quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CORTE HISTÓRICO NA DESPESA

Por Eduardo Louro


 


Estava anunciado para hoje o anúncio do corte histórico na despesa. Um corte nunca visto em Portugal, o maior dos últimos 50 anos!


A forma como isto veio sendo anunciado só encontra paralelo na promoção dos espectáculos de circo que vemos pelas nossas cidades, vilas e aldeias ao longo do Verão. Com uma diferença significativa: é que o circo, seja onde for, nunca deixará de ser o maior espectáculo do mundo!  


A montanha voltou a parir ratos. Mais uma vez não se viram cortes, mas mais aumentos de impostos. Para ouvir falar de uma única medida de cortes na despesa teremos, uma vez mais, de esperar. Por agora pelo próximo orçamento de Estado!


Por enquanto uma coisa tem sido certa; de cada vez que fala em corte de despesa o governo descobre e anuncia mais impostos!


Depois de tantos e tantos fiascos à volta destes anúncios de cortes na despesa é difícil de entender como é que o governo insiste nesta estratégia circense. Ou talvez não!


Vamos lá a ver. Não há dúvida nenhuma que o governo não consegue dar corpo às expectativas que criou, ainda na oposição e depois, já no poder, sobre o corte na despesa. Por impreparação, sem dúvida, - porque não fez o trabalho de casa durante todo o tempo de oposição – mas também por falta de seriedade e objectividade política. Que, sendo habitual em toda a classe política, não é negligenciável para quem também reclamava um capital de seriedade e de rigor de que o país precisa como de pão para a boca. Porque se enganou, porque não foi sério, por incapacidade ou por todas estas razões, Pedro Passos Coelho e os seus ministros não sabem o que fazer com a despesa.


Por uma razão muito simples: é que a despesa é fixa e estrutural. Há evidentemente muito desperdício, que todos facilmente identificamos, mas que não é fácil de combater fora de um contexto de reformas estruturais, que exigem verdadeiras roturas (com interesses instalados, com lógicas de poder e redes de influências) mas também determinação e saber!


Por isso o governo continua a anunciar colossais cortes na despesa sem apresentar, credível e qualificadamente, uma única. Mas joga com palavras e conceitos que lhe permitam continuar a alimentar este espectáculo de circo, voltando a anunciar cortes que já vêm do governo anterior, prolongando congelamentos salariais e cortes de reformas que, sendo mais do mesmo, provocam, evidentemente, efeitos de redução de custos …para o futuro. Mas a tal gordura do Estado que Passos Coelho sabia tão bem cortar, essa é que não!


Este governo está, de resto, a ficar demasiado parecido com o anterior. O anterior andava de PEC em PEC falhando sucessivamente os respectivos objectivos; este está na mesma, apenas não lhes dá nomes, não lhes chama PEC´s porque já há memorando da troika. Diz que quer ir para além do memorando, para além das exigências da troika, mas apenas corre (com mais impostos) atrás de novos e sucessivos buracos, que ora chegam da Madeira, ora do afundamento da actividade económica. Ou dos erros de avaliação dos aumentos de muitos impostos!


O anterior governo abandonou completamente a realidade e passou a viver num mundo muito próprio, que mais ninguém conseguia ver. Este também já está lá próximo. Porque não pode distorcer assim tanto a realidade actual distorce o futuro, projectando o paraíso para 2014 e 2015, quando todos vemos que este presente não sustenta esse futuro. Que nada está nas nossas mãos, que nem sequer dependemos de nós próprios e do que consigamos fazer. Que o futuro nos foge que nem areia entre as mãos!

ESTRANHA CORRIDA

Por Eduardo Louro


 


 Não há volta a dar: já chegamos à Madeira! Os impostos vão aumentando mas não chegam para tapar todos os buracos.


Parece uma corrida, onde os impostos vão sempre atrás! Uma corrida que a pouca vergonha ganha sempre!


Será que continuará também a ganhar eleições?


 


 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

"ESTIGMATIZÓIDE"

Por Eduardo Louro


 


 Os novos passes sociais estarão apenas disponíveis para cidadãos cujo rendimento mensal não ultrapasse 1,3 vezes o Indexante de Apoios Sociais (IAS). Feitas as contas, têm acesso ao passe social as pessoas com rendimento bruto inferior a 545 euros por mês.


Postas as coisas assim segue-se o inevitável: fazer prova desse rendimento! Apresentar a declaração de IRS!


Tenho uma sugestão melhor. Deixo-a aqui de borla, sem cobrar nada a ninguém. A administração fiscal que, a acompanhar a nota de liquidação de IRS, passe a enviar para os contribuintes um autocolante para aplicar na testa!


 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

BOLA DE BERLIM

Por Eduardo Louro


 


Não resisto, na praia, a uma bola de Berlim, com creme; de preferência muito, a sair daquela abertura e a escorrer por entre o açúcar. Bola de Berlim, para mim, rima com praia; não me imagino de volta de uma coisa daquelas à mesa do café, da pastelaria ou da esplanada. Nem pouco mais ou menos!


Da mesma forma que, sendo eu um fanático dos pastéis de nata, nunca me imaginaria a comer um pastel de nata na praia. É assim mesmo, há coisas que têm destinos marcados. Nasceram para aquilo e não resultam noutras circunstâncias!


Se há coisas que são só minhas – as minhas manias (e são tantas…) – não me parece que seja o caso desta. Sem que, para o efeito, tenha efectuado qualquer estudo, não tenho dúvidas em afirmar que a maior parte do consumo de bolas de Berlim ocorre na praia: há dados empíricos que são como o algodão; não enganam!


Admito que qualquer estrangeiro, que provavelmente conhece muitas outras – a Berliner, a alemã donde lhe vem o nome, a da Polónia, a da Áustria, a de look mais semelhante à nossa, a da Ucrânia ou a de Israel -, ache isto a coisa mais estranha do mundo e que vendo a malta, de dentada na bola e com a boca cheia de açúcar, a torrar ao sol, pense com os seus botões que não há quem entenda estes portugueses. Se a bola de Berlim tem tudo – frito, óleo, creme, açúcar – o que as boas práticas alimentares condenam, tem também tudo o que, à partida, faria dela um bolo de inverno. Nunca de Verão e menos ainda de praia!


Mas é assim e eu diria que é cada vez mais assim. A bola de Berlim é hoje a rainha das praias, dando uma autêntica banhada aos gelados, à razão de um para cinco: por cada vendedor a anunciar o velhinho “olhó gelado…rajá fresquinho” (Rajá confundia-se com o produto – o gelado era um rajá, como uma máquina de barbear é uma Gillette - e o pregão permaneceu mesmo após o desaparecimento da marca) há cinco a apregoar – nos mais variados sotaques, do português com açúcar dos brasileiros ao português frio do leste europeu) – “bola de Berlim, olha à bolinha”!


A bola de Berlim e a praia há muito que casaram. É, ao contrário dos outros, um casamento duradouro e, com já referi, cada vez mais sólido. Tempos houve em que as bolas de Berlim nos eram servidas por umas mãos claramente divorciadas da higiene. Depois veio a tenaz e, mais tarde, a verdadeira perseguição da ASAE. Creio que terá mesmo sido o fundamentalismo inquisitorial da ASAE que criou a autêntica instituição que é hoje a bola de Berlim. O povo saiu à rua, a reacção não passou, e a bola de Berlim aí está, mais forte que nunca! E mais higiénica, é bom que se diga!


Há sempre coisas boas que ficam das guerras. Desta guerra ficou um cartuchinho e um lenço de papel!


Foi neste cartuchinho branco e neste lenço de papel que este Verão descobri os resquícios de uma invulgar campanha de marketing: a Optimus (será que com o acordo ortográfico terá de mudar?) resolveu aproveitar aqueles espaços, alvos e virgens do cartuchinho e do guardanapo, para a sua publicidade. Não para transmitir uma qualquer mensagem publicitária, das mais estapafúrdias às mais inteligentes que saem da cabeça dos criativos, mas para, pura e simplesmente, se apresentar como patrocinador oficial da bola Berlim!


Ora aí está o que faltava: uma marca de telecomunicações arvora-se em patrocinador de uma instituição como a bola de Berlim. Qualquer dia teremos a Vodafone a patrocinar a Torre de Belém, a TMN o pastel de Belém, a ZON o cozido à portuguesa, a MEO as ondas da Ericeira ou a PT a neve da Serra da Estrela!


Por curiosidade e porque acho que esta gente da comunicação e do marketing sabe o que faz, fui tentar saber mais sobre esta campanha. Vai já no segundo ano e percebi que a ideia é que o público, que associa o Verão à bola de Berlim, passe também a associá-lo á Optimus.


Bem me parecia que Verão é praia e praia é bola de Berlim… Que é óptima! Mas ... Optimus?

domingo, 28 de agosto de 2011

FAIR PLAY

Por Eduardo Louro


 


Acabei de assistir a um dos principais clássicos do futebol inglês: Manchester United vs Arsenal.


Um jogo fantástico com 48 remates às balizas e 10 golos – quase todos verdadeiramente fantásticos - com o United a humilhar os londrinos, ganhando por 8 a 2. No fim, os adeptos do Arsenal aplaudiram os seus jogadores, que não fugiram a correr para os balneários e agradeceram aos seus adeptos, aplaudindo-os de volta!


Como eu gostava que fosse assim em Portugal!


  

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

FUTEBOLÊS #90 GESTO TÉCNICO

Por Eduardo Louro


  


Gesto técnico é uma das principais expressões do futebolês. Tem tudo o que faz do futebolês uma subcultura com expressão própria!


É pretensiosa, mesmo a roçar o pedante, e é redonda, completamente abaulada! Porque poderia muito bem ser apenas gesto. Ou movimento. Ou acção. Ou, mais simples ainda, o que de facto é em cada caso: uma finta, ou um drible, que é a mesma coisa. Um toque de calcanhar, um domínio da bola, com paragem da dita no peito ou na coxa, uma recepção, um passe, a bicicleta, ou o pontapé da dita, enfim…


Quando alguém diz que o Xavi num gesto técnico perfeito colocou a bola nos pés do Messi que, com outro gesto técnico ainda mais perfeito passou por cinco adversários. Ou que o Cristiano Ronaldo num gesto técnico irrepreensível colocou a bola fora do alcance do guarda-redes, ninguém fica a perceber muito bem o que se passou, tanto mais que já todos sabemos que isso é o que cada um desses faz. Sempre e bem! Já quando se ouve que o Helder Postiga, com um gesto técnico desastrado, sozinho à frente da baliza atira a bola para a bancada, todos percebemos o que se passou. E já nem é por estarmos habituados à cena, é porque a bola para a bancada diz tudo!


Os gestos técnicos estão, como tudo ou quase, sujeitos às tendências da moda. E, como se sabe, não faz moda quem quer. Apenas quem pode!


Vejamos estes dois gestos: a trivela e o passe de letra. Do primeiro já falamos aqui há uns tempos, nada a acrescentar. Para a letrapasse, mas também remate, que ainda cá não tinha sido trazida – há que dar uma ajuda.


Diz-se que o passe é de letra – ou o remate, porque o gesto é também já utilizado para rematar à baliza – quando é efectuado a partir de um movimento em que o pé que toca a bola está por trás – e não ao lado - do outro, o de apoio, num movimento em que as pernas se cruzam num movimento contrário ao habitual, da frente para trás. Nunca percebi por que lhe chamam de letra - até porque o futebol não é muito dado a estas coisas das letras – mas admito que alguém veja ali o desenho de um L…


Ao evocar estes dois gestos técnicos alguns lembrar-se-ão de um ciganito que por aí andou há uns tempos: Ricardo Quaresma. Bem poderia ter sido ele o criador da moda, mas não fica assim na história. Quando era Nuno Gama no Porto quis ser Roberto Cavalli em Milão! Não resultou (terá sido dos anéis?) e lá vai ele parar à Turquia, que não é exactamente um grande centro mundial da moda. E hoje, trivela e passe de letra, são vulgares, massificados e estão disponíveis em qualquer pronto-a-vestir. Até nos chineses…


Já a bicicleta tem a grife de Cristiano Ronaldo e está tudo dito: sucesso garantido! É o gesto mais estúpido que existe, mas é do CR7, nada a fazer… Ah! Uma ajudinha, também: a bicicleta é aquele movimento em que, simulando o pedalar da bicicleta, se passam uns segundos que parecem uma eternidade sem que nem o jogador que o executa, nem a bola, nem o adversário - que é suposto enganar - saiam do mesmo sítio. Nunca dá em nada, mas pegou moda e é vê-lo por aí repetido por esses campos fora, como se de grande gesto artístico se trate! É o gesto preferido de Hulk, e nem os grandes jogadores do Barcelona o dispensam, como ainda agora se viu no Mónaco!


Já o pontapé de bicicleta não tem nada a ver com isto. É um gesto de elevado grau de dificuldade e de grande espectacularidade. Vale por si mesmo e não entra em modas. Se é moda é intemporal! Precisamente porque é um recurso último, quando só resta rematar com o pé que está mais à mão, como vimos esta semana Witsel (que grande jogador!) exemplificar no primeiro dos seus dois golos e dos três com que o  Benfica despachou a equipa de Co Adrianse.


O que já se vê muito pouco é o chamado pontapé de moinho. É um pontapé em que o movimento circular do corpo, todo estendido no ar paralelo ao solo, sugere o de um moinho. Ou o pontapé de tesoura, uma designação sinónima, que associa o movimento das pernas no momento do remate ao de uma tesoura. Artur Jorge, há 40 anos, no Benfica, foi quem em Portugal mais contribuiu para a fama deste gesto, mais difícil de executar e mais espectacular ainda que o pontapé de bicicleta. Executava de forma brilhante, e com muita frequência, este movimento que ficará para sempre ligado ao seu nome: um pontapé à Artur Jorge!


Como ao seu nome ficará também ligado o toque de calcanhar. Porque era ele o treinador do FC Porto que ganharia a Taça dos Campeões Europeus, em 1987 em Viena, com o tal golo de calcanhar de Madjer. A partir daí, e por muitos e bem mais espectaculares golos de calcanhar que tenham acontecido – e muitos foram, incluindo os do agora madrileno Falcao, que me lembre é o único jogador que apresenta no seu cardápio de golos toda esta gama de gestos técnicos – calcanhar e Madjer passaram a ser a mesma coisa.


E, curiosamente, o mais banal de todos os gestos técnicos, continua com a cotação em alta!

A MONTRA

Por Eduardo Louro


 


Não se podia exigir que o Porto ganhasse ao Barcelona. Não sei se isso chegou a passar pela cabeça de alguém mas, se aconteceu, foi apenas um devaneio!


Era, contudo, uma montra com muitas coisas para mostrar. E mostrou algumas!


Mostrou que o Barcelona não precisa de todos os seus titulares para continuar a passear a sua superioridade. Mesmo com centrais de recurso – um médio (Mascherano) e um lateral (Abidal) – não dá hipóteses


Mostrou que Messi até numa cabine telefónica consegue fintar toda a gente, uns atrás dos outros.


Mostrou que não vai ser possível esquecer Falcao e que não vale a pena Pinto da Costa dizer que não anda à procura de um substituto. Que os portistas podem estar descansados porque o Ulk não seguirá as pisadas de Falcao e de Álvaro Pereira. E monstrou porquê. Por que é que Moutinho e mesmo Varela aguçam o apetite muita gente por essa Europa quando, do Incrível, ninguém se lembra. Não é pelos 100 milhões, esses sim, da treta: é pelo que se viu!


Mostrou por que é que o André Vilas Boas perdeu o número do telefone do cabo-verdiano Rolando. E talvez tenha mostrado alguma coisa aos árbitros portugueses…

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

COISAS QUE NÃO BATEM CERTO

Por Eduardo Louro


 


Os ricos querem pagar impostos para ajudar os seus países nesta crise que não tem fim. Os ricos querem pagar a crise, respondendo a um célebre repto dos tempos do PREC em Portugal. O movimento começou na Alemanha, há perto de dois anos, como aqui então dei nota. Passou para os Estados Unidos e por Warren Buffett e para a França, já com uma longa lista de personalidades – algumas, mas apenas algumas, mesmo muito ricas – a assumirem o dever patriótico de pagar impostos.


Há aqui qualquer coisa que não bate certo!


O normal seria que os ricos, tal como todos nós, protestassem contra os impostos que têm de pagar. E normal ainda seria que o Estado lhes cobrasse os impostos que a sua condição ditaria!


Nada disto é normal, e sugere que afinal o Estado, como todos nós já desconfiávamos, não tem tido a preocupação de ir procurar dinheiro onde ele está. Tem preferido ir tirá-lo a quem o não tem, ou a quem tem pouco. O que, como é bom de ver, não bate certo!


Mesmo sem que nada disto bata certo a moda também chegou a Portugal. Onde logo o primeiro da lista dos mais ricos se apressou a dizer que não. Que não é rico, mas um simples trabalhador! Faltou-lhe dizer que, na sua qualidade de trabalhador, já paga impostos de mais. Como todos nós! E aí começaríamos a descortinar alguma normalidade no país sobre a matéria…


Mas não tardou que começassem a surgir mais sinais da normalidade portuguesa. Começou logo pelo governo anunciar que iria estudar o assunto, como vem sendo normal. Uma certeza: o que aí vier surgirá em sede de IRS. Com muito cuidado, para evitar que os ricos – que são já tão poucos em Portugal – fujam todos!


E logo surgiu um exército de fazedores de opinião a explicar que não vale a pena ir por aí: são tão poucos os ricos em Portugal que, tribute-se o que se tributar, a receita nunca passará de peanuts. Nem vale a pena incomodar essa gente, deixem-nos em paz – era esta, ao fim e ao cabo, a mensagem que teria de passar!


E logo houve quem surgisse a simplificar as coisas: tributem-se os rendimentos sujeitos a IRS a partir de 100 mil euros anuais – Miguel Beleza dixit! Está resolvido o problema: rico, mesmo rico em Portugal, é quem ganha 7 mil euros brutos por mês, que hoje leva para casa perto de 3 mil! Não se preocupem com os outros!


Não bate certo: mas esses não são os mesmos? Mas esses não são a classe média? Os que têm estado a pagar tudo?


Afinal a importação do tema, para consumo interno, serviu apenas para nos levar a concluir que não há ricos em Portugal e que, ao contrário do que parece possível noutras paragens, terão de ser sempre os mesmos a pagar a crise.


Estavam bem enganados aqueles que há trinta e tal anos escreveram por essas paredes fora: os ricos que paguem a crise!


 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A CHAMPIONS, FINALMENTE!

Por Eduardo Louro


Benfica de primeira rumo à Champions (SAPO)


Com a melhor exibição deste início de época o Benfica chega, finalmente, à Champions. Pelo caminho, desta vez, ficaram os holandeses do Twente que, depois de lisonjeiro empate a dois golos na Holanda, perdeu hoje na Luz por 3-1.


Com uma exibição empolgante, o Benfica não só justificou a presença entre os grandes da Europa como confirmou ser o dono do melhor futebol que, nesta altura da época, se pratica em Portugal!  

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ESTRATÉGIA E ACASO

Por Eduardo Louro


 


A selecção nacional de sub 20 conquistou um brilhante segundo lugar no campeonato do mundo, na Colômbia, quebrando, assim, um longo jejum de êxitos desportivos das nossas selecções de futebol, e em particular das mais jovens, escalões onde especialmente ao longo da década de 90 - o primeiro título mundial tinha surgido em 1989, em Riade - nos habituamos ao sucesso.


O sucesso da prestação da equipa portuguesa na Colômbia, inquestionável e que, de repente, pôs toda a gente a olhar para esta selecção - muitos nem sabiam que existia – voltando a unir os portugueses à volta do seu futebol, levanta a velha questão dos objectivos das selecções jovens. Tão simplesmente isto: deverão as selecções jovens, ditas de formação, estruturar-se para ganhar títulos ou, pelo contrário, deverão antes estruturar-se e vocacionar-se para assegurar o futuro competitivo da selecção principal, esta sim, ganhadora e porta-estandarte da verdadeira competitividade na mais globalizada das indústrias que é o futebol?  


Este é uma questão antiga. Mas também curiosa: é que só vem à tona quando uma qualquer selecção de jovens atinge o sucesso desportivo. Quando estas selecções não ganham nada – nem se percebe que estejam a construir coisa alguma – não há qualquer questão. Ninguém se lembra que nada está a ser feito em prole do desenvolvimento e do futuro do futebol português. É verdade, é assim. Porque nós somos mesmo assim: se não temos nada, está tudo bem; mas se temos alguma coisa decidimos minimizá-la para enfatizar o que não temos!


E no entanto a questão existe, é séria e deve colocar-se: o que mais importa? Vencer campeonatos da Europa e do Mundo de sub 17, sub 19 ou sub 20 ou preparar o futuro? O que não me parece bem é que apenas seja lembrada quando ganhamos alguma coisa…


Excepção feita ao Brasil e à Argentina – que, por razões demográficas, sociológicas, de desenvolvimento e até de natureza - têm um campo de recrutamento praticamente inesgotável, as grandes potências do futebol mundial não eram as mais bem sucedidas nas competições do futebol jovem. E isto pareceria apontar num sentido claro: as grandes potências encaram a competição no futebol jovem como mero espaço de crescimento. De formação e maturação de futuros craques!


Ora, parece-me que o que se passa em Espanha vem esclarecer muitas destas coisas. Não há dúvidas, pelo menos da minha parte, que nuestros hermanos detêm, de há década e meia a esta parte, a melhor escola de formação do mundo. Neste período obteve assinalável sucesso competitivo nos escalões mais baixos e foi, por uma única vez – Nigéria, 1999 – campeão mundial de sub 20, onde não conta com mais qualquer presença na final. Mas foi essa selecção que se fez campeã da Europa em 2008 e do Mundo em 2010. E que vem encantando o planeta com um futebol do outro mundo, que deixa argentinos e brasileiros rojos de vergonha! Uma selecção que já vem muito de trás e sempre ganhando!


Quem seguiu com alguma atenção este campeonato realizado na Colômbia pôde perceber que a selecção espanhola foi a que melhor futebol apresentou, igualzinho ao da selecção A - campeã europeia e mundial, repito – e que só não ganhou por circunstâncias próprias do jogo, onde nem sempre ganha a melhor equipa. Ficaram pelos quartos de final, eliminados pelo Brasil - depois de um jogo fabuloso que dominaram por completo - através dos pontapés da marca de grande penalidade, mas pôde perceber que ali, naquela equipa e naquele campeonato do mundo, se estava a tratar do futuro do futebol espanhol! E concluir que esse futuro está assegurado.


Pois bem: a selecção portuguesa foi brilhante – não retiro uma vírgula ao que aqui deixei logo depois da final perdida – mas percebeu-se que tocava a solo. Onde havia coisas que não batiam certo. Que nada daquilo tinha a ver com uma ideia para o futebol nacional, que era mesmo, como então salientei, a antítese daquilo que o caracteriza, virado exclusivamente para o resultado naquela competição.


Não direi que esta nossa selecção, agora recebida em apoteose, tenha morrido em Bagotá, logo que o árbitro deu o apito final – como poderiam sugerir os últimos minutos daquele dramático prolongamento – mas ninguém consegue ver ali o futuro que se vê aqui ao lado.


A FPF, que há muito se desligou da formação e que vive à grande à custa do tempo em que a fez, terá de perceber que há estratégia e acaso. Enquanto há dinheiro…


 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

UM LOUCO A MENOS!

 


Por Eduardo Louro


 


 


Este, já era… Mesmo com todas as hesitações, mesmo deixando o povo líbio entregue a si próprio!


42 anos de tirania, perseguindo, torturando e matando, dentro e fora de fronteiras, têm que ir a julgamento! Isto não pode ficar tudo bem embrulhado num exílio dourado à beira do Mediterrâneo!


E lembrarmo-nos que ainda há tão pouco tempo ele esteve por aqui, acampado com as suas excentricidades e os seu delírios. Com todas as honras! E que, ainda há menos de um ano, era o nosso governo que lá estava, de mão estendida


É apenas menos um louco que anda por aí!


 

sábado, 20 de agosto de 2011

GERAÇÃO DE CORAGEM

Por Eduardo Louro


 


 Não há vitórias morais. A jovem selecção portuguesa acaba derrotada pela do Brasil por 3-2. Mas também não se deverá dizer, desta vez, que o segundo lugar é o primeiro dos últimos.


 Nem uma arbitragem que chegou a ter momentos deploráveis, designadamente ao distribuir injustificadamente amarelos pelos portugueses enquanto permitia todo o tipo de entradas violentas aos brasileiros, que condicionaram claramente o jogo, e de que a lesão de Cedric é apenas um exemplo, nem o facto de perdermos com um golo resultante de um cruzamento falhado, já na parte final do prolongamento, aliviam o amargo desta derrota.


Mas esta selecção merece que não lhe poupemos nos aplausos.


É uma selecção nacional atípica. Como vi escrito algures “há coisas que não batem certo nesta selecção”!


De facto assim é. A começar pelo seleccionador que, trabalhando jovens, não é um treinador jovem. Como os que estão na moda e como os que tradicionalmente trabalham as selecções jovens: treinadores em início de carreira e/ou acomodados na estrutura federativa. Se não me engano, desde Peres Bandeira, no longínquo ano de 1979 e no longínquo Japão, que nesta selecção de sub 20 se não via um treinador, não direi veterano, mas sénior. E que também não é um treinador mediático, daqueles que gostam das grandes exibições nas conferências de imprensa e de grandes parangonas nos jornais. Pelo contrário, é um treinador de low profile, com toda a carreira feita nos escalões de formação, no caso ao serviço do Porto, e com grande competência.


Competência que se começa logo a notar no próprio estilo de jogo que a equipa apresentou neste campeonato do mundo. E aqui está mais uma coisa que não bate certo: o estilo de jogo desta equipa não tem nada a ver com o estilo português. Não é um futebol rendilhado e curto, sustentado por extremos rápidos e habilidosos. Mas é um futebol rápido e vertical, muitas vezes de passes longos. Que usa para estender o jogo e o campo e que são mesmo passes e não pontapés para a frente, nada do kick and rush britânico. Passes difíceis de executar que nada têm a ver com aquele passe curtinho, sem risco, que tanto vemos no tradicional futebol português.


Também não tem um 10, o jogador que joga de cabeça levantada e pensador do jogo. Não, tem jogadores humildes e operários que tapam espaços mas que também os sabem ocupar. E, the last not the least, tem um ponta de lança corpulento – Nelson Oliveira, de 1,86 metros e 83 quilos – mas muito rápido e que sabe jogar à bola. E a sério, de alto nível técnico!


Não será uma geração de ouro mas, como lhe chama o seu timoneiro – Ilídio Vale – a geração de coragem. Uma equipa solidária, com grande força mental e adulta, coisas que, como se sabe, são raras no nosso futebol!


 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Futebolês #89 CANTERA

Por Eduardo Louro


  


Cantera é uma incursão do futebolês pela língua de Cervantes. Em português corresponderá a centro de formação: de jogadores de futebol, no caso. Ou, em futebolês português, a escolas de formação, agora pomposamente chamadas de academias, designação de que o Sporting se apropriou, como que reclamando a primazia da sua escola no panorama da formação de jogadores de futebol em Portugal. Ou fazendo igualmente jus ao pioneirismo das suas infra-estruturas desportivas, a que chamou justamente Academia de Alcochete.


É provavelmente por toda esta amálgama de conceitos e de sensibilidades que o futebolês acabou por privilegiar a expressão castelhana. É que cantera é muito mais que tudo isso, é uma maternidade de talentos para a prática do futebol. É um forno donde sucessivamente saem fornadas, umas atrás das outras, de jogadores talentosos, identificados com uma determinada cultura e com certa filosofia de jogo.


Era isto que nós gostaríamos que fossem as nossas escolas - chamem-lhes academias, campus ou lá o que quiserem – mas não são. E é porque o não são que também o futebolês preferiu consagrar a cantera.


Antigamente, antes destas expressões surgirem, referíamo-nos aos jogadores formados no clube de uma forma muito simples, que vi recordada um destes dias por um dos nossos habituais leitores, o Adérito Martins: eram os que vinham dos juniores!


Se existem escolas de formação de jogadores um pouco por todo o mundo – de que o Sporting, em Portugal, e o Auxerre, em França, são dois bons exemplos – a verdade é que, canteras a sério, encontramos em Amsterdão, no Ajax, apesar de aparentar já um certo declínio, e em Barcelona, aí sim, em todo o seu esplendor. Basta olhar para a constituição da equipa que vem encantando o mundo de há quatro anos a esta parte, e reparar que lá estão sempre nove ou dez jogadores formados na suas escolas, com a sua cultura e a sua filosofia. Uma cultura e uma filosofia que transportam Messi para patamares extraterrestres, que não confirma ao serviço da seleção argentina, e que alimentam a fantasia da eterna comparação com Cristiano Ronaldo.


Em Portugal abandonou-se a formação, com os clubes a preferirem ir procurar jogadores – uns já formados, outros nem por isso, por esse mundo fora. Agora até já o Sporting! Até as equipas de juniores estão já cheias de jogadores estrangeiros. Daí a enorme bofetada de luva branca que a seleção nacional de sub 20, que discute hoje com o Brasil o título de campeã mundial. Vença ou não esta final já provou aos principais clubes nacionais que estão errados quando todos os anos lhes tapam o acesso às suas equipas! Provavelmente ninguém aprenderá nada com esta brilhante demonstração de capacidade destes jovens e tudo ficará na mesma!


Como na mesma parece estar o campeonato nacional que agora arrancou. Com o Benfica e o Sporting a falharem o arranque – desta feita com o Sporting a ser a vítima da arbitragem – e o Porto, tal como no ano passado, a ganhar com um penalti daqueles que só são assinalados a seu favor. Dizem as estatísticas que, nesta primeira jornada, foram cobrados 96 pontapés de canto e, apenas num único, o defesa agarrou o avançado! E, para que tudo continue na mesma, o Rolando mantém-se como o único defesa com autorização para jogar a bola com a mão na sua grande área!


Para que nem tudo fique na mesma Falcao deixou o Porto, depois de ter renovado o contrato e subido a cláusula de rescisão para 45 milhões de euros. Como de lá ninguém sai sem que seja batido o valor da dita cláusula, lá foi ele para o Atlético de Madrid precisamente por esse valor: o Ruben Micael acompanhou-o como dama de honor, acreditem!


Mas esses já não são milhões da treta! Ou serão? É que o Atlético de Madrid, como ainda há dias dizia Pinto da Costa, não tinha dinheiro para comprar o Falcao e os outros, os que tinham, se o quisessem já se teriam manifestado… Afinal o homem não é infalível! E há mesmo milhões da treta…


 

PARQUE EXPO

Por Eduardo Louro


 


 Acabamos de conhecer a segunda medida da ministra da agricultura, ambiente e afins. Menos mediática que a primeira – a das gravatas, se ainda se lembram – mas mais surpreendente: a extinção da Parque Expo, a sociedade criada para “construir, explorar e desmantelar a Expo 98”!


A Expo 98 foi desmantelada há 13 anos! Surpreendente, não?


O que é que terá andado a fazer neste 13 anos? Ninguém sabe exactamente! Sabe-se que se andou a endividar e sabe-se que os encargos financeiros com esse endividamento eram a alavanca que sustentava a espiral do mesmo endividamento. Confuso? Não, apenas o costume!


Ah! E sabe-se que o anterior ministro das finanças, o inesquecível Teixeira dos Santos, a distinguiu, há apenas um ano, com nota máxima no relatório “Princípios de Bom Governo”. Premiava então o ministério das finanças, segundo o Público, o rigor da gestão e as melhores práticas do sector empresarial do estado “ao nível da transparência nas respectivas actividades e disponibilização de informações aos accionistas, agentes económicos e público em geral”. Ao mesmo tempo aumentava-lhe o capital social! Sim, a uma sociedade que há muito havia esgotado o seu objecto social!


Ao menos que, agora, as exéquias sejam rápidas. E contidas!


 


 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

AGOSTO

 Por Clarisse Louro *


 


Aí está Agosto. Aí estão as férias!


Ainda não consegui perceber por que tudo tem que parar em Agosto. Se por uma questão de economia, de gosto ou apenas mais uma medida desadequada a que temos sido habituados ao longo dos últimos anos.


Eu, por questões profissionais e contra a minha vontade, tenho mesmo que tirar férias em Agosto: com aulas e exames até finais de Julho, e responsabilidades na programação do novo ano académico, tenho que estar de regresso ao trabalho logo no dia 1 de Setembro para que, em meados de Setembro, se recebam os novos e os velhos alunos para mais um ano de trabalho. Não tenho alternativa!


Ao contrário dos outros anos, em que neste mês nada acontece e tudo pára, neste tudo acontece: no Mundo na Europa é o desnorte total. Os mercados financeiros, ao contrário do que seria de esperar nesta altura, estão freneticamente agitados, com crashes por tudo o que é Bolsa. A crise das dívidas soberanas aí está, cada vez mais viva, agora a entrar pelas grandes economias europeias e a mostrar que o problema está longe de se limitar às pequenas economias periféricas. Os Estados Unidos viveram dias de angústia, à espera de um acordo político que lhes permitisse evitar roturas de cumprimento neste Agosto, que culminaram na redução da notação de rating. Abandonaram o AAA, deixando os chineses de cabelos em pé.


Na Europa o buraco negro aproxima-se a grande velocidade sem que se vislumbre a mínima capacidade de o enfrentar. Os líderes europeus interrompem as férias de Agosto mas nada resolvem, tudo fica na mesma. Em finais de Julho tomaram decisões, mas em Agosto decidiram deixá-las na gaveta. Melhor fora que as não tivessem tomado, o descrédito seria menor…


Por cá também as coisas vão de mal a pior, por muito que a troika nos tenha vindo dizer que estamos no bom caminho. Diz-nos a troika porque o governo não nos diz nada: nem isso nem outra coisa que não seja que é necessário aumentar impostos. Daqueles que somos todos nós – sempre os mesmos - a pagar! Dos outros não, não aumentam ou até são para baixar, como a Taxa Social Única!


Disse, mas depois disse que não disse, que tudo isto era por causa de um desvio colossal. Agora a causa é já um desvio previsível. Mas, pelos vistos, inexplicável! É que isto de conferências de imprensa sem direito a perguntas também não ajuda nada…


E, a pouco e pouco, o capital de esperança de que o novo primeiro-ministro e o novo governo eram portadores vai-se desvanecendo. Pela minha parte vejo-me já a abeirar da engrossada fila dos desiludidos, eu que conheci de perto o actual primeiro-ministro, que me empenhei na sua candidatura, que me identifiquei com boa pare do seu pensamento político e que tantas esperanças cheguei a depositar nesta solução!


Dizia-nos o actual primeiro-ministro, antes das eleições, que sabia muito bem onde e no que cortar na despesa. Que sabia muito bem onde cortar a gordura do Estado! Parece que não sabia. Nem sabe ainda… Mas também dizia que não iria aumentar impostos e, como todos os seus antecessores, foi a primeira coisa que fez!


E vemos que vale tudo. Que as forças armadas, por exemplo, não entregam há meses os valores de IRS retidos. O que é crime, como todos sabemos! Que, para cobrir mais uns quantos despautérios do BPN e uns desmandos do Dr Jardim, se vai voltar às maquilhagens das transferências de fundos de pensões. Desta vez da banca!


Enfim: valha-nos que ainda há umas férias para gozar. É aproveitá-las bem. É o que continuarei a procurar fazer no que ainda me resta das minhas, agora que, pelo menos aqui por estas bandas, o sol, o calor e estes finais de tarde deliciosos tomaram definitivamente conta deste Agosto!


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

GOVERNO ECONÓMICO EUROPEU DE AGOSTO

Por Eduardo Louro


 


Sarkozy e Merkl anunciaram ontem, depois da cimeira franco-alemã de emergência, a constituição de um governo económico europeu, para a zona euro.


A cimeira, que apenas serviu para dar a entender aos franceses e aos alemães que eles é que mandam nisto - deixando-os porventura muito felizes - não serviu para nada. Nada de novo, nadinha mesmo!


Nem o novo governo económico? Não! Nem o governo económico, nem o chefe desse governo – Van Rampuy (sabem quem é? Sim, é esse, o dito presidente do conselho europeu, parido pelo tratado de Lisboa!) – nem o atestado de incapacidade permanente passado à Comissão Europeia e ao seu presidente, o nosso Durão Barroso! Nem a taxa Tobin. Nem a morte da esperança nos eurobonds, nem os atentados à democracia nos processos de decisão. Nem a hegemonia alemã servida em bandeja francesa. Nem sequer a sensação de que isto tudo chegou ao fim!


Foi bonito enquanto durou!

(A)GOSTO DE ADIAR

Por Eduardo Louro


 


Afinal o TGV – o famoso TGV Lisboa Madrid, obsessão antiga – ainda mexe ou será apenas um detalhe do fascínio deste governo pelos adiamentos?


Como o governo adia tudo, porque tudo continua por estudar, acredito que quando o Álvaro diz ao governo de Madrid que em Setembro lhe dará novidades, não queira dizer que o governo não saiba muito bem que não se pode meter em aventuras. Quem disse do TGV o que Maomé não diria do toucinho não pode, agora, dizer estas coisas. Nem mesmo em Madrid!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

TSU A GOSTO

Por Eduardo Louro


 


Tenho manifestado aqui em diversas oportunidades a minha oposição à ideia de reduzir a Taxa Social Única (TSU) como medida de compensação da competitividade perdida pela possibilidade de lançar mão da desvalorização cambial. Esta medida de desvalorização fiscal rapidamente evoluiu de uma simples ideia, lançada à pressa e sem que se soubesse bem do que estava a falar, para um dogma irrefutável. Mais dogmática e mais irrefutável a partir do momento em que passou a integrar o memorando da troika!


Muita gente continua a defendê-la: pelos méritos próprios e intrínsecos – redução dos custos do factor trabalho como apport de competitividade externa, nas exportações e na substituição de importações – e pelos efeitos colaterais da sua compensação na receita fiscal – o aumento das taxas de IVA que, garantem eles, produz um efeito dissuasor de consumo e, consequentemente, de redução das importações.


Não vou repetir os argumentos que aqui tenho apresentado para contrariar esses méritos, próprios e alheios. Vou apenas chamar a atenção para um artigo de Daniel Bessa publicado suplemento de Economia do Expresso deste fim-de-semana, precisamente uma das vozes que sempre defendeu, desde a primeira hora, esta ideia, hoje dogma. Demonstra que as ideias não podem ser lançadas para o ar e deixá-las seguir como um balão ao sabor do vento. Que têm de ser pensadas e validadas! E prova que a honestidade intelectual nos impede de ficarmos agarrados a uma ideia apenas porque, à partida, ela nos soou bem.


Convido-vos a ler!


 

domingo, 14 de agosto de 2011

A GOSTO DUVIDOSO

Por Eduardo Louro


 


Inesperadamente, e sem que ninguém tenha percebido, Falcao, em plena Copa América, prolongou o seu contrato com o Porto, fazendo disparar a cláusula de rescisão de 30 para 45 milhões de euros. E, naturalmente, os seus proventos!


Como então aqui tive oportunidade de salientar isto era surreal e com o propósito evidente de surgir como mais uma jogada de mestre de Pinto da Costa, na linha da da substituição de André Vilas-Boas. Não havia quem pudesse compreender que um jogador que sabe estar a ser cobiçado por meio mundo – ou mesmo pelo mundo todo dos grandes clubes europeus – aceitasse aumentar as dificuldades, ou mesmo inviabilizar, de uma expectável transferência!


Mais difícil de perceber é no entanto que menos de dois meses depois, e no final do primeiro jogo do campeonato, venha o jogador dizer alto e em bom som que quer sair. Que é agora tempo de sair, quando há dois meses atrás era de ficar!


Ninguém entende. Tanto mais que referiu mesmo o Atlético de Madrid como provável destino. O mesmo Atlético de Madrid de que, ainda há poucos dias Pinto da Costa, à sua maneira desrespeitosa e no seu tom predilecto, dizia que nem tinha dinheiro nem era clube para Falcao. E que, evidentemente, não pertence ao mesmo campeonato dos emblemas que, há um ou dois meses, manifestavam interesse na sua contratação: Chelsea, Real Madrid e Barcelona!


Ou muito me engano ou chegou o momento de Pinto da Costa engolir muitas das suas palavras. Ou de pagar caro por elas!


 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Futebolês #88 TEMPORIZAÇÃO

Por Eduardo Louro


  


Temporização: atraso calculado de uma ação, geralmente à espera de momento mais propício. No futebol também há disto, palavra por palavra, letra por letra!. No futebolês, no entanto, a temporização tem um sentido bem mais lato e menos objetivo. Tem a ver com controlo de jogo e posse de bola e, em última instância, com mais um neologismo do futebolês: descansar com bola!


Saber temporizar o jogo é mais do que meio caminho para o seu controlo. É saber gerir os ritmos baixos do jogo, a começar logo pelo seu lançamento. É saber mandar no jogo! Para mandar no jogo há que estar por cima dos seus diferentes momentos: acelerar o jogo e lançá-lo para ritmos elevados e baixar-lhe o ritmo para adormecê-lo e adormecer o adversário, gerindo o esforço da equipa sem perda de concentração e com o controlo da bola, obrigando o adversário a desgastar-se atrás dela enquanto, tranquilamente, descansa. O tal descansar com bola, que as grandes equipas têm de saber fazer. E que os grandes treinadores têm de saber colocar em prática!


É, ao fim e ao cabo, a vertente estratégica do jogo. Não é uma questão táctica, essa joga-se noutro tabuleiro. Uma equipa não muda de táctica quando assegura a gestão dos ritmos de jogo, mantém a táctica dentro de uma determinada estratégia de jogo!


Em Portugal é a equipa do Porto quem, sem qualquer dúvida, melhor joga com a temporização do jogo. Praticamente nas antípodas está o Benfica de Jesus, uma equipa que apenas conhece a variante acelerada do jogo. Apenas sabe jogar em ritmo elevado o que, evidentemente, é impossível de fazer durante todos e cada um dos noventa minutos do jogo. Na maior parte do jogo a equipa está exposta às vicissitudes do próprio jogo – que não controla – e às acções do adversário.


Tem sido sempre assim. Foi assim na primeira época – a tal dita de fantástica mas que foi exactamente assim – quando, ainda assim, resultou. Pelo efeito surpresa e porque encontrou uma concorrência subdimensionada (o adversário foi o Braga, o que diz tudo). Foi assim, com os resultados conhecidos, na segunda e é assim na terceira, que acaba de se iniciar. Não custa muito adivinhar com que resultados: o primeiro não foi famoso!


O Benfica acaba de abrir o campeonato com um empate em Barcelos (2-2) num jogo que aos 18 minutos ganhava por dois a zero! Num jogo em que, mesmo quando empolgava, com jogadas de grande ritmo e velocidade, como as que resultaram nos dois golos marcados, a equipa não deixava de estar exposta ao adversário e às vicissitudes em que jogo é fértil, como um pontapé inspirado de um tal Laionel que, ironia do destino, tinha feito precisamente o mesmo no jogo de abertura da época passada. Só que então na Luz e, na baliza, Roberto!


É uma frase feita mas não deixa de ser verdadeira: uma equipa que quer ser campeã não pode deixar de ganhar um jogo depois de estar a vencer por dois a zero! E, sem saber jogar com os tempos do jogo, situações como esta irão repetir-se muitas vezes ao longo da época, não havendo plantel que resista…

(m)A(u)GOSTO

 


Por Eduardo Louro


 


A montanha pariu um rato!


Já não surpreende, afinal este governo está a revelar-se especialista na criação de montanhas … que parem ratos. Estará – quem sabe – a dar um forte contributo para o desenvolvimento económico, em especial da indústria química. Com esta taxa de natalidade, se há actividade com boas perspectivas de crescimento, é mesmo a dos raticidas.


Anunciar o anúncio de medidas de corte de despesa e depois apenas comunicar mais do mesmo já não é problema de comunicação. É algo bem mais grave que apenas justifica a colagem do anúncio das decisões do conselho de ministros à conferência de imprensa da troika. Assim percebemos o que ontem não se percebia!


Mais uma vez o governo escondeu do país as famigeradas medidas de corte na despesa. As tais que sucessivamente reclamou no passado. As tais que são a chave de saída desta maldita situação e que garantem 2/3 da solução. Anunciou mais um brutal aumento de impostos – agravamento do IVA da electricidade do gás e da electricidade em cerca de 400% - e, de despesa, falou no congelamento das progressões das carreiras no âmbito dos ministérios da administração interna e da defesa: ou seja, dos militares e afins! Mas isso nem é corte de despesa nem novidade. É poeira!


É certo que o aumento do IVA naqueles dois bens essenciais estava previsto no memorando da troika. Mas era para o próximo ano. Ao antecipar esta medida o governo apenas fez mais do mesmo: ir ao bolso dos contribuintes. E isto não deixa de ser assim pelo simples facto de, em grande parte dos países europeus, esses bens já estarem sujeitos a tributação pela taxa máxima.


Mais uma vez o ministro das finanças, no seu tom pausado e pseudo-professoral, e agora sem direito a perguntas, fugiu da objectividade e do esclarecimento como diabo da cruz, insistindo numa linguagem opaca que apenas contribui para a confusão. Depois do desvio colossal insiste agora num desvio previsível que se cifrará em 1,1% do PIB. Se o desvio colossal, que serviu de sustentação do novo imposto, não foi explicado, também não será este, agora previsível, a sê-lo. O que é mau, porque nós sabemos que o défice do orçamento para este ano tinha sido fixado em 4,6%. E que a troika o fixou, no memorando que estamos obrigados a cumprir, em 5,9%. Isto é, 1,3% acima, qualquer coisa como os 2 mil milhões de euros que o primeiro-ministro, colossal ou não, já por várias vezes referiu.


É mais do que tempo de tornar estas coisas claras, porque com tanta poeira a ser-nos lançada para os olhos, corremos o risco de cegar de vez.


Apenas uma referência final à conferência de imprensa da troika - de que o governo aproveitou a boleia – para notar que, sobre esta questão da despesa, eles sabem mais do que nós. Para falarem como falam não têm poeira a tapar-lhes a visibilidade! E para notar que a troika transformou mesmo a redução da TSU num dogma. E no dobro (redução em 7 pontos percentuais) do que o governo vinha adiantando, o que irá provocar mais um desastre porque, com mais um aumento das taxas IVA, quem sai a ganhar é a economia paralela!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A(contra)GOSTO

Por Eduardo Louro


 


O primeiro-ministro interrompeu as férias - Manta Rota ficou agora sob a mira das televisões, como há um mês esteve Massamá – para se deslocar a Lisboa para uma reunião do Conselho de Ministros de anunciadas colossais medidas.


É estranho, mas é assim: no final da reunião a notícia não foram as decisões tomadas; a notícia foi o anúncio do anúncio das medidas decididas. As medidas, ao que se diz de cortes colossais na despesa, serão anunciadas amanhã, logo pela manhã!


Esta é mais uma particularidade deste governo. Se calhar, como o governo começava a ser acusado de sucessivamente adiar as medidas de corte da despesa, este adiamento de um dia na sua comunicação é estratégico.


Receio que estes cortes colossais sejam mais umas colossais desgraças… A despesa pública é rígida e preenchida, fundamentalmente, por salários e prestações sociais. Como em salários é muito difícil mexer não será muito difícil de acertar nos cortes que aí vêm. Que sejam bem feitos, objectivos e direitinhos a muitas das situações que têm vindo a ser denunciadas. Se não for assim, e não é fácil que o seja, virão aí mais desgraças!


O resto … bem o resto serão medidas moralizadoras: extinção de um outro serviço e fusão de mais uns tantos serviços e institutos. Que têm significado político, que poderão até moralizar a distribuição dos sacrifícios e que, nesse sentido, serão de aplaudir. Mas com pouco impacto, quando o anunciado objectivo é de encontrar aí a solução para 2/3 do problema.


E já que estou em tempo de especulação, espero bem que tenham aproveitado para abandonar a ideia da redução ta TSU. Já toda a gente percebeu que isso não resolve coisa nenhuma; vai, pelo contrário, trazer novos problemas. Há ideias que rapidamente se evoluem para dogmas. Mas os dogmas também se abatem!


 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

AGOSTO

 


Por Eduardo Louro


 


Olho de relance para o televisor e, num frente a frente do Mário Crespo, reconheço a Helena Roseta e a Teresa Caeiro. Já ontem, num idêntico relance, dera conta que o Alfredo Barroso contracenava com o Diogo Feio.


Pronto, já percebi como acabou a guerra entre aqueles dois, com Mário Crespo, salomónico ou não, a premiá-los a ambos. Em vez de os sancionar, como seria normal: quem não se sabe comportar não deve ser premiado por isso!


Mas na verdade, e em tão pouco tempo, não percebi apenas como acabou esse incidente na SIC. Acabei também por perceber como começaram os de Londres e que já alastram à maior parte das grandes cidades inglesas. Explicou-mo a Helena Roseta: É que agora não há guerras e os jovens não têm onde descarregar os seus excessos de energia!


Não consegui - nem estava para aí virado - acompanhar o resto da narrativa. Bastou-me ouvir aquela explicação. Que deve ser boa porque a outra senhora não reagiu, como fazia com o Alfredo Barroso…


Agosto é mesmo assim: feito de coisas parvas!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A GOSTO

Por Eduardo Louro


 


Enquanto Londres está a ferro e fogo, Obama se resigna ao nosso romantismo – este país será sempre AAA e não se submete a agências de rating –, as bolsas mundiais “crasham” e o Quim e o Nuno Gomes regressam à selecção, nós estamos em Agosto. E, a gosto, de férias!


Dizia-se que este ano não haveria férias. Ninguém iria de férias: os deputados porque a Assembleia da República nem fecharia; os ministros porque não teriam tempo para isso mas ... francamente, quem começa a trabalhar em final de Junho não tem direito a férias, e os portugueses em geral porque não teriam dinheiro.


A verdade é que Agosto é irresistível! E lá estamos quase todos de férias. Incluindo o primeiro-ministro, lá para Manta Rota… Aquilo do facebook é que não saiu lá muito bem: sacrifícios não rima com férias. E, no fim, desejar “continuação de bom Verão” poderá parecer irónico.


O Presidente da República também está de férias e também nos dá conta disso pela mesma via, pelo facebook. Mas aí, ao contrário do primeiro-ministro, já estávamos habituados. Não nos surpreendeu…


Pois, eu não utilizo o facebook… Boas férias!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Futebolês #87 LIMPEZA DE BALNEÁRIO

Por Eduardo Louro


  


O balneário é sagrado, como já tivemos oportunidade de ver. De um local sagrado o mínimo que se espera é … limpeza. Num local que pode concentrar mais valor que os cofres-fortes de qualquer banco de primeira linha espera-se limpeza máxima, um esmero de asseio onde tudo brilhe…


E no entanto, em futebolês, a limpeza de balneário não tem nada a ver com isto. Não tem nada a ver com limpeza e com asseio, mas tem muito a ver com expurgar, expulsar ou mesmo empurrar – nem que seja para baixo do tapete – lixo. Podendo o lixo ser mesmo porcaria ou simplesmente o que já não presta, como uma maçã podre, por exemplo.


Pois é, limpeza de balneário não é mais do que correr com uma série de jogadores que alguém entende serem lixo, já não prestarem e, pior, que representam altíssimo risco de contágio. Neste sentido a limpeza de balneário chega mesmo a assemelhar-se a um profundo processo de desinfestação. Limpa-se mas vai-se mais longe, eliminando-se todos os riscos de contágio por infecção!


É certo que, às vezes, esta operação de desinfestação é do tipo cirúrgico, com pinça e bisturi. Nada melhor que o Sporting para percebermos melhor cada uma destas distintas formas de limpeza. No ano passado – há um ano atrás – no Sporting tudo corria bem: um bom presidente - o José Eduardo Bettencourt, como todos estarão recordados -, um grande treinador, Paulo Sérgio – de créditos firmados no panorama desportivo nacional através de uma sólida carreira no Paços de Ferreira e de um curto, mas espectacular trajecto de dois ou três meses no Guimarães –, um director desportivo experimentado e de currículo invejável, o Costinha, e um excepcional grupo de jogadores como Hildebrand, Torsiglieri, Evaldo, Grimi, Zapater, ou Saleiro, para não ser muito exaustivo. Mas havia um pequeno-grande problema: o João Moutinho, um jogador sem categoria para jogar naquela equipa mas, pior ainda, um tipo sem brio profissional, sempre indisponível para jogar, fosse por lesões, resultantes de permanente deficiência de condição física, fosse por punições disciplinares, resultantes de uma gritante falta de sentido de responsabilidade. Um péssimo exemplo para os colegas e, azar dos azares, capitão de equipa!


Uma maçã podre – como muito bem definiria o presidente – que representava sérios riscos de contaminar grandes e lindas maçãs verdes como Maniche, Vukcevic ou Tales Souza, por exemplo. Impunha-se e muito bem uma desinfestação do tipo cirúrgico: pegar no João Moutinho e mandá-lo para bem longe! Alguma coisa correu menos bem e acabou por ficar bem por perto. Perto de mais!


Não correu lá muito bem. E começou a perceber-se que, afinal, nem o presidente, nem o director desportivo, nem o treinador, nem os jogadores eram bem o que se dizia. E, de rabinho entre as pernas, acabaram todos por, um a um, ir abandonando o cesto: primeiro o director desportivo, depois o presidente e, finalmente e a muito custo, o treinador. Ficaram os jogadores, foram ficando. Antes da partida do presidente ainda chegaria outro director desportivo que, já com o novo presidente mas sempre com os mesmos jogadores, ainda viraria treinador. Como se percebe só os jogadores é que permaneceram, inamovíveis!


Inevitável pois a limpeza de balneário marcada para o início deste Verão. Árdua tarefa, a exigir uma vassoura das grandes e cheques, coisa que por ali vinha rareando nos últimos tempos. Muitos cheques! Cheques para os que partem e cheques para os que chegam. Que foram muitos: catorze, até agora!


Pode ser que corra bem: melhor do que no ano passado não é difícil! É que às vezes estas limpezas de balneário correm mal. Lembro-me que, há 17 anos, depois do título de 1994, um senhor dado como especialista na matéria – Artur Jorge, lembram-se? - chegou à Luz e fez uma limpeza daquelas em que vai tudo a eito. Em que, ao deitar fora a àgua, vai também o bebé: deu num jejum de 11 anos! E na descolagem do Porto que, a parir daí, abriu e foi embora


Este ano chegou a parecer que também Jorge Jesus andava de vassoura na mão. Nuno Gomes e Moreira pareciam apontar para sinais de limpeza mas, vá lá… parece que não. Chegaram 20 caras novas mas, pelo que se tem visto, mantém na equipa 5 ou 6 jogadores da época passada. Portugueses é que já não há. Nem Roberto, esse guarda-redes de grande futuro …


 

MAIS FLASHES

Por Eduardo Louro


 


Voltei a uma consulta ao hospital – não, descansem que nem estou a ficar doente nem as salas de espera dos hospitais passaram a fazer parte dos meus fetiches – e, dada a minha experiência anterior, voltei a não levar nada para ler.


A verdade é que nem sempre tudo corre bem. Às vezes há imponderáveis que são capazes de fazer correr mal - ou mesmo muito mal – aquilo que tinha tudo para correr bem. Foi o caso: mais de três horas de espera!


A sala desta vez era outra. Maior e com uma configuração em L, estranha e, pareceu-me, pouco dada ao exercício preferido dos portugueses nestas circunstâncias: a conversa, em especial a conversa sobre doenças. As que têm e as que imaginam ter. Fui passando os olhos por toda aquela fauna bem própria deste habitat. Algumas personagens destoam: mulheres altas e louras, bem encorpadas e de olhos claros. Invariavelmente com crianças! Mulheres e crianças, a deixar a ideia que naqueles imigrantes do leste europeu os homens não têm tempo para adoecer. Apenas para trabalhar e garantir o sustento da família!


O ritmo de chamadas é grande: “serviço M - senha 123 – gabinete 214”! A voz é agradável e repete a chamada enquanto um monitor se esforça por captar a atenção da sala com o piscar sucessivo e rápido da mesma informação. Sem qualquer ordem! A sequência, conforme também explica o mesmo monitor, é por ordem de marcação da consulta, e não de chegada, ou qualquer outra! À senha 123 não se seguirá a 124!


É como se toda aquela gente estivesse de olhos vendados, a jogar à cabra-cega o que, começo então a perceber, explica - mais que a configuração da sala – a desmobilização geral. É isso, as pessoas estão tão suspensas da cadência daquela voz e da do piscar daquele ecrã que nem lhes dá para conversar.


Mesmo assim sinto o assédio: um olhar, um desabafo ou uma tirada mais ou menos provocatória. Porque não é só para dançar o tango que, como descobriu alguém que bem conhecemos (e aqui cumpro uma pausa de silêncio em respeito pela dor de alguém que, em pouco mais de duas semanas, perdeu o pai e um irmão), são precisos dois. Para a conversa também!


Resisti – confesso que entre desconhecidos não é nada fácil arrancarem-me uma palavra – mas, como sempre acontece, o que uns rejeitam outros desejam. “Venho para a consulta de diabetes; o que me vale é que é só de 6 em 6 meses” – lançou a rapariga de 34 anos, como ela própria se intitularia pouco depois:”sou uma rapariga nova – sim, só tenho 34 anos – e já tenho tantas doenças”, sem contudo adiantar mais nenhuma.


“Eu tenho açúcar a menos, vim com o meu pai, que tem açúcar a mais, porque eu, ao médico, só vou ao do seguro”, reponde, formando-se finalmente o par, um homem de 39 anos, confirmados da mesma forma:”eu tenho 39 anos e no fim do ano vou para a reforma; até aos 65 estou safo”! Trabalha numa serração de madeiras onde, pelo que foi dado perceber, teve a sorte de sofrer um acidente de trabalho de que, à vista, não sobram sequelas: “se não tivessem desligado a máquina todo eu tinha sido feito em salsichas”!


Ela está desempregada há mais de dois anos. E sem qualquer subsídio. “Não fosse o marido…” Tem portanto marido. E duas filhas pequenas que não lhe permitem regressar à sua antiga actividade: motorista de camion, nos transportes internacionais. “Se lá fosse pedir emprego voltavam a aceitar-me. É disso que eu gosto. Saía-me do corpo mas ganhava muito bem. Depois casei…”


“Pois, agora há muitas mulheres nessa vida. Não a queria para mim! Mas olhe que isso agora não está bom, eu conheço uns imigrantes do leste que andam nisso e dizem que está mau”- respondeu-lhe ele!


A conversa passara já pelo custo de vida, pelos combustíveis e, daí, por carros. Ele tinha um carro de alta cilindrada: um Xantia, 1600, que apenas conseguia manter porque não precisava de o usar. “Trabalho portão com portão e, ao fim-de-semana, só saio no Verão. No inverno não saio de casa”. O Xantia - para quem ligue pouco a automóveis – é o modelo topo de gama (a indústria automóvel alemã provocou nos últimos 20 anos um downgradind generalizado dos modelos de topo dos restantes construtores) da Citroen dos anos 90, o antecessor do actual C5. Ela tinha um pequeno velho utilitário, a gás: “como anda pouco não lhe compensa meter a gás, mas a mim compensa, que ando muito”!


“Serviço A - senha 105 – gabinete 202” – ouviu-se. Ela levantou-se e dirigiu-se apressadamente para a porta em frente. A conversa acabou ali mesmo, sincopada, sem uma despedida. Nem um último olhar!


A conversa é descartável. Como as pessoas!


Acho que é por isso que ninguém me consegue arrancar uma palavra, por maior que seja o assédio!


 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

BRINCAR COM COISAS SÉRIAS

Por Eduardo Louro


 


É absolutamente inaceitável que alguém, quem quer que seja, faça uma chamada falsa para o 112. Faz parte dos princípios básicos e da mais elementar educação cívica. Tanto que, depois de inúmeras campanhas de sensibilização, passou a ter enquadramento criminal.


É chocante que seja uma jovem deputada – e se aqui o género é irrelevante o mesmo não se poderá dizer da idade – a fazê-lo. É vergonhoso que o tenha feito em plena sessão na Assembleia da República para, conforme revelou com a maior das canduras e uma inocência infantil, testar a qualidade do depoimento em curso do responsável do INEM. É escabrosa a forma como, no clímax de uma atitude irresponsável, a deputada Joana Barata Lopes apresenta a sua conclusão: o tempo de atendimento não fora de 9 segundos, como sustentava o responsável do INEM, mas de 14, como ela própria acabara de constatar. É ridículo que o PSD venha, depois de perceber o disparate da sua jovem deputada, dizer que “não se tratou de uma chamada falsa mas de um teste circunscrito”. Seja lá isso o que for.


Mas isto é repugnante! Haja decoro!


 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

24 HORAS

Por Joana Louro *


 


Acabei de cumprir mais uma urgência de 24 horas! Há umas 24 horas mais longas que outras... Este foi um daqueles bancos de 24 horas, mas das longas! Depois de “passar o banco” à equipa médica que entrava fresquinha para uma outra maratona de 24 horas, aquela sensação de sempre, que se repete após cada passagem de testemunho: do dever cumprido que tranquiliza o espírito e que tem o estranho poder de transformar um cansaço imenso numa agradável sensação de bem-estar.


Sempre gostei de fazer urgência. Pelo desafio clínico único, diagnóstico e terapêutico e, naturalmente, pelo imediatismo dos resultados, bem distinto do de outras áreas da medicina, como o internamento ou a consulta. Na urgência pensa-se, decide-se e intervém-se rapidamente. E este conjunto de acções rápidas, e idealmente eficazes, pode salvar vidas. O que transforma o trabalho em urgência em algo particularmente apaixonante.


Mas as urgências dos hospitais têm mudado muitas... mudanças que têm destruído muito do desafio médico de outros tempos. Vamos, eu e muitos colegas, tentando encontrar fórmulas que possam contrariar algum desencanto e ajudar a descobrir novos desafios.


Os Serviços de Urgência (SU) dos hospitais são uma porta aberta 24 horas por dia, sete dias por semana. Sem barreiras, onde não se recusa qualquer entrada e a que todas as pessoas têm acesso. Cidadãos legais ou não, gente com queixas clínicas ou não, com situações urgentes ou não. Que outro local apresenta estas características? Nenhum! Estas particularidades têm tornado, por este pais fora, os SU na única solução para muitos problemas de muitas pessoas, esquecendo, ignorando ou mesmo desprezando que o uso negligente e abusivo deste recurso enfraquece a qualidade dos cuidados de saúde e prejudica quem está realmente doente!


Neste meu último banco recebi doentes que foram enviados numa ambulância para o hospital com uma queixa inventada. Após inúmeras tentativas de contacto, os familiares lá deixam escapar que, afinal, não existia nenhuma situação clínica. Simplesmente não querem o doente em casa! Outros acumulam dezenas de passagens pela urgência sem qualquer episódio agudo, apenas porque aquela é a única porta aberta que nunca lhe recusa o atendimento. E atenção! A única saída que encontraram para combater o abandono e a solidão, o único local onde sabem ir encontrar pessoas que lhes falem. Ou que apenas as ouvem!


E tantos outros que ali vão deixar o último suspiro. Por ignorância, por medo, por falta de formação, por falta de humanismo ou por falta de amor dos que lhes são mais próximos. Cada vez há mais doentes que entram na urgência para se despedir deste mundo, simplesmente porque chegou a hora deles. Não precisam de assistência médica, apenas de paz, dignidade e de um mínimo de amparo no momento de partida. Coisas que, por mais que nos esforcemos, não existem num SU. Coisa que, por mais que tentemos, não conseguimos corrigir!


É de tudo isto que se faz um SU de 24 horas. Desta vez foram cinco as pessoas que, chegada a hora da partida, viram negado o direito ao último suspiro na tranquilidade do seu lar, na companhia e com o amparo dos seus. E é por tudo isto que há 24 horas que são maiores que outras!


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PROFESSORES CATEDRÁTICOS E MINISTROS CATEDRÁTICOS

Por Eduardo Louro


 


Pouco a pouco, e ao fim de um mês, vamos começando a tomar os primeiros contactos com os ministros do novo governo. Os tais que não tinham experiência política e que eram jovens…


As experiências não têm corrido lá muito bem. Como já aqui expressei esta rapaziada não está exactamente a entusiasmar!


Ontem, e particularmente hoje, foi a vez do ministro da economia. Pois, o Álvaro, como manifestou gostar de ser tratado logo de início, também não se saiu lá muito bem. O registo não foge muito do tom geral já deixado pelos seus colegas de governo, muito à volta do “não podemos falhar e não vamos falhar”, do “estamos a estudar e iremos apresentar medidas”. Mas nada de coisas palpáveis e concretas a deixar perceber que estar na oposição não serve para nada que respeita à preparação para governar. Parece que foram surpreendidos, que o poder lhes caiu do céu e que agora é que vão começar a pensar nos problemas. Mesmo no caso do Álvaro, que até estava farto de escrever sobre os problemas do país. E das suas soluções!


Acresce, no caso em apreciação, que o Álvaro utiliza um tom professoral pouco simpático num discurso que contraria o compromisso assumido pelo chefe do governo de não se desculpar com a pesada herança. O super ministro é mesmo o campeão desse discurso: não apresenta nenhuma medida, nem sequer uma ideia – ele que tem justamente a responsabilidade de colocar o país no caminho do crescimento – e esgota o seu discurso na análise do passado: do mais distante, até com elogios à política económica dos anos 50 e 60, ao mais recente do desastre do último governo, incluindo o “ambiente de ostentação” que encontrou no(s) seu(s) ministério(s). Há-de haver alguma explicação para isto. É que já o ministro das finanças faz o mesmo: quando nos explicou que nos iria ao bolso buscar metade do subsídio de Natal começou por nos historiar a evolução da economia nacional nos últimos 100 anos.


É pena que estes ministros mais novos e sem experiência política – ainda falta a da Agricultura e adjacentes, eventualmente ainda parada a contemplar as gravatas penduradas nos cabides do ministério – não prestem atenção ao seu colega Ministro da Educação. Também ele não tem experiência política e também ele é professor catedrático. Tem mais uns anitos, é certo. E faz tudo ao contrário dos outros e tudo o que faz, faz bem! Apresenta medidas em vez de anunciar que está a estudá-las, o que prova que já as tinha estudado, que fez o trabalho de casa. E usa um discurso claro, objectivo e credível. Não fala de cátedra, nem como catedrático.


Fala e percebe-se o que diz. E - o mais importante - acreditamos no que diz: todos, até os sindicatos, que aterrorizavam todos os anteriores ministros. Que eram ministras!

TORTO...TORTO...TORTO

Por Eduardo Louro


 


Se a nacionalização do BPN ficou marcada pela incompetência – eu continuo a preferir considerá-la assim – a sua reprivatização é marcada pela troika. Foi a troika que a impôs - numa imposição a que nem faltou o deadline, que mais ajudaria a apertar o garrote à volta do Estado-vendedor - e foi uma outra troika quem comprou. Com a particularidade de a troika compradora - Isabel dos Santos - Américo Amorim – Mira Amaral - ser tão impositiva quanto a outra, a que impôs a venda.


E, como já estamos habituados a obedecer a troikas, isto foi fácil. Tão fácil que até eles ficaram surpreendidos, como há dias aqui dava conta. Uma troika impôs a venda e outra a compra! Pelo meio ninguém que se preocupasse muito com os contribuintes, que têm de pagar tudo. Até os roubos que acontecem nos negócios privados!


Lembram-se de, há três anos atrás por volta desta altura, o então novo Presidente do BPN – Miguel Cadilhe – ter pedido ao Estado 600 milhões de euros? Lembram-se? Era, dizia na altura, quanto precisava para recuperar o banco do estado em que os accionistas assaltantes o tinham deixado.


Interrogava-me então eu – e muitos outros certamente – por que carga de água é que haveríamos de ser chamados a participar na resolução de um problema que não nos dizia respeito. Aquilo era surreal: com que lata é que vinha um tipo pedir 600 milhões para resolver um problema numa empresa privada. Que era um banco mas que era também muito mais que um banco…


O ministro das finanças – o então ainda bem-amado Teixeira dos Santos – colocou-se de imediato ao lado destas perplexidades: não fazia qualquer sentido envolver os contribuintes neste problema, disse então. Mas foi sol de pouca dura: três ou quatro meses depois nacionalizava o banco. Apenas o banco assaltado. O pouco do produto dos assaltos que ainda restava e se distribuía pelas empresas que compunham o universo Sociedade Lusa de Negócios (SLN) ficou de fora. Nacionalizava os prejuízos. Limpinhos, para não haver dúvidas!


Depois, o resto é conhecido: milhares e milhares de milhões de euros que ainda não pararam. Nem irão parar, pelo que se sabe do negócio… em que, uma vez mais, o Estado faz a coisa pelo limpinho. Se quando nacionalizou quis ficar com o osso limpinho agora, na reprivatização, quer dar o lombo limpinho, sem um osso!


A ideia que fica é que este não é se não mais um capítulo do pesadelo BPN. Agora, quando os principais partidos parlamentares pedem esclarecimentos – os que suportam o governo chamando ao Parlamento a Secretária de Estado Maria Luísa Albuquerque (sem que se perceba por que não o ministro das finanças) e o grupo parlamentar do PS a chamar os concorrentes preteridos – e enquanto o Montepio Geral diz que aceita sem contestação o desfecho do processo, o tal Núcleo de Investidores Privados (NEI) vem dizer que o negócio não está fechado. Que não recebeu qualquer informação oficial e que as negociações continuam em curso, razão pela qual não podem adiantar os contornos da sua oferta.


Ora aí está um interesse acrescido para a iniciativa do grupo parlamentar do PS: ver quem lá aparece!


A nós, que temos de pagar tudo isto, resta limitarmo-nos a pedir um pouco de respeito…

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...