
A - Almeida - Apanhado na traição das quedas, e obrigado a desistir muito cedo, no fim da primeira semana, João Almeida fez muita falta a este Tour. Pela condição que revelava, e pelo que se viu dos adversários, teria muito provavelmente um lugar reservado no pódio, em Paris. Com ele, nem a corrida não teria sido a mesma, nem Pogaçar, que tantas vezes o lembrou, teria uma passagem tão discreta pelos Alpes. E tão distante de tudo o que prometera anteriormente.
B - BenHealy - O irlandês da EF Education-EasyPost foi um dos maiores animadores da corrida. Foi-lhe por isso atribuído o prémio de super-combativo. Ganhou uma etapa, a sexta, a segunda mais longa, ente Bayeux - Vire Normandía 201 km. Foi terceiro na décima, quando no dia da festa nacional francesa vestiu pela primeira vez a camisola amarela. Que seguraria por mais dois dias. Voltou a atacá-la dois dias depois de a perder, na etapa 14, nos Pirenéus. E mais dois dias depois, na 16, do Mont Ventoux, onde foi segundo, com o mesmo tempo do francês Paret Peintre (Soudal-Quick Step).
C - Consonni - Porque dos últimos também reza a História. Este italiano, da Lidl-Treck, foi o último classificado, na 160ª posição, a quase 6 horas de Pogaçar. Alguém teria de ser!
D - De Lie - Não cometeu grandes feitos, o jovem belga Arnaut de Lie, da Lotto. Mas é dado como um bom corredor de equipa. Foi também ele um animador de várias fugas. É apontado como bom finalizador, mas o melhor que conseguiu foi um terceiro lugar, dois quartos e um quinto. Foi ainda sétimo na meta nos Campos Elísios.
E - Evenepoel - Remco Evanpoel, o terceiro do ano passado, e ali a meio termo entre os galácticos e os humanos, falhou em toda a linha neste seu segundo Tour. Ganhou o contra-relógio, fazendo jus à sua condição de campeão do mundo, mas nunca mais esteve à altura do estatuto que já tem. Acabou por abandonar, claramente derrotado.
F - Florian Lipowitz - O alemão da Red Bull-Bora conquistou o terceiro lugar final, esteve no pódio, e foi o vencedor do prémio da juventude. Revelou-se um ciclista completo: com grande capacidade na alta montanha e bom contra-relogista. E não tem medo de arriscar. Herdou a liderança da equipa. Roglic mostrou desde muito cedo que é mais passado que presente, e mais ainda que futuro. Esse pertence a este jovem alemão.
G - Gall - O quinto lugar na geral é um bom resultado para Felix Gall. O austríaco da Decathlon não fez uma corrida conservadora. Correu riscos, e atacou, aqui e ali. Não deu para muito, mas deu para deixar uma boa imagem.
H - Hautacam - Foi a subida ao Hautacam, nos Pirenéus, ali próximo de Lourdes, que fez a diferença neste Tour. Esta subida entrou pela primeira vez no Tour apenas há 31 anos, e não tem tido uma presença constante. Esta foi apenas a sétima vez que foi escalada. Também não impressiona em altitude como tantas outras montanhas, especialmente nos Alpes. Mas, depois dos 12 quilómetros do Col du Soulor, e dos mais de 3 do Col des Bordéres, aqueles 14 quilómetros com 8% de pendente média, são decisivos.
Foi aí que Pogaçar arrumou verdadeiramente com Vingegaard, ganhando-lhe mais de 2 minutos. O cheque mate viria logo no dia seguinte, na crono-escalada de Peyragudes.
I - Ion Izaguirre - O velho trepador espanhol, agora ao serviço da Cofidis, passou pelo Tour sem deixar qualquer marca. Sem honra, nem glória. O melhor que conseguiu foi um 42º segundo lugar, na 13ª etapa, a dos 11 quilómetros da crono-escalada de Peyragudes. No fim, foi 69º, a mais de 3 horas e meia.
J - Jordan Jegat - Este francês, da francesa TotalEnergies fechou, a quase 33 minutos, o top ten da classificação geral do Tour, o quadro de honra onde todos querem caber. E onde apenas dois franceses couberam. Às vezes não é preciso fazer muito para ficar no quadro de honra. A corrida de Jegat é disso um bom exemplo: apenas por duas vezes fez top ten na etapa - oitavo lugar na 15ª, a de Carcassone, e sétimo na 20ª, a penúltima, em Pontarlier.
K - Kevin Vauquelin - Na fase inicial do Tour, o jovem francês da Arkea, que tem vindo a alimentar os sonhos dos franceses (andam nisto há 40 anos), ainda chegou a parecer capaz de discutir um lugar entre os cinco primeiros e, principalmente, o primeiro lugar da juventude. Com a chegada à lata montanha rapidamente se percebeu que Vauquelin não conseguiria confirmar as prestações iniciais. Onde, em boa verdade, nunca fez mais que permanecer resguardado na roda dos da frente. Foi sétimo na geral. E compara bem com o seu compatriota no top ten: apenas por uma vez, na etapa 12, no Hautacam, fez melhor que a classificação final - foi sexto.
L - Luka Mezgec - Nem só de Pogaçar e Roglic se faz o ciclismo esloveno. Também se faz de Mezgec, já um veterano, que chegou bem antes deles - já vai para 10 anos na australiana Jayco AlUla. Foi o 152º, a mais de 5 horas e 40 minutos.
M - Milan - O italiano Jonathan Milan, da Lidl-Trek, conquistou o segundo mais importante classificação de uma grande corrida - a dos pontos, da camisola verde. E a única que escapou - ainda que por pouco, e apesar das etapas de montanha valerem bem menos pontos que as planas - a Pogaçar. Bastaram-lhe as duas etapas que venceu, mais os dois segundos lugares, e mais alguns sprints intermédios, num Tour corrido a grande velocidade, com muitas fugas e, por isso, pouco favorável aos sprinters.
N - Nelson Oliveira - O segundo corredor português em competição teve uma participação discreta. Tentou integrar uma ou outra fuga, entrou numa, chegou então a andar na frente, mas não resultou. A sua equipa, a Movistar, também não esteve melhor. Nem o seu líder, Enric Mas. Que abandonou, também sem honra nem glória.
O - Oscar Onley - Onley é uma das maiores revelações neste Tour 2025. Este britânico de 22 anos, da Picnic PostNL, revelou uma regularidade e uma força mental fora do comum. Foi quarto classificado, ficou à porta do pódio. Por 1 minuto e 12 não chegou ao terceiro lugar, nem foi o primeiro da juventude. E confirmou que está já no patamar mais alto do ciclismo mundial.
P - Pogaçar - Foi o ciclista mais forte e regular do Tour. Alcançou a quarta vitória e, a nada de anormal acontecer na sua carreira, fica em condições de superar as míticas cinco vitórias de Anquetil, Merckx, Hinault e Induráin. Nos Pirenéus parecia que bateria todos os recordes de vitórias neste Tour. Fosse por fadiga, fosse por alguma questão de saúde, ou fosse porque lhe faltou equipa, quando já lhe faltava João Almeida, não o pôde confirmar nos Alpes. Mas ganhar como ganhou (sempre) a Jonas Vingegaard. Ganhar com diferenças de tempo nada habituais. Ganhar ainda classificação da montanha, e ganhar quatro etapas, não deixa margem para qualquer tipo de especulação sobre uma eventual quebra na terceira semana do Tour.
Q - Quinn Simmons - O campeão americano de estrada, que representa a Trek, foi dos corredores que mais deram nas vistas no Tour. Não sei se houve alguma fuga onde ele não aparecesse. Se há ciclistas cuja função principal é mostrar as camisolas, com os patrocínios, este seria um dos mais eficazes. A que mostrou, mostrava a bandeira americana. Talvez fosse essa a ideia, porque ele também é conhecido por ideias ... menos simpáticas. Mas ... que foi valente, foi. Como foi incansável no apoio a Milan. Tudo isso valeu-lhe o prémio de melhor équipier do Tour.
R - Roglic - Chegou a parecer que a maldição do Tour seria este ano ainda mais penosa para Primoz Roglic. Quando parecia afundar-se, encontrou ânimo, força e motivação para resistir, acabando por salvar a segunda metade da prova. Acabou em oitavo, a 25 minutos e meio do seu compatriota. Mas é indiscutível que Roglic está decididamente na fase descendente da carreira. Que, depois de tantos anos no nível mais alto do ciclismo mundial, vai acabar sem uma vitória na sua competição mais importante.
S - Sepp Kuss - Aos 31 anos o americano da Visma foi uma sombra do grande ciclista que foi. Aquele que era considerado o melhor braço direito do mundo, o corredor que qualquer líder queria na equipa, foi dos mais discretos do Tour. Nem foi para ele, nem para Vingegaard, a quem nunca serviu ... de nada. Foi 17º na geral, a mais de 1 hora e vinte minutos, mas falhou sempre.
T - Thymen Arensman - É grande, gigante este neerlandês da INEOS. Mas é também um enorme corredor de bicicleta. Perdeu logo no início a hipótese de lutar por um dos lugares mais altos da geral, e acabou por se ficar pelo 12º lugar, a quase 53 minutos de Pogaçar. Mas fez um grande Tour, venceu duas etapas de grau de dificuldade extremo: Superbagnéres e La Pagne, ambas à frente dos dois do costume. E foi segundo noutra, no Mont-Dore. Se não tivesse perdido tanto tempo nas etapas iniciais ...
U - UAE - Mais uma vez, a maior e mais poderosa equipa de ciclismo do mundo, não esteve à altura dessa condição. Os erros, que terão porventura começado no escalonamento dos corredores, ficaram mais à vista com a queda e o abandono de João Almeida. Pogaçar raramente precisou de equipa, mas quando precisou, não teve!
V - Vingegaard - O dinamarquês da Visma chegou ao Tour disposto a conquistar o seu terceiro título, e igualar o seu rival, e único verdadeiro adversário, mas rapidamente Pogacar, muitas vezes até de forma impiedosa, lhe deixou claro que isso era ambição em excesso. Vingegaard foi o segundo melhor ciclista do Tour, e nem foi preciso esperar pelos seus piores dias (no contra-relógio de Caen e na subida de Hautacam) para perceber que não conseguia ser melhor que Pogaçar. Acabou o Tour ao mesmo nível do esloveno, não tanto pelo que tenha melhorado, mas talvez mais pelo que tenha Pogaçar piorado. Continua a demonstrar uma consistência impressionante: foi segundo em quatro etapas e terceiro em outras quatro, e subiu ao pódio de Paris pelo quinto ano consecutivo.
W - Woot Van Aert - O extraordinário corredor belga da Visma não teve neste Tour a influência que costuma ter nas competições em que participa. Como tinha acabado de ter no Giro. Ainda assim não passou ao lado, não é corredor para isso. Ganhou, brilhantemente - o único a derrotar Pogaçar - a última etapa, nos Campos Elísios.
X - Xandro Meurisse - Este belga, da também belga Alpecin, é mais um exemplo de um gregário, que trabalha no pelotão para os objectivos da equipa. Que, no caso desta equipa belga, é ganhar etapas. O que não é pouco. E ganhou três, por Philipsen, o seu principal sprinter e a primeira vítima das primeiras quedas, logo na primeira etapa. Pelo extraordinário Mathieu Van der Poel, a figura maior da primeira parte do Tour, até ter sido obrigado a desistir, vítima de pneumonia, que ganhou a segunda. E ainda pelo australiano Kaden Groves, que ganhou a 20ª, em Pontarlier, isolado.
Y - Yates - São dois, são gémeos, estavam em lados opostos, ao serviço dos dois monstros do Tour, e são dois grandes corredores. Mas os manos britânicos não estiveram ao seu nível, ambos. Simon, da Visma, que vinha de ganhar (surpreendentemente) o Giro Adam, ainda assim esteve melhor. Foi 15º na geral, ganhou uma etapa, no Mont-Dore, e viu-se ainda ser muito útil a Vingegaard. Adam, da UAE, foi 24º e raramente foi útil a Pogaçar.
Z - Zimmermann - Ao francês da Intermarché pedia-se que ajudasse Girmay a repetir a camisola verde do ano passado. Mas o corredor da Eritreia, desde cedo diminuído pelas quedas, não teve possibilidade de discutir essa classificação. Resistiu, quase que heroicamente, para terminar o Tour. Acabou na 132ª posição da geral, a 5 horas e um quarto. Georg Zimmermann, esse acabou fora de estrada, à 10ª etapa.