quinta-feira, 31 de março de 2011

DIA DAS MENTIRAS

Por Eduardo Louro


 


Sempre achei deveras bizarra esta institucionalização de um dia das mentiras em Portugal. Sempre embirrei com aquelas notícias parvas com que jornais e televisões ilustravam a mentira do primeiro de Abril. Porque era apenas a sua própria parvoíce que as distinguia das outras. Das outras notícias e das outras mentiras!


É que isto de haver um dia para mentir poderá até fazer sentido num sítio qualquer – estou absolutamente convencido que não há sítio nenhum onde se não minta todos os dias – mas em Portugal é que não faz qualquer tipo de sentido. Um dia das mentiras em Portugal? Só para rir!


O dia das mentiras, também conhecido por dia dos bobos, terá nascido em França que, com a adopção do calendário gregoriano, em 1564, passou as festividades de ano novo – que até aí se iniciavam com a Primavera e se prolongavam até àquele que, de acordo com o novo calendário, era o primeiro dia de Abril – para 1 de Janeiro. Parece que as pessoas não terão gostado muito disso e, chegados a 1 de Abril, passaram a enviar presentes estranhos e a fazer convites para festas falsas. Porque já não havia nada para festejar!


Desconfio que seja precisamente por este pequeno pormenor que o dia das mentiras pegou desta maneira em Portugal. Esta coisa de trocar as festas é muito portuguesa: mais, é muito da mentira portuguesa!


É hoje claro para a maioria de todos nós – creio eu, mas às vezes engano-me – que o nosso calendário está cheio de primeiros de Abril. Arriscar-me-ia a dizer que para aí nos últimos 20 ou 30 anos cada um deles teve 365 dias 1 de Abril. Nos bissextos 366! E que a mentira mais comum tem sempre a ver com festas!


Nos últimos três anos tem sido mesmo um festival. A mentira permanente, a negação da realidade!


A festa há muito que acabara mas todos os dias nos diziam que não. Qual quê? Há festa sim senhor! E, uns mais desconfiados que outros, lá íamos todos acreditando que estávamos em festa. É que, para além de mais fácil, também é muito mais bonito aceitar estar em festa do que em ressaca! E, ou muito me engano, ou nós gostamos mesmo que nos mintam: arranjamos uns narizes de Pinóquio para umas fotomontagens mas, depois, somos dados ao esquecimento e voltamos a votar neles. Nos mesmos que antes espalhamos por aí com nariz de Pinóquio!


Não sei quais serão as mentiras de hoje, deste 1 de Abril. Mas sei que, por exclusiva responsabilidade do Presidente da República – que ao aceitar ontem o pedido de demissão do primeiro-ministro transformou o governo em governo de gestão – amanhã ver-nos-emos privados da mentira repetida em cada um dos últimos 300 dias: “Portugal não precisa e não vai pedir ajuda externa”!

quarta-feira, 30 de março de 2011

PRIVATIZAR A CGD?

Por Eduardo Louro


 


Assim a jeito do que se passou com o problema da revisão constitucional no Verão passado, Pedro Passos Coelho (PPC) fala agora da privatização da Caixa Geral de Depósitos. Parece-me bem que o resultado irá ser o mesmo: não vai correr bem!


Claro que esta altura é bem diferente da de então. Agora estamos em pleno período pré-eleitoral e faz sentido falar destas coisas. Acresce que é preciso inventar dinheiro e, quando assim é, fala-se de privatizações e de aumento dos impostos. Por pouco tempo, é certo, mas ainda é possível falar destas duas coisas! Já não está longe o dia em que não há que privatizar. E em que, havendo impostos para aumentar - e isso há sempre - não há quem os pague!


Pertenço à velha escola que entende que há posições que o Estado deveria manter sempre que se trate de sectores da actividade que mexam com serviço público, entendendo o serviço público em sentido lato, isto é, alargado a tudo o que sejam serviços essenciais. Em tese, e apenas aí, permitiria ao Estado exercer a verdadeira regulação. E servir de referência de benchmarking!


Mas isto é escola. São teses que, infelizmente, nunca passaram na validação!


Porque nunca veio do Estado qualquer exemplo e, as coisas só não correram mesmo mal na gestão pública quando copiaram as empresas privadas congéneres. O modelo para o benchmarking esteve sempre do outro lado. O Estado apenas serviu para alimentar clientelas, criar e fazer crescer gerações que, de cartão na mão e influências nas costas, estabeleceram redes de interesses em vez de redes de competência.


Daí, e só por isso, que quando se fala de privatizar, ao mata-se eu responda com esfola-se!


E no entanto, se digo sim com palmas e tudo à RTP (há quantos anos deveria ter sido privatizada?) e à TAP, já sou completamente contra privatização da CGD. E especialmente nesta altura. Noutro tempo, noutra conjuntura, discuta-se. Agora, não!


Porque a CGD é precisamente um daqueles casos em que as coisas não têm corrido mal, que o benchmarking com o sector privado ajudou até correr bem. Porque acolhendo clientelas – como todos os outros e aqui até com regras tordesilheanas – os resultados não se têm ressentido disso, talvez porque, neste caso, a boa moeda – que também a há nas clientelas - tenha expulso a má moeda. E porque, como estamos fartos de ver, na hora do aperto (e não só) quando se trata da banca, é à porta do Estado que toda a gente vai bater.


Foi assim com a crise financeira internacional – a verdadeira, não a do Sócrates -, foi assim com o famigerado BPN e foi assim com as trapalhadas do BCP, que acabaram por levar a rapaziada da CGD, com Vara e tudo, para a sua administração. De resto, o episódio que esteve na origem da transferência da administração da CGD para o BCP – e as agora conhecidas vergonhosas e despudoradas condições da saída de Armando Vara – mostram que, no que toca a clientelismo, esta forte ligação entre a banca e o Estado não permite grande desfasamento entre público e privado!


Quero com isto dizer que, ao contrário do que se poderia esperar, hoje em dia não faz assim tanta diferença, e a privatização apenas teria a vantagem de produzir umas massas. Massas que, para reduzir a dívida, seriam pouco mais que uma gota de água. E que, nesta altura, seriam bem curtas!


Vender CGD agora seria um péssimo negócio. A actual conjuntura nacional não só desvaloriza as nossas empresas, e em especial os bancos, como desmobiliza os investidores. Com o banco, a quem a Fitch baixou hoje a notação em dois níveis, para BBB+, desvalorizado, e com os investidores virados para outro lado, a privatização seria ruinosa.


Há sempre aquela história dos pequenos aforradores, mas essa é uma daquelas que se contam para adormecer os meninos…


 


 

QUE AVISO!

Por Eduardo Louro


 


 


Um jornal irlandês – Sunday Independent – endereça, em carta a Portugal, um conselho amigo: Um conselho de amigo para Portugal, chama-lhe! Nada mais sintomático numa altura em que atingimos as taxas de juro que obrigaram a Irlanda a pedir ajuda: à capitulação!


O original da carta está aqui. Uma tradução dirá mais ou menos isto:


 


Querido Portugal, daqui escreve a Irlanda. Sei que não nos conhecemos muito bem, embora tenha ouvido dizer que alguns dos nossos investidores estão por aí a cavalgar a recessão. Podem ficar por aí um tempinho. Não quero parecer intrometido mas tenho lido umas coisas sobre ti nos jornais e acho que posso dar-te um ou outro conselho sobre o que se passa contigo e que vem aí.


A piada que corre é: sabem qual a diferença entre Portugal e Ireland? Cinco letras e seis meses.
Adiante; reparo que estás sob pressão para aceitar um resgate exterior mas os teus políticos afirmam estar determinados a não aceitar. Só, dizem eles, por cima dos seus cadáveres. Na minha experiência, isso significa que está para breve, provavelmente a um Domingo.
Primeiro deixa-me explicar-te um pouco as nuances da língua Inglesa. Devido ao facto de o inglês ser a tua segunda língua, poderás pensar que as palavras “bailout” e “aid” implicam que irás contar com a ajuda dos nossos parceiros comunitários para sair das tuas actuais dificuldades.
O Inglês é a nossa primeira língua e isso foi o que pensámos que “bailout” e “aid” significavam.
Permite que te avise: não só este “bailout”, quando te for inevitavelmente imposto, não te livrará dos teus problemas actuais, como irá prolongá-los por gerações e gerações.
E ainda esperam que fiques grato. Se quiseres procurar a tradução correcta de “bailout”, sugiro que pegues no dicionário de Inglês-Português e procures palavras como: moneylending, usury, subprime mortgage, rip-of (empréstimo, usura, hipoteca, roubo). Assim terás uma tradução correcta do que te vai suceder. Vejo também que vais mudar de governo nos próximos meses. Desculpa ter de sorrir. Sim, coloca uma demão fresquinha de tinta por cima das rachas da vossa economia, e aprecia o perfume enquanto dura. Nós também tivemos um governo novo, aliás até é divertido ao princípio. O novo governo chegará envolto numa leve euforia. Terá prometido todo o tipo de coisas durante a campanha sobre deitar fogo aos capitalistas e assim enquanto a UE sorri benevolamente ante a converseta. Mal tome posse, o novo governo irá à Europa tentar fazer boa figura. Poderás até ganhar umas partidas contra o teu velho inimigo, seja ele quem for, ou atrair visitas de alguns dignitários estrangeiros como o Papa ou isso. Vai haver boas vibrações no ar e toda a gente vai refugiar-se nessa ilusão por um tempo.
Aproveita enquanto puderes, Portugal. Porque assim que a diversão acabar a realidade vai intrometer-se no teu caminho. A única coisa boa disto tudo é que jogar golfe se tornou muito atractivo aqui. Espero que o mesmo suceda por aí e poderemos então combinar um jogo.


 Com amor,·



Irlanda”


 


Obrigado Irlanda, já não nos vens ajudar em nada mas sempre é melhor sabermos com o que podemos contar!


 

segunda-feira, 28 de março de 2011

MAU FEITIO

    


Por Eduardo Louro


 


A entrevista de Miguel Sousa Tavares (MST) à Presidenta – é assim que gosta de ser tratada – Dilma Roussef, passada na SIC na véspera da sua primeira visita oficial a Portugal e à Europa, teve, para mim, um ponto alto. O entrevistador – personagem que não é conhecido exactamente pelo seu bom feitio – a determinada altura da entrevista, focado na estratégia de combate ao crime organizado no Brasil, referiu o suposto mau feitio da entrevistada. A referência ao seu mau feitio era, na circunstância, aquilo que nós portugueses entendemos como um atributo decisivo para aquele combate: duro - no caso dura, ou mesmo durona –, determinada e implacável!


Dilma fez um silêncio (mais ou menos) prolongado e não conseguiu disfarçar o desconforto. O Miguel Sousa Tavares, afinal como todos os que assistíamos à entrevista deste lado de cá, percebeu que alguma coisa não tinha corrido bem, quando a entrevista até corria solta e na melhor das cordialidades – ele não tinha levado para ali o seu próprio mau feitio –, rapidamente compreendeu que a bronca estaria no mau feitio.


E estava!


Explicaria a Presidenta do país irmão que, no português de lá, mau feitio queria dizer que algo de errado se passava com a sua roupa. Mau feitio tem a ver com problema de costura!


Percebemos, evidentemente, o desconforto. Mesmo sendo uma ex-revolucionária, Dilma é mulher! E é presidenta da república!


Nem sequer coloco a remota hipótese da fama do mau feitio do MST ter chegado ao palácio do Planalto – ao que se diz ele até morre facilmente de amores lá pelas terras de Vera Cruz – e de, prevenida, Dilma Roussef ter reagido já condicionada. Não era necessário tanto para se justificar uma afronta digna de um grave problema diplomático!


O mal entendido seria entretanto e rapidamente esclarecido, acabando afinal por não provocar mais que uma boa rizada, na qual haveria também eu de participar. Mas fiquei a pensar como, afinal, eu entendia aquela interpretação. Como ela me remetia para velhos usos que deste lado de cá demos, em tempos, a esta nossa língua!


Há muito, muito tempo, antes de cá chegar o prête à porter, também era esse o sentido que dávamos ao feitio. Talvez porque então nem sequer tivéssemos direito ao mau feitio ou, quem sabe, porque pobretes mas alegretes!


Pois era. Nesse tempo as mulheres iam às modistas e os homens aos alfaiates, mandar fazer as suas roupas. Levavam-lhes os tecidos – as sedas, os linhos, a fazenda – e pagavam-lhes o feitio!


E aí está como, também por cá, o feitio era o trabalho de confecção da costureira, da modista, como se lhe chamava, e do alfaiate. E, naturalmente, um mau feitio seria mesmo o mau trabalho na confecção do vestuário. Como continua por lá, apesar do pronto-a-vestir!


Enfim, coisas que o mau feitio do acordo ortográfico nunca resolverá!

domingo, 27 de março de 2011

O DESERTO

Por Eduardo Louro


 


Já aqui referi a personalidade política de Sócrates e a forma como, fazendo-o confundir com o governo e com o partido, foi determinante para o actual estado do país. No estado em que o governo deixou o país e no estado em que o partido o pode vir a deixar, face à forma como hoje condiciona a conjuntura política. Uma personalidade que, se tudo corre bem, funciona como alavanca de sinergias. Mas, se algo corre mal, potencia e sustenta a famosa lei de Murphy!


Com a sua personalidade a secar governo e partido, Sócrates, envolvido em tantos e tão sucessivos escândalos e problemas pessoais – de que os casos Freeport e TVI e a adjacente e colateral operação face oculta são apenas os exemplos mais flagrantes – agravados por essa mesma personalidade – a tal lei de Murphy – facilmente percebemos estes últimos dois anos de governação. E mais facilmente percebemos ainda como ele é apenas parte do problema, sem que possa alguma vez vir a ser parte da solução!


Sócrates - quer dizer: o governo e o partido que o suporta – concentrou todas as energias na defesa da sua pele. Não lhe sobrou, nem poderia sobrar, tempo para o país!


Como para além dele era o deserto, não houve quem pensasse o país, que ficou em piloto automático… E foi assim que, sem capacidade para pensar o país e de antecipar os problemas, eles se foram acumulando, uns atrás dos outros, como uma bola de neve. Aqui chegados, Sócrates utilizou a receita que já seguira perante os seus próprios problemas. Com os mesmos resultados: agravando-os. A lei de Murphy, mais uma vez!


Negando-os sucessivamente, enrolando e distorcendo a realidade na ilusão, e não sei se na convicção, de que a sua imensa capacidade de manipular factos, dados e circunstâncias o levaria, incólume, ao encontro do que esperava ser o seu grande aliado: o tempo! Ele já só queria ganhar tempo, mesmo que não soubesse o que fazer com ele. Sem perceber que o tempo já não estava do seu lado. Que o tempo já só podia agravar os problemas, lançados num galope incontrolado!


A personalidade de Sócrates não lhe permitia delegar a responsabilidade de pensar o país enquanto ele se entregava aos seus múltiplos problemas. Mas também não vemos em quem a poderia delegar.


Em Pedro Silva Pereira? Seria difícil: para ele reservara apenas o papel de fiel escudeiro, um papel que personagens como Sócrates não conseguem dispensar. Sobrava-lhe Teixeira dos Santos. Não era do partido e teria muitas dificuldades, como se percebeu na última e lamentável sessão parlamentar, quando perante a insólita retirada de Sócrates ficou sozinho e isolado. Mas percebeu-se também que não tinha dimensão política para a tarefa. Nem mesmo de carácter e de personalidade, como estes últimos tempos se encarregaram de mostrar à evidência.


Por isso chegamos aqui. E, ainda por isso, não sabemos onde estaremos para chegar. Por isso e por haver tanta gente a não perceber isso!


Porque é por haver tanta gente a não perceber tudo isso que o PS manteve as eleições internas. E que Sócrates foi reeleito por uns obscenos 93,3%, para continuar a ser o grande problema do país.


Oxalá eu esteja enganado!


 

O SPORTING É DIFERENTE...

 


Por Eduardo Louro


 


No Sporting, a crer nas palavras do Presidente da Assembleia Geral eleitoral, não se contam os votos: afinam-se, pensam-se e reflectem-se!


Depois da campanha só mesmo este desfecho


 


 

sábado, 26 de março de 2011

ADEUS, MESTRE!

Por Eduardo Louro


 


 


O Dr Manuel de Oliveira Perpétua deixou-nos hoje! Partiu o Homem e o Mestre que marcou a minha formação!


À falta de palavras deixo aqui um excerto de um texto com que, há cerca de ano e meio, assinalava aquilo que, provavelmente, terá sido a sua última homenagem.


 


“…Estou, no entanto, mais interessado em falar do Homem e do pedagogo que Porto de Mós não poderá nunca esquecer nem cansar de homenagear. Seja em regime de pompa e circunstância, de cerimónia pública, seja num simples registo intimista, como este, que mais não pretende que transmitir aos portomosenses mais novos a admiração, e o respeito profundo, de toda uma geração que teve a rara felicidade de poder aprender, e de se poder formar, com um Homem da dimensão do Dr Manuel Perpétua.


Sou um dos muitos que tiveram esse privilégio! E, hoje, quase 40 anos depois, uns vividos com grandes mestres académicos e outros com grandes profissionais das mais diversas áreas, com grandes colegas e grandes amigos, posso garantir que foi o Homem que mais marcou a minha formação. Na construção do meu edifício de valores, no conhecimento que me abriu novos conhecimentos, na estruturação do meu pensamento, no primado do sentido cultural da vida, na clandestina construção da consciência política…


Quis o acaso que tivesse a felicidade de, no meu processo de construção, encontrar um mestre como o Dr Perpétua. De mais rara felicidade foi, contudo, a oportunidade desse encontro. Andava pelos meus 17 anos, naquele tempo a idade fértil da aprendizagem.


Acredito que o tenha encontrado no tempo certo para aprender com ele uma boa parte do que tinha para nos ensinar. A infância já tinha ficado para trás, com tudo o que de desconforto a escola representa(va) naquela fase. A exigência e a disciplina já não eram uma imposição ditatorial de um espaço assustador e de um tempo escuro. Então, aos 17 anos e nos sexto e sétimo anos do liceu da altura, eram apenas condições naturais de um espaço de conhecimento e de um tempo de aprender a ser homem.


As matérias, as disciplinas, eram interessantes: História, Psicologia e Filosofia. Que ele sabia tornar ainda mais interessantes! Mas, se não tinham interesse nenhum, como era o caso da famigerada Organização Política e Administrativa da Nação (OPAN, como lhe chamávamos como que antecipando o actual mundo das siglas) ele sabia exactamente como torná-las tão ou mais interessantes que as outras. E passávamos, então, quase todos os meses do ano lectivo aprendendo coisas novas e interessantes. Quase todos, porque, no último, ele dizia: “Bom, agora temos que nos preparar para o exame; toca a estudar o livrinho, porque o exame é feito disto e não do que temos andado a falar”. Pois, é que era proibido falar do que tínhamos andado a falar!


Para quem não viveu esses tempos, não é fácil imaginar a importância do Colégio em Porto de Mós. O Colégio, tal era a excelência, trouxe para Porto de Mós gente de todo o país, de Norte a Sul, das ilhas às então colónias. O que toda essa gente trouxe e levou permanecerá para sempre como património de Porto de Mós. Todavia, património maior ficou com os portomosenses, a quem o Colégio abriu as portas da educação, num tempo em que a educação era privilégio de alguns e não direito de todos. Em que o ensino público secundário estava disponível, para apenas alguns, nas capitais de distrito e pouco mais. E em que os acessos e a mobilidade nada tinham a ver com a actualidade.


O Dr Perpétua fez ensino público num Colégio Particular (como então se dizia, em vez do actual privado). Colégio que se tornaria efectivamente público, na primeira escola pública do ensino secundário em Porto de Mós, em 1973 quando, pela mão da reforma “Veiga Simão”, desencadeada a partir da primavera Marcelista, o Estado adquire aquela magnífica infra-estrutura, hoje um verdadeiro ex-libris da arquitectura em Porto de Mós, dando continuidade à nobre missão do Dr Manuel Perpétua.


Obrigado Dr Perpétua. E continue connosco por mais muitos anos, porque continuamos a precisar de si!”


 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Futebolês #69 SUJAR OS CALÇÕES

Por Eduardo Louro


 


Convém começar por esclarecer que calções são calções, não são cuecas. Por muito que os sportinguistas digam que calções brancos são cuecas - não gostam dos calções brancos com a sua camisola verde e branca, à Celtic de Glasgow – calções, mesmo que brancos, não são cuecas. Por isso sujar os calções nunca terá nada a ver com sujar as cuecas! Uns sujam-se por fora. As outras, por dentro!


Sujar os calções é a expressão que o futebolês consagrou para se referir ao comportamento em campo de um determinado tipo de jogador. Como se percebe os calções sujam-se no chão. Ou porque se cai ou porque se vai à luta no chão pela disputa da bola. Na briga!


Há jogadores brigões e há os que fogem da briga, como na vida, afinal. Há pessoas que brigam por tudo e por nada e há outras que nunca se querem meter em confusões. Todos nós conhecemos os tipos que, invariavelmente, estão onde houver confusão. Onde quer que seja, nasceram para aquilo! E há outro tipo de pessoas que, ao verem sinais de confusão, passam de imediato para o outro lado da rua. Maricas e medricas acabam por ser os epítetos menos acintosos que lhes são dirigidos! Quando não são mesmo acusados de, tal é o medo, sujarem não os calções, mas as cuecas…


Os jogadores que não sujam os calções também não fogem a estes e outros tipos de mimos. Os adeptos gostam sempre mais do jogador brigão, do que corre atrás da bola mesmo quando ela há muito saiu do campo. Mesmo que depois não saiba o que fazer com ela. Daqueles de quem se diz serem capazes de deixar a pele em campo!


E não gostam mesmo nada dos que se poupam de correr atrás de uma bola claramente inalcançável. Dos que não metem o pé onde não é preciso, simplesmente porque acham que não devem meter o nariz onde não são chamados.


Em Portugal o mais famoso, e inevitavelmente o mais odiado, jogador que não sujava os calções dá-se pelo nome de Nené. Um jogador que passeou calções impecavelmente brancos pelos relvados de futebol durante toda a década de 70 e metade da de 80. Que, com a elegância de um modelo na passerelle, começou por se notabilizar na primeira equipa do Benfica, de uma equipa onde ainda brilhava Eusébio – que ainda marcava golos como ninguém - mas onde também marcavam (e muito) jogadores fantásticos como Artur Jorge - também ele pouco dado a sujar os calções – e o malogrado Vítor Batista, como um dos melhores extremos direito da Europa. Depois, evoluindo para um dos melhores pontas de lança do futebol nacional (e europeu) do seu tempo, ao lado de Jordão, Manuel Fernandes e Gomes, passaria a ser brindado com as maiores assobiadelas que alguma vez cruzaram o velhinho Estádio da Luz. E ficou o mito!


Onde é que hoje - que, ao contrário de então, somos uma potência mundial do futebol – temos quatro pontas de lança daquele calibre? Nem um!


O que hoje temos no futebol é gente capaz de sujar tudo. Mesmo que os calções! Que se suja e que não se importa com o que esteja sujo.


Basta olhar para esta semana. Que começou, logo na segunda-feira - sujo mais sujo não há - com uns marginais a atingirem à pedrada o autocarro e o carro do presidente do Benfica, quando regressavam de Paços de Ferreira, onde a equipa acabara de realizar uma partida fantástica marcada pela melhor meia hora de futebol da época e pelos dois golos de Nuno Gomes – outro extraordinário jogador, que não precisa de sujar os calções para atingir o melhor rácio imaginável entre golos e tempo de utilização em jogo.


Que passou pela amplificação de umas inoportunas declarações de Pepe – desconheço a pergunta que suscitou aquela resposta, coisa que é habitual na imprensa desportiva (e não só!): lançam perguntas incendiárias (que logo desaparecem de todos os registos) apenas à procura de respostas mortais (como diria Emídeo Rangel) – a dar umas bicadas em Carlos Queirós. Que, mais sujo ainda - muito mais sujo mesmo – protagonizaria uma reacção lamentável que mais não fez que menorizá-lo ainda mais. E definitivamente sujar-se, sem que nada já o possa lavar!


E que termina com as eleições no Sporting, onde não houve apenas muito jogo sujo. Onde Eduardo Barroso se esqueceu que não era um simples adepto anónimo de rua – ele esquece-se com frequência disto – e, para defender a candidatura que apoia, se declarou nada preocupado se o dinheiro dos russos é sujo. Ele - cirurgião de renome, membro do clã Barroso Soares e candidato a presidente da mesa da assembleia-geral do Sporting Club de Portugal - não se importa que o Sporting se torne num centro de lavagem de dinheiro desde que esse dinheiro lhe permita alimentar o seu cego fervor clubista! E onde um deprimente Paulo Futre, em poucos minutos, transformou um ídolo num monte de uma coisa suja …

A CRISE POLÍTICA V

 


Por Eduardo Louro


 


Nestes dois dias que levamos de crise política vamo-nos apercebendo de um fosso abissal entre a capacidade de comunicação da máquina Sócrates – insisto: que é o governo e que é o PS – e a da oposição, em particular a de Passos Coelho e do PSD.


Não sei, neste momento, medir as consequências desta realidade. Mas não tenho dúvidas que terá consequências nas próximas eleições! Não tenho grandes dúvidas que, em pouco tempo, esta eficácia na comunicação irá levar muita gente a esquecer-se do que realmente nos aconteceu nestes últimos tempos!


É sintomática a incapacidade de resposta de Passos Coelho. A confrangedora falta de eficácia de comunicação – não pega no que deve pegar e muito menos da forma que deveria pegar - permite que Sócrates passeie livre e impunemente a sua tese de gloriosa vitimização assente numa descarada manipulação dos factos e da realidade. E é grave!


É grave porque é mais que um detalhe. É grave porque confirma que Passos Coelho descurou o trabalho de casa. E é grave porque começamos a perceber que este PSD apenas se tem limitado a esperar pela fatalidade do poder. Já começávamos a desconfiar que ideias e programas eram coisa que não abundava por ali. E como sabemos que nada disso surge de geração espontânea…


O cenário é este: Passos Coelho fala pouco e mal! Depois dele apenas Miguel Relvas, cada vez mais a parecer uma picareta falante, e um rapazinho que apareceu na televisão a defender aquela do aumento do IVA que não lembraria a ninguém…

quinta-feira, 24 de março de 2011

A CRISE POLÍTICA IV

Por Eduardo Louro


 


A sessão parlamentar de ontem, que desembocou na demissão do governo, sugere-me três reflexões sobre o futuro próximo. A primeira vai logo direitinha para a dignidade da Assembleia da Republica (AR) e, como casa da democracia que é, para a própria dignidade da actividade política!


Uma tarde inteira – pelo menos cinco horas – para chegar onde chegou não dignifica a AR nem a maneira como se faz política em Portugal. Muito menos, evidentemente, os políticos! O tom do(s) discurso(s) - as mesmas coisas repetidas por toda a gente sem uma única novidade -arrastou-se penosamente durante horas a fio num evidente sinal de ineficiência e de desperdício. Porque o resultado estava à vista. Tão à vista que nem sei se será assim tão condenável que Sócrates – bem sei que o comandante é o último a abandonar e que são os ratos os primeiros a fugir – tenha abandonado os trabalhos logo no início! Abandono que, obviamente, em nada dignificou a instituição parlamentar e a democracia. Que também não o dignificou a ele próprio, mas isso já nem sequer tem importância nenhuma!


Quanto maior é a crise maior é a importância das instituições. Quanto mais fortes e prestigiadas forem as instituições maiores são as possibilidades de êxito no combate às crises e, naturalmente, maior é a confiança no sucesso. Ontem, mais uma vez, a AR não nos deu razões de confiança!


A segunda vai direitinha para Sócrates.


Mercê de uma personalidade política invulgar, Sócrates foi o governo e o governo foi Sócrates – perdoe-me Doutor Fernando Teixeira dos Santos, mas o senhor não passou, nuns momentos do cordeiro pascal a sacrificar e, noutros, do bobo da corte, papeis que, infelizmente, acabou por fazer por merecer – e, nessa qualidade, o responsável pela desgraça em que o país se encontra.


Mas, mercê dessa mesma personalidade, Sócrates fez do PS o Partido de Sócrates. Secou tudo à volta e condenou o partido – que vai renovar-lhe a liderança por números dignos do seu amigo Chavez ou dos manos Castro – a levá-lo a uma derrota eleitoral seguramente histórica. Não é a dimensão dessa derrota que acho preocupante. Deveras preocupantes são as suas consequências na composição do próximo parlamento e na correspondente capacidade para gerar efectivas soluções governativas!


Sócrates personalizou a liderança do PS como nenhum outro líder antes. Basta lembrar que foi com Mário Soares – indiscutivelmente o seu mais carismático líder – que o partido teve os seus mais fortes períodos de debate interno, com sucessivas dissidências: à esquerda e à direita. Lembrarmo-nos do PS de Mário Soares - contestado pelas mais variadas tendências (renovadores, ex-secretariado e até Francisco Salgado Zenha) e olharmos para este PS acrítico e acéfalo, cegamente enfileirado atrás de um líder perdido e sem rumo, ajuda-nos a perceber que não é menos preocupante o estado a que Sócrates conduziu também o partido.


E isto leva-me à terceira reflexão. Temo que seja este o perfil das lideranças moldadas nas jotas. Temo que, já com sucessivas gerações afastadas da política, não nos restem alternativas que não gente nascida, criada e educada nas estruturas das juventudes partidárias. Gente experimentada na intriga e nos jogos de interesse mas sem cultura de trabalho e de responsabilidade e sem experiência de vida. Gente que cresceu a colar cartazes em vez de crescer na escola e que, chegada a altura, obtém um canudo num domingo qualquer de uma qualquer universidade manhosa!


 


 

quarta-feira, 23 de março de 2011

A CRISE POLÍTICA III

Por Eduardo Louro


 


O governo está a cair e a crise política a erguer-se. No parlamento – sem Sócrates – vai caindo aos pedaços!


Entretanto, e como se tudo o que já se conhecia não bastasse, veio hoje a saber-se que afinal o défice de 2010 não tem nada a ver com o que foi propagandeado. Que o Eurostat diz que não. Que vai para além dos 8%!


A Grécia já passou por este filme. Todos nos lembramos que a desgraça grega começou pela falsificação das contas. Só nos faltava mais esta, passarmos também por aldrabões das contas. Já estavam aldrabadas com o fundo de pensões da PT e com as receitas de vendas dos imóveis depois arrendados, mas nem isso foi suficiente. Afinal percebemos agora por que é que o governo queria chutar os números do BPN - os tais que não custariam nada ao país - para as contas de 2008. Não percebemos, nem nós nem ninguém, por que raio é que haviam de andar dois anos para trás. Mas percebemos todos que é aldrabice!


Se isto é assim quando o governo ainda não caiu, o que é que aí virá?


Por mim já não tenho dúvidas: só quando este governo estiver morto e enterrado é que nos iremos aperceber da verdadeira dimensão da desgraça! Vamos ter ainda muitas mais surpresas…

terça-feira, 22 de março de 2011

A CRISE POLÍTICA II

Por Eduardo Louro


 


A opinião que ontem aqui deixei – que estamos todos bem mais preocupados em nos vermos livres de Sócrates e sus muchachos do que com a crise política – não pega nas hostes socialistas, repentinamente transformadas nos mais altos arautos da salvação nacional.


É estranho que, enquanto Sócrates e os seus governos foram construindo o percurso que nos trouxe até aqui, ninguém os tenha ouvido. Agora falam todos, e todos com a suprema preocupação de poupar o país a uma crise política: de António Costa já aqui se falou por mais do que uma vez, e em particular daquela tirada sobre a incompetência política de Teixeira dos Santos, saída da cartola que nem uma bóia de salvação atirada ao náufrago Sócrates. Mário Soares faz hoje um “apelo angustiado” ao Presidente da República e até Ferro Rodrigues, que julgávamos esquecido – confortavelmente esquecido, deve adiantar-se - lá para a embaixada da OCDE, diz “que ainda há tempo para evitar uma crise política que seria desastrosa”!


Vamos admitir que têm razão! Vamos tentar admitir que a pior coisa que nos pode acontecer é a demissão deste governo…


Já tentei! Não fui capaz, confesso. Não me consegue entrar na cabeça que o pior cenário que temos pela frente seja a demissão deste governo. Eu tenho é dificuldade em dissociar os cenários de catástrofe deste governo!


Acresce que admitir essa hipótese levar-me-ia a uma outra conclusão muito difícil de aceitar. Seria esta: os verdadeiros patriotas, as únicas pessoas que se preocupam com a país neste momento, os únicos portugueses que querem verdadeiramente salvar Portugal desta crise são os socialistas, com Mário Soares à cabeça!


Tento aceitar esta conclusão e também não consigo…


Por isso, posso estar enganado mas continuo a achar, conforme ontem aqui escrevi, que não há motivo nenhum para segurar Sócrates mais tempo. Apesar de, para surpresa minha, ele não ser assim tão aldrabão como se diz por aí. Explico porquê:


Depois de apanhado na curva Sócrates viera dizer que o PEC que apresentara em Bruxelas, e que Bruxelas aplaudira em comunicado, não era para levar muito a sério. Insinuou-o na entrevista à SIC Notícias, disse-o pela boca de António Costa e repetiu-o sucessivamente a partir daí, anunciando a disponibilidade para o negociar. Ainda hoje, as Instituições Europeias – e designadamente Jean Claude Juncker – vinham dizer claramente que os compromissos assumidos por Portugal eram mesmo para cumprir. Mas também já hoje, sabe-se lá por que carga de água, as mesmas Instituições contrariam o mesmo Juncker e dizem que o PEC entregue na semana passada, e que eles tanto elogiaram, é afinal negociável! Precisamente como Sócrates vinha dizendo…


Há coisas extraordinárias neste país e neste governo! Mas também nesta Europa, não acham?


 

MORREU ARTUR AGOSTINHO

 


Por Eduardo Louro


 


Morreu um dos monstros da comunicação em Portugal. Artur Agostinho morreu esta manhã, aos 90 anos!


Homem da rádio, da televisão, do cinema, do teatro e da publicidade, multifacetado como poucos, Artur Agostinho era hoje uma personalidade consensual. Não foi sempre assim, não foi assim nos tempos conturbados da Revolução quando, por ter visto a sua voz associada à do regime deposto, teve que se exilar e continuar vida no Brasil. Por pouco tempo, felizmente!


Acontece assim nas revoluções, em todas as revoluções!


Quando a normalidade regressa tudo regressa. Como Artur Agostinho regressou…para voltar a fazer o que sabia fazer como poucos, com o mesmo profissionalismo! Parecia que os anos não passavam por ele. Afinal passavam…

segunda-feira, 21 de março de 2011

A CRISE POLÍTICA I

Por Eduardo Louro


 


Foi você que pediu uma crise política?


Esta pergunta, lembrando um eficaz slogan publicitário – tão eficaz que, como se demonstra, não se esquece – é adequada ao actual momento político.  


Foi o primeiro-ministro que desencadeou esta crise política, afirma o PSD sem sombra de dúvida! Não – respondem o governo e o PS – o PSD é o responsável pela crise política!


Ninguém quer acusar a sua paternidade. Se já tínhamos em Portugal uma culpa solteira, agora temos uma crise política filha de pais incógnitos.


A verdade é que o primeiro-ministro tem imensa dificuldade em negá-la. Nem são necessários testes de paternidade. E nem sequer lhe será fácil invocar um qualquer acidente - ao contrário do PSD, que estava a usar todos os métodos de planeamento familiar - porque esta não é uma paternidade acidental. Parece mesmo muito bem planeada, como se tem visto: não é possível adiar mais a intervenção (ainda mais) directa do FFEE e do FMI - o mês de Abril (e o de Junho) é dramático, com sérios riscos de não haver quem nos empreste dinheiro para responder às dívidas que então se vencem – pelo que, para quem apostara tudo nesse cavalo, não restava outra alternativa que provocar uma rotura que lhe permitisse pôr-se ao fresco e tentar deixar para trás a solteirona mais famosa do país. A pensar num volto já´, sem a companhia da tal solteirona!


Para atingir esse desiderato Sócrates e a sua rapaziada – de que Luís Amado faz hoje mais uma tentativa de descolagem (começa já a cheirar à estória do Pedro e do lobo, e acredito que já ninguém acredita nessas sucessivas mas inconsequentes descolagens) – têm-se encarregado de dramatizar a cena.


Uma crise política, mais a mais nas actuais circunstâncias do país, não é, evidentemente, a melhor coisa que nos possa suceder. Mas também não me parece que os portugueses estejam assim tão preocupados com isso. Quer dizer, os lancinantes gritos chegados da boca de cena, venham eles da garganta de Teixeira dos Santos, gritados a partir de Bruxelas, da de António Costa – surpreendentemente com o papel principal nesta dramatização, como aqui temos visto – ou da de Jorge Lacão, não atingem o coração dos portugueses!


E isto quer simplesmente dizer que estamos todos tão fartinhos de Sócrates que mais nada nos importa que vermo-nos livres dele, sejam quais forem as consequências. Que já estamos por tudo e que, venha o que vier, nada será pior que manter este governo!


Desconfio que a resposta à pergunta inicial seria mesmo um imenso e uníssono siiiiiiimmmmm!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Futebolês #68 PEGAR NO JOGO

Por Eduardo Louro


 


 


Pegar no jogo é mais uma expressão do futebolês que parece jogar com as palavras.


Se tudo se pega - e os brasileiros pegam ainda muito mais que nós - pega-se a sarna e pega-se em tudo, até touros se pegam - de caras e de cernelha – por que é que se não há-de poder pegar no jogo?


Pega-se no jogo, como se agarra o jogo e até como se segura o jogo! Nas cartas como no futebol!


Pegar no jogo quer apenas transmitir uma ideia de ascendência sobre o adversário, mexer os cordelinhos do jogo e ditar as regras.


Quer dizer, criar as condições para mandar no jogo, como já aqui vimos. Impor os ritmos de jogo e atingir uma ascendência sobre o adversário que lhe permita exercer o controlo e desfrutar de uma posição dominante. De assegurar o domínio sobre o adversário.


Pega-se e deixa-se cair, pega-se e larga-se. Num jogo de futebol também assim acontece. Para pegar no jogo é fundamental entrar bem. Que é como o futebol: é isso mesmo! Entrar bem no jogo, deitar mãos á obra desde o apito inicial do árbitro, sem estar à espera do que o jogo dá ou mandando às malvas o período de estudo, é mais que meio caminho para pegar no jogo.


Ouve-se cada vez menos mas era habitual em Portugal ouvir os comentadores fixarem o tal período de estudo. Normalmente de estudo mútuo! Era assim como que umas tréguas, só que no caso eram tréguas antes do início das hostilidades – expressão também muito utilizada para determinar o fim do período de estudo. Normalmente é uma iniciativa de um determinado jogador, não necessariamente do jogador que pega no jogo mas do que dá uma sapatada no jogo, que solta o grito de revolta.


Em Portugal o período de estudo era sagrado. Não havia jogo que não começasse com o estudo do adversário, o que tem um nome: cábula! Já não era estudar na véspera do exame, era não estudar de todo e começar apenas quando já estava no exame!


Hoje não é assim. Hoje fazem-se os trabalhos de casa, como em todo o lado, e já se chega ao exame pronto a deitar mãos á obra!


Por isso é que, das oito equipas apuradas para os quartos de final da Liga Europa (na Champions é que não temos cabimento!), três são portuguesas: Benfica, Braga e Porto. Prova disso é o Porto, que ontem começou a garantir o apuramento com um golo aos 40 segundos! Caído do céu, como frequentemente lhe acontece, mas golo. Que vale tanto como qualquer outro! Que vale tanto como o outro que o guarda-redes russo lhe ofereceu e que lhe garantiu a vitória e o apuramento!


Se o futebol português deixou de ser cábula e já consegue pegar no jogo antes que ele esteja bem agarrado pelo adversário, o italiano continua pouco interessado nisso. As equipas italianas estão-se nas tintas para o domínio do jogo: o que querem é especular com o jogo. Cínicos, como lhe chamam. Incapazes de olhar os adversários nos olhos…


As coisas, que lhe correram bem durante décadas, estão agora a mudar. Safa-se o Inter, campeão europeu em título por obra e graça de Mourinho!


Se, em Portugal, quisermos encontrar uma equipa que entra bem, que pega no jogo, mexe os cordelinhos, manda no jogo e dita as regras essa é, sem dúvida, o Porto. Esse é um mérito que se lhe não pode negar!


Este campeonato em curso é disso a melhor prova: entrou bem – sempre a ganhar –, pegou no jogo a seu belo prazer – pôs e dispôs como muito bem entendeu –, mexeu os cordelinhos para afastar a concorrência e mandou no jogo e nos adversários para manter a concorrência afastada, sempre ditando as regras, novas ou velhas. Uma, por exemplo, diz assim: marcam-se penaltis a favor sempre que tal se mostre necessário; contra só em última análise e, se marcado e convertido, mandar-se-á repetir até que o adversário o falhe! Outra diz que se podem agredir os adversários a partir das bancadas com bolas de golfe.


Esta acaba até de receber, já esta semana, um forte impulso do governo (afinal o Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, é do Porto) com a redução da taxa de IVA do golfe – a tal que a RTP confundiu com o modelo Golf, da Volkswagen – de 23 para 6%! Aí, no governo, é que ninguém consegue pegar no jogo...


Mas hoje é Dia do Pai. Para todos os pais, independentemente da cor e do credo, um feliz Dia do Pai. Junto dos filhos. E dos pais, para quem tenha esse privilégio... 

quinta-feira, 17 de março de 2011

GENTE EXTRAORDINÁRIA IX

Por Eduardo Louro


 


António Costa, como ontem aqui se referiu, surgiu em grande actividade no suposto sentido de evitar a crise política. "As crises são sempre evitáveis, só as catástrofes e a morte é que não": não se cansa de repetir.


Esta é uma manobra que, evidentemente, mais não visa que ratificar a estratégia de vitimização de Sócrates. Estratégia que ele – Sócrates – sabe explorar como ninguém e com a qual conta para voltar a enrolar os portugueses!


A chave desta manobra está na teoria - agora posta a circular pelo aparelho do PS - segundo a qual tudo não passou de um lamentável equívoco seguido de um deplorável erro de comunicação de Teixeira dos Santos. A situação política actual não passa de uma tempestade num copo de água: a estória do PEC 4 foi mal contada pelo incompetente do Teixeira dos Santos, que foi absolutamente desastroso na comunicação que fez ao país, faz hoje precisamente oito dias.


Esta extraordinária tese começou a ser construída a partir da entrevista de Sócrates à Ana Lourenço na SIC, onde ele se esforçou por deixar a ideia que aquelas medidas não eram medidas nenhumas. Apenas uma coisa para entreter lá em Bruxelas…


Não deixa de ser extraordinário que seja gente extraordinária como António Costa a empunhar esta bandeira. Alguém que, como se sabe, para além de muita influência e de grande proximidade a Sócrates, tem boa imprensa. Alguém que ainda há uma semana, numa entrevista a Clara Ferreira Alves, publicada na Revista única do Expresso, confessava que ele e Sócrates, em tempos, tinham estabelecido um acordo para assumir a liderança do partido. Não se digladiariam e avançaria aquele que na altura estivesse em melhores condições.


O que a comunicação social deixou passar em claro, sem um reparo ou sequer um comentário... Alguém tem dúvidas de que tem mesmo boa imprensa?


Há portanto que aproveitá-la…

GENTE EXTRAORDINÁRIA VIII

 


Por Eduardo Louro


 


“O governo ainda pode emendar a mão”: quem o afirma é Pedro Passos Coelho, à saída de Belém!


“Estamos abertos ao diálogo e a introduzir contributos externos”: esta vem de Francisco Assis.


Entretanto, Pedro Silva Pereira … blá, blá, blá … e diálogo. E mais diálogo, até “porque o PEC só tem de ser entregue em Abril” – há mais que tempo para dialogar…


E o António Costa também tem alguma coisa para dizer. Diz que só não se podem evitar as crises naturais, que as políticas podem ser evitadas. Que esta pode muito bem ser evitada!


Pois é! Tudo gente extraordinária…


 

quarta-feira, 16 de março de 2011

GERAÇÃO À RASCA

Por Joana Louro *


 


 O país veio para a rua naquela que terá sido uma das maiores manifestações de sempre... e provavelmente a maior desde os tempos de Abril!


O país estava a precisar disto... E se me é permitido algum egoísmo, eu estava a precisar disto... Precisava de viver uma coisa assim, que me permitisse voltar a acreditar, voltar a identificar-me e voltar a encontrar-me neste país que é o meu e no qual quero continuar a acreditar...


No sábado, como canta Chico Buarque, a festa foi bonita. Foi bonita festa, pá! Duzentas ou trezentas mil pessoas nas ruas, de todas gerações: avós, pais, filhos e netos encheram as praças e as avenidas das nossas cidades. Num protesto cívico e digno, saído do povo – de todos nós – sem botões de comando em qualquer central partidária...


Uma manifestação que nasceu espontânea e descontraída e que a partir das novas formas de comunicar atingiu proporções impensáveis. Porque um grupo de jovens decidiu lembrar a outros jovens que protestar é preciso. E esses passaram a outros e outros a outros ainda, numa bola de neve que ninguém conseguiu mais parar.


Uma manifestação inconsequente, dizem! Não me importa muito. Importa-me muito mais que foi digna, responsável, cívica, pacífica e exemplar. Sem exageros de qualquer espécie. Sem violência, sem extremismos nem radicalismos. Longe, bem longe das imagens de destruição e violência de outros países europeus, como que a lembrar-lhes que também têm coisas a aprender connosco. E a lembrar-nos a nós que, quando queremos, sabemos fazer as coisas tão bem ou melhor que os outros...


Lembrando-nos que há mais de 30 anos também usamos cravos em vez de armas. Que houve Abril, se calhar com muitos momentos como este.... que nos enchem a alma e nos fazem acreditar.


Acreditar que afinal não somos uma massa inerte e amorfa. Alheia e indiferente a tudo, sem voz, sem consciência e sem noção de um mundo de pessoas a sério que é muito mais do que aquele que está ao alcance de um clique. Acreditar que este pode ser o princípio da mudança. Acreditar que o valor da abstenção nas últimas eleições presidenciais foi apenas um descuido de percurso... Que esta gente não se está nas tintas, não é indiferente nem negligente... Que está envolvida com o país e que no momento certo, na forma certa e nas doses certas o sabe demonstrar. Acreditar que, se calhar, ainda é possível sonhar um país, porque sabemos que o país muda … se nós mudarmos! Que o país não fará por nós aquilo que nós não soubermos fazer por ele...


Se acredito em tudo isto? Quero acreditar e acho que mereço acreditar! Deixem-me acreditar… Não estraguem!


 


* Publicado no Jornal de Leiria de hoje


 


 


 


 

CONVIDADO: JOANA LOURO

 


Por Eduardo Louro


 


Hoje temos por cá uma convidada, que promete voltar com alguma regularidade. Vamos a ver!


Ah… é minha filha!


 

A CRISE SERVE-SE FRIA

Por Eduardo Louro


 


A coisa, como temos visto, aqueceu e Cavaco, quem sabe se para a arrefecer, resolveu falar-nos da guerra colonial e de combatentes. De brancos e negros e até das suas memórias!


Parece-me evidente que a última coisa que nos interessaria nesta altura do campeonato era essa. E quando a coisa vem acompanhada de verdadeiros tesourinhos deprimentes, até parece que estão a brincar connosco.


Mas podem não estar! Cavaco pode apenas estar a dizer aquilo que já todos há muito sabemos. Tão simplesmente isto: “Não contem comigo para estas coisas, se querem correr com o homem é lá convosco. E se querem soluções para a crise procurem-nas. A mim, não me chateiem, que eu não tenho nada a ver com isto! Já fiz o que tinha a fazer: está tudo no meu discurso de tomada de posse. E no site da Presidência!"


Muito obrigado. Nós já sabíamos, não precisávamos era que nos estivesse sempre a lembrar. Nem de mais tesourinhos deprimentes. Já estamos no limite da depressão! 


 

terça-feira, 15 de março de 2011

CONTRA ATAQUE

Por Eduardo Louro


 


José Sócrates surgiu-nos ontem à noite em plena campanha eleitoral. E confesso que me deixou baralhado: fiquei por momentos sem perceber se aquilo a que tinha assistido era o momento zero da campanha para as próximas eleições, se era mais um número do mestre do bluf ou ainda se não passaria de mais um episódio da esquizofrenia acelerada que tomou conta destes últimos dias do governo.


As palavras de Teixeira dos Santos, hoje em Bruxelas, apontam para dar mais crédito a esta última hipótese. Vêm-nos à memória aquelas imagens daquele ministro de Saddam quando os americanos ocupavam Bagdad…


Mas também não me custa muito admitir o três em um: o completo desfasamento da realidade, aliado à irreprimível tentação do jogo, sem descurar a possibilidade de ser o primeiro a reagir ao tiro de partida da campanha!


Anunciando bem cedo a comunicação ao país para a hora dos telejornais Sócrates, como tanto gosta, criou o suspense! Houve até quem pensasse – ou até quem receasse, sabe-se lá – que iria apresentar a demissão do governo. Santa ingenuidade: como se isso fosse alguma vez possível, como se Sócrates não estivesse mais agarrado ao poder que as lapas agarradas às rochas, resistindo às sucessivas, cadenciadas e violentas batidas das ondas.


Depois foi a comunicação – que era sem perguntas e passou a ser com perguntas - melhor - com respostas. Com as respostas que quis dar, independentemente das perguntas – ao melhor jeito do que será o argumentário de campanha e o desafio: vá derrubem-me! Um desafio com ar fanfarrão: vejam lá se têm coragem! E com encontro marcado para a Assembleia da República, na discussão do PEC. Deste novo PEC!


E houve logo quem se assustasse: “agora quem quer eleições é o PS” disse, por exemplo, Pacheco Pereira!


Como ontem aqui escrevia agora cada um tem que pedalar a sua bicicleta. Já não há nada a esperar: nem esperar que Sócrates se demita, nem esperar que seja Cavaco a ter as dores do parto, nem esperar por melhores momentos. Não há tempo para mais calculismos – utilizando a linguagem do futebolês, o jogo partiu!


Ainda bem, digo eu! Isto já não dá para mais…


O diabo é se Mário Soares estiver enganado quando diz (hoje no DN) que “Sócrates cometeu erros graves … que lhe vão sair caros”. O diabo é mesmo se, depois de nos terem saído caros a todos, ainda vão acabar por não lhe sair a ele!


Mas esse é um risco que agora não podemos deixar de correr! 


 


 

segunda-feira, 14 de março de 2011

ENTÃO PSD?

Por Eduardo Louro


 


José Sócrates conseguiu, com a prestimosa ajuda do Presidente, enrolar o PSD e tomar Pedro Passos Coelho (PPC) como refém.


Ao transformar o PSD num avalista dos sucessivos PEC´s Sócrates aprisionou Pedro Passos Coelho e retirou-lhe toda a capacidade de iniciativa. A moção de censura do Bloco de Esquerda (BE), e a forma como o PSD (e o CDS) não soube lidar com ela – caindo na esparrela do BE, ou da parte que a protagonizou – fizeram o resto. E o resto foi o fortalecimento de uma posição dominante que Sócrates, como poucos, sabe construir. Ou, às vezes, apenas inventar!


A forma como surgiu este último PEC – como foi construído, com ou sob o BCE e a UE, e como foi apresentado ao país em Bruxelas – ignorando completamente o parlamento e em total desprezo pelos acordos anteriormente estabelecidos com o PSD, quer no âmbito do Orçamento quer no dos anteriores PEC´s, revela-nos Sócrates, governo e PS em abuso de posição dominante. À maneira das EDP´s, das PT´s e das GALP`S…


É visível nas palavras de Sócrates e de Teixeira dos Santos, hoje de novo em Bruxelas. Mas também nas de Francisco Assis ou nas de Lacão!


Diz-se que crise política rebentou, que está decididamente aberta. Já o está há muito, e há muito que PPC deveria estar preparado para o dia em que teria obrigatoriamente de se livrar das amarras que deixou que Sócrates lhe atasse.


É por isso muito estranho que PPC não tenha feito o trabalho de casa ao longo deste último ano. Cheira a cábula!


É muito estranho que não conheçamos ainda um programa eleitoral do PSD. Que nem sequer vejamos alinhavadas quatro ou cinco ideias mobilizadoras. Pior, e mais angustiante, que percebamos que PPC ainda não passou da fase dos balões de ensaio. Que, traumatizado com aquela entrada da revisão constitucional de que não mais pareceu recuperar, se limite a, com todas as cautelas, deixar que um ou outro lance uma ou outra ideia para o ar. A ver no que dá!


Já não dá para cabular mais. Como já não dá para especular mais com o jogo


A hora é de acção. E não vale a pena ficar à espera do Presidente… Como se dizia por aí, agora cada um vai ter de pedalar a sua bicicleta!

domingo, 13 de março de 2011

À RASCA MAS DIGNOS

 


Por Eduardo Louro


 


Não sei se foram 200 ou 300 mil os portugueses de todas as idades que ontem deram voz ao protesto e à indignação que atravessa o país de lés a lés. Não me importa quantos foram porque eu vi lá todo o meu país!


E gostei do que vi. Gostei deste meu país que lá vi, bem diferente de outros países que tenho visto por esse mundo fora! Bem diferente do que vi na Grécia, ou do que vi em França…


O que é que vi?


Vi uma enorme multidão ordeira, que não provocou sequer um leve desacato…


Vi uma multidão pacífica, que nem um vidro partiu. Nada!


Vi as portas fecharem-se ao aproveitamento partidário.


Vi uma só bandeira, a bandeira nacional… e ouvi cantar o hino como há muito não ouvia!


E vi ali dignidade…


Bastou-me ver isto. O resto, agora, não me interessa nada!


 


 


 

sexta-feira, 11 de março de 2011

Futebolês #67 CASA

Por Eduardo LouroVer imagem em tamanho real


 


O futebolês também tem casa. Talvez, como muitos portugueses – se a média, segundo o INE, é uma casa para 1,86 portugueses … – tenha até mais que uma. O Quinta Emenda não se importa nada de ser uma das suas casas!  


Tem a casa do disparate (que grande casa!), a casa da fruta – versão do futebolês, com sotaque nortenho, da casa de alterne – e tem a casa de Pinto da Costa, com acesso guiado pelas escutas que não contam para nada. E tem as casas: do Benfica e do Porto, espalhadas pelo país e até pelo mundo. O Sporting - sempre diferente - não lhes chama casas, chama-lhes núcleos sportinguistas! Mas, em futebolês, casa é mesmo para definir o lar da equipa, o seu ambiente aconchegado, o seu estádio. Onde joga, mas já não onde treina, agora que estão criadas as academias, os campus, os centros de estágio ou os centros de rendimento… Para todos os gostos!


A casa é assim, agora, como uma sala de visitas. Serve apenas para receber os seus pares, mesmo que na qualidade de adversários, e já não para viver o dia-a-dia. Onde, evidentemente, nos sentimos bem. Jogar em casa é e será sempre um privilégio! Por muito que o Sporting, que, como se sabe, tem aquela velha mania de que é diferente, pretenda contrariar isto!


Fica-se assim com a ideia que no futebol há uma enorme preocupação em receber bem: vive-se e trabalha-se noutro espaço para poupar a sala de visitas, para que esteja nas melhores condições e à altura das visitas. Para prestigiar a condição de anfitrião!


O Benfica recebe na Luz, na maior sala de visitas do país, na Catedral! E, para que esteja que nem um brinquinho quando recebe os seus adversários, passa-se para a outra banda, para o Campus do Seixal.


Será com a mesma ideia que o Sporting deixa Alvalade e a Alvaláxia e atravessa a ponte até à Academia de Alcochete? Não sei, não estou seguro que seja. Se fosse também não deixariam lá entrar aquela rapaziada da Juve Leo, que vira tudo do avesso. Penso mesmo que é por outra razão. O que o Sporting precisa de poupar é o relvado, para ver se aquilo se aguenta mais do que um mês. Quando lá instalarem um sintético – parece que é a única solução para terem um campo que aguente uma época – lá se vai a razão para poupar a sala de visitas… A não ser que o próximo presidente consiga pôr alguma ordem naquela rapaziada. Coisa que, fosse eu candidato, colocaria como primeira prioridade do meu manifesto eleitoral. Assim:



  • Primeira promessa – pôr a Juve Leo na ordem;

  • Segunda promessa – contratar Cruyff para director desportivo;

  • Terceira promessa – contratar o Pepe Guardiola para treinador;

  • Quarta promessa – contratar o Messi, o Iniesta, o Xavi, o Piqué, o Fabregas, o Nasri, o Fábio Coentrão, o Cristiano Ronaldo e o Ozil.


Bem sei que a primeira seria a mais difícil de cumprir, mas também seria a mais emblemática!


O Porto também deixa o seu Dragão e, como não pode ficar atrás, também atravessa o rio, para passar a semana no centro de estágio do Olival. Mas por outra razão: é que o Dragão, durante a semana, é necessário para sessões de formação de assistências a espectáculos de futebol. Em cânticos e no lançamento de bolas de golfe, isqueiros e outros objectos voadores para o relvado.


Uma actividade que começa já a dar os primeiros frutos. Depois da formação interna, e obtido o correspondente CAP de Formador, passaram a dar formação para fora.


A primeira fornada de formandos exibiu já as suas capacidades em Braga, no passado domingo. Onde está a nascer mais um expoente da arte de bem receber!


 

MAIS PEC(ADOS)

Por Eduardo Louro


 


Logo depois da discussão da moção de censura (ou de ternura, como disse Paulo Portas e que corresponde ao que aqui se disse logo que foi anunciada) da Assembleia da República (AR) o governo vem apresentar novas medidas de austeridade – mais um PEC.


A intenção tinha sido já anunciada na semana passada, na véspera da insólita visita à Senhora Merkl. Percebemos logo, apesar de embrulhadas num condicional mais que perfeito, que vinha nova vaga, à imagem do tsunanmi que está a fustigar o Japão e toda a costa do Pacífico. Que aquilo não tinha nada a ver com condicional nenhum!


Assim sendo estávamos perante um problema de calendário. O governo não as podia apresentar antes da discussão da moção de censura, mas tinha que as apresentar antes de entrar para o Conselho Europeu. Só restava esta manhã, e já em Bruxelas! Um timing, evidentemente, simpático para os partidos da oposição – que acabavam de regressar a casa depois de uma tarde com o governo no plenário da AR – e para os parceiros sociais – entretidos na concertação social numa sala fechada, todos apanhados de surpresa!


À chegada a Bruxelas, enquanto numa sala Teixeira dos Santos dava a boa nova, Sócrates dizia aos jornalistas que “Portugal está aqui para dar a sua contribuição para a Europa e para a moeda única”. Que estas novas medidas se destinam a transmitir aos europeus o reforço da ideia da determinação (como ele gosta desta expressão!) do governo em cumprir o défice. E que a execução orçamental está correr lindamente…


Evidentemente que Sócrates já esgotou a capacidade de nos surpreender. Que já não tem qualquer preocupação em parecer sério. Nem em ter vergonha…


Não tem vergonha quando está em Bruxelas de calças na mão, completamente nas mãos da UE e do seu Fundo de Estruturação Financeira – leia-se Srª Merkl – e diz que Portugal (não é ele, é Portugal) está ali para dar a sua contribuição. Não tem vergonha quando apresenta um novo (o enésimo) pacote medidas de austeridade sem que uma única e pela mesma enésima vez, toque no monstro. Nem tem vergonha em afirmar que estas novas medidas são necessárias para assegurar o cumprimento do défice e, ao mesmo tempo, dizer que a execução orçamental está a “correr bem, muito bem e que temos bons números”!


Ora bem, mais depressa que o que contávamos – apenas dois dias – aí está o primeiro desafio ao Presidente: “há limites para os sacrifícios impostos aos portugueses”!


Há? Então, Sr Presidente?


É que do lado PSD já está tudo visto… Daí não vem nada!

quinta-feira, 10 de março de 2011

A POSSE E A POSE

Por Eduardo Louro


 


Cavaco tomou posse e voltamos à normalidade institucional: toda a gente na plenitude dos seus poderes, sem constrangimentos!


O pior foi o discurso! Bom, o pior não foi propriamente o discurso, foi o estado em que deixou as coisas…


Que o discurso de tomada de posse de Cavaco seria incomodativo para Sócrates – não vale a pena dizer para o governo: o governo é Sócrates, e Sócrates é o governo – já todos sabíamos. Já aqui o tinha previsto ao apontá-lo como uma das marcas de uma semana bem complicada para Sócrates: nenhuma novidade, portanto.


Também, a propósito desse discurso, aqui deixara dois votos: que limpasse o discurso de vitória e que desse sinais de que percebia a sua quota-parte de responsabilidade no estado do país, a condição sine qua non para se revelar parte da solução.


Se fui bem sucedido na previsão – não era difícil acertar – já nos votos que formulara não tive direito a nada. O que é condição suficiente para baralhar o discurso por completo!


É que, ao não limpar o discurso de vitória, este da tomada de posse confunde-se com a parte II do ajuste de contas. E, ao não deixar transparecer a mais leve responsabilidade neste estado de coisas, retira credibilidade ao diagnóstico. Que, apesar de há muito estar feito por toda a gente neste país, constituía o prato forte do discurso e o mais consensual!


Assim lá se ficou pela tareia a Sócrates com ameaças de “ainda vais levar mais”. Ah! E com os incentivos à revolta da geração à rasca… Ou da geração P…


Parece-me que, em qualquer país decente do mundo, qualquer primeiro-ministro minimamente decente teria entregue em Belém hoje, bem cedinho, logo pela manhã, um bilhetinho com a demissão!


E lembrarmo-nos que já ouvimos falar de pântano e de trapalhadas!


 

quarta-feira, 9 de março de 2011

RECAVACO

Por Eduardo Louro


 


A partir de hoje voltamos a ter presidente. Valha-nos isso, à falta de tudo que, pelo menos, tenhamos presidente!


É sabido que o segundo mandato presidencial é sempre diferente do primeiro. Mais interventivo, dizem!


Em democracia os políticos agem em função de eleições. Dos calendários eleitorais, das medidas com rentabilidade eleitoral e das atitudes e comportamentos que cativem, que caiam bem no eleitorado.


Uma certa perversidade do sistema, que duplica automaticamente os mandatos presidenciais de 5 anos, faz de cada primeiro mandato um mero período de preparação da reeleição. De pouco mais que uma simples férias em Belém, dentro daquela lógica imobilista do nosso funcionalismo que premeia quem não corra riscos, quem nada faça para, assim, não cometer erros.


Espera-se por isso um segundo mandato de Cavaco diferente do primeiro. Nem seria preciso que o anunciasse. Mais, precisa-se de um mandato completamente diferente do anterior, a começar já por limpar o seu discurso de vitória, de má memória. E a passar pela assunção das responsabilidades que lhe cabem na actual situação do país, condição necessária para que, percebendo que fez parte do problema, se empenhe em ser parte da solução!


 


 


 

terça-feira, 8 de março de 2011

É CARNAVAL!

Por Eduardo Louro


 


Ontem à noite um grupo de rapazes e raparigas da geração à rasca interrompeu um pacato jantar de campanha de Sócrates, em Viseu.


E incomodou!


Incomodou porque se incomoda sempre que se interrompe o que quer que seja. Mas incomodou muito mais porque estavam lá as televisões, que mostraram tudo. E incomodou ainda porque foi logo no início de uma semana verdadeiramente incomodativa para Sócrates – o que é mais do que justo, porque há muito que é ele a incomodar-nos durante semanas, meses e anos a fio!


Esta semana incómoda – tomada posse do Presidente, com um esperado discurso incomodativo, moção de censura, que apesar de tudo ainda trará os seus incómodos, e a terminar com a bastante incomodativa manifestação de sábado – é bem capaz de deixar Sócrates à rasca. Com os ouvidos ainda a acusar o zumbido dos ecos de uma certa votação num festival de cantigas, e a face já roborizada a pensar naquelas imagens a atravessar a Europa lá para Maio, aquela inesperada manifestação de hostilidade ali nas barbas de toda a sua rapaziada não era bom sinal.


Sócrates, no seu melhor, esforçou-se por desvalorizar: “…é isto que fazemos uns aos outros no Carnaval”!


Será que Sócrates acha mesmo que tudo isto não passa de uma partida de Carnaval?


Admito que sim! Porque ele acredita mesmo que vivemos num Carnaval permanente. Que o que é preciso é mascarmo-nos, fazer de conta. E que pode continuar a pregar-nos as suas partidas. Porque é Carnaval, ninguém leva a mal!


 

domingo, 6 de março de 2011

BATOTA

 


Por Eduardo Louro


 


O Benfica deslocou-se a Tripoli – perdão, a Braga – para disputar um jogo no Estádio do Dragão – perdão, na Pedreira, no chamado Estádio Axa – com uma equipa de antigos, actuais e futuros jogadores do Porto. E com um treinador do Porto. Uma equipa de um clube presidido por futuro presidente do Porto, que sabe condicionar os ambientes e os árbitros como o Porto.


Com o público do Dragão. Que canta as provocações do Dragão, com as bolas de golfe e os isqueiros do Dragão! E que pressiona os árbitros como no Dragão!


Também com um banco como o do Porto: muito interventivo, no jogo e nas decisões do árbitro.


Conhecíamos – não exactamente pelas melhores razões – uma sociedade de nome Bragaparques. Agora conhecemos outra: a Bragaporto!


Não teria nada contra esta sociedade – apesar de condenar as suas más práticas – se ela não interferisse no normal percurso da competição. Mas, como está bem fresco na memória o último Braga – Porto, parece claro que esta sociedade prejudica a competição. Quando certos jogadores de um sócio não estão disponíveis para jogar com o outro sócio, e quando os que jogam o fazem da forma que vimos nesse jogo, isso é BATOTA!


Não é a agressividade dos jogadores do Braga neste jogo de hoje que está mal. Essa, ao contrário das fitas batoteiras – mais umas más práticas vindas sabe-se lá de onde (o festival do Hélder Postiga no último Benfica – Sporting ajuda a descobrir) – é saudável. O que não é saudável é a sua evidente falta de agressividade no jogo com o Porto!


O resultado? Nestas circunstâncias é o que menos interessa, mas o Benfica perdeu, ao fim de perto de 20 jogos consecutivos a ganhar, por 2 a 1.


A arbitragem? Faz parte da batota!

sábado, 5 de março de 2011

LUTA NO FESTIVAL

Por Eduardo Louro


 


Os Deolindas - perdão, os Homens da Luta - ganharam o festival das cantigas da RTP!


Com a votação do público, que virou do avesso a "votação dos entendidos "…


Quer isto dizer alguma coisa?


Ai quer … quer! Quer dizer: “Sócrates, escuta, o povo está em luta”!


E deprimido... E deprimente... E decadente...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Futebolês #66 ABRIR O LIVRO

Por Eduardo Louro


 


Já aqui tratamos do nível de literacia do futebolês, quando falamos de leitura. Leitura de jogo, mas leitura!


Pois se há leitura no futebolês também terá que haver livro. Que, para se ler, terá que se abrir!


Abrir o livro, em futebolês, não tem no entanto nada a ver com esse acto com que se inicia a leitura. Abrir o livro tem aqui mais ligação a outras áreas da cultura e vai encontrar no recital o seu parente mais chegado.


Diz-se que um jogador decidiu abrir o livro como se pode dizer que iniciou o recital. Acontece quando um ou outro jogador, dotado de quantidade de génio que baste, parte para uma exibição de luxo. Quando está naqueles dias em que tudo sai bem, em que todos os deuses estão do seu lado, dispostos a ajudá-lo a soltar todo o talento que lá está dentro. Todo o génio que, envergonhado e tímido, tantas vezes se esconde não se sabe bem onde!


Para abrir o livro é evidentemente necessário que haja livro: quer dizer, talento e génio. Só os predestinados conseguem abrir o livro!


Depois há um problema que eu ainda não consegui perceber bem. Por que é que há jogadores que abrem o livro em todos os jogos e outros que só o fazem de tempos a tempos? Muito esporadicamente... Alguns apenas uma única vez em toda a vida…


Fico sem perceber se é um simples problema de hábitos de leitura ou se é um problema de esconderijo. Se é o talento que está tão bem escondido e aconchegado que não está para se dar a maçadas…


Quando se fala de Messi, e mais cinco ou seis logo a seguir, não há grandes dúvidas: o talento é tanto que não há espaço naqueles corpinhos para o esconder. Então já se sabe que onde quer que apareçam é para abrir o livro. É o que está a acontecer também com o Fábio Coentrão e com o Gaitan, o tal que não era ala – se era para substituir o Di Maria (outro autêntico livro aberto) bem podiam tirar o cavalinho da chuva, diziam as más-línguas – e hoje é um daqueles calhamaços abertos que ninguém consegue segurar.


Nós por cá não somos muito dados à leitura. Não temos por cá, a não ser nos transportes públicos, muita gente dessa de andar sempre de livro aberto. Já vimos que na Luz moram alguns! Pelo Dragão também passa um ou outro. Mas com livros de bolso, daqueles mais pequenos. Em Alvalade as coisas estão mais difíceis. Mandaram embora o levezinho - sempre de livro no bolso, pronto a abrir - e, agora, nem daqueles livros pequeninos de banda desenhada (do Patinhas, do Texas Jack e do Mandrake, lembram-se?) eles conseguem abrir!


Por isso é que as coisas estão como estão: o Benfica a bater recordes de vitórias consecutivas, com grandes recitais de elevada nota artística – como diz, à sua maneira, Jorge Jesus – e o Porto a ganhar o que importa ganhar, importando-se pouco de perder o que não importa muito ganhar. E o Sporting …


Quer dizer: o Benfica a jogar bem e a ganhar e o Porto a ganhar bem! Acontece que o Benfica, quando não jogou bem, não ganhou e o Porto ganhou, mesmo quando não ganhou bem! Essa é a diferença que faz hoje toda a diferença! Uma diferença onde também entram umas quantas arbitragens cirúrgicas. Ai aquelas primeiras quatro jornadas que cavaram logo um fosso de nove pontos …


 

JÁ NÃO HÁ SENADORES

Por Eduardo Louro


 


A blogosfera, bem como os media em geral, fez eco das declarações de Jorge Sampaio numa conferência organizada no Porto pela Associação Portuguesa de Gestão e Engenharia Industrial (APGEI). “Portugal está em apuros” – proclamou Jorge Sampaio. Toda a gente pegou nesta expressão, colou-lhe a célebre “há vida para além do défice” e apontou-lhe o dedo acusador!


“Portugal está em apuros” porque, como hoje vemos claramente, “há vida para além do défice” mas não presta. “Há vida para além do défice” mas é uma vida que nos deixa “em apuros”!


Outras das revelações de Sampaio, no mesmo fórum, que fez carreira mediática foi a ideia que a solução política deve passar pelo entendimento entre as diferentes forças políticas e não por eleições. Se nos “apuros” ninguém podia esquecer o “além do défice”, aqui ninguém pode, e poucos querem, esquecer que foi ele próprio a recusar esse caminho quando na presidência se cruzou com essa oportunidade.


Parece-me oportuno reflectir sobre isto. Sampaio fez dois mandatos presidenciais tranquilos e saiu com altíssimos níveis de popularidade. Que não são alheios à afectividade que introduziu nas suas magistraturas e à emoção que emprestava às suas intervenções públicas, frequentemente acompanhadas de uma “lágrima no canto do olho”. Nem, evidentemente, aos tempos áureos daquela “vida para além do défice”, com os épicos anos de 1998 e 2004!


Quando derrubou Santana Lopes e dissolveu o parlamento Sampaio teve inequivocamente o apoio da imensa maioria de todos nós. Quando, poucos meses antes, com aquela famosa frase sobre o défice se atirou à “obsessão” de Manuela Ferreira Leite pelo combate ao défice, também foi de encontro ao que a maioria da população então pensava. Era fácil porque, evidentemente, ninguém quer fazer sacrifícios. Mas foi assim!


Mas isso hoje já não conta para nada. O estado a que o país chegou, a total degradação das instituições, a desagregação social e a desesperança que tomou conta de todos nós não nos permitem hoje outra atitude que não seja a de apontar o dedo. Responsabilizar todos os que tenham passado pelo poder, mesmo pelos mais altos cargos da nação. Lembrar-lhes que são co-responsáveis. Que não damos qualquer crédito às ideias que emitam partir das suas poltronas senatoriais. E de lhes demonstrar que lhes negamos esse estatuto senatorial!


E, porque assim é, não tem importância nenhuma que Jorge Sampaio, por exemplo, tenha também dito que “o que está em causa não é só um plano de austeridade para sanear as finanças públicas, como também não é só um plano de crescimento a médio prazo, para melhorar o desempenho da economia”, que Portugal necessita “de um plano para reduzir as desigualdades sociais e a pobreza”.

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...