quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Um dia quente!

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Acaba Agosto, o mais mítico e romanceado dos meses do ano. Acabam as férias e praticamente acaba o Verão. Mais que mudar o calendário muda uma forma de vida.


É sempre assim, todos os anos. Hoje no entanto é muito mais que isso. Muitas páginas se viram hoje com a do calendário.


Mesmo que o mercado de transferências no futebol feche sempre nesta data, nunca fechou como hoje, com a porta a ir lentamente fechando com inusitado suspense. Nunca a coisa por cá fervilhou tanto, com tanto negócio de última hora, tanta volta e reviravolta, tanta lágrima, tanto amúo e, inevitavelmente, tanto dinheiro.


Chega ao fim o processo de impeachement de Dilma Roussef no Brasil. Depois de mais um longo e insuportável desfile de senadores, cada um a tentar ser ainda mais deprimente que o anterior. Depois da advogada anónima que virou gente - figura central em todo este processo, Janaína Paschoal de seu nome - garantir, em choro por ventura comovido mas nada comovente, que o impeachment era um ato divino, e de, não menos absurdo, pedir desculpas aos netos de Dilma. E depois do advogado de defesa chorar, porque a outra já chorara, o golpe de Estado está consumado. Na América Latina, agora, os golpes de Estado são assim. Os generais já passaram de moda!


Em Espanha, Rajoy tenta ser de novo empossado à frente de um governo que já tarda vai quase para um ano. Não vai dar em nada. Mesmo com o acordo com o Ciudadanos, faltam-lhe seis deputados que, diga-se, não fez muito por encontrar. É agora claro que a alternativa a novas eleições - as terceiras consecutivas, e provavelmente também inconclusivas - é a geringonça portuguesa. Com molho á espanhola.


E é também hoje que toma finalmente posse a nova administração da Ciaxa Geral de Depósitos, naquele que se espera seja o último capítulo de uma novela lastimável, toda ela cheia de tesourinhos deprimentes. Mas caros, todos muito caros.


É verdade. Não me lembro de um 31 de Agosto tão quente! 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Alma negra

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Nunca um Presidente da República tinha posto os pés na Deserta. Onde há "almas negras", e não há "cagarras". Nem figuras tristes...


Não sei se a diferença entre a Deserta e as Selvagens é tão grande quanto a diferença entre os dois pássaros. Sei que é grande a diferença entre eles. Maior ainda é a diferença entre os seus nomes: onde, num, reconhecemos imponência, mistério e sedução, noutro apenas encontramos vulgaridade.


"Alma Negra" está para "cagarra" como ... Isso mesmo: como Marcelo para Cavaco!

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fotografias

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"Quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas"?


A pergunta, formulada por Passos Coelho em Boticas, com aquele ar convencido de bota de elástico ingénuo que só ele consegue, é a sua fotografia de corpo inteiro.


Veja-se no retrato como é de tão baixa estatura política: entregou ele próprio as jóias da coroa da economia portuguesa a um país dirigido por comunistas. Tem vistas curtas, e não percebe que o dinheiro não tem ideologia, que vai para países dirigidos por comunistas exactamente como vai para outros. Basta que os mercados interressem, como se confirma all over the world. À mínima falta de argumentos não resiste a ameaçar com o papão. E por fim, the last not the least, é a mentira, a falta de rigor e a intrujice. O país é dirigido por um governo de um partido com o qual o seu tem repartido o poder. E com o qual, no essencial, historicamente converge!

sábado, 27 de agosto de 2016

Com Jonas, é outra música...

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... Mas a precisar de afinação. Há por ali gente a desafinar.


É este, de resto, o grande problema deste Benfica de início de época - desafinação. A momentos em que parece já muito afinandinho, sucedem-se momentos de desafinação. Frequentemente desafinação colectiva, mas também individual, com muita gente fora do tom em muitos momentos do jogo.  


Com Jonas - sensacional recuperação: em vinte dias lesionou-se, foi operado, e voltou a jogar ao seu nível - no jogo a música sai com outra qualidade, já sabíamos. Tudo o que toca, toca bem. Irrepreensível. Mas este jogo de hoje na Madeira, com o Nacional, mostrou que a excelente música que sai dos pés de Jonas precia de mais. De mais concentração, de mais intensidade, de mais acerto - especialmente na hora do último passe ... e do remate. 


E tudo isto é mais visível quanto é sabido, e hoje mais uma vez confirmado, que contra o Benfica toda a gente corre mais, é mais agressiva e está mais motivada. É curioso que, invariavelmente, no fim dos jogos com o Benfica, dos adversários sempre se diz que, a jogarem assim, o futiro é radioso. Depois, vai-se a ver, e não é assim tão radioso. Não conseguem repetir...


Claro que as desafinações não se notariam tanto se o Benfica conseguisse matar os jogos em tempo. Se no início da segunda parte tivesse aproveitado um terço das oportunidades de golo criadas, também a música seria outra. E talvez o Pizzi não tvesse perdido aquela bola, não tendo depois de fazer a falta que daria o livre. Que o Júlio César não segurou, obrigando o Lisandro a completar para canto. Que deixou a defesa a olhar para a bola, permitindo que o defesa do Nacional emprestado pelo Sporting fizesse o golo do empate.


As intermitências ainda são muitas. Especialmente de André Horta - uma história bonita, sem dúvida, esta de um de nós lá dentro, a jogar de cachecol -, de Rúben Semedo, ou de Pizzi. Em grande, mesmo, só Salvio, que parece de volta ao grande jogador que conhecemos. E que bem lhe fica a braçadeira, mesmo que não lhe dê grande uso... E, claro, Carrillo. Pelo seu primeiro golo de manto sagrado. Um golo importante, para ele e para o jogo, mesmo que já lá estivesse o pé de Jonas para fazer o mesmo.


De fora ficaram Cervi e Mitroglou (só Gimenez marcaria aquele terceiro golo). De fora de tudo, sem que se perceba a trapalhada que para ali vai, continua Danilo, que me parece um jogador fundamental para esta equipa do Benfica. E Rafa. Mas aí percebe-se a trapalhada. E bem!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Brincadeiras*

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 A notícia é de um destes dias – anteontem, se não estou em erro – e é mais um exemplo da forma como somos informados.


Reza assim: “Juiz manda arrestar mais de mil milhões em contas suspeitas”.


Foi dada pelo Jornal de Notícias, referia-se a saldos de contas bancárias de responsáveis do BES indiciados de acções criminosas e foi praticamente replicada em todos os jornais e televisões. Com mais ou menos pormenores, mas sempre sem qualquer perplexidade. Entre os pormenores ressaltava o objectivo de arrestar um montante de mil milhões de euros, com destino a pagar as indemnizações de todos os chamados lesados do BES, objectivo que apenas o jornal que deu a notícia em primeira mão considerou difícil de atingir. Para os restantes, nem isso.


Quer dizer, dois anos depois da resolução do BES, a Justiça portuguesa decide arrestar as contas bancárias das pessoas e empresas ligadas ao Banco e ao grupo que o integrava. E a imprensa portuguesa acha que o dinheiro que existia nessas contas lá continuou durante dois anos, à espera que alguém se lembrasse de o ir a buscar para pagar a todos os que os seus titulares tinham enganado. Ou quer fazer-nos crer que acha…


Não sei se existem formalidades e preceitos que impedissem a Justiça de fazer o óbvio na altura própria. No acto de resolução, evidentemente.


O arresto das contas bancárias agora anunciado é tão mais ridículo quanto, já em Maio de 2015, a mesma Justiça foi mal sucedida quando decretou o arresto de imóveis dos mesmos arguidos. Se, nove meses depois da resolução, não foi, como não poderia ir, a tempo de encontrar os imóveis na posse dos arguidos, a Justiça portuguesa acha que, passados mais quinze meses, vai encontrar dinheiro nas contas bancárias.


E os media, que insistem em fazer de nós parvos, também. Quando é também notícia que o Tribunal de Contas apurou que a tentativa falhada de venda do Novo Banco custou 10 milhões de euros. Ou que as propostas que há para a compra estão ao nível da venda do BPN… Ou os prejuízos dos bancos, praticamente de todos, por causa das imparidades…


Parece que se continua a brincar com coisas sérias.


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Trágico

 


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Não é por serem naturais que estas tragédias são menos trágicas.


Amatrice, uma das mais belas cidades italianas, ficou assim.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Imunidade não é impunidade

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Imunidade diplomática não significa impunidade. Diplomática ou qualquer outra.


A imunidade diplomática é um instrumento indispensável nas relações internacionais ao nível das respectivas representações. Não pode ser um instrumento de impunidade de quem quer que seja. Por isso o Estado português não pode, sob nenhum pretexto, deixar passar em claro a absurda e selvática agressão de Ponte de Sor.


A investigação tem de ser feita rapidamente e sem quaisquer condições que não as que determinam o apuramento da verdade. A embaixada iraquiana lançou já uma campanha de reversão dos factos. Mal amanhada, com duas peças: um comunicado oficial, em árabe, e uma entrevista dos suspeitos, á SIC, sem pés nem cabeça. Mas a deixar entender que lançou mão de todos os meios de que dispõe para uma defesa na esfera oficial. 


O anterior embaixador declarou-se de imediato envergonhado. E os responsáveis pela política externa iraquiana já chamaram o actual embaixador e pai dos supostos bárbaros agressores. Da atitude do governo português ainda não se sabe grande coisa. Mas se calhar também não se deve, por agora, saber muito mais...


 


 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Adeus Rio 2016. Olá Tóquio 2020!

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Desceu o pano sobre os Jogos Olímpicos do Rio, os primeiros sob língua portuguesa. Foi bonita a festa de encerramento. Mais bonita ainda a de abertura. Entre as duas, os jogos. A competição, os resultados, os heróis...


Comecemos por eles, o verdadeiro centro de tudo. Usain Bolt, claro: mais três medalhas de ouro na velocidade. Aos 30 anos completou os seus terceiros jogos com nove medalhas de ouro - todo o ouro que havia para ganhar. Depois, logo a seguir, Michael Phelps, ressuscitado para os seus quartos jogos olímpicos, acumulando 23 medalhas de ouro - feito porventura inigualável. 


Foram ambos vedetas imbatíveis. Mas já lá chegaram assim. Por isso a estrela made in Rio é a pequena Simone Biles, a americana raínha da ginástica com 4 medalhas de ouro e uma de bronze. Aos 19 anos é o futuro. Sim, porque já vai o tempo em que essa era a idade da reforma na modalidade: Nadia Comaneci foi há quarenta anos. Tinha quinze!


Na História dos Jogos ficará também a etíope Almaz Ayana, que pulverizou o imbatível recorde mundial dos 10 mil metros, velho de 23 anos, fixado em 1993 pela chinesa Wang Junxia, em condições nem sempre isentas de dúvidas, retrirando-lhe 42 segundos.


Os Estados Unidos (121 medalhas) ocuparam como habitualmente o topo. Seguiram-se a surpreendente Grã-Bretanha, e depois a China, a Rússia e a Alemanha. Nesta classificação Portugal ficou-se pelo 78º lugar. Medalhas, apenas uma. A de bronze da Telma Monteiro.


É, nesta medida, o pior resultado da participação portuguesa do último quarto de século. Podendo ter sido melhor, foram os resultados possíveis. As medalhas estão cada vez mais caras, e Portugal não tem uma política desportiva que permita grandes sonhos. 


Tudo o que sempre conseguiu resultou de condições excepcionais, entre as quais o extraordinário empenho de atletas e treinadores. Raramente de uma política desportiva sustentada e estruturada. Por isso, os nossos parabéns aos atletas que nos representaram nos Jogos que falaram português.  


E já vem aí Tóquio 2020...


 

domingo, 21 de agosto de 2016

Não correu bem

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Tenho andado afastado do futebol neste início de época. Passei ao lado da Súpertaça e não acompanhei a primeira jornada da Liga.


Cheguei hoje à época 2016/2017. E bem podia ter esperado mais uns tempos...


Sabia, mesmo assim, pelo fui lendo e ouvido, que o Benfica não estava a entrar muito afirmativo. O categórico resultado do jogo da Súpertaça não dizia assim tanto, e a qualidade da exibição esgotou-se em meia hora, a primeira. No jogo de entrada na Liga tinha-se salvado o resultado, e a exibição tinha atenuantes: o primeiro jogo é sempre especial, por ser o primeiro; o campo, o adversário aguerrido, ainda com a dinâmica do sucesso da épica fase final da época anterior... 


Hoje já teria de ser outra coisa. Era a estreia em casa, com a Luz cheia e os adeptos ansiosos por receberem a equipa no seu colinho. O adversário era convidativo: o Vitória de Setúbal tem tradições no futebol nacional.


Mas as coisas não correram bem. O Benfica deu sempre a ideia que não tinha preparado este jogo da melhor forma, e as opções menos óbvias não resultaram. Pizzi atrás de Mitroglou, a fazer de Jonas, não é uma boa ideia. Mas o grande problema era a dinâmica pouco rotativa da equipa, logo depois das perdas de bola. Quando, perante um adversário bem organizado - Couceiro não descobriu a pólvora, vai ser assim que a maioria dos adversários enfrentará o Benfica - como foi o Vitória, se não há velocidade, se não se coloca intensidade no jogo, e se os passes errados engasgam a circulação de bola, fica difícil ganhar. Se a juntar a tudo isso também as individualidades resolverem não aparecer, fica ainda mais difícil. Se em cima de tudo isto surgir uma arbitragem desastrada, a empurrar o jogo sempre para o mesmo lado, temos a tempestade perfeita: tudo para correr mal!


E foi assim. A um Benfica colectivamente ainda muito por baixo, sem as estrelas que resolvem jogos (que se passa com o Carrillo? Por que é que o Danilo não está inscrito? Será que o Rafa também não é para inscrever?), juntou-se um árbitro que fez tudo para complicar as coisas.


Marcou faltas inexistentes contra o Benfica (de uma delas resultou o livre que resultou no golo do Vitória) e não marcou faltas mais que evidentes contra os setubalenses, uma das quais no mesmo golo. Marcou faltas ao contrário, fazendo com que as estatísticas das faltas cometidas assinalassem 17 para o Benfica e 13 para o Vitória. Recuperações de bola limpas dos jogadores do Benfica em zonas promissoras foram sistematicamente transformadas em faltosas. Faltas grosseiras (mãos, derrubes, pisadelas) junto à área foram repetidamente ignoradas. Uma agressão, num golpe de karaté sobre o Gonçalo Guedes (o único suplente que realmente mexeu com o jogo), foi penalizada com cartão amarelo. Pactuou com as perdas de tempo dos jogadores vitorianos, compensado com uns ridículos 4 minutos no final do jogo que teve seis substituições (em cada uma dos setubalenses perdeu-se sempre mais de um minuto).


Claro que o Benfica tinha obrigação de ganhar. Criou apesar de tudo ocasiões mais que suficientes para isso, mesmo descontando a soberba exibição do Varela. Mas este é um resultado com impressões digitais do árbitro do Porto. Pela segunda vez em duas actuações de Manuel Oliveira na Luz.


 

sábado, 20 de agosto de 2016

Outro ponto de vista

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Quando o tema é o burkini venho falar de biquinis, enquanto Agosto ainda dura, o sol ainda queima e eles continuam por aí, a encher as praias de graça.


Mas não é por isso, por deixarem as praias tão cheias de graça quanto vazia de gente ficou o atol do Pacífico com o mesmo, que venho falar de biquinis. Venho falar deles para relevar o assinalável esforço de investimento em I&D que a indústria desenvolveu nos últimos anos para atingir os limites da ergonomia, aquilo a que se poderá chamar perfeição ergonómica.


Antes de continuar talvez deva recordar o que é isso da ergonomia. Não como sinal de qualquer menosprezo pelos conhecimentos do estimado leitor, mas apenas para poder transmitir uma ideia mais aproximada do gigantismo da tarefa que esta indústria empreendeu. É uma ciência que trata da interacção do ser humano com os outros elementos, ou sistemas, que o rodeiam com vista a obter deles - de um e dos outros - o melhor desempenho. Recorre-se a esta ciência para tornar os produtos compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações das pessoas, que decorrem - entre outros que agora não são para aqui chamados - dos aspectos físicos de cada um. 


O que se pode dizer é que o empreendimento teve tanto de arrojo quanto de sucesso. A clientela aderiu em massa aos novos modelos da perfeição ergonómica e os resultados estão á vista. São um regalo e podem ser contemplados em todos os areais do nosso mundo, na mais variadas posições, na plenitude da arte do impossível de tudo mostrar e tudo esconder. 


O que só prova que se, ao contrário do que está a acontecer, não lhes cortarem mercado, os burkinis também lá chegarão. Imaginação não falta aos mais criativos... 


 


 


 


 


 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

É sempre assim...*

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Não sei se o pior já passou. Admito, e acima de tudo, desejo que sim. Sei – sabemos – que o país se cobriu de incêndios, como todos os anos acontece nesta altura do ano. Ou mais, ainda … Apenas numa semana, na última, arderam mais de cem mil hectares de terreno florestal, agrícola e urbano em Portugal. Um pequeno país, onde arde mais de metade do que arde na Europa… É verdade, mais de metade do que arde na Europa é português!


É assim, ano após ano. As televisões invadem as chamas e invadem-se de histeria, pela mão de repórteres que são uma tragédia em cima da tragédia. Fazem também parte da calamidade. Especialistas, sempre os mesmos, enumeram sempre as mesmas causas, e propõem sempre as mesmas soluções. Políticos expressam solidariedade, e ficam-se por aí. Porque fica bem. Os governos negam as evidências: “a minha área ardida é sempre menor que a tua”. E depois prometem mais meios. E cumprem, na maioria das vezes: a cada ano que passa há mais bombeiros, há mais viaturas, há mais aviões, há mais helicópteros … Mas também mais incêndios. E mais gravosos.


Os autarcas reclamam do isolamento, e do centralismo. E pedem mais apoios financeiros para as suas populações. Mas nunca dizem – nem ninguém lhes pergunta – o que é que, da sua parte, fizeram para prevenir ou minorar a tragédia.


Os populares culpam os criminosos. Tudo se resolvia com penas adequadas. Que os tribunais incompreensivelmente não aplicam. Fala-se nos interesses, que não são pequenos, da chamada indústria do fogo. E fala-se de Máfia… Fala-se da Protecção Civil, e de bombeiros. E do eterno presidente da respectiva Liga, que foi presidente de Câmara durante quatro décadas, deputado em não sei quantas legislaturas, e até incendiário num dos três grandes do futebol. Que fala, ralha e barafusta, sempre sem dizer nada que não seja culpar tudo e todos, e exigir mais dinheiro para a organização que domina. Sem nunca dizer o que fez em tantos anos e em tantos cargos.


Fala-se dos ministros que estão de férias. Dos que as interrompem e dos que as não interrompem. Mais grave ainda é se aparecem numa dessas festas de Verão das revistas cor de rosa…


É sempre assim, ano após ano. Como se, tal qual as cigarras que também ardem, assobiássemos todo o ano à espera do Agosto que há-de acabar por devorar o país. Como fossemos todos muito burros, sem nunca conseguir aprender nada…


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Este sol de Agosto...


 


Não estivessemos já habituados a tamanha falta de vergonha e diríamos que este sol de Agosto é terrível, e faz mesmo mal à cabeça desta gente...


O CDS resolve ir suicidar-se a Angola, e pelo caminho descobre que o MPLA é um partido irmão. Para reforçar a fraternidade altera até a certidão de nascimento da líder, para fazer dela angolana.


Um secretário de Estado, dos poucos que ainda falam - os outros foram todos ver a bola à conta da Galp e perderam o pio, que não a vergonha - diz que vai mudar a lei, para que nela caibam tods os 19 administradores da Caixa. Os que o BCE aceitou, os que mandou primeiro para a escola, e os que chumbou. Só se tinham lembrado de a alterar para lá caberem os ordenados exigidos pelos novos administradores, esquecendo-se do resto. Mas nunca há problema: nem se confere a legalidade, e se as nomeações são ilegais, altera-se a lei. Tantas vezes quantas as necessárias. 


Não há qualquer problema em colocar na administração banco público o co-líder de um dos maiores grupos nacionais. Provavelmente a SONAE nem trabalha com a Caixa Geral de Depósitos. E que importância tem que não tenham qualquer experiência no negócio? 


Nenhuma. É tudo gente com grande capacidade de aprendizagem. Vão tirar um curso e ... pronto. Até pode ser na Novas Oportunidades, agora ressuscitadas em Qualifica!


 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Coisas parvas*

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A silly season está aí. Entrou a toda a velocidade e não parece disposta a dar tréguas. E faz as delícias dos media, e das redes sociais em particular. Em boa verdade, sem jornais, televisões e, agora, facebook, não há silly season. As coisas parvas – a melhor tradução deste anglicismo é capaz de ser mesmo “a época das coisas parvas” – precisam disso. Se não tiverem amplificação mediática pura e simplesmente não existem… Por si, não têm qualquer capacidade de sobrevivência.


Entrou a todo o vapor com a história do IMI, com gás dado pelo sol e pelas vistas. Ou tirado pelos cemitérios ou pelas estações de tratamento de esgotos. Deu para tudo, com as coisas mais parvas a desafiarem o potencial da mais parva imaginação deixada à solta.


Prosseguiu com os juízes, na teimosa guerra dos colégios privados. Com o que decidira assim, porque tinha a filha no colégio em causa. E logo a seguir com a que decidira assado, porque tinha trabalhado com o actual primeiro-ministro. E logo as televisões se encheram com imagens da senhora a discursar no congresso do PS. Sem que nenhuma referisse, nem ao de leve, que à época a senhora não era juíza.


Ainda tudo isto fervia em pouca água, sem precisar dos 100 graus centígrados, e já o primeiro-ministro devolvia o cheque que o Presidente da República tinha enviado para o Ministério da Defesa, para pagar a sua deslocação a França, no Falcon, para assistir ao jogo das meias finais da selecção nacional, no europeu, há três ou quatro semanas.


E porque o tema era cheque, europeu e jogos da selecção em França, ficou a saber-se que o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais entendeu que resolveria o seu caso com a Galp enviando-lhe também um cheque, para pagar as duas viagens a França, para assistir a outros tantos jogos da selecção nacional.


As contas que cada um terá feito para chegar aos valores a inscrever no cantinho superior direito do dito não são de nossa conta. Não seria coisa parva. Simples curiosidade, que às vezes também é parva…


Coisa parva, mas parva a sério, tinha-a feito Fernando Rocha Andrade, assim se chama o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, ao "encarar com naturalidade, e dentro da adequação social, a aceitação deste tipo de convite, no caso, um convite de um patrocinador da Selecção para assistir a um jogo da Selecção Nacional de Futebol”.


É natural que as empresas destinem este tipo de convites a clientes. E a stakeholders. Não pode ser natural que um governante ache natural ser convidado por uma empresa. Menos ainda se essa empresa tiver um conflito de 100 milhões de euros com o Estado.


E achar que, pegando num cheque e enviando-o à empresa tudo fica resolvido, só é coisa ainda mais parva!


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Entrar com o pé direito nos Jogos

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Os Jogos Olímpicos - históricos, os primeiros sob língua portuguesa - só mais logo serão declarados abertos, mas a primeira representação de Portugal já entrou em acção. E com que sucesso...


A selecção olímpica de futebol, a equipa de recurso que Rui Jorge conseguiu constituir depois de sucessivas convocatórias falhadas, estreou-se nos Jogos com uma vitória (2-0) brihante sobre a Argentina, um dos prinicipais favoritos ao título olímpico e um dos históricos da competição, com duas medalhas de ouro (soma ainda mais duas de prata) nas últimas três edições dos jogos.


Quem não soubesse, a ver pelo qualidade de jogo apresentada, não imaginaria as peripécias que envolveram a constituição desta selecção, e a preparação para esta competição. Com um único jogo treino, já no Brasil, com uma equipa de júniores...


Pode até não dar em nada. Mas já não dúvidas que este é o ano de ouro do futebol português. Quase apetece dizer que basta dar um pontapé numa pedra para logo surgir uma selecção de futebol pronta a ganhar!


Não é bem assim, e Rui Jorge tem muito mérito nisto. Evidentemente. Bem mais evidente que os nomes dos jogadores nas camisolas: fugiram todos, e perdemo-los de vista. Não foi bonito. Parecia que as letras estavam coladas com fita-cola...

Em estado de perdição

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Não sei o que é que o Secretário de Estado Rocha Andrade tem a ver com o novo decreto-lei do IMI que levou aos desvarios que por aí se vêem. Sei que o IMI se presta a tudo, até porque é o mais desvairado produto da burocracia fiscal. Sei que nasceu em 2003, pela pena do seu homólogo, na altura, Vasco Valdez, às ordens de Manuela Ferreira Leite e sob a égide do "gold man" Barroso. E que os critérios na sua concepção transformados em fórmulas devem ter provocado raros momentos de êxtase burocrata. Verdadeiros orgasmos burocráticos. 


Sei, evidentemente, que o que o governo agora quis fazer foi simplesmente aproveitar as teias desse monumento à burocracia que é o IMI para passar entre os pingos da chuva em mais uma tentativa de sacar mais umas massas aos contribuintes. E dessa o Secretário de Estado não se pode safar...


Até porque não lhe bastou que não tivesse conseguido passar entre os pingos da chuva. Cairam-lhe logo em cima as duas viagens a França, e os dois jogos da selecção, que a Galp lhe ofereceu.


Cometeu uma imprudência capital quando se permitiu a tal convite. E um erro grave quando o aceitou, que não é de todo remediável: dizer agora que vai reembolsar a Galp não resolve coisa nenhuma. Em política, como na vida, os erros assumem-se. E pagam-se. É assim, não há outra forma.


Vai bem o CDS quando reclama a demissão do secretário de estado. Faz parte do jogo político. É assim. O que não faz parte do jogo, nem faz qualquer sentido, é a posição do PSD: ao atribuir contornos criminais à imprudência e ao erro de Rocha Andrade, o PSD está, apenas e mais uma vez, a dar nota pública do estado de perdição em que se encontra. E donde não consegue sair. Basta reparar na imagem...  

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Gente Extraordinária

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O BCE vem dizer, num Relatório que consta da terceira edição da Rede de Dinâmica Salarial (Wage Dynamics Network), um projeto de investigação de economistas do BCE e de 25 bancos centrais nacionais da União Europeia, incluindo o Banco de Portugal, que depois da troika, do chamado programa de ajustamento, ficou mais fácil para as empresas despedir e baixar salários. 


É o Relatório que o diz, mas quem o declarou nos inquéritos conduzidos pelo Banco de Portugal, em 2014 e 2015, foram os empresários portugueses. É o que entra pelos olhos dentro, e toda a gente vê. Mas é aqui que a "porca" do patrão da CIP, António Saraiva, "torce o rabo": não é nada disso - garante -, "as conclusões do BCE são excessivas". Os empresários é que estão confundidos, e misturam despedimentos com ... despedimentos. Extraordinário!


 


 


 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O aumento da dívida e os "mensageiros da desgraça"

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O aumento da dívida pública, e em especial o aumento em Junho, tomou conta das gordas nos jornais de ontem. O anúncio do novo tecto da dívida do país provocou a habitual excitação nas redes sociais, especialmente entre as hostes pafistas, sempre prontas a cantar vitória a cada desgraça anunciada.


É evidente que não há nenhuma razão estrutural para a que a dívida não continue a subir. Não há qualquer foguete para lançar, nem garrafa de champanhe para abrir: tudo continua na mesma, e com tudo na mesma a dívida só pode continuar a crescer. Mas, uma coisa é isso, a dívida ter de continuar a crescer. Outra, completamente diferente, é o crescimento brusco, repentino, que as notícias de ontem pareciam fazer crer, a justificar os foguetes - aí sim - da massa (a)crítica pafista


Toda a gente sabe que nas actuais condições da nossa economia - e da quase totalidade das economias europeias - a dívida paga-se com nova dívida: "a dívida não se paga, gere-se" - já dizia o outro. Com dívida a vencer-se à vista, é necessário contratar mais dívida para a pagar. Com dívida a vencer-se a curto prazo, e em tempos favoráveis em matéria de taxas de juro, como é o caso, é natural que se aproveitem essas condições para criar os depósitos com que irá ser paga essa dívida a pagar nos meses mais próximos.


É isto o que está a acontecer: a dívida nunca foi tão alta, mas os depósitos também não. A isto chamavam há pouco tempo - há apenas um ano, como se lembrarão - "cofres cheios". Hoje, os mesmos, chamam-lhe catástrofe.


Há uma excepção, uma honrosa excepção que não posso deixar de aqui salientar: o deputado do PSD, Duarte Pacheco, que não teve dificuldade em explicar que "há um empréstimo a ser vencido em setembro e muitas vezes o Estado paga um empréstimo contraindo outro" e que "antes de pagar um fica com dois em dívida, o que altera os números, que depois voltam à normalidade no mês seguinte". Se calhar foi o único a ouvir os avisos de Marques Mendes, na véspera ...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Não admira...

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... Não admira muito que o FMI tenha vindo dizer, com todas as letras e de forma clara e inequívoca, que o dito programa de resgate que, juntamente com as instituições europeias, impôs a Portugal foi um desastre. Não é novidade nenhuma, uma boa parte de nós, da direita - sim, muita gente de direita esteve convictamente contra o eufemisticamente chamado programa de ajustamento, muitos do próprio PSD, como é sabido - à esquerda, há muito que tinha dado conta disso. E que em tempo oportuno, e não depois do mal estar feito, ergueu a voz contra o pocesso de destruição em curso no país. 


O próprio Vítor Gaspar, como muito bem lembrou o Pedro Marques Lopes (uma das vozes do PSD que na altura própria se fizeram ouvir) no DN neste fim se semana, deixara claro na sua carta de demisão, a meio do mandato e a pouco mais de meio do programa, que tudo aquilo dera errado.


Não admira que o FMI diga hoje que se deveria ter feito a reestruturação da dívida, quando na altura se atirava para a fogueira toda a gente que ousasse falar disso.


Também não admira que o FMI venha agora dizer que estava errado nos pressupostos, que errara no diagnóstico e que se enganara nas fórmulas, com a leviandade de quem está a falar de uma receita de massa de bacalhau. Sabemos o que a casa gasta... E sabemos bem que há por lá muita gente que muito jeito para carrasco e pouco, ou nenhum, para resolver problemas de Economia.


Nem admira que este Relatório tenha sido conhecido ao mesmo tempo que se ficou a conhecer o fim da telenovela das sanções da Europa.


O que admira - ou, se calhar, não - é que não se ouça uma palavra dos convictos executantes desse programa de destruição. Que Passos Coelho, Maria Luís ou Portas não tenham um comentário que seja a fazer. O que admira - ou talvez não - é que para a imensa legião de comentadores com que enxamearam as televisões este Relatório seja um não acontecimento!

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...