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Termina hoje o "estado de emergência", ou melhor, o 15º "estado de emergência". Vigorava ininterruptamente desde 9 de Novembro do ano passado, e é agora substituído pelo "estado de calamidade" que, apesar do nome pouco simpático, é menos calamitoso. E entramos na quarta fase de desconfinamento, que ainda não é o retorno à normalidade, nem o regresso das nossas vidas, mas é um "passo em frente", para utilizar as palavras de António Costa no anúncio desta boa nova.
Não é, no entanto, um "passo em frente" todos os portugueses. Há oito concelhos que ainda ficam de fora desse passo e, num deles, Odemira, há até duas freguesias peadas em cerca sanitária.
Que ninguém dê o passo mais largo que a perna. E que "ninguém cegue com a luz ao fundo do túnel", nas palavras de Marcelo. Dá mau resultado, e para calamidade já basta!
O futebol tem, como se sabe, muito de religião. São muitos os pontos de contacto entre a religião e o futebol, muito para além do factor alienante que é frequentemente invocado! Estranhamente o futebolês não recorre muito a esses pontos de contacto: ao contrário do que poderia parecer esta crença não tem nada a ver com a fé religiosa ou com a crendice básica que tantas e tantas vezes sustenta as religiões. E a ignorância!
A crença, em futebolês, corresponde a um estado de espírito colectivo que se traduz num forte acreditar. Em acreditar em si, nos seus pares e nos seus líderes! Nada que seja exclusivo do futebol: é antes um dos alicerces de qualquer teoria de motivação. É qualquer coisa de fundamental sempre que se trate de gerir recursos humanos. E, como sabemos, tudo o que seja desporto colectivo de alto rendimento transformou-se no mais exigente laboratório de manipulação de variáveis de comportamentos físico e emocional de pessoas com vista à optimização de desempenhos.
Manuel Sérgio, o professor que tenho por grande filósofo do futebol, e que frequentemente aqui cito, usa esta expressão emblemática: “uma grande equipa vive de uma grande crença”!
É de facto assim: uma grande equipa de futebol é constituída, indubitavelmente, por grandes jogadores, por jogadores de grande capacidade técnica em boa condição física. Mas se lhes faltar a crença – uma grande capacidade psicológica capaz de os fazer ultrapassar os obstáculos, as dificuldades e as contrariedades – falta-lhe aquele plus, aquela mola que é capaz de transformar o azar em sorte, a tristeza em alegria e, no que finalmente mais importa, de virar a derrota para a vitória.
Incutir essa crença na equipa é seguramente a mais exigente das tarefas do líder, do treinador. Não havendo quem a não saiba cumprir de todo, raros, raríssimos, são os que permanentemente a conseguem desempenhar. Qualquer treinador consegue num determinado período, nem que seja num único jogo, transportar para a equipa toda a carga motivacional que a faça transcender-se. De forma idêntica qualquer jogador consegue reagir positivamente a esses estímulos. Já é bem mais difícil encontrar um treinador que consiga manter os índices psicológicos da equipa no topo, se não na totalidade, na maior parte e nos mais decisivos momentos da época. Precisamente porque essa é a sua mais exigente competência, porque é a cereja no topo do bolo, porque só resulta depois de exercidas todas as restantes competências: táctica, técnica, planeamento, comportamento e comunicação.
Exigem-se hoje muito mais qualificações aos treinadores. Percebe-se que hoje, como também diz o Prof. Manuel Sérgio,” um treinador que saiba muito de futebol, se só sabe de futebol, nem de futebol sabe”!
Esta equipa do Porto está realmente uma grande equipa porque vive de uma grande crença. De uma grande crença incutida por um treinador que, mesmo muito novo, sabe muito de futebol. Mas que não sabe só de futebol!
Por isso vai igualar o recorde do Benfica e ganhar o campeonato sem derrotas – arrisco mesmo que com apenas dois empates. Por isso chegou à Luz com dois golos de desvantagem e, acreditando, em 12 minutos em que tudo saiu bem, eliminou o Benfica. Por isso ainda agora frente aos espanhóis do Villareal – uma equipa de topo do futebol espanhol – depois de uma primeira parte (recorde-se igualmente a primeira parte do jogo da Luz) em que o adversário lhe foi claramente superior (com muitas ocasiões e com o único golo), acabou por marcar 5 golos, arrumar a questão do apuramento para a final, e atingir o terceiro jogo consecutivo na Europa com chapa 5. E por isso ninguém se lembra nem discute que, por exemplo, o decisivo segundo golo na Luz foi irregular (fora de jogo) e que o terceiro resultou da sorte de um desvio da bola num adversário. Ou que o decisivo primeiro dos 5 golos aos espanhóis surgiu logo no início da segunda parte, mas, mesmo assim, já depois de o adversário ter falhado a oportunidade de fazer o dois a zero, e através de um penalti inexistente! E que logo a seguir veio o 2-1, que levou os espanhóis a partir para a frente com pouca cabeça…
Mas a crença é como o futebol: é isto mesmo!

Na ordem do dia pelo mundo fora, o levantamento das patentes das vacinas contra a covid-19 está praticamente ausente do espaço de discussão pública em Portugal. Não ouvimos falar disso por cá.
Não consta da agenda mediática, talvez por quem a constrói achar que não nos diz respeito, que não temos que nos meter nisso. Mas diz-nos todo o respeito, e temos mesmo que nos meter nisso.
Levantar as patentes das vacinas é hoje o passo decisivo no combate à pandemia, sabendo-se, como se sabe, que ninguém estará livre da doença enquanto ela subsistir em qualquer parte do mundo. Que enquanto isso suceder há sempre uma variante nova pronta a atingir-nos. Temos a tendência para esquecer isto, concentrando-nos no nosso umbigo. Se nós - países ricos (sim, sei que soa estranho chamarmos-nos assim, mas apenas somos dos mais pobres dos ricos) - estamos a caminho da imunidade de grupo, estamos safos. Os outros que se lixem ... Está errado quem assim pense.
Quebrar as patentes das vacinas, e liberalizar a produção, é a única forma de rapidamente responder às necessidades dos países sub-desenvolvidos. É a única forma de desligar a bomba-relógio da Índia, cujo tic-tac se ouve por todo o mundo. Insistir em não o fazer é, objectvamente, trocar milhões de vidas por lucros imorais das grandes companhias farmacêuticas.
Sim. Imorais. Porque, como noutras ocasiões já aqui referi, a maioria do investimento no desenvolvimento das vacinas, na Europa como na América, foi público, como dificilmente poderia ter deixado de ser. E o que suportaram está mais que coberto pelos exorbitantes lucros já realizados no abastecimento aos países do primeiro mundo.
Talvez não seja assim tão estranho que o tema esteja tão distante da opinião pública portuguesa, mais interessada nas guerras das marcas, e em levar as pessoas a escolher umas porque sim, e outras simplesmente porque não.
Não importa se até o beijo tem hora marcada. É o casamento do século – mesmo que este seja ainda é uma criança – e o resto é conversa!
E às portas do Palácio de Buckingham o povo pediu “só mais um”. Quebrou-se a tradição e lá de cima, da varanda, soltou-se o segundo beijo. Nem num muito british casamento real a tradição já é o que era!
Abre-se hoje uma nova rubrica no Quinta Emenda - "Gostava de ter escrito isto". Junta-se a outras como "gente extraordinária", "há 10 anos", diálogos curtos", ou "coisas" para os mais diversos gostos, algumas já a ficarem esquecidas.
É uma espécie de "ler os outros", mas só com coisas que não escrevi porque alguém escreveu antes. E diferente!
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Os episódios de violência de anteontem à noite em Moreira de Cónegos, no final do jogo entre a equipa da casa, o Moreirense, e o Porto, revelam mais uma vez o terceiro-mundismo que se vive na bolha do futebol em Portugal, onde arruaceiros, capangas, mandantes e caciques convivem tranquila e harmoniosamente com forças de segurança e meios de comunicação.
Com 4 pontos de desvantagem sobre o líder do campeonato, o Sporting, a cinco jornadas do fim e já sem qualquer confronto directo, isto é, sem qualquer possibilidade de interferir directamente na anulação da vantagem sportinguista, Pinto da Costa declarou, na semana passada que, se nada de anormal acontecesse, o Porto seria campeão. Em vez de questionar tão estranha quanto inaceitável declaração, a comunicação social desportiva projecta-a como dogma papal. Do único Papa que reconhecem.
Logo na primeira oportunidade o Porto empata, e os 4 passam a 6 pontos. Isto é, surge a primeira "anormalidade". O treinador do Porto, bem acompanhado por um dos diretores de comunicação (no Porto são dois, um no banco (!!!), de seu nome Rui Cerqueira, ex-jornalista da RTP, e outro no gabinete, o inenarrável Francisco J Marques) faz a arruaça que sempre faz nessas circunstâncias, e só não chega à agressão física - porque da verbal ninguém escapa - porque o árbitro até em campo tem segurança pessoal especial e, valha a verdade, pela intervenção do dirigente Luís Gonçalves, normalmente também dado à arruaça e à ameaça, e de um jogador, pareceu-me Sérgio Oliveira. Lançado o rastilho, a coisa passou para a zona de saída dos balneários, onde Pinto da Costa não gostou de ver câmaras de televisão, acabando com um tipo chamado Pedro Pinho, um empresário de futebol, unha e carne com o(s) Pinto da Costa, a passar à agressão a um dos desses operadores, o da TVI.
A GNR, ali presente, não vê nem ouve. E, na manhã seguinte, nos jornais desportivos ... nada. A própria TVI trata de limpar, fazendo o seu director de informação saber que Pinto da Costa lhe telefonara a esclarecer que o agressor não tinha nada a ver com o Porto. E que até teria sido convidado do Moreirense, mesmo que estivesse ali, à saída do balneário, incluído na comitiva portista.
Os comentadores afectos ao Porto distribuídos pelas televisões e, pelo menos um, ao que se diz, também presente no local, lançam-se de imediato às operações de limpeza. Ao contrário do pretendido a coisa não acabou abafada. E hoje "a Bola" faz esta primeira página, quando ontem não tivera nada para dizer.
Os outros, nem isso...
Em gestão ou em pleno exercício legítimo do poder, este governo não muda na sua imensa capacidade para manter, imperturbavelmente, um discurso de costas viradas para a realidade e para o mais elementar bom senso. É o rumo de Sócrates: há muito traçado e do qual ninguém se afasta um milímetro que seja!
Hoje, enquanto Sócrates continuava a sua nobre tarefa de sacralização do PEC 4 – já a antecipar um dos seus cavalos de batalha da campanha, agora na variante da sua comparação com o que será o produto final da troika, e a adornar a sua tese conspirativa (tirou da cartola que o PSD tinha outras maneiras de provocar eleições, sem prejudicar o país) – o seu ministro mais que tudo, Silva Pereira, falava-nos de Teixeira dos Santos. Para dizer que o ministro menos que tudo está integralmente dedicado às negociações com a troika!
Isso mesmo: o ministro que Sócrates publicamente indicou como o interlocutor do governo junto da troika, o chefe mor do governo nestas negociações - na primeira afronta pública de Sócrates ao seu ministro das finanças (a segunda seria o seu afastamento das listas) - estava agora a dizer, com a maior e habitual desfaçatez, que ninguém sabe do ministro das finanças porque ele está fechado com a troika e sem tempo de sequer aparecer!
Vale a pena citá-lo: «O ministro das Finanças está integralmente dedicado, trabalhando desde muito cedo até muito tarde, para que este processo tenha um desenlace compatível com aquele que melhor serve os interesses do país», E vale a pena ainda referir que, quando os jornalistas lhe perguntaram pelo ministro das finanças, achou a pergunta “extraordinária”. Despropositada, acrescento eu! Extraordinária é no entanto a sua resposta, e volto a citá-lo: «Os portugueses sabem perfeitamente o que está a fazer o ministro das Finanças. Está a negociar o processo de ajuda externa; está a trabalhar intensamente no Ministério das Finanças com a troika europeia para defender Portugal neste processo de negociação internacional».
É fantástico! Teixeira dos Santos agora até passa por escriturário - vá lá, contabilista - de Pedro Silva Pereira!
Tão fantástico quanto o impagável (bom, com mais uma PPP talvez se consiga pagar! Lá bem mais para a frente!) ministro das Obras Públicas, António Mendonça, vir também hoje garantir que aguarda o visto do Tribunal de Contas para o TGV!
Caramba, não haverá ninguém que abane o homem?
O Bloco de Esquerda surgiu e consolidou-se no nosso espectro partidário porque soube conquistar o seu próprio espaço e porque soube aproveitar as oportunidades que se lhe foram deparando. Chegou ao parlamento por força da aritmética – a soma dos votos antes dispersos pelos vários partidos que lhe deram origem -, e foi crescendo por ter sabido conquistar um espaço da esquerda que estava por preencher.
E cresceu até chegar onde chegou nas eleições de Setembro 2009. Fez-se grande ao ponto de discutir o último lugar no pódio do campeonato dos partidos. E aí as coisas começaram a correr menos bem: são muitos os exemplos das coisas que nasceram para ser pequenas e que se descaracterizam quando crescem para além daquilo para que nasceram. Umas vezes porque não sabem crescer e outras porque não o merecem!
Esta era a fatalidade do Bloco de Esquerda: ocupando um espaço da esquerda muito centrado no protesto e sustentado por um discurso mais aberto e arejado, capaz de fazer moda, estava condenado a crescer. A personagem de José Sócrates fez o resto, deu-lhe o plus! E o Bloco foi, por força desse crescimento, obrigado a sair da sua zona de conforto: o espaço de protesto. E aí estatelou-se ao comprido!
A moção de censura – mais a forma que a substância – foi a primeira grande escorregadela. A encenação com o Partido Comunista também não ajudou nada. Mas a queda, decisiva e irreversível, surge quando, colado ao PCP, se coloca de fora do quadro de diálogo com a troika que está a tomar conta do país. Diz aí o último adeus a umas centenas de milhares de votos, porque perde a confiança de uma franja de eleitorado que não entende que se voltem as costas às instituições de que o país, quer se queira quer não, depende. E com quem é indispensável dialogar, independentemente da margem de negociação.
O resto está a cargo de José Sócrates. O que é justo, parece-me: se foi esse personagem a dar-lhe o tal plus, é justo que seja ele a tirar-lho! É que desta vez o personagem vai desencadear o fenómeno de voto útil: como o meu clube, aqui há uns anos, se uniu para correr de lá com aquele tipo que toda a gente sabe, agora o país vai unir-se para correr com Sócrates. E, ao contrário do que ouço a todos analistas, - que garantem uma grande transferência de votos do Bloco para o PS – eu acho que a grande maioria dos votos irá fugir directamente para o PSD. Votos decisivos, nas circunstâncias que vamos conhecendo, para garantir a vitória de Passos Coelho.
É claro que, depois, toda a gente irá dizer que esses são os votos do Fernando Nobre. Olhem que não… olhem que não!
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Não sei se foi a primeira vez que um discurso de um Presidente da República nas comemorações oficiais do 25 de Abril foi aplaudido de pé por toda a Assembleia da República. Se não foi, também não foi ainda. Embora tivesse parecido.
E como pareceu, é como se tivesse sido!
O discurso de Marcelo ontem na sessão oficial de comemoração do 25 de Abril merecia a unanimidade e aclamação no Parlamento. E teve-a. O André Ventura não conta!
"Não há nem nunca houve um Portugal perfeito"!
Pela primeira vez – e aproveitando uma Assembleia da República demissionária – o presidente Cavaco Silva, provavelmente animado por este súbito impulso de unidade, chamou os ex-presidentes (curiosamente estão vivos todos os ex-presidentes eleitos e já não estão entre nós os dois que exerceram a função por nomeação) do pós 25 de Abril para, com ele, cumprirem as comemorações oficiais. E o resultado foi um discurso oficial de apelo à convergência dos partidos, em especial dos do chamado arco do poder.
É um discurso que, percebendo-se, não deixa de soar a estranho. O que é curioso é que se perceba e se estranhe precisamente pela mesma razão!
Não me parece que se deva perceber este discurso à luz da actual crise política, económica, financeira, social e ética. Apelar à união de todos em período de crise é um lugar-comum, não traz nada de novo. Não é normal, nem sequer em meu entender razoável, que em período pré-eleitoral, e em ambiente de campanha eleitoral, se venha falar de convergência entre os partidos. Pelo contrário, em democracia o normal é, em períodos destes, salientar as diferenças e puxar pelo que distingue as diferentes opções.
Por isso acho que se poderá perceber facilmente que marcar eleições e, ao mesmo tempo, pedir a unidade dos partidos, não bate certo. Não joga a bota com a perdigota! Marcar eleições antecipadas quer dizer que é tempo de se ir à procura de novas soluções, de alternativas. Ao invés, se a ideia for procurar soluções consensuais e promover a convergências e a unidade, o que há a fazer é criar plataformas de entendimento nesse sentido. Nunca antecipar eleições!
Então porquê este anacronismo? Porque já toda a gente percebeu que as eleições não vão dar em nada. Que a solução não está ali! Que as eleições, em vez de clarificarem a situação política, tornam-na ainda mais complicada.
E, portanto, se as eleições não vão resolver o que se supunha resolverem, há que voltar à outra fórmula: procurar criar plataformas de entendimento. O que em campanha eleitoral não é fácil. Entra então aí a outra parte do discurso: aquela que, reconhecendo o bizarro que é pedir união, pede contenção no discurso de campanha. Para que da campanha não saiam minadas e envenenadas as hipóteses de entendimentos pós-eleitorais.
Quer isto dizer que foi errada a decisão de antecipar eleições? Vista daqui e de agora a resposta é clara: foi! Mas vista de então e de lá não foi um erro. Foi azar!
Visto assim, o título poderá até parecer necrológico. Mas não é!
É mesmo para assinalar os seus 37 anos: uma idade madura! Para trás ficaram tempos de irreverência, tempos de sonhos e de promessas. Como as pessoas, chegado aos 37 anos, o 25 de Abril não fez tudo o que prometeu, não fez um percurso limpo e direitinho, aqui e ali perdeu-se. Desiludiu alguns e frustrou expectativas, mas sabemos como é difícil agradar a todos… Ainda na semana passada vimos alguém que reivindica a sua paternidade – já lhe ficou bem, não é agora o caso – dar conta do seu desencanto, ao ponto de confessar o seu arrependimento por essa autoproclamada paternidade. Renegá-lo - terá sido?
Aquele não é o título de um epitáfio. Ao longo destes 37 anos muitos têm sido os que o têm dado por morto. Podem alguns jurar que morreu, podem mesmo garantir que confirmaram a sua morte. Mas não! É pura ilusão, no caso e mais propriamente, pura desilusão. Porque há muitos 25 de Abril: arriscaria mesmo a dizer que há um 25 de Abril para cada um de nós. Cada um dos que tivemos a felicidade e o privilégio de o viver criou o seu próprio 25 de Abril, concebeu-o e desenhou-o à sua medida, à medida do seu próprio romantismo, da sua própria imaginação, da sua ideologia e dos seus valores.
Renova-se a cada dia 25 deste mês de Abril porque é nosso. Mantém-se vivo nas nossas memórias e manter-se-á sempre vivo se não deixarmos que desapareça das memórias que temos a responsabilidade de alimentar. Temos a responsabilidade de o manter vivo pelo menos uma vez por ano, pelo menos neste dia. Mesmo que a Assembleia da República, que mesmo demitida acaba por reunir para coisas e com fins que poucos entendem, entenda não abrir portas para lhe cantar os parabéns!
O défice de 2010 não pára! Já vai em 9,1%! Era 6,8, lembram-se?
Estatísticas, meras estatísticas que nada põem em causa, diz o governo através do agora seu novo homem forte: Vieira da Silva, ministro da Economia. A culpa é do Eurostat, que voltou a alterar as regras…
Ouvimos esta explicação e vem-nos logo á cabeça que não engoliram aquela do fundo de pensões da PT: caramba, lá nos obrigaram a puxar o gato cá para fora! Não. Nada disso, ainda não chegaram lá: era apenas qualquer coisa que faltava de umas PPP!
Pronto, já sabemos: daqui a uma ou duas semanas ainda há-de chegar essa! O Eurostat há-de voltar a alterar as regras e o défice passar para lá dos 11%. O que é que havemos de fazer? Como o Eurostat não tem mais nada que fazer entretém-se a alterar as regras de apuramento dos défices… Cada semana arranja uma nova!
Esqueletos no armário? Não … Isso é conversa de maldizentes…
E depois vou ouvindo que estes tipos estão a subir nas sondagens... Que sobem a um ritmo maior que o défice!
Mas pirou tudo de vez?
Ora aqui está uma das mais clássicas expressões do futebolês: duas partes distintas! Se tivesse que caracterizar esta expressão não teria dúvida nenhuma em pôr-lhe um bigode, uma camisa aberta com os pelos do peito ao léu, um cigarro na mão e um palito no canto da boca. Nem mais: uma das expressões mais populares do futebolês! E uma das mais abrangentes, particularmente do gosto de alguns treinadores.
O jogo tem duas partes, de 45 minutos cada uma, unidas por um intervalo que era de 10 minutos que, por culpa das televisões, já vai no quarto de hora. São portanto tão distintas como qualquer coisa que se distingue de qualquer outra coisa. E tão indistintas quanto acontecerem no mesmo local, nas mesmas condições e terem a mesma duração.
Observadas com mais atenção conseguimos encontrar-lhe algumas diferenças imperceptíveis a olho nu. Por exemplo: a segunda parte é normalmente um bocadinho maior, por culpa de uma coisa chamada período de compensação. O internacional extra-time que os árbitros decidem para compensar algum do tempo perdido – sempre demasiado e exagerado para quem está a ganhar e sempre de menos para quem precisaria de estar a ganhar – e que, por força das substituições, é normalmente maior na segunda parte. E também se consegue perceber que, na segunda parte, as equipas estão a jogar para o lado contrário. Mas, por mais que procuremos, não conseguimos encontrar-lhe mais diferenças. Mais nada as distingue!
Não são, na realidade, as duas partes que são distintas. O jogo é que é distinto: a atitude das equipas, as circunstâncias de jogo, a matriz táctica, a velocidade - e mais um sem número de variáveis que fazem de um jogo tão simples como o futebol um espectáculo apaixonante – é que podem fazer alterar por completo a rota traçada para o jogo. Umas vezes por estratégia assumida por um dos treinadores. Ou até por ambos! Outras por imponderáveis próprios do jogo e outras ainda por imponderáveis da simples condição humana.
Na noite da passada quarta-feira tivemos oportunidade de assistir a dois jogos com duas partes distintas. São de resto esses dois jogos, e as circunstâncias de terem decorrido à mesma hora e de ambos, tão flagrantemente, ilustrarem as duas partes distintas, que me empurraram hoje para o assunto.
A final da Taça do Rei de Espanha reeditou o duelo entre o melhor futebol do mundo (de todos os tempos, na minha opinião) – o Barcelona – e o melhor treinador do mundo à frente de um conjunto de jogadores do melhor que há - o Real Madrid. O segundo – depois do empate do passado sábado, em Madrid – de uma série de quatro que em pouco mais de duas semanas. Com uma primeira parte onde Mourinho bloqueou o Barcelona, impedindo-o não só de apresentar o seu fabuloso tic-tac como, pasme-se, de efectuar um único remate. E onde apenas o Real foi capaz de criar ocasiões de golo. A segunda foi completamente distinta: o Real Madrid já não conseguiu impedir o jogo do Barcelona, e o melhor futebol do mundo impôs-se à táctica do melhor treinador do mundo, esmagando o Real naquilo que era já outro jogo. As ocasiões de golo sucederam-se ao mesmo ritmo que se sucediam as grandes defesas de Casillas. Por isso não houve golos mas prolongamento, e mais uma parte distinta que permitiu o golo de Cristiano Ronaldo e o primeiro título de Mourinho em Madrid.
Também o Benfica-Porto teve duas partes distintas. Na primeira viu-se um Benfica atípico, mesmo contra-natura, a segurar a bola num jogo sem ritmo, a atingir 61% de posse de bola. Uma completa anormalidade perante um Porto com cultura de posse de bola, que assenta toda a sua estratégia de jogo num triângulo feito de posse, desmarcação e passe. E um Porto surpreendentemente resignado!
A segunda parte, como se sabe, foi completamente distinta! Ao ponto de inverter por completo a estatística, que fixaria, no final do jogo, a posse de bola em 50% para cada lado. É certo que o Benfica teve a infelicidade de encarar o jogo – e o que falta da época – sem os seus dois alas. Que sustentam toda a estratégia de jogo da equipa, que agitam o agitado jogo da equipa e que desequilibram os adversários. É certo que a arbitragem acertou sempre nos foras de jogo do Benfica e, na única vez em que foi chamada a acertar num único do Porto, errou. E influenciou directamente o resultado. É certo que o árbitro teve mão leve a puxar pelo primeiro cartão amarelo e nunca teve mão para o segundo que se justificou, e em mais que uma ocasião, para dois jogadores portistas. Tudo isto é já normal como, ainda no domingo, no jogo com Sporting no Dragão, se pôde ver. Mas é também verdade que foi já sem grande surpresa que o Porto fez o primeiro golo. E é certo que a equipa tinha de saber que, marcando primeiro, o Porto cresceria emocionalmente e ameaçaria tornar-se imparável. È certo que a equipa teria de estar preparada para reagir essa eventualidade. Mas não estava e em apenas dez minutos conseguiu a proeza de sofrer mais dois golos que a afastaram de uma final que todos davam por certa. E de, uma vez mais – mas agora em plena semana santa – atirar Jesus para a cruz!
Duas partes distintas! Mas haverá alguma coisa mais distinta que estas duas épocas do Benfica de Jesus?
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Teixeira dos Santos, o ministro das finanças, ficará na História como o ministro da banca rota, ficará para sempre ligado à imagem do desgoverno, dos PEC`s - uns atrás dos outros sem que nada resolvam –, dos erros trágicos nas contas públicas que não param de corrigir défices em alta - 2008, 2009 e 2010 - e da falta de credibilidade do país. Quando olharmos para este que é um dos períodos mais negros da História de Portugal veremos sempre dois rostos: José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos!
Este é o resultado da capitulação do Teixeira dos Santos perante a estratégia suicida de Sócrates. Teixeira dos Santos, por razões que a razão desconhece, depressa deixou de ser um técnico respeitado e altamente prestigiado e de inquestionável competência, para se transformar num capacho político. No capacho de Sócrates! Depressa deixou de ser o ministro que carregava o governo às costas, que lhe dava substancia e credibilidade, para passar a ser um irresponsável e desacreditado funcionário de Sócrates. Quem o conhecia nem queria acreditar!
Ficou agora fora das listas do PS. Mas pior que ficar de fora é a forma como ficou: sozinho e abandonado como qualquer descartável. Como um cão abandonado pelo próprio dono, um dono a quem se havia dedicado com toda a fidelidade!
Adivinhara aqui este desfecho no próprio dia do debate parlamentar do PEC, quando ficou só, e já abandonado, a representar o governo no parlamento, enquanto Francisco Assis era aplaudido de pé e em êxtase. Mas também já o adivinhara quando o PS criou a doutrina – a primeira das muitas que se têm sucedido para intoxicar a opinião pública – de que o problema do PEC não passara de um erro de comunicação. Quando António Costa o exibiu – a lembrar o actual momento pascal – como o pior e o mais inábil mensageiro político do hemisfério norte. Disse eu então que Teixeira dos Santos merecia aquela sua condição de cordeiro pascal pronto para o sacrifício. Reafirmo-o agora, quando se sabe que o último e decisivo pontapé de Sócrates aconteceu precisamente quando o ministro das finanças, que há muito sabia que já devia ter pedido ajuda externa, teve que mandar uma resposta por escrito para o Jornal de Negócios a anunciá-la!
Teixeira dos Santos vendeu a alma ao diabo (nunca a expressão terá feito tanto sentido, Sócrates é mesmo o diabo)! Só o diabo nos quer comprar a alma, mais ninguém ousa fazer uma proposta dessas… A alma não é para ser vendida! E são negócios do diabo os negócios com o diabo...

Mais um caso a abrilhantar estes dias que vivemos. Desta vez na Câmara Municipal de Lisboa, alvo de buscas da Polícia Judiciária. Tem nome, como não podia deixar de ser, e chama-se Operação Olissipus
Enquanto dela nada sabemos, ficamos a saber que o Presidente Fernando Medina, ainda antes de alguém olhar para ele, já estava a apontar o o dedo para Manuel Salgado, que já lá não está. Com o desplante de dizer que não era ele a apontá-lo, era o comunicado da PJ. Que não o fazia.
Bonito de se ver.
Como bonito foi ver Carlos Moedas a sair à pressa pata surfar a onda, comparando logo Medina a Sócrates.
Gente de elevada estatura, digna de ser levada a sério. Aqui chamamos-lhe gente extraordinária.

Tudo já indica que o projecto da Super Liga Europeia abortou. Um a um, todos os seis clubes ingleses estão a abandonar o projecto. À excepção do Chelsea, que evidentemente não poderá deixar de o fazer, todos o comunicaram já oficialmente. E Florentino Perez fica agora a falar sozinho, sem nada para dizer aos seus compatriotas do Barcelona e do Atlético, e aos italianos de Milão e Turim a quem dera boleia nesta aventura.
Os alemães, e em especial o Bayern, como aqui tinha referido, ao demarcarem-se da iniciativa, tinham dado o mote. Não foi isso que incomodou os clubes ingleses, todos propriedade dos senhores do dinheiro. Quem fez recuar os donos da bola em Inglaterra foram os adeptos. Não precisaram de mais de 24 horas para mostrarem aos donos da bola que, sem eles, não há futebol. E gostam tanto de dinheiro que não podem fazer como os meninos ricos do antigamente que, quando não aceitavam as regras, pegavam na bola e levavam-na para casa.
Os adeptos são quem mais ordena. Pelo menos em Inglaterra, onde deram mais uma lição ao mundo. Não tenho grandes dúvidas que isto não seria possível em qualquer outro país!
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A anunciada Super Liga Europeia, uma competição para juntar os maiores colossos do futebol europeu, e naturalmente mundial, a jogarem entre si, já com doze membros, e à espera de mais três, para constituírem os quinze fundadores, que depois escolherão cinco pobres para se juntarem à mesa, está a gerar grande indignação. Em especial entre os verdadeiros agentes do jogo - jogadores, treinadores e adeptos!
As instâncias políticas reprovam também o projecto, e as instâncias máximas do futebol, UEFA e FIFA declaram-lhe guerra. E no entanto são estes órgãos do topo da pirâmide do edifício do futebol europeu e mundial os primeiros e principais responsáveis pelo surgimento desta Liga dos ricos. Podem agora até fingirem de virgens ofendidas, mas são o verdadeiros culpados desta peregrina ideia ter nascido.
São culpados desde logo quando liquidaram as competições europeias, desportivamente sustentadas nas competições nacionais, para criar a Liga dos Campeões, rendidos ao objectivo de gerar dinheiro. Mais dinheiro e mais concentrado (Inglaterra, Espanha e Alemanha e Itália, com França numa segunda linha) para alimentar a espiral de enriquecimento, que faz dos ricos cada vez mais ricos.
Ora, os ricos, querem ser cada vez mais ricos. É natural. E era por isso inevitável que, depois da porta aberta pela UEFA, os clubes mais ricos queiram ainda mais.
Já são, na sua esmagadora maioria, detidos por grandes magnatas internacionais, da finança ou simplesmente do crime, organizado ou mesmo de Estado. Gente que neles investiu apenas para ganhar dinheiro com as suas representações, e com a sua projecção nas emoções dos adeptos. Às vezes apenas mesmo para, da mesma forma, lavar dinheiro.
Por isso, repito, nada de anormal nesta iniciativa destes doze clubes. Nem de novo. Esta é uma ideia que existe há muito, e que há muito defendem.
Acresce que a UEFA e a FIFA ao abrirem aquela caixa de pandora não resistiram a meter lá as mãos. Enriqueceram com ela e, pior, encharcaram-se em corrupção. Fazem parte do problema, o que torna mais difícil fazer parte da solução.
Mais uma vez ficamos com o exemplo alemão. Não entram nisto. E se calhar vale mais essa atitude do Bayern de Munique que todas as ameaças do Sr Ceferin.
Suponho que nunca como agora Portugal terá estado tão debaixo de olho da comunidade internacional. O número de correspondentes dos maiores e mais influentes jornais do mundo tem engrossado nos últimos tempos.
O mundo quer saber o que se passa cá. Os credores querem saber o que fizemos ao dinheiro, como vivemos, se temos gosto pelo trabalho, como tratamos das coisas… Não se preocupam se merecemos ajuda, preocupam-se é se merecemos crédito. Se valerá a pena emprestarem-nos o seu dinheiro e, mais do que isso, se teremos condições para lho pagar de volta.
É realmente muita coisa que, aos olhos de toda esta gente que por cá vai passando, está em jogo. São todos estes correspondentes que irão levar a nossa imagem ao mundo. Uma imagem que já está viciada à partida: a maioria destes correspondentes aterra em Lisboa já com uma ideia pré-estabelecida. Com preconceitos, evidentemente! Que, como todos os preconceitos, resvalam muito frequentemente para a caricatura, que nada tem a ver com a realidade. Creio que todos nós tivemos já oportunidade de constatar muitos desses preconceitos: analfabetos, baixíssima educação cívica – o nosso comportamento nas estradas suporta o mais pesado rótulo que nos colam à testa – calões, irresponsáveis, etc.
Estes correspondentes, que se instalam nos nossos melhores hotéis e passam uma ou duas semanas entre os nossos melhores restaurantes e os mais cosmopolitas cantos de Lisboa, levam uma visão de nós que nada tem a ver com aqueloutra dos muitos estrangeiros que se fixam entre nós e connosco partilham vidas. E não me refiro sequer ao típico imigrante, aos que escolheram o país à procura de melhores condições de vida, de condições que os seus países, menos desenvolvidos, lhe não podiam oferecer, refiro-me aos muitos que escolheram Portugal depois de aqui terem vislumbrado, entre as condições naturais do país e a nossa própria cultura, verdadeiros factores de qualidade de vida. Estes, ao contrário dos primeiros, já cá se fixaram despidos de preconceitos – caso contrário não o teriam feito - e têm realmente oportunidade de nos conhecerem. De conhecerem a nossa solidariedade, a nossa forma aberta de receber e de nos relacionarmos, a nossa gastronomia, e tantas outras nossas coisas boas. E as más, evidentemente!
Mas estes poderão, quanto muito, escrever isso numas cartas e juntar umas fotografias que mandam às suas famílias. Os outros fazem chegar a sua visão, as suas experiências e os seus preconceitos a toda a gente, a todo o mundo!
E fazem-lhe chegar que os restaurantes estão cheios, que têm de esperar em fila por uma mesa na Trindade, que à noite, no Bairro Alto, não cabe uma agulha e que, chegada a semana da Páscoa – com praticamente 5 dias de feriados, onde para além dos homens da troika da “ajuda externa”, mais ninguém trabalha – os portugueses correm para o sol e esgotam a capacidade hoteleira do Algarve onde, de papo para o ar, dão uma semana de férias à crise. É isto que vai correr por esse mundo fora. Que vai alimentar as opiniões públicas da Alemanha, da Suécia, da Holanda e da Finlândia… Esses que não acham boa ideia que os seus governos nos emprestem dinheiro!
Quero crer que a meteorologia quis temperar um pouco isto. É a vingança do tempo: já que vocês não se sabem dar ao recato e dão esta imagem a estes tipos, tomem lá chuva e frio em vez de sol!
Anda tudo muito agitado com a falta de propostas eleitorais dos partidos políticos. O PSD não tem programa e o do PS é o PEC4 - é o que se ouve por todo o lado. E que quer dizer apenas isto: do PSD não sabemos nada e, do PS, o que sabemos não presta.
É verdade – sabemos pouco do PSD. Mas, do PS – e então deste PS que insistiu em apresentar-se com a mesma roupa, e nem sequer lavada – sabemos de mais. E sabemos que não presta, não é apenas o PEC que não presta!
Mas voltemos ao grande problema que preocupa hoje os portugueses – os programas eleitorais dos partidos. Ou melhor: a falta deles! Especialmente a do programa eleitoral do PSD.
No Eixo do Mal, da SIC Notícias do último sábado, era a Clara Ferreira Alves que levantava uma folha de papel para a câmara e dizia:”olhem, aqui está o programa do PSD”. Nas entrevistas deste fim-de-semana – ao Expresso e à RTP – Fernando Nobre, o homem de quem se fala, também lamentava essa falta. Mais acentuada quando chegou a correr que ele próprio teria estado envolvido na sua preparação. Ontem era ainda Freitas do Amaral, numa boa entrevista na RTP, a voltar a apontar o dedo a esta falha grave. Que não entendia, acrescentava, porque não é necessário um calhamaço de uma tese de doutoramento com 500 páginas: basta uma simples folha de papel com uma dúzia de ideias. Para o provar recorreu mesmo ao baú das suas memórias da histórica liderança do CDS, quando recordou que se era preciso apresentar qualquer coisa de um dia para o outro, tudo se resolvia numa noitada com o Adelino Amaro da Costa e o Basílio Horta (sim, sim, esse mesmo – o cabeça da lista do PS por Leiria).
Isto já para não falar do jogo politiqueiro, onde o PS já dá tanto uso a este argumento como ao da culpa pelo chumbo do PEC e pela crise política.
Confesso que também a mim me fez uma enorme confusão que, ao fim de um ano – e que ano, um ano com o governo sempre no fio da navalha – a nova liderança do PSD não tenha tido forma de delinear a tal dúzia de ideias, quando andou erraticamente a passear por becos e ruelas. Para onde entrava sem que ninguém percebesse e donde saía só depois de andar a bater com a cabeça por aquelas paredes.
Nada que entretanto não tenha percebido, e nada por que me não penalize. Afinal era preciso vistas bem largas para perceber isto. Humildemente reconheço que as minhas vistas curtas me impediram de lá chegar mais cedo. Lamento é ter de denunciar as vistas curtas de personalidades como as que acima referi!
É que, como é hoje perfeitamente evidente para a maioria dos comuns mortais, não faz qualquer sentido que um partido – seja ele qual for – apresente um programa eleitoral. Não faz sentido, mas também não pode: o programa está ainda e apenas no início da preparação. Estão só agora a decorrer os primeiros contactos com os parceiros sociais – os sindicatos foram hoje recebidos, e as organizações patronais apenas amanhã – e com os partidos políticos. Encontros que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista recusaram liminarmente!
E como a coisa não se resolve numa noitada, nem com uma dúzia de ideias numa folha A4, como preconizava Freitas do Amaral, o programa dos partidos ainda está bem atrasado. Os homens nem sequer vão gozar os feriados da Páscoa para não atrasar a coisa. Mas, mesmo assim, só lá para o final da próxima semana – que também será fim do mês - é que haverá fumo branco. Nessa altura já ninguém perguntará pelo programa de quem quer que seja!
Pelos vistos apenas ao PCP e ao BE se pode exigir que apresentem as suas propostas para o país. O Bloco já se mostrou disponível, mas a conta gotas: serão 20 pontos – mais que a tal dúzia – a apresentar ao ritmo de um por dia!
Percebe-se que o outro chegará primeiro!

Tendo a concordar que mais importante que o que resultar da aplicação da Justiça no caso Marquês - mesmo que continue a considerar que a resposta célere e clara da Justiça é fundamental em democracia e no Estado de Direito - é, no particular que respeita a Sócrates, o que já resultou na condenação política, ética e comportamental do antigo primeiro-ministro.
Se, sobre essas três dimensões, raras dúvidas subsistiam no final da sua governação, e muitíssimo poucas até aqui, nenhuma hoje sobra, depois do que se seguiu à pronúncia de instrução, com todas as questões jurídicas que levanta, e que são muitas, como se tem visto.
A condenação política, ética e comportamental de José Sócrates, como pessoa e cidadão que ocupou durante seis anos o mais alto cargo executivo do Estado, é hoje unânime, incontroversa e definitiva.
Falta no entanto talvez o mais importante - perceber como foi possível o país ter estado nas mãos de uma personagem destas e, mais importante ainda, perceber se está ou não afastado o risco de entregarmos o poder a pessoas desse calibre.
Quando coloco a questão nestes termos estou a colocá-la em termos gerais, o que significa que estou a convocar os partidos políticos - todos - mas também os cidadãos. Todos. É no entanto evidente que o PS tem aqui um papel muito particular, porque foi na sua esfera que tudo aconteceu.
Se é estranho, e perturbador, o silêncio institucional da maior parte dos partidos nesta questão, é de todo intranquilizante a falta de uma reacção clara e inequívoca do PS. Do partido, mas também das seus dirigentes que mais próximos estiveram de Sócrates, e que hoje se mantêm nas mais altas esferas da actividade política, e do poder.
Todos sabemos o que Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros do actual e do anterior governos de António Costa, foi ao lado de Sócrates. O papel de João Galamba, Secretário de Estado da Energia do actual governo, na corte de Sócrates. Ou, ainda acima de todos, do eurodeputado Pedro Silva Pereira. E ninguém fica tranquilo se eles não tiverem nada a dizer, como não têm. Ou não tiveram até aqui.
Dos mais próximos do núcleo duro de Sócrates, e que Costa também recuperou, apenas Vieira da Silva, talvez por já não fazer parte do actual governo, se pronunciou. Mas não foi mais longe que considerar "que o titular de um cargo público tem a obrigação ética e moral de explicar de forma clara a origem de todos os seus rendimentos com toda a transparência, clareza e rigor”, e que “se isso não for feito, estamos perante uma situação grave.” Ou seja, da excepção, veio pouco. Muito pouco.
E tivemos reacções fortes e sem paninhos quentes de Fernando Medina, que mereceram a mais violenta resposta de Sócrates, de quem fora Secretário de Estado de Sócrates. Mas quando o deputado e ex-líder da JS, Pedro Delgado Alves, disse qualquer coisa que pudesse abrir as portas ao que o País espera do PS, aludindo a “um processo de autocrítica relativamente ao que correu mal e não pode voltar a correr” e que o partido “deve encarar os fantasmas cara a cara para a democracia se proteger” a direcção do partido, pela voz de Ana Catarina Mendes, a líder parlamentar que é a voz de Costa, caiu-lhe em cima.
É isso. António Costa continua a achar que lhe basta a frase batida do "à justiça o que é da justiça, e à política o que é da política" para passar entre os pingos da chuva. Não passa, molha-se. Porque agora é de política que se trata. E da mais séria, não é daquela com que está habituado a brincar. De Justiça, por muito que não o compreenda, estamos entendidos. Aconteça o que acontecer.
Agora é "à política o que é da política". É preciso explicar como é que gente desta trepa pela pirâmide dos partidos acima. Que teias tece. Que redes cria. Como vive quem vai trepando até ao topo e, se for estranho, se lhes basta a resposta que o avô tinha volfrâmio, a mãe um cofre, e um amigo muito dinheiro para lhe emprestar.
É preciso dizer "fomos enganados" e "tudo faremos para não voltarmos a sê-lo". E é preciso que se deixem de tretas quando falam de declarações de rendimentos, de enriquecimento injustificado ou de incompatibilidades de titulares de cargos políticos.
Com a constituição e apresentação das listas de candidatos às próximas eleições os independentes vieram para a ribalta. E de que maneira!
É, nestas alturas, inevitável. Os partidos não têm em Portugal a melhor das imagens – antes pelo contrário -, a sociedade civil tem pouco espaço, a vida pública (e política) está demasiado partidarizada, os partidos são fechados sobre si mesmos, o próprio regime é muitas vezes visto como uma partidocracia. Isto já não falando das clientelas partidárias, da tomada de assalto do aparelho de estado, da percepção que os cidadãos retêm de que são os partidos os principais bloqueadores da reforma do Estado e mais uma infinidade de argumentos – que não caberiam em duas ou três páginas – que fazem com que os partidos, chegada a hora das listas, se desdobrem à procura de independentes. Que lhes compensem alguma da credibilidade perdida, que lhes abram portas a espaços proibidos, que lhes garantam, enfim, mais uns votos. Porque é isso, ao fim de contas, que todos procuram!
E, no entanto, reflectindo um pouco e indo um bocadinho mais para além deste horizonte curto que se nos depara sempre que aceitamos a primeira vista como definitiva, começa a parecer-nos que há aqui qualquer coisa que não bate certo. Este clique surgiu-me à entrada deste fim-de-semana quando, conversando com alguém envolvido no processo de constituição das listas e presidente de uma concelhia do PSD, fui surpreendido com a mais desassombrada das reacções: “…eles só querem independentes e mais independentes nas listas então também terão que mandar os independentes fazer o trabalho que nós fazemos…” Quando poderia imaginar que esta seria a menos politicamente correcta das reacções, a observação inconveniente que nem em desabafo eu ouviria percebi, de imediato, que aquilo sim. Aquilo é que é normal e natural. Percebi aqui a primeira e grande contradição desta obsessão dos partidos pelos independentes. Não é natural – é mesmo contra-natura – que gente que dedica grande parte da sua vida a um partido - uma opção que é indissociável de uma vontade de intervenção política – quando chega a hora de se apresentar e de se submeter à avaliação por que sempre esperou, seja afastada dessa oportunidade por alguém que vem de fora. Alguém que, ainda para mais, têm de carregar às costas durante toda a campanha eleitoral.
Esta lógica tem graves consequências no processo de descredibilização dos partidos, a começar pela sua própria desacreditação. Quando um partido procura independentes está a dizer que os seus, os que lá estão, não são de confiança. E se é o partido a desconfiar deles como é que poderemos nós acreditar? Mas é também aqui que vamos encontrar a origem genética do problema do assalto ao aparelho de estado. É que os sapos que os militantes engolem neste processo terão de ser compensados… Mas quando recruta independentes está não só a dizer ao eleitorado que não tem confiança nos seus como, de alguma forma, a pedir-lhe um cheque em branco. Porque um independente é alguém que não comunga da ideologia do partido e, nessa medida, menos previsível. Que dá menos garantias de prosseguir um rumo conhecido e balizado por valores e conceitos ideológicos: veja-se o caso Fernando Nobre – o mais mediático e discutido de todos os independentes – que provocou ontem algo de verdadeiramente surreal, com Passos Coelho a reclamar-lhe clareza e que deixasse tudo esclarecido na entrevista à RTP onde, de resto, viria a reafirmar a sua condição de homem de esquerda.
Mas há ainda outro aspecto, que muito tendemos a valorizar, onde os independentes ficam a perder: a independência perante o líder. Os militantes do partido têm sempre mais por onde bater o pé ao líder que os independentes. Porque as lideranças passam e eles ficam. Ao passo que os independentes só lá estão pela vontade do líder, de quem dependem em absoluto e a quem - é assim a vida – são incapazes de dizer não.
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Miguel Relvas, hoje, à saída do Conselho Nacional que aprovou as listas para as próximas eleições: “Vi hoje as listas do PS e quem lá está? Os ministros e secretários de estado que quase arruinaram Portugal. Não arruinaram porque o PSD não deixou”!
Visando qualquer outro político, a capa da revista Sábado de ontem seria suficiente para virar o país do avesso. Teria tido eco em todas as televisões, e o país não falaria de outra coisa.
A força de um político vem da sua imagem. E Marcelo não tem rival na imagem que tem projectada no país. E por isso a capa da Sábado continua aí nas bancas como se não existisse, nem nunca tivesse existido.
"Eu sou incomprável" - pode ler-se (clicar na imagem) na última linha da capa. A Marcelo basta esta reacção. Nenhum outro político da actualidade - e se recuarmos décadas bastarão os dedos de uma só mão para os contar -, nesta actualidade que vivemos, mataria uma capa de revista, ou uma primeira página de um jornal, de forma tão assertiva e eficaz.
A Sábado, esta semana, não saiu!
Foto Manuel De Almeida/Lusa
Sócrates não tem um pingo de vergonha na cara, nem o mínimo respeito por ninguém. Nem mesmo por si próprio, se o tivesse procuraria recato e não exposição pública, onde simplesmente cada vez se enterra mais. Quanto mais se expõe mais se mostra e, definitivamente, Sócrates só tem lado lunar para mostrar.
Quem tivesse aterrado ontem pela primeira vez, chegado da Lua sem nunca ter pisado a Terra, e assistindo descuidadamente à entrevista a José Alberto Carvalho, na TVI, poderia eventualmente ficar com alguma dúvida se aquele homem não estaria a ser vítima de tudo, e de todos. Só que ninguém que assistiu à entrevista acabou de chegar da Lua. Sócrates é que, mitómano e vivendo sempre na Lua, acabou por se convencer que nós por lá andamos todos.
Sim, "isto começa a ser insultuoso"!
O ministro da propaganda – perdão, da presidência –, Silva Pereira, garantiu hoje, enquanto, também ele, anunciava os fabulosos resultados da execução orçamental do primeiro trimestre, não existir qualquer risco de rotura no pagamento de salários da função pública. E chamou de terroristas as notícias que davam conta desse risco, como as que ontem circularam relativamente às forças armadas.
“Quando a receita cresce 15% e a despesa desce, é evidente que as receitas cobrem despesas…”, disse. É evidente que sim - é mera aritmética - partindo de um défice menor ou igual a 15%. É o caso, suponho! Portanto é assim evidente que não há défice – que é o que acontece quando as receitas cobrem as despesas.
É evidente que a troika está cá por engano. Foram chamados para Espanha e vieram, por engano, parar a Portugal.
O que a propaganda faz. É tal o esforço de propaganda que até com o défice se acaba! Tivesse o governo investido tanto na governação como agora investe na propaganda e hoje não tínhamos problemas nem de défice, nem de dívida, nem de confiança, nem de credibilidade, nem de nada…
Ainda esperávamos pela explicação dos encontros (e desencontros) de Sócrates e Pedro Passos Coelho – também, pelo que vi, só eu é que a pedi – e já estávamos a levar com outra: desta vez ficou a saber-se que, provavelmente na sequência desse encontro, os deputados do PSD receberam, por sms, ordem para manter a boca fechada ao longo desse famoso 11 de Março. Para não se pronunciarem sobre as negociações à volta do PEC 4 que decorriam em Bruxelas, para nãos as prejudicar.
Não me importa, agora e aqui, perceber se esta inconfidência de Pacheco Pereira, ontem no Quadratura do Círculo da SIC Notícias, é acidental ou se é premeditada. Se resulta de um simples lapso ou se é uma facada destinada a atingir mortalmente Passos Coelho. Lá porque arrancou com um “como já toda a gente sabe” não quer dizer nada. Porque a verdade é que ninguém sabia. Como ele bem sabia…
O que me importa é que isto adensa mais as nuvens já bem carregadas que tornam este ar irrespirável. É urgente explicar o que se passou com a tal reunião de S. Bento na véspera da partida para Bruxelas com o PEC 4, no dia da discussão da moção de censura no parlamento e no dia seguinte à tomada de posse do presidente. Uma reunião - ao que se diz - de quatro horas, naquela conjuntura, seguida dos tais sms, não bate certo com o desenvolvimento circunstancial que desembocou no chumbo do PEC e na actual crise política.
Mas o que decididamente não bate certo é o silêncio absoluto sobre tudo isto durante mais de um mês. O que não bate certo é este secretismo que interessa às duas partes: Sócrates e Passos Coelho. O que confirma que nada bate certo é a própria forma como estes factos chegam ao conhecimento público: o primeiro soprado – bem baixinho e sem grandes ondas – a partir do partido do governo e, o segundo, directamente de alguém que, independentemente de juízos e avaliações de traição, é bem conhecido pelo afastamento crítico que cultiva em relação à liderança do seu partido.
Mas é, e continua a ser, estranhíssimo que Sócrates e a sua fabulosa máquina de marketing não utilize estes episódios. Ainda hoje temos visto ao longo de todo o dia um autêntico desfile de ministros a demonstrar, através do anúncio dos sensacionais resultados da execução orçamental do primeiro trimestre – com evidente manipulação propagandística, mas isso agora não vem ao caso – as culpas da oposição na actual situação do país. Mas nem a mais leve utilização destas culpas ... E isso continua a fazer-me confusão!

À notícia da chegada à Europa da vacina da Janssen, logo com 30 mil doses para Portugal e mais milhão e meio a seguir, de que aqui dei nota, seguiu-se pouco depois a notícia ... que afinal, não. Parou tudo. Afinal também provoca tromboses...
Não têm nada a ver uma com a outra, mas não sei por quê, reparei noutra notícia de ontem, a da detenção da Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, do PSD, por suspeita de corrupção num negócio de um terreno em Montegordo. É que logo a seguir, tão logo a seguir quanto logo a seguir já não havia vacinas da Janssen, passamos a saber que também envolvia o empresário e deputado António Gameiro, do PS - por acaso acabado de ser anunciado como candidato pelo partido à Câmara de Ourém - com notícias de buscas da Polícia Judiciária em sua casa, e do pedido à Assembleia da República de levantamento da sua imunidade parlamentar.
Quando todos temos Sócrates à frente dos olhos, não poderia haver pior para a nossa sanidade colectiva que notícias de corrupção entre autarcas, deputados, autarcas que são deputados, deputados que são autarcas, deputados que são empresários ou empresários que são autarcas. Tudo nos dois partidos do regime, para quem não há distâncias nem barreiras entre negócios sujos e política.
O problema não deixa de existir se dissermos que esta não é a regra. E que entre cada uma destas pessoas há muita gente séria nos dois partidos e nas suas funções de poder. O problema é que o sistema permite estas coisas, e enquanto as permitir elas existirão sempre.
A gritaria continua. No meio desta gritaria ensurdecedora já ninguém ouve ninguém. Talvez por isso o presidente nada diz. Um dia mais tarde - talvez no site da presidência ou no facebook - haverá de vir explicar que nada disse porque no meio desta gritaria ninguém o ouviria. Porque a Constituição não lhe dá poderes para falar mais alto, para falar por cima dos outros… E porque não tem meios: nem para um simples megafone. E pedir um emprestado aos Homens da Luta não iria bem com o estatuto!
Por tudo isso … deixa andar: esta não é a sua guerra! Os tipos da União Europeia que os mandem calar, como o mandaram calar a ele. Que lhes digam que deixem as eleições para mais tarde, que o tempo, agora, é de ver se o programa sai a tempo de ser aprovado pelo Ecofin, lá para meados de Maio. Que lhes expliquem que não vale a pena continuarem a esfolar-se porque as eleições não vão decidir nada. Nada a não ser o capataz que a UE e o FMI cá deixam a velar pelo cumprimento das suas ordens. Que tudo é decidido por estes tipos que não têm, nem nunca terão, nada a ver com eleições. Que eles só têm que assinar, nem que seja de cruz.
Assim é que, no meio desta gritaria, nem percebemos bem os pontos de ordem à mesa. Vêm em inglês e em voz grossa!
É que alemães, holandeses, suecos e especialmente finlandeses – e digo especialmente porque também estão em período eleitoral, quer dizer, no período em que têm voz – já não nos vêm se não como pedintes irresponsáveis. Se já nos achavam uns calões incorrigíveis – estou convencido que é precisamente por isso que eles embirram particularmente com a nossa legislação laboral – agora acham-nos uns miseráveis pedintes, a quem se pode virar a cara e deixar de mão estendida.
Imagine, caro leitor, que ao portão de um beco qualquer se deparava com um pedinte que lhe estendia a mão. Enquanto pensava em puxar do porta-moedas olhava para o fundo e, no meio de tudo a arder, via um tipo impávido e sereno a assistir ao incêndio. E uma data de outros tipos numa festa onde, puxando pelos últimos cobres do bolso, se continuam a embebedar, completamente alheios às chamas. Chegaria a abrir o porta-moedas? Muito provavelmente não: fugiria dali, sem se cansar de repetir que era tudo gente doida!
A imagem que o país está a passar para os seus credores europeus – já não vale a pena continuar a falar de parceiros europeus, porque já não é assim que eles nos vêm, a única relação que agora temos com eles é a de devedor/credor – não é muito diferente desta. Já só faltava mesmo aparecerem uns militares que, na perspectiva do dinheiro já não chegar aos ordenados - e sabe-se lá se influenciados pelo reclamado dono do 25 de Abril - começarem a deixar umas certas insinuações no ar! Não sei quando voltará a fazer sentido falar de parceiros europeus. Sei é que, hoje, é completamente descabido apelar, como ainda hoje fez o inefável Pedro Silva Pereira a propósito da posição finlandesa, à solidariedade europeia. Isso acabou tudo!
Há uns dias escrevi aqui sobre a forma como a AstraZeneca, num erro erro de estratégia de que nem a mudança de nome a salvou, estava a pagar por se ter metido onde se não devia, com quem se não devia e, acima de tudo, da forma que não devia. Criou-nos um berbicacho, e tornou-se toda ela num berbicacho.
E como não há coincidências, aí está uma notícia de hoje, por acaso a par da (boa) nova que é a chegada ao mercado português da vacina da Janssen, da também americana Johnson & Johnson, de uma única toma, para já com apenas 30 mil doses, mas com um horizonte de curto prazo de 1,5 milhões. É a notícia que a Pfizer aumentou o preço da sua vacina de 12 para 20 euros por dose. Ou seja, qualquer coisa perto dos 70%!
E não se importam nada que dela se fale também em trombólitos. Mais, que em Portugal, como em muitos outros países, sejam mais os casos de reacções adversas à sua vacina que à da Astrazeneca.
É assim. Os negócios são assim. E ainda mais assim nas pandemias ...
Com o país no estado em que está, com o FMI já instalado e os alemães a apresentarem uma providência cautelar no Tribunal Constitucional, porque não estão dispostos a dar mais para este peditório, com o PS no estado que acabámos de ver no fim-de-semana e com o PSD e Passos Coelho como estamos a ver – sem rumo, sem estratégia, sem clarividência e que decididamente não convence – já está à vista no que vão dar as eleições!
Porque vivemos na fatalidade de dois terços do eleitorado votar no PS e no PSD, independentemente do seu desempenho, das suas propostas eleitorais - que ninguém sequer está interessado em conhecer - e da personalidade e carácter das suas lideranças – o que bloqueia todo o espectro partidário – já dá para perceber que, com um Passos que não convence e um PSD que não descola (com Fernando Nobre a ser o tiro que sai pela culatra) e com Sócrates agarrado à bóia, nenhuma maioria parlamentar efectiva poderá sair destas eleições que não passe pelo bloco central.
Parece-me que Paulo Portas terá sido o primeiro a percebê-lo. Prepara-se já para ser o novo de líder da oposição.
Da esquerda não há muito a esperar. O Bloco cresceu até rebentar… Já rebentou! O PCP vai-se segurando com um tecto nos 10% que um eleitorado fixo lhe garante. Ambos bem agarrados às suas crenças e de olhar perdido em tempos que já não voltam.
Eis pois o que nos espera: um governo com este Sócrates e com este Passos Coelho (continua por esclarecer aquela trapalhada do encontro em S. Bento), um presidente de magistratura activa invisível e com o discernimento político que ainda no passado fim-de-semana demonstrou, e uma oposição liderada por Paulo Portas.
Seria possível pior?

Mais do que a tareia do juiz Ivo Rosa no Ministério Público, mais do que o ajuste de contas entre entre os dois únicos galos de um estranho galinheiro, mais do que os pesos e as medidas com que se medem as prescrições dos crimes de corrupção, ou até mais que as caras de gozo de Zeinal Bava, Granadeiro, que não vi mas consigo imaginar, impressionou-me a cara de pau de Sócrates, que vi, no fim.
Depois de, com todo o país a ouvir, um juiz lhe ter chamado corrupto, de lhe ter dito que "mercadejou" com o cargo de primeiro-ministro, e de ter feito seguir para julgamento acusações que lhe poderão valer doze anos de prisão, Sócrates teve o desplante de cantar vitória, de anunciar que exigia ser ressarcido e até de deixar em aberto o regresso à actividade política.
Impressionou, mas não surpreendeu. Afinal é Sócrates a ser o que sempre foi: alienado e descarado manipulador da realidade. É a cara de pau de sempre!
Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...