004, quando até a  Grécia foi campeã da Europa, à nossa custa.


Se, como se diz, a sorte dá muito trabalho, estes sorteios dão ainda mais!


 

CORAGEM

Por Eduardo Louro 


 


O país levou com mais um soco no estômago, para usar a expressão celebrizada pelo próprio primeiro-ministro. Mais que as medidas anunciadas para o Orçamento do Estado do próximo ano creio que o golpe mais duro do murro, aquele que espetou o estômago já vazio dos portugueses nas costelas, foi ver o primeiro-ministro falar durante meia hora de mais e mais impostos, de mais e mais austeridade, sem uma única palavra para a economia, sem uma única referência às reformas fundamentais sempre adiadas e sem apontar o dedo às vacas sagradas instaladas no regime.


Como não acredito que o primeiro-ministro se limite a comunicar sacrifícios aos portugueses por mera inabilidade política – apesar de disso ser, e há muito, frequentemente acusado – tenho de concluir que ele o faz pela simples razão de que o governo não tem outras soluções que não aumentar impostos e cortar nos magros rendimentos do trabalho. No governo anterior chegamos de PEC em PEC onde chegamos. Neste, vamos sucessivamente mais longe que a Troika para chegar a lugar nenhum.


No governo anterior Sócrates mentia-nos, apresentava cada PEC com a arrogância e o cinismo de quem nada tinha a ver com o anterior e falava como um lunático de um país que não existia. Neste, Passos Coelho vai para além da troika com a humildade que apreciamos, pede desculpa e mostra-se até arrependido de aqui ter chegado. Os seus gabam-lhe a coragem, como os de Sócrates lha gabavam – mais a determinação e a força do animal feroz que puxava pelo país - que nós não encontramos. Vemos, sim, cobardia! A cobardia do mais do mesmo, a cobardia de quem ataca os fracos para não tocar nos fortes.


Claro que sei que é de medidas destas que, numa lógica cada vez mais difícil de entender, os nossos credores internacionais estão à espera. Já vieram, de resto, aplaudi-las com a Srª Merkel a dizer já que Portugal está no bom caminho. Mas não está, porque este é o caminho da Grécia, que já vimos onde vai dar!


O velho desvio colossal – que foi e deixou de ser sem nunca ter sido explicado – vai agora, ao que nos diz o primeiro-ministro, nos 3 mil milhões. Este buraco, que será tapado por receitas extraordinárias - eufemismo de contabilidade criativa -, e por isso irrepetíveis, comporta os ditos 600 milhões do da Madeira (hão-de ser mais, é só esperar mais uns meses …) e mais um ou outro dos esqueletos encontrados nos armários, até porque os mais robustos desses esqueletos foram directamente a défices anteriores. A fatia mais significativa destes 3 mil milhões vem da execução do orçamento deste ano, por descontrolo na despesa mas, fundamentalmente, por derrapagens na receita. Porque a actividade económica caiu bem mais do que o esperado e algumas das receitas fiscais não passam de miragens!


É aqui Passos Coelho se engana! E nos engana a nós, pelo menos enquanto não conhecermos as premissas macroeconómicas do orçamento para o próximo ano. É que os efeitos recessivos das medidas anunciadas são, esses sim, colossais e terríveis na procura interna. E é que a economia portuguesa depende em 2/3 do mercado interno. E é ainda que, se outras razões não existissem, bastariam as limitações de crédito para limitar o crescimento das exportações. A única parte da economia que cresce é a informal que, se serve de pequena almofada social, não contribui para a receita!


Passos Coelho garantiu hoje no Parlamento que não iria andar a anunciar pacotes de austeridade uns atrás dos outros. Só há uma razão para que não tenha voltado a mentir: é já não haver por onde. Lá para meados do próximo ano voltaremos a ouvir falar de desvio orçamental e poderá ser que, então, quando já nada mais haja para retirar aos portugueses, se ouça falar de energias alternativas, de renegociação de parcerias público-privadas (PPP), de responsabilização criminal dos responsáveis por certos contratos a que o Estado está agarrado ou das denúncias de Paulo Morais (o antigo vice-presidente da Câmara Municipal do Porto e actual responsável da TIAC, Transparência e Integridade Associação Cívica) – entre as quais a de que, nos últimos anos o Parlamento se transformou num escritório de representação de negócios (na última legislatura eram 70 – 1/3 – os deputados que ocupavam lugares na administração de empresas que tinham negócios com o Estado e, na Comissão Parlamentar de Obras Públicas, quase metade dos deputados eram administradores de empresas do sector).


Coragem, coragem era enfrentar estas formas de crime organizado. Coragem era chegar ao FMI e à UE e explicar-lhes que o ajustamento que Portugal tem que fazer não é possível em dois anos e que austeridade é um meio – a usar criteriosamente – e nunca um fim. Explicar-lhes que um programa de ajuda tem de ajudar, não pode matar! E mostrar-lhes que temos soluções, que o governo não passa o tempo a fazer simples operações aritméticas para chegar a um número qualquer que sempre lhe haverá de fugir, mas a trabalhar num programa de reformas e de desenvolvimento económico para o país.


 


 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

VEM AÍ!

Por Joana Louro *


 


Há momentos na nossa vida em que tudo parece ficar suspenso…


Sabemos que o mundo lá fora pula e avança, mesmo quando o homem perde a capacidade de sonhar, mas isso pouco importa. Sabemos que existe política e actualidade, e o orçamento da nossa desgraça para aprovar. Sabemos das medidas de austeridade e dos cortes porque há uma Troika que nos impõe padrões e limites e que nos confisca a liberdade e a autonomia que desbaratamos. Que existe uma União que se chama Europeia que falhou brutalmente, falhou o conceito e destruiu o sonho de gerações unidas pelos ideais da democracia, da liberdade, da paz, do desenvolvimento e do bem-estar para todos. Sabemos tudo isto, e tudo isto pouco importa…


Sabemos que existe futebol, e Benfica, e até uma Selecção Nacional que não encanta e não garante o apuramento. Um Sistema Nacional de Saúde que foi sendo destruído e está à beira da extinção. Sabemos que as agressões ambientais deste mundo dito civilizado terão consequências dramáticas num futuro bem próximo. Que as catástrofes ambientais ocorrem a cada instante e que o Planeta Terra está beira do colapso da sustentabilidade…


Preocupamo-nos com tudo isto e, no entanto, há momentos em que tudo isto pouco importa. Porque há momentos na nossa vida em que tudo parece ficar suspenso… Em que tudo o que tínhamos por importante parece deixar de o ser… Em que tudo se relativiza, tudo ganha diferentes proporções… Em que as prioridades se invertem e a nossa vida fica virada do avesso. A chegada de um filho é seguramente um desses momentos!


Tudo muda e nós mudamos. Durante 9 meses assisti às transformações do meu corpo que gerava dentro dele uma filha, que sem sequer conhecer já amava incondicionalmente. Assisti ao seu crescimento e ao entusiasmo de cada ecografia. Aos primeiros discretos movimentos. E aos grandes pontapés, como quando parecia partilhar comigo o prazer de um proibido crepe de chocolate. Vivi esta gravidez com a alegria de uma criança... ou de uma mãe que gera uma criança. Entre dois mundos: um, lá fora que, imperturbável, continuava a sua dinâmica sempre em paralelo com este, feito de um turbilhão de novas sensações. Nunca chocaram, nem um anulou o outro. Seguiram lado a lado. Durante estes 9 meses trabalhei normalmente, conclui um mestrado, vivi uma vida normal, sem que a forma de ver ou pensar o mundo se tivesse alterado substancialmente.


 No entanto, a poucos dias do seu nascimento tudo mudou. Há mesmo momentos da nossa vida em que tudo parece ficar suspenso: não há notícia que me importe, não há jornal que prenda a minha atenção, não há assunto médico que me apeteça estudar… É impressionante como tudo muda, toda a minha atenção está focada na sua chegada, nas fraldas que vou mudar, nas roupinhas que vai vestir, nos beijos que lhe quero dar, no rosto que vai ter, na maneira como irá crescer…


Não posso negar que gostaria que fosse um Mundo melhor a receber a minha filha, dentro de dias. Mas não é! Resta-me o conforto de pensar que, pela minha parte, tenho tentado dar sempre o meu pequeníssimo contributo para fazer deste Mundo um sitio um pouco melhor… E a certeza que Ela o tornará um sítio muito melhor!


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

PATETICES

Por Eduardo Louro 


 Carlos Queiroz: "Comigo, já estávamos no Europeu"


"Comigo à frente da selecção Portugal já estaria apurado para o campeonato da Europa"!


Nem mais. E nós que pensávamos que os ares de Teerão lhe poderiam fazer bem à cabeça!


Mas não. Bastou que o seu Irão goleasse a fortíssima selecção do Bahrein – reduzido a 10 logo no primeiro minuto, no que foi a expulsão mais rápida na história do futebol – e que a selecção nacional regressasse aos seus tempos para que fizesse logo, sem perder tempo, prova de vida.


E, com este Queiroz que há muito perdeu a cabeça, prova de vida é isto! E quando não é isto…é pior!


Mas nem tudo é mau. É que também se pronunciou a propósito do tema mais importante da actualidade: Hulk! Não, não foi para dizer se ele deve esperar para cumprir pena de prisão ou pirar-se já daqui para fora. Foi mesmo para desmentir que tivesse passado pela cabeça de alguém convidá-lo para a selecção nacional!


E disse que isso era uma patetice. E quem o diz é pateta!


Eu, que ouvi ontem Pinto da Costa afirmar que o Carlos Queiroz lhe havia pedido para consultar o Hulk nesse sentido – e aproveitar para acrescentar que o jogador recusara de imediato, porque aspirava legitimamente a jogar na selecção brasileira, como ontem mesmo se confirmava com a primeira titularidade – gritei: Bingo! Carlos Queiroz chamava pateta a Pinto da Costa, coisa que muita gente pensa mas ninguém ousa dizer… Logo ele, por quem, como se sabe, Pinto da Costa nutre pública simpatia!


Pena que, com tanta patetice, esta não passe de mais uma. Assim ninguém leva a sério o que seria a sua mais forte prova de vida: chamar pateta a Pinto da Costa!

UE VIRTUAL

Por Eduardo Louro 


 


A União Europeia (UE) já não existe. É meramente virtual!


Começou a desaparecer quando deixou de haver quem mandasse, como sempre acontece com tudo o que é organização. A velha questão da liderança!


À falta de quem mandasse, a Alemanha, com a Srª Merkel, chegou-se à frente e começou a falar grosso. E começou a mandar, coisa em que, no fundo, nem os alemães estavam assim tão interessados. Ao ver isso a França de Sarkosy começou a pôr-se em bicos de pés – não leve a mal Mr Sarkozy, isto de bicos de pés não é ironia -, e a aconchegar-se ao lado da senhora, a dar a ideia de que haveria um eixo franco-alemão a tomar conta do estabelecimento. Mera ilusão, não saiu dali nada de jeito!


A partir daí a desagregação acelerou-se. Cada estado membro passou a preocupar-se apenas com os interesses do seu próprio país, e daí até que cada líder nacional passasse a preocupar-se com o seu futuro político imediato foi um ver se te avias! As decisões já não eram tomadas em função do interesse da União, nem sequer do interesse do país membro, mas do interesse imediato de quem aí ocupava circunstancialmente o poder.


E a UE passou a ser governada com os olhos nas eleições que todas as semanas ocorriam num qualquer canto da Europa. Passou a ficar refém do eleitorado de um estado alemão qualquer, de um município francês ou austríaco. Ficamos suspensos das eleições finlandesas, como nós portugueses nos lembramos bem. E, de repente, damos com a União à mercê, já não dos interesses particulares de cada país membro, nem sequer das conveniências eleitorais deste ou daquele líder nacional, mas do simples jogo político de um qualquer pequeno partido que integre uma coligação qualquer no poder de um qualquer pequeno país.


A Eslováquia encarregou-se de mostrar com toda a clareza que a UE já não existe. A ratificação da medida salvadora – o reforço do Fundo de Estabilização Financeira (FEF) – que os europeus saudaram em 21 de Julho ficou presa no parlamento eslovaco nas mãos de um pequeno partido. Uma decisão fundamental que foi de férias e, quando regressou, três meses depois, ficou à porta do parlamento de um país com três milhões de europeus!


Mas a senhora Iveta Radicova – primeira-ministra eslovaca – já veio dizer que a birra do seu parceiro de coligação vai passar. Que na próxima semana a coisa se resolverá!


Surreal!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

ASSIM NÃO, PAULO BENTO. ASSIM NÃO!

Por Eduardo Louro 


Tanta tranquilidade também não (SAPO) 


Uma decepção enorme. O que se dizia fácil, afinal não era|


Paulo Bento não tem culpa de nenhum dos jogadores portugueses atravessar momentos exuberantes de forma. Também não tem culpa que Pepe, Coentrão e Hugo Almeida (sim, é o que temos) estejam incapacitados. Não tem seguramente toda a culpa que Raúl Meireles nunca tenha jogado tão mal, que Moutinho - de quem se diz não saber jogar mal – não esteja a jogar nada, ou que Danny tenha feito não sei o quê para não vir. Mas terá alguma!


E Paulo Bento tem culpa – toda a culpa – quando apresenta uma equipa com Hélder Postiga. E com João Pereira. E com Rolando. Tem culpa quando deixa de fora um jogador como Bosingwa. E tem a máxima culpa quando diz que não precisa dele porque está bem servido. E tem a máxima culpa quando coloca a sua mania de mauzão acima dos interesses da selecção. Refiro-me a Ricardo Carvalho, como é evidente! Não é rijo quem quer, é rijo quem pode, e Paulo Bento, aqui, não pode. Simplesmente não pode!


Nunca a selecção jogou tão mal como nestes dois últimos jogos. Nem nos dois primeiros jogos deste apuramento, que eram os tais da desgraça e dos tempos que tinham ficado para trás, enterrados nas culpas de Carlos Queirós.


Assim não, Paulo Bento. Assim não!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O REI VAI NU

Por Eduardo Louro 


 


Há gente que adquire o estatuto de dizer o que lhe apetece – disparates, lugares comuns ou verdades de La Palisse – sempre com plateia disponível para os ouvir e medias prontos a amplificar.


Refiro-me a António Barreto e não é por ele vir agora garantir que não quer ser candidato presidencial depois de, não sei quem - se calhar ele próprio - nem por que carga de água, o ter projectado como presidenciável. É por dizer coisas como as que hoje disse!


"É possível que Portugal, daqui a 30, 50, 100 anos não seja um país independente como é hoje",


É possível? Quem diria!


"Com a crise que estamos a viver há alguns anos e com as enormes dificuldades que vamos ter para resolver e para ultrapassar, põe-se sempre o caso de se saber se daqui a dez, 30 ou 50 anos Portugal será o que nós conhecemos hoje".


Põe-se o caso de saber? Mas não se sabe já que é possível que não seja um país independente como é hoje? E os outros países? Serão o que conhecemos hoje? Mas isto faz algum sentido?


Depende da nossa liberdade e das nossas decisões de hoje saber o que vamos construir daqui a um século", garante António Barreto.


Francamente! Mas pronto, a notícia deste final de dia é mesmo esta: Portugal pode deixar de existir como país! Nem mais!


Não sei se é esta a grande notícia. Eu acho que é outra: o rei vai nu!

domingo, 9 de outubro de 2011

A PÉROLA DA DEMOCRACIA

Por Eduardo Louro 


 


O plebiscito a Alberto João Jardim correu como de costume. A Comissão Nacional de Eleições diz que detectou irregularidades – pediu até a intervenção da polícia -, todos os partidos da oposição reclamam de irregularidades em barda. Carros da Empresa de Electricidade da Madeira andaram numa roda-viva, não a reparar avarias na rede eléctrica mas a transportar eleitores. Carros do governo regional e dos municípios seguiram-lhe as pisadas. Para que as pessoas votassem, para combater a abstenção. E, para que votassem bem, sem se enganarem evidentemente, muitas dessas pessoas foram acompanhadas até à cabine de voto.


A democracia na Madeira é assim: liberdade de expressão, liberdade de imprensa e eleições livres, decididas pelo voto secreto e exercido nas mais amplas condições de liberdade!


 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Futebolês #96 GOLO MADRUGADOR

Por Eduardo Louro


Cedo erguer – madrugar – é um dos indicadores geralmente associados ao trabalho e à produtividade. É normal, sabemos que é de manhã que começa o dia e sabemos que é de manhã, pela fresquinha, que as nossas capacidades estão mais disponíveis.


Nos países mais desenvolvidos, mais ricos e mais produtivos o dia de trabalho começa cedo, bem cedo. Coisa que cá mais pelo sul não é assim tão bem vista.


Temos também a ideia que o inverso, a propensão para as noitadas - os noctívagos nunca serão madrugadores – é coisa de foliões, de gente mais dada á folia que ao trabalho. Claro que sabemos que há muito boa gente que não gosta de madrugar sem que sejam exactamente uns calões e preguiçosos, há pessoas que são mais produtivas à noite e há muitos que simplesmente não gostam de dar os bons dias a ninguém. E há até gente que trabalha por turnos, umas vezes de dia outras de noite, e há mesmo quem tenha de trabalhar de noite para que os outros, os tais madrugadores, quando madrugam, já possam contar com um sem número de coisas sem as quais nunca poderiam fazer aquele figurão.


Mas nada disto invalida aquela velha ideia de que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Os méritos do madrugador serão sempre mais reconhecidos que os do noctívago!


Com os golos as coisas não se passam exactamente assim. Pelas simples razão que todas as alturas são boas para os marcar, um dos mais usados lugares comuns do futebolês.


Daqui se percebe que um golo madrugador não é o que se marca de madrugada, bem cedo, logo pela manhã. Mesmo sendo todas as alturas boas para marcar golo, a madrugada nunca será tempo de marcar golos pelas simples razão que também os jogos de futebol não gostam de dar os bons dias a ninguém, só conhecem a tarde e a noite. Ia dizer que nunca a manhã, mas já não é verdade, porque as televisões já vão impondo também jogos nessa primeira parte do dia. Bem, mas é já uma manhã bem alta, nada madrugadora. O golo madrugador é o golo logo no início do jogo, independentemente da hora a que for marcado, todas boas como já vimos; o golo tanto pode madrugar às três da tarde como às nove da noite.


Também o golo madrugador dá saúde e faz crescer. Quer dizer, dá saúde psicológica à equipa retirando-lhe a pressão do resultado, e fá-la crescer, dando-lhe mais confiança e tornando-a, assim, maior.


Já o golo noctívago, tardio – mesmo já no final do jogo – pode ter várias caras. Será épico se vier reverter um resultado negativo e pôr um ponto final no sofrimento e na ansiedade que foi dramaticamente crescendo ao longo do jogo. Será pouco mais que indiferente se nada vier alterar.


O Sporting é já o campeão dos golos madrugadores neste campeonato. Não há jogo que não comece com um golo do Sporting. Ou com dois e até já com três! Quem chegar um tudo-nada atrasado aos jogos do Sporting já não tem hipótese de ver golos. E lá seguem eles de vento em popa, cheios de moral, no seu oitenta até que o oito regresse.


E no entanto tudo isto começou com aqueles três golos noctívagos, bem tardios, de Paços de Ferreira. Andavam eles pelo seu profundo oito quando, de repente, lhes caem do céu aqueles três golos fora de horas. Logo a seguir fizeram jackpot em Vila do Conde: dois golos madrugadores de nada lhes teriam valido não fosse o vadio que lhe apareceu já alta noite. Desde então, sempre a encher até ao actual oitenta, foram quatro ou cinco jogos consecutivos de golos madrugadores. Daí que tenham entrado agora na fase de passar mais de metade dos jogos a defender com dez, todos de unhas bem afiadas, o seu precioso golo madrugador!


0 Portugal-IslândiaTambém a selecção, no jogo com a Finlândia que há pouco acabou, usufruiu de um golo madrugador. Não tanto pelo tempo de jogo, porque aí quem ia madrugando eram os finlandeses, mas porque foi logo ao primeiro remate. Depois as coisas ainda se complicaram – no 3-2 - mas lá acabou por chegar a tranquilidade do Paulo Bento com dois golos já noite dentro e antes do último daqueles rapazes da terra do vulcão - através de um penalti escusado e cometido pelo Rolando que, com jogo no Dragão, não se lembrou do Fucile nem que o árbitro não era português - já quando, bem alta, a noite fechava a porta.


Golos são golos, madrugadores, noctívagos, ou certinhos e de bons costumes. E sofrer sete golos em dois jogos é mau de mais para uma selecção como a nossa. Mas sofrê-los com as selecções de Chipre e da Finlândia…


 

NÃO BASTA FUGIR DA FOTOGRAFIA

Por Eduardo Louro 


 


Alberto João Jardim pretende que as eleições do próximo domingo, na Madeira, sirvam para dar uma sova ao governo e ao poder político de Lisboa.  Ao dizer isto, Jardim não está, apenas e mais uma vez, a exorbitar do seu estilo truculento, populista e demagógico para acicatar ânimos e mobilizar votos que lhe minguem os prejuízos. Ao dizer isto está também a pretender inverter o sentido destas eleições, incutindo no eleitorado a ideia de que elas se destinam a julgar o governo da república e aquela gentalha de Lisboa e não a sua acção e a do seu governo. Está pôr-se de fora, e só não digo a desresponsabilizar-se porque, para isso, seria necessário que ele fosse responsável. E não é, porque não passa mesmo de irresponsável!


Esta inversão do ónus, em que Jardim é especialista, já seria suficiente para desvirtuar os resultados eleitorais do próximo domingo. Se juntarmos o que há décadas se passa na Madeira – o défice democrático, o Jornal da Madeira, o caciquismo, etc. – sobejarão razões para desconfiarmos do que venham a ser esses resultados. Se nada disto é exactamente novo e substancialmente distinto de anteriores processos eleitorais, acresce agora e ainda outra e decisiva razão para fazer destas eleições as mais mentirosas de sempre, e esta da responsabilidade do governo nacional. Ao deixar na gaveta o programa de resgate financeiro da RAM, e permitir que as eleições se realizem sem que os madeirenses saibam exactamente o que os espera, sem conhecer a factura da governação irresponsável de Jardim, o PSD, o governo e Passos Coelho estão a contribuir activamente para que estas eleições sejam, não só as mais fraudulentas de sempre, mas também as mais perigosas para o futuro desta região autónoma.


É que, se todos sabemos que Jardim não terá condições para governar a partir da próxima segunda-feira – em primeiro lugar porque não haverá dinheiro, e Jardim não sabe governar sem dinheiro, sem muito dinheiro e, em segundo, porque, depois de esconder a dívida como escondeu, não têm mínimas condições de negociação com quem quer que seja, em Lisboa ou em Bruxelas – os madeirenses poderão sempre argumentar que foram enganados. E, aí, por Lisboa, já nunca por Jardim! E pelos inimigos da Madeira, essa entidade criada por Jardim á luz dos manuais de Salazar, que transforma os que o contestem em inimigos da Madeira, como Salazar os transformava em inimigos de Portugal.


Passos Coelho não quis ser visto ao lado de Jardim. Mas só isso, nada mais. Não se quis comprometer, mas acabou comprometido! Não basta fugir da fotografia!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

AMÁLIA

 


Por Eduardo Louro 


 


 


 


 


 


 


 


  Amália partiu há doze anos. Há dois recordava-a assim


 

STEVE JOBS

Por Eduardo Louro 


 


Quando há pouco mais de um mês Steve Jobs abandonou a presidência da Apple - mais que uma das maiores e mais capitalizadas empresas mundiais uma criação mítica e quase uma religião – poucos imaginariam que o seu fim estivesse tão próximo.  


Sempre disse que se chegasse o dia em que não pudesse cumprir os meus deveres e estar à altura das expectativas de CEO da Apple, seria o primeiro a informá-los. Infelizmente, esse dia chegou", escreveu Steve Jobs na carta que então escreveu ao Conselho de Administração. Menos de mês e meio depois destas palavras chegou o outro dia, o que roubou ao mundo um dos seus maiores génios criativos, um visionário que era também um humanista apaixonado pela filosofia e pela poesia.


Partiu o criador mas fica a criação. O Mac e o Ipad entram definitivamente na galeria dos grandes ícones universais. Os primeiros exclusivamente tecnológicos!


Steve Jobs: um rapaz da minha idade!


 

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...