
A segunda semana do 110º Tour de France, fechada com as três etapas dos Alpes, foi mesmo a semana alpina. Três etapas que, tidas por decisivas, não decidiram muita coisa. Na frente, na luta pela vitória final, não decidiu mesmo nada.
Se à entrada nos Alpes Vingegaard e Pogacar estavam separados por 17 segundos, à saída estão separados por 10. Mas isso não quer dizer que os Alpes não decidiram muita coisa e, menos ainda, que não tenham mostrado grandes momentos de ciclismo.
Na sexta-feira, a abrir, na chegada ao Grand Colombier, não faltou espectáculo nem emoção. Como não faltaria nas outras. Aproveitando - e resistindo - uma fuga madrugadora e numerosa, como é timbre destas etapas, Kwiatowski foi o primeiro, lá no alto. Mas o espectáculo, está bom de ver, estava reservado para os dois da frente da classificação geral.
A equipa dos Emirates chegou-se à frente e, num enorme investimento, comandou toda a perseguição à fuga, quase a anulando. Na parte final Pogacar fez o resto, e voltou a atacar fortemente Vingegaard. Parecia que iria resultar, com o dinamarquês a ceder. Mas não, Vingegaard respondeu no seu ritmo e, no fim, todo o esforço da Emirates, e do próprio Pogacar, acabou por resultar numa vantagem de apenas 4 segundos. Que seriam oito, pela bonificação de outros quatro, correspondentes ao terceiro lugar na etapa. E o esloveno reduzia a desvantagem dos 17 segundos para nove.
Mas estava dado o mote. Pogacar conseguia explodir, mas Vingegaard tinha sempre resposta.
No sábado, ainda ali às voltas do Monte Branco, na chegada a Morzine les Portes du Soleil, nada seria de muito diferente. Mesmo com uma história muito diferente. Desde logo porque uma queda colectiva, logo aos 5 quilómetros da etapa, deixou fora da corrida muita gente, obrigando a uma interrupção de meia hora para que fosse prestada assistência aos ciclistas acidentados. Entre os que foram obrigados a desistir estavam ciclistas do top 10, como o sul-africano Louis Meintjes, o espanhol Antonio Pedrero (Movistar) e o colombiano Esteban Chaves (EF Education-EasyPost). Mas também Ruben Guerreiro. Dos primeiros, o australiano Jai Hindley (BORA-hansgrohe), terceiro classificado da geral, e o britânico Thomas Pidcock (INEOS), oitavo, também estiveram envolvidos, mas continuaram em prova.
Desta vez foi a Jumbo Visla, de Vingegaard, a fazer o investimento principal na etapa. Mas foi Pogacar a atacar, novamente. Desta vez até ganhou rapidamente alguma vantagem, mas depressa a perdeu, e depressa Vingegaard se lhe juntou na frente da corrida.
Pogacar percebeu que não se veria livre do rival e decidiu apostar na meta da montanha, que dava bonificação de 5 segundos. Que, juntamente com a da meta final, no fim da longa descida que se seguia, lhe daria para anular a desvantagem. Deu-se então o golpe de teatro: quando Pogacar ia atacar para ser primeiro na montanha, no carreirinho aberto entre os espectadores, é tapado por uma mota de um repórter fotográfico, e é Vingegaard que aproveita para ser primeiro, e ficar com a bonificação.
Como um mal nunca vem só, enquanto eles estavam entretidos nesta disputa, o miúdo Carlos Rodriguez (22 anos), que tinham deixado para trás uns quilómetros antes, aproximou-se e, já na descida, deixou-os para trás. E acabou por ser primeiro na meta, com 5 segundos de vantagem sobre os dois. Pogacar ainda tentou tudo, esperou até pelo colega Adam Yates para uma ajuda. Mas nem assim. Vingegaard seguiu sempre colado à sua roda. Nem no sprint final, a largou, perdendo apenas os 4 segundos da diferença de bonificação entre o segundo e o terceiro. Perdendo estes 4 segundos, mas tendo ganho os 5 lá em cima, os 9 de vantagem passaram a 10.
Hoje, na despedida dos Alpes, a inevitável fuga numerosa ditou os primeiros 15 classificados da etapa, não deixando nada de bonificações com que os dois da frente se vão gladiando. Mais uma queda deixou Bardet, à porta do top 10, de fora.
Pogacar voltou a estar mais bem preparado - quer dizer com mais equipa - para atacar, novamente com a preciosa colaboração de Adam Yates, decididamente a fazer uma grande corrida. E atacou, com o mesmo resultado: Vingegaard sempre na sua roda, sempre a responder. E a deixá-lo definitivamente em sentido. Chegaram os dois juntinhos à meta em Saint-Gervais Mont-Blanc le Bettex, em 16º e 17º, a mais de 6 minutos de Wout Poels.
E, como eles não se largam, será o contra-relógio de depois de amanhã (amanhã será o segundo e último dia de descanso) a decidir isto. Só faltava, também aí, fazerem o mesmo tempo ...