segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CHOQUE DE GERAÇÕES

Por Eduardo Louro


 


A opinião publicada tenta reinventar a velha luta de classes de Marx aplicando-a agora a um novo conceito em que as gerações substituem as classes sociais. Onde as gerações mais novas são agora o proletariado oprimido e explorado pela burguesia opressora e exploradora que são os mais velhos. Os seus pais, vejam bem!


A ideia começou a espalhar-se já há alguns anos com a perspectiva de, pela primeira vez, os filhos poderem vir a ter uma qualidade de vida inferior à dos seus pais. Sem grandes justificações mas apenas porque sim.


Depois foram os investimentos públicos nas mais diversas infra-estruturas a dar uma mãozinha. Que, agora cada vez mais sofisticados e exigentes nas suas múltiplas variáveis, projectam responsabilidades financeiras sobre várias décadas, a partir de cada vez mais sofisticadas engenharias financeiras “legitimadas” por um princípio novo que se dá pelo nome de utilizador-pagador. Ora, se as gerações vindouras virão a ser utilizadoras…


Claro que também herdam muitas dívidas sem contrapartida, porque se andamos há tanto tempo a consumir mais do que produzimos, alguém haverá de pagar isso. Se pagar… mas isso é outra estória!


Mas também o mundo mudou. E muito! Apenas três exemplos bem espalhados pelas duas últimas décadas: o desabamento do bloco de leste,  a posterior e consequente globalização, e a questão demográfica.


Com o desaparecimento, por implosão, do bloco soviético desapareceu também o grande “regulador” do sistema. Paralelamente aumentava esmagadoramente a oferta de uma mão-de-obra bem qualificada e barata.


A globalização gera deslocalizações de investimento, com a consequente perda de postos de trabalho mas, fundamentalmente, obriga à deslocalização de recursos, com o surgimento de largos milhões de novos consumidores que aspiram um dia chegar aos padrões de consumo do mundo desenvolvido.


E que, com a ajuda  da redução da taxa de natalidade nos países mais desenvolvidos, põem em causa uma enorme série de coisas que dávamos por adquiridas: os tais célebres direitos adquiridos que muitos, por andarem distraídos ou por quererem distrair os outros, querem dar por sagrados.


As novas gerações vivem níveis de conforto como nenhuma outra. Apresentam-se como a geração mais qualificada. E são – no na realidade, porque dispuseram de condições como nenhuma outra. Mas é também por isso, porque essa qualificação não é hoje uma vantagem comparativa tão decisiva como nas gerações anteriores, que lhes está mais fechado o acesso aos níveis de conforto dessas gerações. Recorrendo à imagem – que não é minha, vi-a por aí, não sei onde – de um diploma equiparado a um bilhete de lotaria, agora, com tantos, é mais difícil ser premiado.


Parece-me que seria mais interessante discutir isto – isto e o resto, bem entendido, porque os problemas existem, não são meras invenções destes jovens de hoje, como existem todos os outros que afectam todos os outros, em particular os que têm o azar de cair no desemprego logo a partir dos 40 anos – do que inventar uma guerra de gerações alimentada por uns tantos analistas que, à esquerda e à direita, gostam de se entreter com exercícios que acabam mas é por chocar as gerações. Todas!   


Creio que, nunca como agora, aquilo que sempre entendemos como choque de gerações esteve tão esbatido. O que hoje temos para enfrentar não é um choque de gerações, são dificuldades, e muitas, que atravessam todas as gerações. Estamos todos à rasca, essa é que é essa!

GENTE EXTRAORDINÁRIA VI

Por Eduardo Louro


 


Chama-se Leonardo Jardim, é, como o nome deixa entender, madeirense e foi, até há pouco, treinador do Beira Mar. Na época passada, conduziu a equipa de regresso à I Liga e, sempre com o clube envolvido no meio de problemas organizativos e financeiros sem fim, conseguiu, ao longo desta, estabilizar a equipa em torno de níveis exibicionais bem altos e de resultados francamente positivos, ocupando sempre a primeira metade da tabela classificativa.


Tinha por isso, que não é pouco, dado nas vistas!


No final da passada semana começaram a surgir notícias que davam conta do envolvimento do FC Porto. Que Pinto da Costa, bem à sua maneira, classificava de imbecilidades.


Dizia-se que, também bem à sua maneira, o teria contratado já para a eventualidade do André Vilas Boas sair. Para a hipótese de chegar uma proposta do estrangeiro que o levasse da sua tal cadeira de sonho. Com um plano B, bem à Pinto da Costa: se o rapaz não fosse levado a deixar a sua cadeira de sonho, o destino temporário do madeirense seria Braga.


Uma viagem de Aveiro ao Porto com escala em Braga!


A conversa, ontem mesmo, de Domingos Paciência era um mal encapotado discurso de despedida. Hoje, o Leonardo de Jardim abandonou o Beira Mar!


Contra a vontade do presidente do clube, surpreendido com a decisão do treinador. A notícia correu: “Leonardo Jardim não chegou a acordo com o Beira Mar para a renovação do contrato e rescindiu o contrato”!


Ninguém percebe. Então não chegar a acordo para a renovação do contrato implica rescindir agora o contrato em vigor até ao final desta época? Por que raio rescindir agora um contrato que termina em Junho apenas porque não quis, e dentro de toda a sua legitimidade, renová-lo para além dessa data?


Não bate certo, mas o treinador explicou: “… entendo que é o momento certo para sair do Beira Mar”!


Nem bate certo nem percebemos a explicação!


Enfim, gente extraordinária…

sábado, 26 de fevereiro de 2011

GENTE EXTRAORDINÁRIA V

Por Eduardo Louro


 


A situação era insustentável: uma equipa destroçada, à deriva de desaire em desaire, que em nada acredita. E em quem ninguém acredita!


O treinador – Paulo Sérgio – mais que um erro de casting, era o descrédito vestido de fato de treino. Há muito no mais instável dos equilíbrios à beira do ridículo sofreria um empurrão de um adjunto com tanto de anónimo quanto de deprimente. O resto foi feito por uns escoceses de terceira linha…


“A direcção da SAD que se chegue à frente”, dizia já em plena queda ao mais profundo dos infernos, mas ainda em jeito de ultimato.


E tiveram de se chegar à frente, não lhes restava outra alternativa!


Só que, gente extraordinária como é, ainda lhes restava uma via aberta para a asneira: o director geral, contratado há dois meses para revolucionar todo o edifício do futebol, passa a treinador!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Futebolês #65 FAZER POSSE

Por Eduardo Louro


 


Acredito que se forem procurar na literatura já disponível sobre o futebolês, ou em qualquer tentativa de dicionário desta linguagem, não encontrarão esta expressão: fazer posse. Já sei que estão a pensar googlar. Tirem o cavalinho da chuva: só encontrarão fazer pose!


Não é a mesma coisa, garanto-vos!


Corro pois o risco de ser acusado de andar para aí a inventar palavras – que não palavrões – e expressões para o futebolês só para alimentar esta rubrica. Garanto que não invento nada! Esta, parece-me, é uma expressão nova. Ouvi-a recentemente da boca de um dos novos agentes do fomento e desenvolvimento desta variante de comunicação – um dos muitos treinadores desempregados que viram comentadores, e donde surgem verdadeiras revelações na arte do futebolês.


Nos primeiros números desta rubrica, onde a bola era rainha, revelava-se o que chamaria de uma certa dimensão erótica da bola. Era o beijo, e em particular a forma como ela, beijando-as, se enrola nas redes. Ou a bola (parada), a mais apetecível beldade, objecto de abraços, apalpões e ciúmes. Ou mesmo a segunda bola!


Regressamos a essa dimensão erótica da bola a propósito desta expressão de hoje. Porque tudo começa no próprio acto de possuir a bola. Toda aquela gente, todos e cada um daqueles 22 jovens que por ali andam não sonham com outra coisa que não seja possuí-la. Lutam doidamente pela sua posse, como qualquer macho feroz pela sua fêmea. O tempo do acto de possuir é rigorosamente medido e depois apresentado em estatísticas sob a forma de percentagem: umas vezes bem repartido pelos dois conjuntos, outras com desequilíbrios verdadeiramente obscenos. Veja-se o caso do Barcelona: aquela rapaziada possui a bola com evidente exagero. É sempre bem acima dos 60%, eles possuem tudo e não deixam nada!


Deixemos por agora os catalães e a sua obsessão por possuir a bola e fixemo-nos na dinâmica própria desta linguagem.


Possuir a bola, também em tempos referido como ter a bola em seu poder – notoriamente menos romântica – rapidamente evolui para posse de bola. Depois foi só deixar cair a bola para se fixar na posse.


E surgem a construção em posse, a progressão em posse ou, ainda, a posse e circulação. Até ao novo fazer posse. Isto é o que deveria chamar uma verdadeira língua viva!


Fazer posse é então um neologismo do futebolês utilizado para referir uma circunstância de jogo que passa por possuir a bola por bons períodos de tempo. Por guardá-la para si, trocando-a entre os colegas quase a roçar o despudor. Ou, fugindo a esta carga mais perversa, fazendo-a circular entre os jogadores.


Evidentemente que, como em tudo na vida, não faz posse quem quer. Faz posse quem pode! Quem dispõe de jogadores com capacidade técnica, quem trabalha a cultura de posse e quem respira saúde física e mental.


Se estas condições se não conjugarem ninguém segura a bola. Se falta a condição mental então que a bola queima! Sem condições psicológicas os jogadores não estão seguros de tratar bem a bola  - problemas de adolescência, diria - e querem livrar-se dela o mais rapidamente possível. De qualquer maneira porque ela até lhes queima os pés!


Desconfio que a bola também tenha as suas preferências. Enquanto queima os pés de uns aconchega-se docilmente nos de outros. Enquanto foge que nem o diabo da cruz de gente como Gatuso, Mascherano ou Bruno Alves, corre alegremente para os pés de Messi, Nasri, ou Cristiano Ronaldo. Enquanto se passeia, airosa e obediente, entre Xavi, Iniesta e Messi, foge que nem uma barata tonta de Maniche, Saleiro e Djalo!


Peço desculpa pelo exemplo: as coisas não estão para exemplos destes. Como dizia um amigo e leitor: corre-se um risco de atentado ao pudor!


 

GENTE EXTRAORDINÁRIA IV

Por Eduardo Louro


 


Acabo de ouvir, pela boca do bastonário Marinho Pinto, que a Ordem dos Advogados exige a demissão do Director Geral dos Serviços Prisionais e vai accionar criminalmente o Director da Cadeia de Paços de Ferreira e os membros do comando do GISP, pela sua intervenção nessa cadeia em Setembro passado e divulgada esta semana partir de um vídeo publicado pelo jornal Público.


Acusa-os da prática do crime de tratamento cruéis e desumanos e, pelo meio, lá vai denunciando a cultura de repressão do sistema prisional. Em vez da politicamente correcta cultura de sociabilização!


Acho extraordinário!


Se eu e os meus concidadãos – que não o extraordinário Marinho Pinto – não fomos completamente enganado por tudo o que veio a público sobre o assunto, o nosso concidadão preso, coitado, apenas se recusava a abandonar a cela imunda de restos de comida e de dejectos. Os dejectos, para além inundarem a cela, serviam para o recluso – pessoa altamente sociabilizada, é bem de ver – barrar o seu corpo e ainda para arremessar a tudo o que mexesse em direcção à porta. Comportamentos humanamente normais e nada cruéis!


Não sei como é que gente extraordinária como Marinho Pinto resolveria uma situação destas. Sabe-se como a Cadeia de Paços de Ferreira resolveu: com uma intervenção toda ela preparada e devidamente autorizada pela cadeia hierárquica. Por quem de direito!


Claro que o recluso é, embora não pareça, uma pessoa humana. Prezo-me de colocar a exigência pelo respeito da dignidade humana primeiro que tudo. E acima de tudo! E, neste caso, não tenho dúvidas de que lado está… Não é do lado do recluso! Nem é do lado desta gente extraordinária que acha que os mecanismos garantistas não conhecem limites. Nem os do bom senso! E que acha que, entre polícias e ladrões, tem de estar sempre do lado dos ladrões…


 


 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

GENTE EXTRAORDINÁRIA III

Por Eduardo Louro


 


O Secretário de Estado do Turismo – Bernardo Trindade – declarou acreditar que Portugal ganha com a situação que se vive no Médio Oriente. Em entrevista ao Jornal de Negócios, mais tarde confirmada pelo menos a uma televisão, este membro do governo não tem dúvidas em afirmar que a instabilidade naquela zona é vantajosa para Portugal. Porque atinge os nossos concorrentes directos...


Com gente extraordinária como esta no governo, com este sentido de oportunidade – o verdadeiro killer instinct empresarial de gente extraordinária com olho para o negócio – difícil é perceber o estado a que este governo deixou que o país chegasse!


 


 

GENTE EXTRAORDINÁRIA II

Por Eduardo Louro


 


Sócrates foge dos jornalistas para não responder ao que quer que seja sobre o que se está a passar na Líbia.


Compreende-se que sinta algum incómodo a pronunciar-se sobre o tema. Compreende-se que a língua se lhe enrole ao pronunciar o nome Kadhafi. Mas, caramba, apesar daquela irreprimível tendência para privilegiar as relações com gente desta – gente extraordinária como Kadahfi e Chavez – sempre poderia escudar-se atrás da real politik


Assim, temos Sócrates no seu melhor: a fugir dos jornalistas, a fugir dos problemas, a fugir das questões que não quer enfrentar e a fugir das responsabilidades. Que, como gente extraordinária que também é, consegue transformar pequenas questões em grandes problemas!


 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

GENTE EXTRAORDINÁRIA I

 


Por Eduardo Louro


 


Acaba, no Dragão, o Porto – Sevilha, jogo da liga Europa, com o Porto a perder por 1 a 0 mas a passar a eliminatória, mercê do critério de desempate que favorece os golos marcados fora. Em Sevilha o Porto ganhara por 2 a 1!


Explosão final do comentador da Sport TV: “o FC Porto atinge a nona vitória consecutiva e André Vilas Boas iguala os recordes de Jesus, no Benfica, no ano passado, e de Mourinho, no Porto de 2003, da conquista da Taça UEFA”.


Verdadeiramente fantásticos estes profissionais da Sport TV!


Depois, na flash interview, um outro profissional achava que tinha sido uma vitória muito importante, obrigando o André Vilas Boas a dizer que tinha sido de facto uma vitória muito importante … a de Sevilha!


E lá voltou o comentador à antena reafirmando a nona vitória consecutiva do Porto! E o recorde de Vilas Boas…


Os nomes? Não sei, mas que interessam? São todos iguais e gente extraordinária!


 

DOMINÓ NO APARELHO DE ESTADO

 


Por Eduardo Louro


 


“O regime de Kadhafi acabou”: a frase é do ministro do interior da Líbia, Abdul Fattah Yunnes, em declarações à cadeia de televisão Al Arabiya.


O ministro do interior disse mais: disse que se tinha “juntado à revolução popular em curso no seu país” e disse que tinha ordenado às suas forças para “não apontarem armas aos líbios” …


E disse ainda que Muammar Kadhafi, que foi alvo de uma tentativa de assassínio por parte de um seu ajudante, provavelmente se suicidará!


Esta onda revolucionária árabe não pára de nos surpreender! É dominó atrás de dominó… Já chegou ao coração do regime!


Quem, ainda ontem, depois do discurso ameaçador de Kadhafi a anunciar o genocídio e a ameçar com a guerra civil, seria capaz de prever para hoje estas palavras do ministro do interior?


Mas não foi também depois do discurso de negação de Mubarak que a liberdade e a vitória foram cantadas na Praça Tahrir?


 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DOMINÓ DIPLOMÁTICO

Por Eduardo Louro   


 


O banho de sangue continua na Líbia, com Kadhafi apostado em repetir Tiananmen.  


O efeito dominó instalou-se na estrutura diplomática do país a partir da posição do embaixador em Nova Deli, de que ontem aqui dei nota. Sucedem-lhe, a começar pelo próprio embaixador na ONU, os embaixadores na Austrália, na Malásia, no Bangladesh... O que, infelizmente, não parece passar para o interior do aparelho de poder instalado no país, ao que parece a resistir à desagregação.  


Efeito dominó não vemos na comunidade internacional, pese embora a ameaça da ONU de considerar a violência em curso sobre a população líbia como crime contra a humanidade. Continuamos a assistir a um silêncio ensurdecedor da União Europeia e dos países membros. Sentimo-nos incomodados pelo silêncio da Europa e pelo silêncio português – agora que Portugal tem assento no Conselho de Segurança da ONU. Sentimo-nos incomodados quando lembramos a recepção dispensada a Kadhafi ainda há pouco, na vergonhosa cimeira de todos os ditadores. Sentimo-nos envergonhados quando revemos as fotografias sorridentes de Amado e Sócrates à volta de um Kadhafi de olhar perdido e lunático. Mas o que sentir quando vemos que o conselheiro pessoal do filho de Kadhafi – Saif Al-Islam – que ontem garantia que iriam “lutar até ao último minuto, até à última munição e até que o último homem esteja de pé” – se dá pelo nome de Tony Blair?

 



 

 


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

DOMINÓ EM BANHO DE SANGUE

Por Eduardo Louro


 


O movimento de contestação popular às ditaduras árabes do médio oriente não pára de engrossar. À medida que engrossa e avança vai deixando menos espaço à surpresa, a ponto de alguns dos regimes agora debaixo de fogo se terem apressado, numa tentativa de jogada de antecipação, a anunciar reformas, aberturas políticas e mesmo melhorias em vencimentos e pensões.


O dominó, no entanto, está em marcha. Mas agora com mais sangue, com as peças a caírem directamente em poças de sangue. Porque desapareceu o factor surpresa e os regimes foram tomando providências, a principal das quais não terá deixado de ser uma especial atenção aos militares que lhes garantem a sobrevivência.


Nos últimos dias assistimos a cenas dramáticas no Bahrein, com apelos desesperados de médicos impotentes para tratar a avalanche de feridos e estropiados que invadia os hospitais. Muitos nem sequer lá chegavam: as forças de segurança tudo faziam para impedir as ambulâncias de prestar auxílio às vítimas!


A proximidade do arranque da primeira etapa do campeonato mundial de fórmula 1, precisamente o Grande Prémio (GP) do Bahrein já no próximo dia 13, terá ajudado a aumentar a carga repressiva com vista a limpar a revolta. Depressa e em força, porque o GP não pode ficar em causa!


Na Líbia a violência tomou proporções ainda mais dramáticas. Kadhafi faz jus à sua fama de mais crápula dos ditadores daquela área do mundo. O louco e excêntrico ditador líbio, que há mais de 40 anos brinca com o Ocidente – que não só sempre lhe perdoou as travessuras como sempre lhe alimentou extravagâncias e caprichos – e rouba o seu povo, a quem condena à ignorância (tem a originalidade de proclamar que a escola não serve para coisa nenhuma, que as crianças, em vez de irem à escola, devem ser postas a trabalhar desde muito novas porque é a trabalhar que aprendem – se uma criança quer ser médico não deve ir estudar, deve ir trabalhar para um hospital que, ao fim de muitos anos, terá adquirido o conhecimento para ser médico) e à miséria.


A tudo deitou mão: polícia, exército, milícias e jagunços! E á medida que as mortes não param de crescer, vítimas de uma maré de violência sem limites, o aparelho de estado líbio começa a dar sinais de desintegração: diplomatas que se demitem e abandonam embaixadas – o embaixador em Nova Deli demitiu-se e garantiu à BBC que Kadhafi está a recorrer a mercenários estrangeiros para matar o seu povo – e, há momentos, era o próprio ministro da justiça a anunciar a demissão em protesto contra a violência repressiva empregue.




sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Futebolês #64 BLACKOUT

Por Eduardo Louro


 


Mais um anglicismo do futebolês, a emprestar-lhe um ar cosmopolita: blackout!


Devo dizer que, em jeito de declaração de interesses, que o Quinta Emenda – cujo essência, como se vê aí em cima, assenta na rejeição do direito de ficar calado – não nutre grande simpatia pelo blackout. Recusar ou negar voz não é muito bem visto por aqui!


O blackout, e não é por obstinada perseguição que o afirmo, deve estar entre as mais estúpidas, contraproducentes, parolas e reaccionárias atitudes do dirigismo do futebol. Num mundo de comunicação, em que quem não aparece não só esquece – quem não aparece desaparece, deixa de existir – impedir os intervenientes no jogo de o promover e alimentar mediaticamente, é parvo, para utilizar um termo em moda.


Há uma tentação ao blackout a que ninguém tem escapado. Não há aqui quem possa atirar a primeira pedra! Entendendo, como é óbvio, que só quem tem voz pode recusar-se a usá-la. E, no futebol, quem tem voz são os ditos três grandes…


O Porto tem sido useiro e vezeiro a deitar mão ao blackout. Ora em blackout absoluto ora em blackout selectivo! Que é como quem diz, ora de bico calado e não há nada para ninguém, ora quando, como nos porcos de Orwell, uns jornais ou umas televisões são mais iguais que outros.


O Porto, acho que deveria dizer Pinto da Costa, usa este recurso na maioria das vezes por birra. Mas também o usa como arma de mobilização e como instrumento de revolta, como diria agora André Vilas Boas, o novo mestre do boné lá da casa e grande partenaire de Pinto da Costa nesta arte de criar inimigos para manter as hostes fiéis e mobilizadas.


Mas Pinto da Costa não usa o blackout de uma forma assim tão parva quanto possa parecer. Por uma razão simples: é que, também aqui, põe e dispõe conforme muito bem entende! “Agora ninguém fala” – e deixa jornalistas e repórteres pendurados. “Agora quero dizer o que me apetece” – e lá vão todos a correr! O blackout segue dentro de momentos…


Consegue assim como que a quadratura do círculo. Não desaparece!


Aparece e desaparece como que por magia! Ou pela parva figura a que a comunicação social se presta.


De resto a comunicação social, quando se trata de Porto (ou de Pinto da Costa, já não sei bem) presta-se a muitas figuras parvas. Como ainda no passado domingo, logo no fim do jogo com o Braga, quando o Vilas Boas encomendou uma pergunta para poder aproveitar o curto período do flash interview a falar do Benfica. A pergunta lá saiu, mas tão atabalhoada, tão sem jeito que até parecia que o repórter cantarolava os Deolinda: “Que parvo que sou”…


Não admira: a comunicação do Porto esgota-se no Benfica. O Pinto da Costa não consegue construir uma frase que não meta o Benfica. Nem a declamar! O Vilas Boas está igualzinho!


O Sporting também já ensaiou o blackout. Mas nem isso lhe sai bem. Desistiu disso como desistiu de tudo o resto…


O Benfica também não foi nisso muito bem sucedido – nem na iniciativa gémea de convidar os adeptos à abstinência nos jogos fora de casa (fora de casa, mais uma expressão do futebolês que por aqui ainda haverá de passar, que não quer dizer na rua - quer dizer, no caso, fora da Luz) – mas tem a vantagem de ter uma televisão própria. Pode dar-se ao luxo de falar só para a sua TV!


Confesso, aqui que ninguém nos ouve, que o Benfica não faria nada mal se declarasse o balckout do Jesus. Então o homem vem dizer que os alemães estavam a tremer de medo? Depois foi o que se viu – uma primeira parte em que eles, com tanto medo, nem deixaram o Benfica respirar. Agora até já é o Javi Garcia a pôr também o Sporting a tremer…


Tenho uma ideia que, essa sim, justificava os exclusivos da Benfica TV: faziam a dobragem do Jorge Jesus com … sei lá … o José Nuno Martins. Não, o João Gabriel também não!


Ah! E aí está o derbi: sem medo, Javi! Estás cá há muito pouco tempo para saberes o que é um Sporting – Benfica… Ninguém tem medo de ninguém e, por regra, ganha quem está pior!


Claro que é regra haver excepção à regra. É o que vai acontecer!


 


 


 

O PÂNTANO

Por Eduardo Louro


 


Ontem o secretário-geral da OCDE era citado como tendo dito que Portugal e Espanha estavam a fazer um trabalho brilhante na consolidação orçamental e no controlo do endividamento externo. O governo, evidentemente, amplificou estas palavras até ao limite!


Hoje o Diário Económico cita a Reuters, a quem uma fonte da UEM terá referido que "Portugal está a afogar-se, não vai ser capaz de resistir para além do fim de Março” e que já toda a gente tinha percebido isso.


O gabinete do Primeiro-Ministro, evidentemente, negou tudo, garantindo que o país não vai recorrer a ajuda externa.


Marques Mendes, ontem na TVI 24, tinha esse pedido de ajuda por inevitável. Mais, garantia que o governo tinha por clara essa mesma inevitabilidade.


Eu acrescentaria que o governo apenas está à espera de poder retirar as iniciais FMI dessa ajuda. Logo que lhe seja possível camuflá-la como ajuda da UE pedirá essa ajuda. Claro que o próprio pedido também há-de ser travestido!


Até porque o ministro das finanças alemão – em entrevista ao jornal japonês Nikkei, citada pela Reuters, – garante que a Alemanha está disponível para apoiar Portugal desde que o país avance para reformas estruturais. Dava um único exemplo: o corte das pensões dos funcionários públicos. Ora aí está: em reformas estruturais o FMI não faria melhor!


E o BCE lá voltou hoje a comprar mais dívida portuguesa para que os juros não continuassem a disparar.


Entretanto, e sem que nada tenha a ver com isto, Sócrates lança a primeira pedra de uma nova barragem - a de Foz Côa, agora sem gravuras - e anuncia mais uma parcela do paraíso!


Se isto não é o pântano, então o que é o pântano?


 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TEORIA DA RELATIVIDADE

Por Eduardo Louro


 


Sou daqueles que olham para o mundo, para as grandes e as pequenas coisas que nos envolvem, cercam e acontecem, à luz de uma certa concepção de relatividade.


Já perceberam que, ao contrário do que o título sugere, não me estou a referir à teoria que elevou Einstein ao topo dos topos reservados aos seres humanos. Refiro-me à dimensão da relatividade das coisas, afinal a mesma noção de relatividade que Einstein enunciava a propósito da sua própria Teoria. Da outra, da famosa Teoria da Relatividade!


Dizia ele, pouco antes da sua morte e projectando-se para além dela, que se a sua Teoria da Relatividade viesse a confirmar-se certa, a Alemanha diria que ele era alemão e a França declará-lo-ia cidadão do mundo. Mas que, se estivesse incorrecta, a França diria que ele era alemão e a Alemanha que ele era judeu!


Penso que encontramos aqui uma outra teoria da relatividade. Que não tendo a relevância científica da outra – que, felizmente para ele, para os alemães, para os franceses e para todos os outros, estava certa – tem a dimensão das coisas simples que se tornam lições de vida.


Olhar o mundo e olharmos para os outros desprendidos do definitivo e do absoluto e presos ao relativismo não nos abre apenas a imaginação. Abre-nos ainda as perspectivas do campo de acção mas, acima de tudo, abre-nos à tolerância.


Nada nos desenvolve mais o espírito de tolerância que a capacidade de relativizar. Nada mais nos aperta, condiciona e limita que a incapacidade de fugirmos ao lado decisivo, incondicional e absoluto de qualquer perspectiva da realidade. A incapacidade de reagir à ditadura do determinismo!


Tudo isto me foi sugerido pelo “O Discurso do Rei”, o filme de Tom Hooper recentemente estreado em Portugal e apontado como a grande estrela da próxima noite dos Óscares. O maior hino à capacidade de relativizar que já testemunhei!


Enquanto o Rei Jorge VI discursava anunciando ao povo a segunda grande guerra, quando as bombas já se ouviam, nos bastidores do discurso, ele próprio e a multidão do seu staf travavam uma batalha muito mais importante.


Quando chegar ao fim de um discurso é mais importante que o seu conteúdo, e quando esse é a segunda guerra mundial, encontramos o melhor exemplo da relatividade das coisas!


A mãe da tolerância, acho eu!


 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

COCA-COLA

Por Eduardo Louro


 


A notícia do dia era a revelação do segredo da fórmula da Coca-Cola. Essa fórmula secreta e misteriosa da bebida mais famosa do mundo, que primeiro se estranha e depois se entranha, era finalmente divulgada!


Pobre Coca-Cola Corporation, que será de ti agora? Estou ansioso por ver as cotações da Bolsa… Que será dos próprios americanos, agora que perdem o seu mito maior?


As revelações representam sempre um passo em frente. Seja no que for, uma revelação abre sempre novas portas e novas esperanças. Mas esta não! Seria capaz de afirmar que é o fim do sonho americano…


Este é um golpe mais profundo no que de mais íntimo há num americano. Nem a criminosa destruição das Torres Gémeas… Isto também só pode ser obra do Bin Laden!


Não há dúvida e agora teremos de nos habituar à ideia: chegou ao fim o mais bem guardado segredo do mundo. A partir de agora estamos sujeitos a beber uma coisa qualquer com o mesmo sabor da única e incomparável Coca-Cola!


Eu vi o facsimile da fórmula no Correio da Manhã: um papel amarelo (como convém), manuscrito e mesmo a cheirar a farmácia. E até numa televisão que resolveu almoçar comigo sem eu a convidar eu ouvi a notícia. Que dizia mesmo que na fórmula entravam coentros, coisa que eu pensava servir apenas para a nossa bela cozinha alentejana.


Mas os americanos, pelo menos os de Atlanta, não gostam só dos nossos coentros – também gostam dos nossos provérbios. De um que diz que quem ri por último ri melhor!


E desataram a rir (em último) a dizer que era mentira: afinal é tudo mentira, a fórmula está bem guardada, de boa saúde e recomenda-se!


São danados para a brincadeira estes americanos!


 


 

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

VALE A PENA APOSTAR NO EGIPTO

Por Eduardo Louro


 


As recentes e bem sucedidas movimentações populares na Tunísia e no Egipto deixaram muita gente surpreendida. Gente que, no Ocidente e mesmo no nosso país, entendia bem mais cómodo, seguro e interessante manter ditadores no poder, sabendo com o que podia contar, do que correr alguns riscos que poderiam provir da abertura desses regimes.


Sobre esta perspectiva histórica do Ocidente já aqui me pronunciei recorrendo, inclusive, à célebre e notável expressão utilizada por Kissinger. O que hoje me faz voltar ao tema são as opiniões de alguns sectores da nossa opinion making que, partindo eventualmente do mesmo princípio, vêm publicando teorias da desgraça que mais não fazem que desvalorizar aos olhos da opinião pública a enorme importância da queda de Mubarak e da romântica libertação do Egipto a partir da agora famosa Praça Tahrir.


Refiro-me a pessoas como José Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente ou Vasco Graça Moura. Que preferiram amedrontar com o que aí vem, profetizar a desgraça substanciada no que já ameaçavam como a eminência de uma viragem do Egipto para o fundamentalismo islâmico, a exaltar a fantástica oportunidade para nascimento da primeira experiência democrática do mundo árabe.


Esta lamentável, do meu ponto de vista, visão corresponde exactamente à falta de proactividade ocidental na defesa da democracia. Ou talvez pior, a uma certa ideia que a democracia é privilégio de apenas alguns. Nosso, só nós temos direito à democracia e, num sentido mais lato, ao nosso privilegiado modo de vida. Os outros que se lixem…É por isso que as coisas correm tantas vezes mal!


Pela tese dessas pessoas os egípcios estariam já, a esta hora, a dar vivas a Ahmadinejad e dispostos a engrossar as fileiras de Bin Laden. Pois, mas é ao contrário. O que já se vê é o povo do Irão de novo a levantar-se e a acreditar que a hora da sua libertação também poderá estar a chegar!


Vale a pena apostar no povo egípcio. Vale a pena apostar no povo árabe que não poderá estar condenado a escolher entre os ditadores pró-ocidentais e os fundamentalistas islâmicos. Também tem direito a escolher a democracia e o respeito pelos direitos humanos. E, fundamentalmente, pelo reconhecimento dos direitos das mulheres, que só a abertura à democracia poderá promover

A RECESSÃO JÁ BATE À PORTA

Por Eduardo Louro


 


O INE divulgou hoje que o PIB cresceu, em 2010, 1,4%. Para o que contávamos até não teria sido mau de todo. Por qualquer outra perspectiva é péssimo!


Mas, no último trimestre, o PIB caiu 0,3%. Apesar de um Dezembro sobreaquecido em termos de consumo. Apesar de muita antecipação de consumo para o último mês do ano motivada pelo agravamento dos impostos, de todos os impostos, do início do ano!


Agora é só esperar pela confirmação daquilo que todos vemos à frente dos olhos: a quebra neste primeiro trimestre!


Dois trimestres consecutivos do tal crescimento negativo do economês e aí está a recessão técnica! Logo no início do ano, para que não fiquem dúvidas!


É a notícia do dia dos namorados...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A JORNADA DECISIVA

Por Eduardo Louro


 


Esta era, em minha opinião, a jornada decisiva do campeonato nacional de futebol (eu sei que já não se chama assim - que é a Liga – mas isto para mim é como o acordo ortográfico: enquanto puder resisto-lhe) desta época.


Ainda faltam onze jornadas mas, esta, a quarta desta segunda volta, poderia deixar, e deixou, a questão do título fechada. Por várias razões:



  • Porque é a quarta, a mesma que na primeira volta, logo no início, com a derrota do Benfica em Guimarães na tal arbitragem do Olegário Benquerença – a terceira nos primeiros quatro jogos – permitia ao Porto a inimaginável vantagem de nove pontos;

  • Porque o Benfica tem vindo sucessivamente a crescer e exibindo um futebol de muito boa qualidade, ao nível do da época passada, vencendo e convencendo, enquanto que o Porto tem vindo em sentido contrário e a acusar a falta de dois dos seus mais determinantes jogadores (o uruguaio Álvaro Pereira e o colombiano Falcao) embora continuando a ganhar;

  • Porque nesta tal quarta jornada o Benfica recebia na Luz o Guimarães, adversário tradicionalmente difícil (ainda na época passada ali ganhara, afastando os da Luz da Taça de Portugal) enquanto o Porto se deslocava a Braga, tida como uma das mais difíceis deslocações, para defrontar uma equipa que, na primeira volta e num grande jogo de futebol, lhes havia feito a vida negra no Dragão;

  • Porque, finalmente, se o Benfica confirmasse a consolidação do seu rendimento, uma carreira totalmente vitoriosa ganharia forma de hipótese credível para o resto da prova. E, se o Porto perdesse o seu primeiro jogo do campeonato, na hipótese anterior, os dragões ficariam com uma margem muito pouco confortável – uma única derrota deixá-los-ia a ver o título desviar de rota.


O Benfica realizou mais uma exibição esplendorosa, porventura a melhor da época, e ganhou por 3-0. Mas depois de o árbitro João Ferreira ter anulado (mal) dois golos – se num, anulado por fora de jogo, se poderá ainda dar algum benefício da dúvida, no outro, o árbitro imaginou qualquer coisa (uma mão, dizem) que ninguém conseguiu descortinar – de duas bolas nos ferros, de um penalti falhado pelo Cardozo (eu bem avisara, no futebolês abaixo) e de três ou quatro defesas impossíveis do Nilson. Ganhou por 3-0 ao quarto classificado mas poderiam muito bem ter sido 8!


O Porto, não jogando bem mas também, por evidente ausência de dificuldades, não tão mal como vinha fazendo nos últimos jogos, ganhou por 2-0 a um Braga já não só longe do da época passada (à medida que a época foi avançando foi-se afastando cada vez mais do brilhante desempenho da última temporada) mas deplorável, que fez dois remates em todo o jogo. Mas, também aqui há mas: com o árbitro Duarte Gomes a perdoar-lhe um penalti a meio da primeira parte, com o primeiro golo a surgir no último minuto dessa primeira parte, de um ressalto resultante de um canto que não existira, e com o segundo, perto dos 70 minutos, marcado em fora de jogo e a resultar de mais um ressalto, desta vez em resultado de um livre contra a barreira por uma falta inexistente, inventada pelo João Moutinho (já perdi a conta aos golos do Porto nestas circunstâncias).


Daí que entenda que esta foi a jornada decisiva para a atribuição do título, como, de resto, se viu nas caras de jogadores, técnicos e dirigentes portistas. Daí as declarações de Vilas Boas no final do jogo na sequência de uma questão colocada pelo jornalista (???) da Sport TV por evidente, indisfarçada e indisfarçável encomenda!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Futebolês #63 MARCAÇÕES

Por Eduardo Louro


 


Marcação é seguramente palavra do futebolês com mais homófonas.


Há a marcação do campo, melhor, as marcações do campo – porque marcação do campo era aquilo que nós fazíamos para reservar o aluguer de uma campozito qualquer para as nossas peladas de fim-de-semana – que são as quatro linhas que limitam o espaço do jogo, o meio do campo e as áreas: as grandes e as pequenas. Normalmente só ouvimos falar delas no Inverno, quando chove a bom chover e as quatro linhas mais parecem limitar uma piscina que um campo de futebol. Quando não percebemos porque é que uns tipos andam ali a divertir-se à brava a fazer aquaplaning, é porque as marcações estão visíveis. É esse o critério dos árbitros para interromper ou deixar prosseguir um jogo que toda a gente vê que não é jogo nenhum!


Há ainda a marcação entendida como atitude de vigilância sobre o adversário, mas também a marcação como cobrança. Não a cobrança de dívidas – que está pela hora da morte e é hoje em dia umas das tarefas impossíveis que muitos temos pela frente –, nem sequer a cobrança de impostos – a primeira e mais primitiva função do Estado e, diria eu, a única que este governo sabe levar a peito – mas a cobrança do futebolês: a cobrança das faltas, ou a cobrança dos cantos: a marcação da falta ou a marcação do canto. Ambígua e estranha, como convém em futebolês. Porque o jogador só pode marcar a falta se o árbitro a tiver marcado. Como o canto: o jogador só o poderá marcar depois de o árbitro o ter marcado! Pois é, agora marcar é apenas assinalar…


Naturalmente que o jogador só pode cobrar a falta assinalada pelo árbitro. Assinalada para punir uma falta cometida pelo jogador adversário por excessos cometidos na marcação. Ou seja, para confundir um bocadinho: um jogador marca a falta depois da falta ser marcada pelo árbitro; o árbitro marca a falta depois de um jogador fazer falta ao marcar o jogador adversário.


Às vezes não faz falta o jogador fazer falta. Outras faz mesmo falta o jogador fazer falta, como já vimos aqui na falta cirúrgica.


Mas agora também não faz falta falar da falta para falar da marcação. Porque, como aqui há uns anos (lembram-se?) havia vida para além do défice (haver havia, mas viu-se no que deu!), também há mais marcação para além da marcação da falta.


Até porque há marcação à zona e a marcação homem a homem, por muito pouco jeito que isso dê no futebol feminino. A marcação em cima, que nada tem a ver com a marcação apertada! Pode impor-se uma marcação apertada sem estar sempre em cima do adversário. Sem o deixar respirar. Seguindo-o pelo campo todo, para todo o lado: até para a casa de banho!


Há treinadores que dão ordens desse género: sempre a morder-lhe os calcanhares (e às vezes muitas outras coisas) – “ele tem que sentir a tua respiração”. “Nem um palmo lhe podes dar”!


Deve ter sido isso que, em tempos, o treinador do Benfica dizia ao João Pinto: “marca bem em cima do Paulinho Santos, a um jogador desses não podes dar um palmo”! Depois, enfim e como se sabe, o coitado do Paulinho Santos (só o nome diz tudo!), farto de apanhar com o bafo do malandro do João, foi obrigado a reagir: de uma vez partia-lhe o nariz, da outra os dentes… Só não continuou a partir-lhe mais partes do corpo porque o João Pinto foi para o Sporting e, como se sabe, entre o Porto e o Sporting as marcações são bem mais leves!


A marcação à zona conheceu há uns anos atrás uma nova variante: o autocarro, nome de baptismo atribuído por Mourinho. Um padrinho famoso que mantém com o afilhado uma relação ambígua de amor e ódio. Detesta-o nos outros mas adora-o quando é seu. Como há perto de um ano, quando o utilizou em Barcelona parecendo-lhe uma limousine de alto luxo!


A marcação das faltas também não vive os melhores dias, já para não falar das que são acompanhadas de cartão. Como no Dragão, na semana passada, quando o árbitro despachou o Coentrão. Ou ainda no domingo passado, em Setúbal quando, ao minuto 90, um tal de Cosme Machado tinha marcado 23 faltas ao Benfica e apenas 8 ao Setúbal: o triplo, dá para acreditar?


A marcação de livres, cantos, de bolas paradas em geral é cada vez mais decisiva no futebol actual. O Benfica trabalha bem essas marcações: é raro o jogo em que não lhe rendam pelo menos um golo! A marcação de penaltis é que não é assim tão bem trabalhada. Sabe-se que não é necessário: os árbitros não os marcam. Mas depois, quando para uma qualquer prova secundária lá aparece um árbitro a marcar um ou outro, não se venham queixar…


Vejam o exemplo do Porto: não falha um! É precisamente o contrário do Benfica: os golos de bola parada são todos de penalti. Nem precisam de trabalhar as outras marcações!

UM QUISTO CHAMADO BLOCO

Por Eduardo Louro


 


 A propósito da moção de censura ontem anunciada pelo Bloco de Esquerda recomendo a leitura deste post do Rui Rocha no Delito de Opinião. A não perder… E que tem a ver com as ideias a seguir alinhavadas…


O Bloco de Esquerda surgiu com sucesso no panorama político nacional porque havia um espaço à esquerda propício ao seu aparecimento, um espaço que nem o PC, por todas as razões conhecidas e que agora não vêm ao caso, nem o PS, como partido de vocação de poder, conseguiriam ocupar. Resultando da federação de um conjunto de forças políticas, normalmente arrumadas na ponta mais extrema da esquerda do nosso xadrez político, conseguiria um conjunto de sinergias com potencial eleitoral: pela mera soma aritmética de votos até aí dispersos, pela congregação de um conjunto de líderes já com muitos anos de experiência política e pela própria embalagem que teria de se criar para poder arrumar lá dentro tanta coisa de difícil arrumação.


Depois, Louçã, com aquele seu jeito de seminarista (que me perdoem os seminaristas – consumados ou interrompidos, convictos ou arrependidos – mas é apenas uma figura de estilo) fez o resto. Louçã e o PS, em particular Sócrates, que criaram um alargado espaço de verdades que ficaram ali logo à mão de um Bloco cada vez mais estimulantemente moderno, prá-frentex ou fracturante. E cresceu … cresceu … até se tornar num quisto. Que, também ele, foi crescendo … crescendo … até dar nisto.


Com esta moção de censura o Bloco apenas quer evitar eleições e manter Sócrates ligado à máquina, como bem diz o Rui Rocha. Como o seu deputado José Manuel Beleza deixaria bem claro quando, já hoje, dizia que “se a direita aprovar a moção cairá no ridículo”.


O Bloco de Esquerda não se tornou apenas no maior aliado de Sócrates. Tornou-se no seu quisto gémeo!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O CAMPEONATO DAS MOÇÕES DE CENSURA

Por Eduardo Louro


 


Abriu o campeonato das moções de censura. O Bloco de Esquerda apressou-se na conquista do pole position. Razão tinha Paulo Portas quando, sem saber o que havia dizer sobre a matéria, atirou uma das suas: “ as moções de censura apresentam-se, não se anunciam”!


Sabemos que o PC não é muito dado a conselhos do Paulo Portas mas, desta vez, fez mal em não lhe ligar nenhuma… Paciência! Terão que partir em segundo lugar … se chegarem mesmo a arrancar. Agora digam que é azar!


É claro que este é um campeonato virtual, daqueles que, como Jorge Jesus dizia há uns anitos, só na play station!


O Bloco quis ganhar a pole ao PC que, por isso mesmo, não a irá votar: há-de arranjar-se uma boa desculpa, nem que seja uma que os atire para fora da corrida. Claro que o PSD não vai atrás do Bloco, como não iria atrás do PC. O CDS até nem se importaria, mas como não chegaria a lado nenhum, arranjará também uma boa desculpa. O que nem é difícil!


E lá teremos que aguentar o governo até ao fim do ano… Então sim, o Orçamento para o próximo ano resolverá isto… Antes, nem pensar. Porque o PR também não irá querer meter-se nisso. Dará um jeito ou outro, mas nunca mais que isso!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O ESTADO A QUE CHEGAMOS

Por Eduardo Louro


 


Foi notícia nas televisões, nos jornais e na blogosfera: chamava-se Augusta Duarte Martinho e estava morta há nove anos, no chão da cozinha do apartamento em que vivera num caixote perdido numa dessas florestas de betão de um dos maiores dormitórios suburbanos de Lisboa.


Na varanda jazia o cão, provavelmente a única companhia da Dª Augusta. Fiel, como só os cães sabem ser. Tão fiel que, ao ver que já não fazia falta, deixou-se morrer também. Fiel e solidário, como são os cães. E como não são as pessoas. Os vizinhos que já não há, os familiares que desapareceram e as outras que não se importam. As outras que engrossam os múltiplos serviços do Estado. Que deviam funcionar e não funcionam!


Nem todos. Há um desses serviços que funciona. Um único, que de nada valeu à Dª Augusta mas sem o qual se não descobriria o seu corpo. Nove anos depois! Chama-se Repartição de Finanças de Sintra e integra-se na Direcção Geral dos Impostos, do Ministério das Finanças!


Nenhum organismo estatal deu pelo desaparecimento da senhora. Nenhum se preocupou. A polícia não a procurou. Nem em casa. Os guardas foram lá mas não arrombaram a porta. Não valia a pena! O Ministério Público nem sequer se incomodou. Mas quando a Dª Augusta, com o seu cadáver em decomposição, deixou de pagar impostos houve alguém que reparou nisso. E a Repartição de Finanças tratou-lhe de tudo, sem que ela tivesse de se incomodar: penhorou-lhe o apartamento e vendeu-lho em praça!


Não fora isso, a extrema eficiência da nossa bem experimentada máquina fiscal, e ainda hoje ninguém saberia que a senhora tinha falecido e que o seu corpo estava em decomposição num andar qualquer de um caixote qualquer numa rua qualquer de uma Rinchoa qualquer!  


Chegamos a este estado: ninguém sabe de ninguém, ninguém se preocupa com ninguém. A não ser para pagar impostos!


Dignidade? Dignidade humana? O que é isso?


Bem pode Sócrates achar que estamos todos contentes porque em Janeiro se cobraram mais 15% de impostos. Só isso conta! Só para isso contamos!


 

A GOZAR CONNOSCO

Por Eduardo Louro 


  


 


Sócrates apareceu-nos hoje, com aquele seu ar meio trocista meio travesso, a dizer que os portugueses devem estar “…mais seguros, mais tranquilos e mais confiantes para uma boa execução …”! Porque, como triunfante referia, a receita fiscal cresceu em Janeiro 15% relativamente a Janeiro do ano passado. Quer dizer, neste período em que conhecemos não um, não dois, mas três PEC`s, em que subiu escandalosamente tudo o que é imposto e taxa, como é que a receita fiscal não haveria de subir?


Quando, quem é obrigado a pagar paga mais, como é que quem cobra não há-de receber mais?  


Dizer isto aos portugueses, e dizer-lhes que se devem sentir mais “mais seguros, mais tranquilos e mais confiantes ” cheira a puro sadismo.  


A execução orçamental começa bem, sim senhor. Mas pelo lado mais provável, pelo lado sempre mais fácil. Da despesa ainda se não sabe nada. Veremos se daqui a algum tempo Sócrates põe o mesmo ar a dizer-nos que, do lado da despesa, também a execução orçamental começou bem.  


Ah! E já estamos a falar de receita fiscal, soube-se também hoje que a Banca, com lucros muito maiores em 2010 que no ano anterior, pagou menos de metade de IRC que em 2009. Mais exactamente 55% a menos… Vamos lá nós perceber isto! Não será mesmo a gozar connosco?


 


 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

CONGRESSO DAS EXPORTAÇÕES

Por Eduardo Louro


 


Está a decorrer hoje em Santa Maria da Feira o Congresso das Exportações. O objectivo principal é o de descobrir o caminho (marítimo ou outro qualquer) para o aumento das exportações para níveis que consigam equilibrar a forte queda do mercado interno, neste e nos próximos anos.


Ainda é cedo para termos notícias de quaisquer resultados – sabemos já que de lá sairá um livro branco, esperemos que não um livro em branco – mas os media já amplificaram três manchetes, chamemos-lhe assim: Basílio Horta, o presidente do AICEP, dizendo que o BPN deveria transformar-se num banco especialista no apoio à exportação (esta não lembraria a ninguém e foi logo um bom pronuncio), Faria de Oliveira, presidente da CGD, que anunciou que a banca não iria dificultar o acesso ao financiamento das empresas exportadoras (só faltava que dissesse o contrário) e Sócrates, como sempre o mensageiro das boas notícias. a anunciar que as exportações cresceram 15% no ano passado.


Enquanto de lá não surgem novas e verdadeiras notícias lembrei-me de um texto que escrevi no Vila Forte vai para dois anos, numa altura em que um tal António Mendonça aí referido não fazia a mínima ideia que viria a transformar-se num dos mais ineptos ministros de que há memória e, menos ainda, no homem capaz de fazer do TGV um cavalo de Tróia. O título era Internacionalização vs exportações e reproduzo-o a seguir:


 


Os nossos governos, e em particular o último, fizeram uma grande aposta na internacionalização das empresas nacionais, com diversos programas e milhões de euros envolvidos nessa estratégia.


Sempre tive algumas dúvidas sobre tal estratégia. Acho indiscutíveis as vantagens para a economia portuguesa do investimento das empresas nacionais no estrangeiro quando focado numa estratégia de afirmação dos seus produtos nos mercados internacionais. Por isso entendo que serão de apoiar os investimentos em distribuição e marketing, aqueles que permitam acompanhar de mais perto o cliente e o seu produto. E acho discutíveis as vantagens para a economia nacional de todos os outros tipos de investimento no exterior que não se relacionem directamente com a criação de valor no país.


Por isso, apoiar a internacionalização das empresas “tout court”, apenas para colocar uma bandeirinha pelo mundo fora, sem entender o que corresponde ao interesse da economia nacional ou apenas ao interesse particular (de empresas ou de grupos), no actual contexto, é muito questionável.


Chegou-me na semana passada às mãos um estudo publicado em Setembro, da autoria de três professores do meu ISEG – Miguel Fonseca, António Mendonça e José Passos –, que conclui que “o investimento directo português no estrangeiro tem impacto negativo nas exportações”. Este estudo analisou e correlacionou exportações e investimento em 18 países entre 1996 e 2007 e conclui que apenas em Angola (16%) e em Espanha (apenas 1%) se verificou crescimento nas exportações. Em todos os restantes 16 as exportações caíram.


Estas conclusões, e realçando que as duas excepções vêm de países especiais – parece claro e inequívoco que Angola e Espanha constituem, para Portugal, mercados externos com especificidades próprias – vêm confirmar o erro daquela estratégia.


Quando precisamos de aumentar consolidadamente as nossas exportações desenvolvem-se políticas e incentivam-se estratégias com o efeito contrário. Não temos dimensão económica nem empresarial para gerar empresas multinacionais (condições desse tipo tivemo-las mas já lá vão mais de cinco séculos), pelo que dar incentivos à internacionalização das empresas sem cuidar de assegurar que contribuem para gerar exportações, é cortar o crescimento da economia nacional. A crise também se faz destas coisas!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

FECHAR AS EMPRESAS PÚBLICAS?

Por Eduardo Louro


 


Na semana passada a comunicação social deu eco de uma passagem de Pedro Passos Coelho (PPC), nas jornadas parlamentares do PSD, a propósito das empresas públicas que acumulam prejuízos. A imagem que passou foi que PPC “quer fechar as empresas públicas que dão prejuízo”.


Muitas explicações foram, depois, dadas para esclarecer a ideia. Mais ou menos esta: as empresas públicas com constantes prejuízos para as quais exista uma alternativa de gestão privada que preste o mesmo serviço, com a mesma qualidade, e cumprindo o objectivo social pretendido, devem ser privatizadas. Nas restantes, onde os privados não possam ser alternativa, o Estado continuará a assegurar a sua gestão mas de forma mais disciplinada e rigorosa.


Como é habitual em comunicação e em política estes esclarecimentos já não passaram: o que passa primeiro é que fica!


Ninguém ligou nada a esta explicação. Ninguém excepto Sócrates. Que, evidentemente, veio logo voltar a agitar o fantasma do Estado Social – o mesmo que ele próprio vai destruindo e enterrando a cada dia que passa – e, incontornável e bem à sua esgotada maneira, enfeitar o discurso com o “ … eles depois bem tentam emendar, mas a gente percebe …”


Não é, no entanto, a ideia de PPC e do PSD para a prestação do serviço público, nem o número de ilusionismo de Sócrates, nem sequer o que tudo isto possa ter a ver com despedimentos na função pública (e eu até acho que tem mesmo a ver com a introdução do tema), o que mais me prende a atenção nesta polémica. O que mais me choca nesta discussão é o entendimento de que existam empresas para dar prejuízo!


As empresas não existem para dar prejuízo, isso á absurdo. Mesmo as empresas sem fins lucrativos, que existem para realizar um conjunto de fins que não o lucro, não existem para dar prejuízos. As empresas, públicas ou privadas, que prestem serviço público são pagas para isso. O Estado paga a essas empresas o serviço público que prestam. É do Orçamento Geral do Estado que devem vir as verbas para o pagamento do serviço público prestado.


Se a prestação de cada um dos mais diferentes serviços públicos é efectuada por empresas públicas ou privadas é outro problema. O que importa é o serviço público, cuja razão da existência é, terá que ser, servir as populações e não servir as empresas, públicas ou privadas. Seria outra discussão!


Não podemos aceitar que as empresas públicas acumulem prejuízos, ano após ano, financiados através de endividamento. Isso corresponde a desorçamentação, a encobrimento do défice e reflecte-se, evidentemente, nos números insustentáveis da dívida externa. As empresas públicas têm que estar estruturadas e dimensionadas em função da actividade que exercem, o que quer dizer do serviço público que prestam. E o Estado tem que orçamentar e pagar os custos que financia desse serviço público.


Se assim fosse, como é evidente, não haveria prejuízos: os custos estariam cobertos pelas receitas da prestação dos serviços públicos, pagos pelos utentes e pelo Estado. Os lucros ou os prejuízos seriam marginais: as que fossem mais eficientes teriam lucros e as que, ocasionalmente e não por sistema, não fossem tão eficientes teriam então prejuízo. Como qualquer outra empresa em qualquer sector de actividade… 


Todos sabemos que não é assim: que as empresas públicas estão há décadas sobredimensionadas porque servem de albergue a todas as clãs das clientelas políticas. Que, por isso e pelo endividamento que atingiram, têm custos a mais. Muito a mais! E, para maquilhar o défice, proveitos a menos.


Este é que é problema. Isto é que deveria ser discutido… Claro que toda a gente percebe que não é possível continuar com esta mentira. As empresas não podem dar prejuízo toda a vida… Mas já o dão há quase 40 anos!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Futebolês #62 JOGO AÉREO

Por Eduardo Louro


 


Para o futebolês o jogo aéreo é mesmo o que se joga pelo ar. Não é que se jogue no ar, como poderia parecer!


Daí que equipas fortes no jogo aéreo não sejam as que jogam nas nuvens e muito menos as que andem nas nuvens. Por paradoxal que pareça uma equipa forte no jogo aéreo tem que ter os pés bem assentes no chão. Não pode andar nas nuvens…


O Sporting, por exemplo, queixa-se das suas debilidades no jogo aéreo. Não tem defesas altos e, por isso, sofre muitos golos de cabeça. Também não tem avançados altos e, por isso, marca poucos golos de cabeça: parece que marcou apenas um no campeonato, precisamente no último jogo, pelo seu novo goleador: um tal Zapater. Daí que o seu treinador – Paulo Sérgio – mais pareça um agricultor florestal e ande há meses a reclamar um pinheiro. O que ele tem chorado por um pinheiro!


E depois confunde tudo e acaba por achar mesmo que, andando nas nuvens, resolve o problema do jogo aéreo. Toda a gente sabe que o Levezinho, mesmo que não fosse um pinheiro – era mais uma árvore de Natal – jogava bem de cabeça. E, antes dessa obsessão pelo pinheiro, marcava muitos golos de cabeça. Pelo poder de impulsão, pela movimentação na escolha da melhor de posição, pela agilidade e, até, porque metia a cabeça onde, muitas vezes os outros nem os pés arriscavam a pôr. Além disso era um excelente mergulhador – um verdadeiro especialista a mergulhar para a piscina – coisa que também dá muito jeito para marcar golos de cabeça. Pois aquela gente, cuja cabeça não serve para marcar golos nem para outra coisa, decidiu pôr o Levezinho a andar e devolvê-lo á procedência, dizendo que afinal ele não era nada Levezinho. Que era bem pesadinho … de salário!


Vá lá, desta vez não venderam ao Porto… Parece que a lesão do Falcao é coisa também leve, nada que tivesse obrigado o Porto a acautelar-se. Não fosse isso e logo veríamos o que seria o jogo aéreo do Liedson de novo ao lado do Moutinho…


Mas o negócio é óptimo para os cofres de Alvalade! O que não admira, pois, como sabemos, aquilo é um clube de alta gestão e com incomparável experiência e conhecimento acumulado nas altas esferas da engenharia financeira. Por isso é que somam o valor que recebem pela venda dos direitos de utilização do jogador com o valor que deixam de lhe pagar em salários! Se fosse necessária mais alguma prova da alta competência do Sporting nestas artes da engenharia financeira, ela aí estaria. O ministro das finanças não faria melhor… E aprendeu mais uma para resolver definitivamente o problema do défice: bastar-lhe-ia arranjar uma forma de exterminar os funcionários públicos … Depois era só contabilizar os vencimentos que deixaria de pagar e aí teríamos o país com o maior super havit do mundo!


Os lamentos sportinguistas pelo seu fraco jogo aéreo talvez tenham muito a ver com a eficácia dos adversários nesta vertente do jogo. Ou do adversário: claro que o adversário do Sporting é só um – o Benfica, e mais nenhum! Que não tem os pinheiros do Paulo Sérgio mas tem as suas torres: à frente e atrás. Ainda agora saiu uma – e que torre – logo o David Luiz que, como aqui afirmara no último número, saiu e saiu mesmo para o Chelsea, ao contrário do que então se dizia – mas já lá estava outra para repor o nível. De altura, evidentemente, Porque o outro é mais difícil!


O Porto também está com sérios problemas no jogo aéreo. Mantém, sem surpresas, um alto nível de desempenho no jogo aéreo mas das pedras, em especial no jogo das pedras contra o autocarro do Benfica. São rotinas há muito instituídas e muito bem treinadas e ensaiadas nos vidros das casas do Benfica das redondezas.


No resto tiveram que bater a bola baixa e a tentar explorar o jogo rasteiro. Com tanta convicção que passaram o tempo a mandar-se para o chão. A ver se pegava…Também o treinador – o grande André Vilas Boas – que já andava em bicos de pés e de nariz no ar, foi obrigado a baixar a bola. Agora já o vemos de bolinha baixa, junto à relva! Mas garanto-vos que será por pouco tempo…


 

50 ANOS

Por Eduardo Louro


 


Assinalar os 50 anos do que quer que seja – de idade ou de uma qualquer ocorrência marcante da nossa vida individual ou colectiva – é sempre motivo de envolvência emocional e de comprometimento. Com as pessoas, com os factos ou pura e simplesmente com a História…


Neste ano comemoramos 50 anos de muitos acontecimentos da nossa História contemporânea: 2011 é um ano de efemérides ao ritmo do redondo 50 ou não tivesse o destino querido fazer de 1961 um dos anos mais marcantes da ditadura de Salazar. Foi o verdadeiro annus horribilis do regime, o princípio do fim…


Acaba de se comemorar os 50 anos da Operação Dulcineia – o assalto ao Santa Maria, de Henrique Galvão, a mais romântica e espectacular acção de ataque ao regime (recomendo o filme de Francisco Manso, estreado em Setembro último e creio que ainda em exibição) – e já estamos hoje, 4 de Fevereiro, a assinalar os 50 anos do início da guerra colonial – provavelmente o mais marcante e decisivo acontecimento da nossa História a seguir aos descobrimentos.


Os movimentos anti-coloniais tinham germinado a partir da Conferencia de Bandung, em 1955 na Indonésia, de onde nasceria o movimento dos não alinhados, mas foi em Luanda, a 4 de Fevereiro de 1961, com o ataque de forças nacionalistas a prisões onde se encontravam detidos muitos dos seus militantes que, de facto, a guerra colonial começou. E, com ela, o irremediável aprofundamento do isolamento, interno e externo, da ditadura em Portugal.


Se a comemoração destes dois acontecimentos se encosta ao início do ano, as outras, deste excitante ano de 61, são empurradas lá para o fim: a 10 de Novembro, o mesmo Henrique Galvão desencadearia a operação Vagô – desvio (o segundo na história da aviação portuguesa) de um Super Constellation da TAP, que fazia o voo de Casablanca para Lisboa, obrigando-o a sobrevoar a capital, o Barreiro, Beja e Faro lançando milhares de panfletos -, a 4 de Dezembro dava-se uma espectacular fuga da prisão de Caxias, utilizando o carro blindado de Salazar, a 18 a invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana e, mesmo na passagem de ano, a tentativa de ataque ao quartel de Beja.


O 25 de Abril, esse, ainda teria que esperar mais 13 anos!


 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

EUREKA

Por Eduardo Louro


 


Ora aí está a fórmula mágica: depois de muito matutar eis que o governo grita EUREKA!


A solução está anunciada: o euromilhões passa a ter dois sorteios por semana!


Bora lá todos apostar. E ainda há quem diga que isto não tem solução… Maldizentes – é o que são todos! E ingratos. Não merecem um governo deste calibre, visionário…


 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O graúdo e o miúdo

Por Eduardo Louro


 


O Benfica ganhou no Dragão e está a 90 minutos e 70 dias (!!!) de chegar à final da Taça. Foi um Benfica superior ao Porto, que dominou todas as vertentes tácticas e estratégicas do jogo e que, mesmo a jogar com 10 durante praticamente toda a segunda parte, pela absurda expulsão de Coentrão – no maior dos erros de uma arbitragem muito pressionada e de tendência caseira – criou a única oportunidade de golo desse período.


De resto foi um jogo sem os habituais problemas – sem bolas de golfe, apenas uns isqueiros voaram sobre a cabeça do Júlio César – e, até ao momento, sem vidros partidos no autocarro. Partida ficou a Casa do Benfica de Vila Nova de Gaia… Há sempre alguma coisa para partir!


Ah, outra coisa: a Sport TV – cujos profissionais se caracterizam por uma certa, notória e ostensiva parcialidade no comentário – convida habitualmente, nestes clássicos, dois ex-jogadores dos clubes em confronto para comentarem o jogo. Normalmente costuma ser mais do mesmo: facciosos e sectários. Pois hoje estavam dois ex-jogadores que deixaram um bom exemplo, principalmente um bom exemplo para os profissionais daquela estação (o que lá estava ainda se esforçou, mas não lhe deram troco): um era o nosso bem conhecido Valdo, o outro, o do Porto, eu nem sequer o conhecia – chama-se Morgado, parece que terá sido uma das esperanças de Riade que ficou pelo caminho, e tiro-lhe daqui o chapéu.


Desta vez ganhou o graúdo: ganhou no jogo e no fair play! E eu gosto quando é assim!


 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

EGIPTO: O CENTRO DO MUNDO

Por Eduardo Louro


 Comissária da ONU fala em 300 mortos nos protestos (SIC)Escudo de Egipto


 


A revolução iniciada na Tunísia alastrou ao Egipto? É o que se diz!


Até pode ser que seja assim, que tenha alastrado… mas, não é a mesma coisa. Nem mais ou menos!


O Egipto não é o Magreb. Em comum pouco mais têm que o facto de serem governados pelos nossos filhos da puta (a expressão não é minha; é de Kissinger quando, referindo-se a Pinochet, dizia: é um filho da puta, mas é dos nossos)!


O papel do Egipto nos equilíbrios da mais instável região do mundo dos últimos 50 anos é único e decisivo. Como único e decisivo é o papel do Egipto no futuro do radicalismo Islão. No seu incontrolável avanço ou na sua contenção…


O Egipto é o único aliado árabe de Israel e um forte parceiro nos acordos de paz. O Egipto é dos maiores países árabes e a biblioteca do mundo árabe, o seu maior centro cultural. E o principal berço da Al Qaeda…


Joga-se neste momento no Egipto mais que o seu futuro. Mais do que o futuro do Médio Oriente: o futuro do mundo e de uma certa forma de olhar para ele a que chamamos civilização!

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...