sexta-feira, 30 de julho de 2010

Futebolês #35 Mergulho

Por Eduardo Louro


 



Nesta altura do ano nada melhor que um mergulho. É tempo de calor, de muito calor mesmo, de férias, de praia. De mergulhos que nos refresquem os corpos já queimados pelo sol e os neurónios de uma mente já cansada de um ano de trabalho.


É também por isso que, em vésperas de umas refrescantes e desejadas férias, o futebolês de hoje se lembrou de se socorrer de uma das suas expressões mais correntes: o mergulho!


O futebolês utiliza a expressão com bastante propriedade. Todos sabemos que mergulhar na praia e na piscina – sendo sempre mergulhar – são mergulhos diferentes. Na praia mergulha-se nas ondas, na sua fase de rebentação, como forma de as contornar. É quase uma forma de enganar a onda: se ela vem toda lampeira para nos dar a volta – e às vezes arranca-nos do chão e faz-nos dar a volta completa – mergulhando, perfurando-a de um lado ao outro, saímos do outro lado incólumes e direitinhos, livres daquele vexame de ficarmos enrolados na areia, descompostos. Sem jeito nem compostura!


É um mergulho pouco elegante. Diria mesmo que, na maior parte das vezes, muito deselegante. Mesmo que não esteja a lembrar-me daquela imagem que as televisões têm em arquivo para colocar no ar sempre que a notícia tem a ver com obesidade – um fulano, gordo a valer, a correr areia fora em direcção à água, onde se estatela antes de qualquer mergulho – há ainda aquelas cavalgadas colectivas pela água dentro que, em vez dos também colectivos mergulhos, dão em monumentais chapanços que incomodam que se farta.


O mergulho para a piscina é diferente. Claro que as pranchas ajudam: dão a altura e a impulsão ao mergulho que lhe confere outra elegância.


O futebolês encontra também dois tipos de mergulho, sendo um deles precisamente o mergulho para a piscina. O outro é tão-somente o mergulho do guarda-redes, que aqui faz, por assim dizer, a figura do mergulho de praia.


Não é um mergulho elegante. O guarda-redes mergulha aos pés do adversário. Não tem graça nenhuma. Já quando o guarda-redes se lança à bola num salto de felino tem bem mais graça. É bem mais espectacular!


Tal como no mergulho da praia, onde nem sempre se consegue enganar a onda e atravessá-la, algumas vezes a onda sai a ganhar – normalmente por inépcia do mergulhador – o guarda-redes nem sempre sai a ganhar. Muitas das vezes, em vez de enganar o adversário, sucede o contrário. É ele o enganado. Depois acaba naquela que é a chamada jogada clássica do avançado perante o guarda-redes: quando o avançado, esperto, faz aquela maldade de lhe desviar a bola in extremis. Quando o guarda-redes lá chega já só encontra as pernas do outro. A bola, essa já lá vai! E então lá sai o tal penalty bem arrancado pelo avançado! Se o árbitro não quiser enganar ninguém, evidentemente!


É que este é o que levanta a eterna questão do jogar a bola. Que não seria uma questão chata e complicada se não houvesse árbitros. Mas há! O guarda-redes tocou na bola e depois no adversário, que se estatelou no relvado: não há problema. Tudo legal, o guarda-redes enganou o adversário! Mas se árbitro estiver virado para outro lado temos o caldo entornado! É o árbitro que nos engana a todos.


Por isso é que eu prefiro o mergulho para a piscina. É mais elegante, tem mais estilo e é bem mais simples: apenas pretende enganar o árbitro. E depois tem outra vantagem: é que nos permite facilmente ver se o árbitro é dos que se querem deixar enganar!


Os melhores mergulhadores são sempre os avançados. Também nos médios se encontram bons mergulhadores. Nos defesas são mais raros.


Mas há-os e de grande nível: vejam lá o Fucile. Apesar de defesa é um dos que até poderia integrar o corpo especial de mergulhadores da GNR. O melhor especialista é, sem dúvida o CR 7 (agora, que o Raul já saiu, abre-se-lhe uma janela para voltar ao 7) mas já está tão marcado pelos árbitros nestes mergulhos como pelos adversários no resto do jogo. Mas a verdade é que não há ninguém que não goste do seu mergulho para a piscina. Não há ninguém que não faça a sua perninha!


Para a época que se vai iniciar o Benfica parte desfalcado do seu melhor mergulhador: Di Maria. O Sporting perdeu o Moutinho mas ainda preserva o Liedson, se bem que, pelo que se vai vendo, cada vez com menos hipóteses de mergulhar – sentado no banco não dá muito jeito! O FCP não só manteve como reforçou o seu corpo de mergulhadores que tanto jeito lhe dá: para além do já referido Fucile, mantém o Hulk, o Falcao e o Ruben Micael e ainda se reforçou com o já referido Moutinho.


Quem está mergulhado num mar de problemas, e este é outro tipo de mergulho, é Carlos Queiroz. Que grande mergulhador! O fôlego que é preciso para se aguentar tanto tempo debaixo de água!


 

Que mau feitio!

Por Eduardo Louro


 


 


O rei Midas é uma personagem da mitologia grega que focou conhecida pelo seu extraordinário dom de transformar em ouro tudo o que tocava. Ainda hoje há gente assim: não que transforme literalmente em ouro, mas com grande capacidade de acrescentar valor às coisas em que se envolve.


Mas também há as pessoas do pólo oposto: aquelas que têm o maldito condão de estragar tudo em que mexam. E há ainda fases da vida das pessoas em que é tiro e queda! Às vezes acontece também aos melhores.


O primeiro-ministro José Sócrates há muito que anda numa fase dessas: estraga tudo o que toca. O que é uma enorme desgraça porque, de há muito tempo a esta parte, é ele que toca em tudo…


Começou por ter uma semana em cheio, como há muito se não via. Eu, que há muito me apercebi deste seu maldito dom, se bem se lembram, bem avisei: não estrague, não diga nada!


É certo que já não ia bem a tempo de o prevenir sobre o Freeport – aí já ele pusera a boca no trombone – mas, caramba, ainda havia a história da PT para preservar…


Não resultou. Ignorou a minha recomendação e, claro, estragou tudo.


É que ninguém ligaria nenhuma ao pequeno pormenor de não ter sido ouvido pela Justiça no âmbito do caso Freeport. Ninguém queria saber se os investigadores tinham preparadas perguntas para lhe colocar. Se eram 27 ou apenas uma ou duas. E muito menos se apenas ficaram na gaveta por falta de tempo para o ouvir.


Não passariam de meros detalhes sem importância se ele não tem resolvido mexer no assunto. Mas pronto. Mexeu e agora já ninguém consegue deixar de achar bizarro que Sócrates não tenha sido ouvido num processo em que o seu nome e os dos seus familiares foram os que mais chegaram à opinião pública. Mexeu e agora, quando tudo poderia e deveria estar arrumado, ai está a suspeita de volta. Se calhar mais forte que nunca!


O caso da golden share da PT estava perfeito. Era óbvio que só tinha que estar quietinho e caladinho para colher os resultados de uma campanha que tinha corrido bem melhor do que alguém poderia imaginar. Era a perfeição absoluta!


Qual quê? Desatou a lançar foguetes sem se lembrar que nesta época de incêndios isso é coisa que não se faz. É mesmo proibido! E nem sequer teve ninguém que lhe lembrasse a velha lei de Murphy :“se pode correr mal então vai mesmo correr mal”.


E pronto: transformou a perfeição absoluta num negócio de espertos que vendem o interesse nacional por 350 milhões de euros … em suaves prestações!


Assim é difícil! Não há razão atendível que valha nem estado social que safe a coisa!


 


 


 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Invejosos

Por Eduardo Louro


 


 


Acho que um dos piores defeitos dos portugueses é a inveja. Como se ser invejoso já não fosse atributo suficientemente deplorável, a inveja arrasta ainda uma vasta série dos piores defeitos: a preguiça, a maledicência, a cobardia…


Isto bastaria para que eu me declarasse não invejoso e, mais, com raiva dos invejosos!


Portanto não tenho inveja nenhuma do Dr António Mexia, pessoa cujo currículo profissional admiro sem qualquer reserva. O que, ao contrário do que ele diz, não me impede de criticar o absurdo do abuso do tão badalado prémio de 3,1 milhões de euros que recebeu da EDP relativo ao exercício económico de 2009.


Não é por achar absurdo, particularmente inoportuno e mesmo ostensivamente ofensivo um prémio daquela dimensão que passo a ser invejoso. E não aceito que venha o Sr Mexia, que deveria ter pudor, recato e respeito pelos compatriotas que passam sérias dificuldades, chamar-me invejoso!


Também não sou dos que acham que é fácil gerir as empresas monopolistas e que se mantêm à sombra do Estado (ou será o Estado à sombra delas?) depois da privatização. E que sendo tão fácil não faz sentido procurar os melhores para a sua gestão.


Não, acho precisamente o contrário: é nestas empresas fáceis de gerir – EDP, Galp, PT, etc., onde recursos não faltam e a concorrência não aperta – que as grandes asneiras mais facilmente são tapadas. Maus gestores à frente destas empresas conseguem fazer mandatos sucessivos de decisões desastradas sem que os resultados os denunciem. Porque dão para tudo!


É aqui que são necessários os melhores gestores, naturalmente pagos em conformidade. Mas não em obscenidade! Para tirar resultados do potencial destas empresas, afinal das poucas que o país tem com dimensão internacional.


Não é também por aqui que me apanham. Isto é, ao criticar o prémio do Sr Mexia, não só não estou a ser invejoso, como não estou a ser populista nem a apanhar aquela onda da facilidade desprevenida. Estou, apenas e mais uma vez, a denunciar um abuso socialmente inaceitável e a utilizar a minha obrigação cívica de o condenar!


Sendo esta uma polémica que já não é nova, acredito que os meus mais fiéis leitores (se é que os tenho, mas presunção e água benta …) se estejam a interrogar sobre a oportunidade do tema: “mas por que é que este tipo foi agora pegar nisto, quando já quase toda a gente se tinha esquecido?” - admito que perguntem.


Por uma simples razão: é que o próprio Mexia, sentiu necessidade de, um pouco à maneira das estrelas nas revistas cor-de-rosa, vir limpar a imagem. Então encomendou – se não foi encomenda pelo menos parece – uma entrevista à Revista Única onde foi colocado numa posição super star doutra galáxia. Que tudo legitima e a quem tudo se perdoa!


Como fica sempre bem dar um ar de subida a pulso – esta é mais uma das especificidades do ser português, não perdoamos a quem salte directamente para o topo – a entrevista mostra-nos um Mexia deveras peculiar. Que foi estudar para Suíça porque, note-se, não tinha dinheiro. Mas porque tinha lá amigos. Que teve de trabalhar como modelo, mas também a vender roupa e até de carteiro. Bem ... era a meias com um amigo, e se calhar não era bem carteiro. Mas cujo avô era embaixador e negociador de tudo o que de importante foi negociado no seu tempo. E a família tem um título de nobreza: Conde de Arganil. Mas não nascera num berço de ouro: ia de boleia para o norte da Suíça, fazer esqui…


Não Sr António Mexia, não é preciso fazer estas piruetas. Não é com papas e bolos… Sabe bem que outra das coisas que caracterizam os portugueses é a memória. Curta!


Já todos se tinham esquecido… Não havia necessidade de nos vir chamar invejosos!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ponto final no imbróglio

Por Eduardo Louro


 


 


Praticamente um mês depois da assembleia-geral (AG) da PT que recusou, por via da golden share, a oferta da Telefónica para a compra da sua participação na Vivo, aí está o ponto final numa complicada caldeirada que meteu de tudo: negócios e política, como já vem sendo hábito, relações internacionais, política doméstica, união europeia e … muito bluff.


Vendido: 7,5 mil milhões!


É uma história com final feliz. Ou assim parece. Espanhóis satisfeitos porque lograram os seus intentos. Accionistas da PT mais do que satisfeitos, afinal o negócio ainda rendeu mais 350 milhões do que o valor que tinham aceite na AG. Administração satisfeita porque ficou muito bem na fotografia, por todas as razões e mais uma. Ou três: não se deixou enrolar pelo bluff, pôs a Telefónica a negociar, coisa com que a arrogância inicial se não vislumbrava, e consegue ainda uma alternativa no mercado brasileiro por apenas metade do valor encaixado. E o governo, que é como quem diz, José Sócrates, satisfeito porque – quando depois da decisão do Tribunal da Comunidade já só se viam desgraças, desde indemnizações aos espanhóis à suprema desonra de meter o rabo entre as pernas e enterrar a golden share, passando pelo fardo do peso da responsabilidade por um casamento (PT/Telefónica) que já não tinha as condições mínimas para funcionar – consegue manter içada a bandeira do interesse nacional através da manutenção da presença no Brasil, agora pela via da OI.


Um final feliz e surpreendentemente rápido. Ainda na semana passada a Telefónica ameaçava com uma série de expedientes, entre os quais o da dissolução da holding brasileira, a Brasilcel, sedeada na Holanda. Ameaças de processos judiciais em fila à entrada do tribunal de Haia eram mais que muitas… No dia 16, data limite para a proposta dos 7,15 mil milhões aprovada em AG e chumbada pela golden share, a telefónica anunciava, precisamente à meia-noite, a retirada da oferta…


Afinal os escritórios de advogados desta vez não tiveram sorte!


Às vezes as coisas correm desta maneira. Repare-se que até Ricardo Salgado, de todos os accionistas o que mais batera na golden share, dela dizendo na altura o que Maomé não ousaria dizer do toucinho, referia já, numa conferencia do Jornal de Negócios da semana passada, que afinal a posição do governo não tinha sido tão negativa como inicialmente lhe parecera. Dizia então que já admitia que o valor da oferta ainda viesse a ser corrigido e que se poderia conseguir alguma coisa no Brasil, e que, se assim fosse, o mérito era todo do primeiro-ministro.


É quase como o regresso do filho pródigo. E uma semana em cheio para Sócrates: ontem o Freeport e hoje a PT!


Uma recomendação, sr Engenheiro: já agora não estrague, não faça como ontem. Faça um esforço e não diga nada!


 

domingo, 25 de julho de 2010

Suprema ironia


 


Suprema ironia: Contador ganhou o Tour com 39 segundos de vantagem sobre Schleck!


 


Os mesmíssimos 39 segundos ganhos na tal etapa. Naquelas circunstâncias!


 


Mas hoje já não houve assobios. A encenação do Tourmalet resultou!


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Futebolês #34 FRANGO

Por Eduardo Louro


 


 


 Se há expressões do futebolês com algum grau de dificuldade, como a atitude da passada semana, aqui está uma expressão que não apresenta qualquer dificuldade: toda a gente sabe o que é um frango!


Daí que nem valha a pena especular o que quer que seja à volta do frango. Mas sempre adiantaria alguma coisa sobre a essência do frango. Há quem a vislumbre numa certa semelhança entre a forma como a bola foge das mãos do guarda-redes e a agilidade como o propriamente dito foge dos seus perseguidores. Pela minha parte, não negando essa analogia e reconhecendo-lhe mesmo algum mérito, sugeriria algo semelhante que passa precisamente pela analogia com aquela posição de alguém que, de rabo para o ar e procurando apanhar o frango à saída da capoeira, o deixa passar entre as mãos e as pernas ficando, quanto muito, com as mão cheias de penas. Não quero puxar a brasa ao meu frango mas esta analogia parece-me bem que faz mais sentido!


Os frangos fazem parte de uma história à parte na história do futebol. E constituem, muitas vezes, um espectáculo á parte dentro do espectáculo do futebol. Basta procurar no youtube


Ainda agora, no mundial da África do Sul, foi uma verdadeira festa de capoeira. Então aquele do keeper inglês, Green de seu nome, frente aos Estados Unidos…


Todos guardamos na nossa memória frangos monumentais. Eu nunca mais me esqueço – era ainda muito miúdo – daquele frango do saudoso Costa Pereira que, em 1965, tirou ao Benfica a terceira Taça dos Campeões Europeus para oferecer ao Inter a sua primeira … e única até há pouco! Curiosamente seria outro português – Mourinho – a oferecer-lhes a segunda, 45 anos depois!


Este é, todavia, um frango já pouco apoquenta a memória dos benfiquistas. Já foi há tanto tempo e, afinal, a história do glorioso também é feita destas coisas!


Hoje, para os benfiquistas, frango traz-lhe outras recordações e … outras preocupações. Frango é … Roberto! É 8,5 milhões! E é até, vejam bem, Jorge Jesus!


O Quim tinha feito uma grande época – parece que só Carlos Queiroz é que não deu por isso – mas, para Jesus, não era guarda-redes que desse pontos. Daí que se tivesse apressado a despedi-lo, mesmo pela televisão. O titular da selecção – Eduardo, que Jesus bem conhece por tê-lo treinado na penúltima época – não era opção, também não dava pontos!


O guarda-redes que vinha dar pontos estava em Espanha. Era o terceiro guarda-redes (!) do Atlético de Madrid e fora emprestado ao Saragoça na segunda metade da época passada: 24 anos e 1,94 metros de altura. Alto, como Jesus gosta!


Um problema logo à partida: tinha custado 8,5 milhões de euros. Um valor inimaginável para um guarda-redes e para o mercado português. A mais cara contratação da época!


Nada que a imprensa não tratasse logo de resolver: o Benfica tinha-se antecipado à armada britânica. Um clube inglês oferecia 12,5 milhões. Logo outro oferecia 14 milhões. O Roberto só podia ser muito bom. Só podia dar mesmo muitos pontos!


Começam os jogos e as coisas não correm nada bem. Pior, já nenhum benfiquista consegue ver como é que poderão correr bem! Um frango é um frango, ninguém está livre. Calha aos melhores! Mas só frangos?


Está lançado o pânico nas hostes benfiquistas. A imprensa, que quisera ajudar, só desajudou. Afinal apenas fizera subir a fasquia!


Por muito que Jorge Jesus resista ao pânico e não se canse de tentar pôr água na fervura, aos benfiquistas apenas resta uma dúvida: se o Roberto pode vir a ser um guarda-redes sofrível, se é apenas um equívoco incompreensível ou se é um negócio estranho.


Ontem à noite, sem paciência para continuar a ouvir disparates sobre a revisão da Constituição, ao fazer um zapping pela tv, dei comigo no canal Q, num programa com um nome sugestivo: “Sacanas sem lei: ponta de lança em África”. Lá estavam a Leonor Pinhão – a pivot e, como se sabe, benfiquista empedernida – o José Fialho Gouveia (o filho, por quem eu tenho um carinho especial e que já trouxe aos meus escritos em algumas ocasiões), igualmente benfiquista e César Mourão, um humorista da nova geração e sportinguista. A missão do programa estava anunciada: reabilitar Roberto. Uma missão impossível, reconheciam os próprios!


Entre os diversos instrumentos de reabilitação surgiu um vídeo (terá sido o mesmo que venderam ao Rui Costa e ao Jesus?) com as famosas defesas do Roberto no Saragoça. Defesas atrás de defesas. Impressionante! Na maior parte das vezes a bola ia-lhe direitinha ao corpo…


Veio-me logo à cabeça um nome: Moreto!. É isso. Aí temos outro vez o Moreto. Só que desta vez chegou sem cenas no aeroporto! E o FCP deve andar distraído, o que também ajuda!


 

quarta-feira, 21 de julho de 2010

RAZÃO ATENDÍVEL


Por Eduardo Louro


 


 


Nunca me parece bem que, quando alguém toma a iniciativa de apresentar uma proposta, seja qual for o enquadramento, venha outro alguém dizer que não é o timing certo. Normalmente quando não há capacidade crítica para contrapor vaie-se por aí: que não é oportuno! Sugere-se que a coisa até nem está mal pensada mas não é para agora! Está fora de tempo e estar fora de tempo é estar mal sem que se diga que está mal. É estar errado!


A verdade é que é mesmo o que me parece acontecer com a proposta de revisão constitucional que o PSD lançou no país.


E aqui abriria um parêntese para referir que também tenho alguma dificuldade em aceitá-la como proposta do PSD. Na verdade tenho alguma dificuldade em percepcioná-la assim no meio da enorme confusão que foi a sua divulgação. À revelia da direcção do partido, que mais não tem feito que correr atrás do prejuízo, também ela meio surpreendida com a proposta e com o seu timing e a ter que explicar, muitas vezes, uma coisa e o seu contrário. E com claras e sucessivas manifestações de divisão partidária vindas de todos os lados, incluído a sagrada Madeira. Portanto: proposta do PSD mas com as devidas reservas!


Mesmo não gostando de invocar essa razão, como atrás manifestei, tenho imensa dificuldade em encontrar uma razão atendível – para utilizar aquela que, seguramente, será a mais discutível expressão utilizada na proposta – para, quando o país vive o drama da ingovernabilidade e da incompetência governativa, transformar a revisão constitucional na grande questão nacional do momento.


Não faz qualquer sentido e parece-me mesmo que foi a maior maldade que alguém do PSD poderia fazer ao seu presidente. Não é apenas por o ter obrigado a canalizar todas as energias para uma questão que, na actual conjuntura, é absolutamente extemporânea para a generalidade dos portugueses. É que foi uma boa tábua lançada ao governo – e é ver como saltou todo o governo, à excepção do ministro das Obras Públicas, que anda mesmo desaparecido – que pôde dedicar-se em exclusivo à defesa do Estado Social e apresentar-se como o único arauto da defesa dos direitos dos trabalhadores, do Serviço Nacional de Saúde e do Ensino Público como grande promotor da igualdade de oportunidades.


Quando a notícia absolutamente incontornável é a do agravamento do défice na execução orçamental do primeiro semestre. Quando esse agravamento persiste apesar da receita fiscal ter superado a orçamentada. Quando esse agravamento mostra que o monstro continua a crescer desmedidamente, apesar de sabermos que continuam os processos de desorçamentação. Quando aos portugueses todos os sacrifícios são impostos e o Estado continua alegremente a esbanjar, como o episódio dos carros que aqui referi há uns dias ilustra, não se encontra uma razão atendível para transformar a revisão da constituição na grande questão nacional deste tempo!


 

terça-feira, 20 de julho de 2010

Lealdade


O ciclismo atinge, nesta altura do ano, com a Volta a França – a maior prova do mundo, ao nível dos grandes acontecimentos noutras modalidades – o estatuto de rei das modalidades desportivas, concentrando a atenção mediática mundial.


Se há modalidade que se alimente dos seus ídolos, os heróis que arrastam multidões e que incendeiam paixões que explodem em rivalidades muitas vezes levadas aos extremos, essa é o ciclismo. Parece-me que apenas o automobilismo, e a fórmula 1 em particular, lhe poderá disputar essa condição.


O ciclismo vive, e é essa a sua história, de duelos. De duelos individuais onde se projectam as paixões que dividem os adeptos. Tudo é visto à luz desta tão simples realidade!


Depois de dois anos de afastamento, por decisão precipitada de pôr fim a uma carreira inigualável de sete vitórias consecutivas na Volta a França, o americano Lance Amstrong regressaria no ano passado. Marcado estava já o duelo com o espanhol Alberto Contador. A idade, também a interrupção da carreira e, por que não, os incidentes próprios da corrida, afastariam este enormíssimo campeão do duelo com o espanhol. Intrometer-se-ia um jovem luxemburguês que puxaria para si o papel de principal desafiador do espanhol: Andy Schleck.


A corrida deste ano transformou-se num extraordinário duelo entre Contador e Schleck que, entretanto, surgiria com alguns handicaps. O maior foi mesmo o abandono, por sucessão de quedas, do seu irmão Frank que, para além de excelente ciclista, seria o esteio do seu apoio de equipa.


Um duelo de gigantes que se vinha desenrolando diariamente, montanha atrás de montanha, com o jovem luxemburguês, apesar de um evidente menor apoio da sua equipa, a ganhar ligeira vantagem e a tomar a maior parte das iniciativas de ataque. Tinha a camisola amarela com uma ligeira vantagem de 31 segundos que, segundo os entendidos, era muito curta para o último assalto: o contra relógio de sábado, onde Contador será teoricamente mais forte.


Ontem, em plenos Pirinéus, Andy Schleck continuava a ser o dono da iniciativa. De repente desencadeia um ataque. Fortíssimo, ao que parecia. Contador não reagiu de imediato e parecia ficar para trás. Era um seu colega de equipa quem respondia quando se solta a corrente da bicicleta do luxemburguês. Não tem alternativa, tem que parar e tentar remediar a avaria. Enquanto isto Contador contra ataca, apoiado no seu colega de equipa e em mais dois interessados: o terceiro e o quarto da classificação geral.


Andy Schleck, apesar de uma corrida épica, em especial aquele resto da subida onde, completamente sozinho, ia passando por tudo e por todos, perde 39 segundos. Os 31 que tinha de vantagem passavam para 8 de desvantagem. A camisola amarela passa para Alberto Contador que, ao vesti-la, vê os aplausos substituírem-se por assobios e apupos.


A atitude de Contador, que não respondera ao ataque frontal e corajoso do seu o adversário mas que logo o soube atacar quando o viu impedido de reagir, recebia a reprovação do público. Perante esta reacção defendeu-se da pior forma: não tinha visto! Vendo que tinha escolhido a pior das formas de se defender, acabaria a pedir desculpa e a penalizar-se pela deslealdade.


Independentemente das opiniões de facção – claro que “Contadoristas” e “Schleckistas”têm opiniões contrárias – mais que a questão do desportivismo e do fair play, levanta-se claramente a questão da deslealdade. É que, ao contrário das respeitáveis opiniões de muitos especialistas, entre os quais Marco Chagas (não quero acusá-lo de “Contadorista” mas é estranho que ache que o público apupa Contador e aplaude Schleck só porque um é espanhol e outro luxemburguês), defender que há aqui um problema de deslealdade não significa dizer que Contador tinha alguma obrigação de parar e ficar à espera de Schleck. Não tinha nem me parece defensável que a tivesse. A alternativa não era essa. Seria sim a de manter as condições da corrida, ficando o adversário com a obrigação de recuperar de um incidente de corrida. O que Contador fez foi bem diferente: aproveitou-se da infelicidade do adversário e atacou. E fê-lo em condições de dinamizar e gerir apoios de que tirou vantagens!


E isto é desleal. Goste-se mais de Contador ou de Schleck! E é por isto que cada vez que o Contador vestir a camisola amarela o público há-de assobiar! Até Paris!


A lealdade é um dos mais rarefeitos valores das sociedades actuais. Os fins justificam os meios. Os interesses pessoais sobrepõem-se a tudo, já só resta a lealdade dos interesses: aquela deplorável lealdade canina (não confundir com a lealdade dos cães, a mais nobre das lealdades) e subserviente. A outra, a da honra e da coragem, essa desapareceu!


 


 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Futebolês #33 ATITUDE

 


Por Eduardo Louro


 


 


 



Confesso que a atitude é, entre todas as expressões do futebolês já aqui trazidas, a que mais me impressiona. Serve para tudo, tudo resolve. Anda na boca de toda a gente!


A equipa perdeu? Faltou-lhe atitude! Ganhou? Que grande atitude!


Tudo se perdoa menos a falta de atitude. Tudo se exalta, mas nada o é mais que a atitude.


Então mas o que é realmente essa coisa tão virtuosa? O que é afinal a atitude?


Não sei! Confesso humildemente que não sei.


Alguma vez haveria de acontecer… pois é desta! Aviso já que ainda há outra – a mística – mas essa fica para outra altura.


Admito, mas apenas isso, que a atitude se refira à entrega dos jogadores. À forma como lutam, correm… À forma como disputam cada lance. À raça, que seria, assim e em futebolês, o rigoroso sinónimo de atitude.


Àquilo que também se chama comer a relva, uma expressão do mais puro futebolês que nada tem a ver com qualquer condição herbívora dos jogadores. Apenas mais uma metáfora que pode ajudar a perceber a atitude. Ou deixar a pele em campo, outra das bem eloquentes expressões do futebolês!


Quem é capaz de deixar a pele em campo é quem come a relva. Quem dá tudo o que tem. Quem não se poupa nem se esconde! É o jogador que dá garantias. Que faz a felicidade de qualquer treinador, que deixa tudo em campo! Dos que “saltam comigo para a selva” como disse Carlos Queiroz, ainda atordoado quando acabara de levar seis do Brasil. Uma expressão que não pegou, até porque, com tanto medo como revelou, nem ele próprio nunca chagaria a saltar.


Em Portugal, nos últimos anos e, creio eu, que pela simples razão de ganhar muitas vezes, foi-se construindo a ideia de que a atitude estava toda concentrada no FCP. Era lá que estava a fonte da eterna e inesgotável atitude. Quem lá chegasse bebia daquela fonte e pronto: ficava com atitude para dar e vender.


Esta ideia fez de tal forma percurso que viria a desembocar no mito da encarnação da atitude: o jogador à Porto!


O jogador à Porto é a própria atitude em carne e osso. Há jogadores com atitude mas há mais do que isso – há o jogador à Porto!


Há dois tipos de jogador à Porto: o autóctone, que lá se fez, naquela escola de virtudes a beber daquela fonte inesgotável de atitude, e o tipo pescada – antes de ser já o era! Que já é jogador à Porto antes de chegar ao Porto.


Quando Pinto da Costa descobre um destes jogadores á Porto, do tipo pescada, já se sabe que vai dar caldinho. Caldinho à Pinto da Costa, como o Sporting bem sabe!


Conhecemos muitos destes jogadores á Porto. Assim de repente lembro-me de Cristian Rodriguez, de Ruben Micael e, claro, de João Moutinho, que a meio da época passada Pinto da Costa declarara jogador à Porto, com as consequências conhecidas.


Do primeiro lembro-me do seu enorme carácter: já tinha assinado contrato com Pinto da Costa mas em Portugal só jogaria no Benfica. E depois foi o que se viu, sempre um modelo de elevação a referir-se ao clube que o havia libertado das trevas do banco do PSG e projectado para o futebol nacional e para a selecção do Uruguai (sol de pouca dura: uma expulsão - a que no Porto não estava habituado –, correspondente castigo e … adeus África do Sul)!


Para o Ruben Micael nem há palavras. Foi a narrativa da sua própria experiência pessoal em matéria de túneis, foi a brutal agressão do Jorge Jesus e sei lá mais o quê. A sua atitude e o seu carácter apenas não se confirmaram com mais veemência porque uma lesão o afastou dos jogos … e dos microfones. Mas já regressou, e em grande forma. Agora a manifestar os seus encantos com o novo treinador (ou treinador novo, muito novo?), coisa que não sabe fazer sem ser desagradável com o anterior, o velho, muito velho. “Fazemos exercícios que nunca fizemos” ou “treinamos com uma grande intensidade, que é uma coisa a que não estávamos habituados”, são expressões de grande atitude. De grande elevação e de grande respeito por Jesualdo Ferreira. De grande carácter mesmo!


Já o João Moutinho é um caso flagrantemente diferente. Inverso mesmo. Se no Sporting havia alguém que pudesse simbolizar a atitude era mesmo ele. Deixava a pele em campo, comia a relva, era o capitão e o símbolo. Mas assim que Pinto da Costa o leva (e, ao contrário dos outros dois, com uma espécie de aviso prévio) transformou-se por completo. E não se transformou apenas num crápula empedernido, transformou-se numa maçã podre!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Estado da Nação

Mais um debate parlamentar, desta vez o tradicional debate anual sobre o Estado da Nação, supostamente para tomar o pulso à dita. Ou á desdita, como é claramente o caso!  


O governo afinal fez marcha-atrás e voltou à fase de negação da realidade. Ao completo disparate de estórias de encantar de um país que não existe. Pensávamos todos que isto já tinha passado mas afinal lá estamos de novo. Não sei se é o efeito da tal oportunidade dourada ou se é um caso de demência pura!


O Parlamento voltou a dar ao país uma imagem de irresponsabilidade infantil, enredando-se num estilo de debate de mero entretenimento que já nada diz à nação. Chegou ao ridículo de andar horas a discutir centésimas de uma taxa de risco de pobreza, de 2008 e publicada pelo INE em 2009. Só porque o INE a voltou a pôr hoje nos jornais, a pretexto de corrigir umas centésimas, e alguém do gabinete do primeiro-ministro viu ali uma oportunidade de mandar com areia para os olhos de alguém.


Do lado da oposição, sempre disponível para alimentar o triste espectáculo, diria nada veio que mereça importância. Mas desta vez isso não é verdade!


Se bem que à revelia do politicamente correcto, ao arrepio do sentido formal da proposta política e, por tudo isso e mais alguma coisa, caída em saco roto, Paulo Portas apresentou uma proposta que faz todo o sentido: a constituição de um governo de coligação entre o PS, PSD e o CDS, para terminar a legislatura, no quadro da actual representação parlamentar chefiado por alguém a designar pelo partido mais votado, que não, naturalmente, Sócrates.


Esta é evidentemente a solução que, nesta altura, faz sentido. É a resposta à paralisia da governação que, como ontem aqui referia, atravessa o país durante três anos. É o botão que desliga o lume brando que vai cozendo Sócrates e o PS. É a fórmula para inverter um ciclo de desgraça onde, queimando mais três anos, hipotecamos mais dez anos do futuro das novas gerações!


Mas não serve de nada. Se calhar já foi apresentada para isso mesmo, para não servir de nada. A não ser para a fotografia!


É este o estado da nação!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Arrufos

 


Por Eduardo Louro


 


 



Ontem, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD, Pedro Passos Coelho proclamou a separação de águas. A partir de agora é governo para um lado e PSD para outro. Acabou-se a brincadeira! Cada um vai á sua vidinha!


Sócrates, aproveitando o balanço da bandeira da Golden Share, a tal oportunidade dourada de que aqui falava a semana passada, começava a esticar a corda. Estava mesmo a pedi-las, até porque o guião desta novela em que se transformou a nossa vida política é muito previsível, isento de suspense. Não há surpresas!


Ao líder do PSD não restava alternativa: tinha mesmo de partir a loiça e de provocar mais um arrufo. E fê-lo. Se foi muito convincente é outra história…


Não foi. A conveniência do casamento continua a falar mais alto e a fazê-lo resistir a qualquer arrufo. Por isso lá teremos que aguentar mais um ano, até ao início do próximo Verão como aqui referia há perto de um mês, a ver se há condições para, uma vez mais, se perspectivar alguma coisa que nos governe.


É esta a nossa sina. Passamos pelo último ano desgovernados porque vinham lá três eleições: um país adiado à espera das eleições, que eram muitas, um fartote! Passamos este exactamente na mesma, sentados à espera que o tempo passe. A adiar, a nossa verdadeira especialidade! Porque o governo é minoritário e a oposição precisa de tempo para se organizar. Quando, finalmente, está organizada – quer dizer, quando as sondagens começam a dizer que chegou o momento – entra-se no tempo em que nada pode acontecer: os últimos seis meses do mandato presidencial. E lá ficamos outra vez à espera de eleições, agora de presidenciais. E de mais seis meses, os primeiros do mandato, em que nada continua a poder acontecer…


E assim passamos 2009, estamos a passar 2010 e passaremos 2011. Três anos, no coração da maior das crises da nossa história recente, apenas a deixar passar o tempo, sem nada fazer.


Nada? Bom, não é bem assim! Sempre se vai fazendo alguma coisa: continua a aumentar-se uns impostos e renova-se a frota automóvel do Estado, conforme noticiava o Correio da Manhã de anteontem.


O que nos vale é o Presidente da República. É certo que não faz nada para alterar este estado de coisas. Mas vai-nos dando umas lições de economia, porque disso sabe ele. Mal amanhadas mas não deixam de ser umas liçõesitas, sempre acompanhadas por um atestado de competência (“…eu sou professor de economia…”) e por um certificado de desresponsabilização com que sacode de água do capote: “eu ando há muitos anos a avisar “!


 

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Bonito de ver

   Só visto! http://www.youtube.com/watch?v=f8iPCt6JGvw


                                    Vale a pena a comparação:http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1959187.html

Mundial da África do Sul #11: Ponto(s) Fina(l)is

 


Por Eduardo Louro


 


 


1. Caiu o pano sobre o mundial!


Precisamente um mês depois – o que quer dizer que o Quinta Emenda cumpre hoje o seu primeiro mês – o primeiro mundial africano chega ao fim.


O primeiro sentimento é de regozijo pelo sucesso organizativo de um acontecimento desta dimensão num continente sempre adiado. É certo que falamos do mais desenvolvido dos seus países, mas representa todo um continente e todo um povo. Que merece e tem de ter crédito!


O segundo é de tributo. De um tributo a Nelson Mandela e ao país que inventou!


Se com o mundial de rugby, em 1995, Nelson Mandela ganhou um país, o seu país mais livre e mais justo, com este mundial de futebol, de que foi o primeiro impulsionador, reforçou a sua identidade nacional. Hoje também brancos jogam futebol e negros também jogam rugby. E não era assim!


Foi com emoção que, depois de impedido pelo destino, tantas vezes cruel, de abrir o campeonato, testemunhamos a tremenda ovação com que Mandela foi brindado no seu encerramento.


2. O sentimento que fica é que desportivamente o mundial foi um êxito. Com grandes espectáculos de futebol e, para nós que o vimos através da televisão, com grandes espectáculos televisivos.


Normalmente retemos as últimas impressões e tendemos a esquecer as primeiras. Mas a verdade é que, salvo poucas excepções, os espectáculos de bom futebol começaram apenas na terceira e última ronda da fase de grupos.


Já vem sendo habitual que a fase inicial de grupos seja enfadonha e desinteressante, o que poderá levar a questionar o modelo. Compreendo, face aos interesses em jogo, que seja difícil encontrar alguma alternativa. Claro que a FIFA, com os meios de que dispõe para a promoção do negócio, consegue contornar este handicap transformando, apesar de tudo, este evento num fenómeno cada vez mais inclusivo, mais abrangente e mais transversal.


Mesmo assim parece-me que haverá que velar pelo espectáculo. Para isso, e para além de eventuais modificações no modelo competitivo da primeira fase, também o timming, no final de uma época desgastante, é inimigo da qualidade do espectáculo. Sei da complexidade que é mexer nos calendários competitivos, mas realizar estas provas em Setembro/Outubro daria certamente outras garantias.


Este foi, ainda, o campeonato do mundo que, depois daquele domingo negro, pode ter levado a FIFA a abrir as portas ao uso das tecnologias na arbitragem.


3. Fica ainda um sentimento de justiça competitiva. As três selecções que ocupam o pódio, exactamente nos lugares que ocupam, são as melhores deste campeonato do mundo. O futebol, como a economia, frequentemente premeia os especuladores. Neste mundial isso não aconteceu, os especuladores foram normalmente penalizados. A excepção, que confirma a regra, foi a Argentina, afastada pelo romantismo e pela ideia de que a Maradona tudo se perdoa!


A Espanha ganhou porque foi a melhor equipa mas também foi sempre fiel aos seus princípios, nunca de descaracterizou para de adaptar ao adversário. Ao contrário de todos os outros …


O Brasil, o grande favorito, foi para casa sem honra nem glória precisamente por isso. Não lhe faltaram jogadores. Tinha lá dos melhores. Quis ser uma equipa europeia, faltaram-lhe os seus princípios, faltou-lhe samba! A Alemanha talvez tenha falhado a final por achar que, contra a Espanha, poderia especular como fizera com a Inglaterra e a Argentina.


4. A final foi um grande jogo de futebol entre as duas equipas melhores equipas da prova. Holanda e Espanha assentam o seu jogo numa mesma matriz com um denominador comum: Johan Cruiff!


É fantástico como uma personagem, mesmo sendo uma das maiores de sempre do futebol consegue, depois de tantos anos de afastamento dos campos, marcar tão fortemente o melhor futebol do mundo na actualidade. Há mais de 30 anos transportou para os relvados uma concepção de jogo nascida no Ajax de Amsterdão. Terminada a carreira de jogador, já em Barcelona, semeou-a cuidadosamente. Deixaram-na crescer, conheceu os melhores tratadores e está hoje melhor que no seu habitat natural!


Uma cópia melhor que o original: esta Espanha é melhor que esta Holanda porque tem muito bons jogadores em maior quantidade, porque é uma equipa muito mais equilibrada (a defesa holandesa tem alguma dificuldade em suportar o resto da equipa, em empurrá-la sustentadamente para a frente) e muito mais trabalhada. Porque assenta num grande bloco (70% da equipa) de um clube – o Barcelona – e porque trabalham juntos nas selecções desde os 16 anos.


5. O novo campeão do mundo é portador do futebol mais apelativo e mais entusiasmante da actualidade. Um futebol nado e criado em Barcelona que a selecção espanhola em boa hora adoptou.


Hoje nuestros hermanos estão em fiesta. É, mais uma vez, um feito extraordinário do futebol: une o que tanta coisa separa!


No meio de tudo isto há um português que, apesar de ir receber três campeões do mundo, poderá não ficar com o trabalho facilitado: sabe-se como o Real Madrid e Mourinho não são muito adeptos do futebol do Barcelona. O futebol que a Espanha e o mundo hoje não se cansam de aclamar como o melhor!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Papá CR 7 ou CR 9?

Por Eduardo Louro


 


Já por diversas ocasiões e nas mais variadas circunstâncias tive oportunidade de me expressar sobre a fantástica máquina de marketing em que Cristiano Ronaldo se transformou.


Interrogo-me frequentemente sobre o que terá sido decisivo na construção desta poderosíssima máquina e nunca encontro uma resposta.


As suas aptidões como jogador de futebol?


Não me parece suficiente. Foi o melhor do mundo, é certo! Mas antes dele houve muitos “melhores do mundo”, entre os quais Figo, por exemplo. Depois dele Messi, um jogador de futebol entusiasmante. Fantástico na verdadeira acepção da palavra. A verdade é que nenhum atingiu a sua fabulosa dimensão. Por isso não está aí certamente a resposta!


Os seus dotes físicos?


Não sendo a minha especialidade, atrevo-me a pensar que os seus dotes físicos são mais apreciados em função da pessoa e do estatuto que atingiu do que propriamente por atributos de beleza absoluta. Diria que a imagem física e sensual que o transportará à dimensão de sex symbol será mais consequência do que causa. Daí que também me pareça não estar aí a resposta.


Estas são as hipóteses que ocorreriam á imensa maioria dos mortais. Poderia colocar mais umas quantas, mas parece-me que não vale a pena queimar os meus neurónios nem a vossa paciência com mais hipóteses, até porque não me estou a propor a nenhum exercício científico. Para além disso acho que não sairia do mesmo sítio: encontraria sempre um novelo de causas e consequências que me não levariam a conclusão nenhuma.


A verdade é que Cristiano Ronaldo soube transformar-se (ou permitiu que o transformassem) numa super star verdadeiramente global e sem paralelo. A estrela de dimensão global que saíra do futebol, mas que no firmamento está hoje muito distante da do nosso CR, era David Beckham. Que era um jogador de futebol endeusado, com bom aspecto mas – fundamental – casado com uma Spice. Só isso lhe garantiria o acesso à máquina fantástica do star system! O Cristiano está nas antípodas do spice boy. Não teve quem o levasse para lá, foi ele lá ter, a partir da criança da Madeira só e desterrada em Lisboa. E do jovem cheio de borbulhas que aterra em Manchester. Foi sem esconder as suas origens, o pai e a sua morte. Sem esconder a mãe e as suas circunstâncias. Antes pelo contrário, mostrando-a sempre como o centro da sua vida. Dando-lhe um protagonismo único! Mostrando as irmãs. Uma delas expondo-a mesmo ao mundo do espectáculo, provavelmente em circunstâncias que, à luz das leis do star system, seriam fatais.


Será que, afinal, é aqui que encontramos a resposta?


A recente divulgação da sua nova condição de pai também não nos esclarece essa dúvida, mas ajuda-nos a perceber a perfeição do funcionamento da máquina. E a mestria com que é utilizada!


Tinha acabado de chegar de um campeonato do mundo, a maior montra do planeta, em franco mau estado. Nada lhe tinha corrido bem – e nem interessa agora saber se a culpa é dele, da equipa ou do treinador – com as últimas imagens a mostrarem um CR derrotado a cuspir para o operador de câmara (foi essa a imagem que fizeram passar e que correu mundo) e em evidente choque frontal com o seleccionador, que responderia ao “perguntem ao Carlos Queiroz” com a ameaça de lhe retirar a camisola, “demasiado pequena para o seu corpo”. E, de repente: “ É com muita alegria e emoção que informo ter sido recentemente pai de um rapaz”…


E o filho já está no Algarve, com a mãe. A sua mãe, a mesma Dª Dolores Aveiro, sempre na primeira linha!


Não há mais comparações com Messi. Não há mais perguntas incómodas. Não há mais nada nem nada mais interessa. O que interessa é que o bebé se chama Ronaldo e que o novo pai adora crianças. E que sabe pegar nos bebés, como a SIC mostrara. E que já tinha dito que entretanto haveria de ter um filho, como se um filho do CR não tivesse também 9 meses de gestação.


Brilhante!


E tudo volta ao normal. Férias com a nova namorada (Irina, não é?) em New York e um novo negócio de roupa de bebé nas lojas CR 7.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Golden Share: oportunidade dourada?

 


Por Eduardo Louro


 


 


Desde que, há uma semana, a assembleia-geral da PT recusou a oferta da Telefónica para a compra da sua participação na Vivo, a golden share passou para o top da actualidade. Não sei se por mérito da golden share se por demérito da selecção nacional e de Carlos Queirós! Sei é que, desde então, não houve um único dia em que a matéria não estivesse na crista da onda.


E por lá continuará, até porque será conhecida amanhã a sentença do Tribunal da Comunidade sobre esta forma dos Estados permanecerem nos centros de decisão de certas empresas privadas.


Não sendo muito difícil antecipar essa decisão – o mais do que certo chumbo das golden share – não é necessário ser bruxo, nem sequer recorrer ao tal polvo que acerta nos resultados do mundial, para também antecipar um conflito político do governo português com a União Europeia. Os dados estão lançados: Sócrates já apontou o dedo ao ultra liberalismo europeu e Durão Barroso já veio dizer que a decisão – que já todos sabemos qual é, menos, ao que quer fazer crer, ele próprio – é judicial, que não tem nada nem de política nem de ideológica. E que as decisões judiciais são para cumprir! Evidentemente que nem todas, digo eu. A maioria é mesmo para … contestar e para recorrer!


A partir de amanhã, como aqui deixei dito logo que foi conhecido o desfecho da AG, a guerra judicial vai estalar! A outra guerra – a política – essa já está em curso em fase bem adiantada. Até já tem vencedor: José Sócrates, claramente.


Uma vitória que tem tanto de surpreendente quanto de importante para um primeiro-ministro que parecia já de gatas. Não sei se é um dos sete fôlegos, mas desconfio que este é um grande balão de oxigénio. Sócrates soube cavalgar esta onda, alimentá-la e permanecer bem montado na sua crista.


Começou por explicar que o governo sempre tivera uma posição clara quanto à importância estratégica da Vivo para a PT. Apontou o dedo aos accionistas que compunham o núcleo duro, particularmente ao BES e à Ongoing que, sem disso darem conta ao governo, se puseram ao lado da Telefónica a troco de mais uns milhões de euros de última hora.


A partir daí foi fácil lançar a ideia, de largo acolhimento e amplo consenso que, com a viabilização da vontade da Telefonica, os accionistas da PT ficariam mais ricos enquanto que a economia portuguesa ficaria mais pobre. É este o argumento decisivo. Tão decisivo quanto incontestado e subscrito por toda a oposição, PSD incluído. Que, concordando que o país sai prejudicado com a venda, se opõe à utilização da golden share. Apenas porque sim! Porque é contra os direitos especiais do Estado na PT… Que nunca incomodaram o PSD nos anos em que andou pelo governo, mas incomodam agora, quando não há outra alternativa à defesa daquilo que concordam ser o interesse nacional.


Creio que a partir da decisão de amanhã teremos mais e novos motivos para que Sócrates, mesmo que quixotescamente, não perca esta oportunidade dourada para alardear novos actos de coragem e determinação na defesa do interesse nacional, agora ameaçado por Bruxelas.


E é com alguma expectativa que fico à espera da próxima sondagem!


 

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mundial da África do Sul #10: O último adeus...

Por Eduardo Louro


 


 


Tranquilizem-se. Não morreu ninguém!


Fechada a janela dos quartos de final é tempo das últimas despedidas antes do fim de festa. Estas são as despedias em lágrimas: iniciaram-se com o fim da fase de grupos, quando, surpreendentemente, se despediu gente grande como a Itália e a França, esta com uma despedida à francesa – envergonhada, não se sabe se por ter aparecido sem ter sido convidada (ou mal convidada), se pelas tristes figuras que fez; continuaram nos oitavos de final, primeira ronda eliminatória, quando se despediriam alguns convidados VIP, como a Inglaterra e Portugal (até aqui a velha aliança continua viva) e terminaram nos quartos (de final, bem entendido) com a despedida de dois convidados de honra – Brasil e Argentina.


Para o fim de festa ficaram Alemanha, Espanha, Holanda e Uruguai – esta sempre bem protegida pela sorte do sorteio e por outras sortes – que irão disputar os sete jogos correspondentes a todas as rondas da festa. E 10 árbitros!


É aqui que surge o último adeus português: Olegário Benquerença! Fez três jogos – um recorde nacional, nunca um árbitro português tinha arbitrado tantos jogos num campeonato do mundo – e aguentou-se por lá bem mais tempo que a selecção nacional. Chegara primeiro e já entrara em jogo também primeiro, como aqui dera nota. Mas não esteve lá apenas mais tempo: esteve mais tempo e bem melhor que os nossos rapazes, a ponto de não merecer ter regressado a casa antes do cair do pano.


Para esta despedida só há uma explicação, que encontro precisamente na história da histórica participação de Olegário Benquerença: é que acabaram-se os jogos com equipas africanas!


É isso! O nosso conterrâneo estava, no primeiro mundial africano, destinado a arbitrar apenas equipas africanas, de quem muito se esperava. Mas acabaram-se nos quartos de final, e pronto. Já lá não estava a fazer nada…


Num campeonato do mundo marcado por más prestações da arbitragem, com erros para todos os gostos, e alguns do mais grosseiro que se pode ver (e nem de todos a FIFA pediu desculpas!), ao ponto de, finalmente, os órgãos máximos do futebol passarem a considerar a hipótese de recurso à tecnologia, as três prestações de Olegário Benquerença foram merecedoras de nota bem alta. Nos dois primeiros jogos, Japão – Camarões (1-0) e Nigéria – Coreia do Sul (2-2), daqueles que se dizem fáceis de arbitrar, teve o imenso mérito de não complicar. O terceiro e último – o mais dramático dos jogos do campeonato – foi diferente, um jogo que teve de tudo: perto de 50 faltas, prolongamento, um penalti na última jogada, esgotado o 120º minuto, e desempate por penaltis. Um jogo de elevado grau de dificuldade, intenso e sem erros, com apenas duas circunstâncias de dúvida – uma em cada área. Ambas de difícil avaliação em que se decidiu (eventualmente) pelo mais fácil: nada assinalar!


Perante um desempenho destes não há dúvida que o Olegário apenas não ficou para arbitrar (pelo menos) um dos jogos das meias-finais porque não está lá nenhuma selecção africana. Mas podiam ter avisado que era isso que estava no chip!

sábado, 3 de julho de 2010

Futebolês #32 Paradinha

 


Por Eduardo Louro


 


 


 


Parados ou paradinhos são muitas vezes alguns jogos. Muitas vezes a defesa fica parada, à espera do fora de jogo que o árbitro assistente (fiscal de linha não era bem mais giro?) acaba por não marcar. Paradinha, a ver os adversários correrem até à baliza, e ao golo.


Paradinha tem que estar a bola quando é reposta em jogo, seja na cobrança de faltas, ou nos pontapés de saída, de baliza ou de canto. Paradinhos pareceram-nos muitas vezes os jogadores da nossa selecção a ver os jogadores espanhóis, divertidíssimos, a trocar a bola. A jogarem sozinhos, como se fossem os donos da bola e não deixassem os portugueses brincar. Coisa que, como bem nos lembramos dos nossos tempos de meninice, não se faz aos vizinhos


O futebol está cheio de paradas e paradinhas. No campeonato de mundo da África do Sul estão equipas que são autênticas paradas de estrelas. Não é o caso da nossa selecção. Porque já lá não está, e porque só tinha uma estrela. Quanto muito seria uma paradinha. Mas em futebolês paradinha não tem nada a ver com qualquer destas coisas.


Agora que o campeonato do mundo de futebol está em tempo de decisões através dos chamados pontapés da marca da grande penalidade (podíamos simplesmente dizer “através de penaltis”, mas isso iria chocar os puristas, os mesmos que acham que ninguém pode dizer se não bem de Carlos Queiroz) iremos ouvir falar dela. Da paradinha, claro!


É que a paradinha é indissociável do penalti. Seja o do decurso normal do jogo, daqueles que o árbitro só marca contra a nossa equipa, sempre em prejuízo dos nossos e sempre em acto de descarado e desavergonhado roubo, ou daqueles que o árbitro, depois de deixar passar dezenas de outros que todos nós vimos, assinala de vez em quando a nosso favor. Ou, ainda, dos tais que servem para resolver aquilo que ninguém consegue desempatar, nem que houvesse prolongamento atrás de prolongamento.


Já tínhamos visto a guia de marcha do Japão ser assinada pelo Paraguai através dos tais penaltis. Com o Cardoso a marcar o decisivo com classe e com cheiro a paradinha, coisa que nunca o víramos fazer no Benfica – aí a sua especialidade era mais falhá-los! Ontem vimos o Uruguai, depois de um jogo dramático, fazer o mesmo ao Gana, com o penalti decisivo marcado através da mais linda paradinha. Perfeita!


A paradinha é um truque! O futebol é um jogo de fair play mas também é o jogo onde o “fair play é uma treta”, como um dia disse esse grande treinador, que me não canso de elogiar, chamado Jorge Jesus. Daí que seja um jogo onde todos tentam enganar todos: os jogadores tentam enganar os árbitros e os adversários, os árbitros tentam enganar as câmaras de televisão, os treinadores tentam enganar-se uns aos outros e os dirigentes tentam enganar toda a gente…


Na paradinha o marcador apenas tenta enganar o guarda-redes adversário. Porque é o único que ali está, não pode mesmo enganar mais ninguém! Parte para a bola, o coitado do guarda-redes ali sozinho e angustiado fica á espera que ele vá direitinho á bola e … zás… lá venha ela! Mas não: a determinada altura pára. Lá está: paradinha!


Quando pára deixa o guarda-redes desesperadamente entregue às leis da física, com a inércia já irremediavelmente vencida e sem possibilidade de voltar atrás. Aí, o malandro do marcador envia a bola para onde lhe apetece: o lado contrário àquele para que o seu oponente se balanceou. E chega a fazê-lo com requintes de malvadez!


A paradinha é a mãe da maior das maldades: aquela em que, depois do coitado do guarda-redes por terra, o marcador pica a bola ao de leve e a faz descrever lentamente uma parabólica em direcção à baliza.


Chamam-lhe um penalti à Panenka, o nome de um jogador checo que entrou na história do futebol quando, na final do campeonato da Europa de 1976, contra a Alemanha, teve a frieza de marcar assim o penalti decisivo. A então Checoslováquia conquistaria o seu único título e, à sua frente, estava uma lenda das balizas: o alemão Sepp Maier. Ainda hoje está por saber se se tratou de coragem ou de loucura!


Desde então muitos foram os que o imitaram. Quem não se lembra de Hélder Postiga (eu sei que ninguém se lembra dele!) a fazê-lo no Euro 2004, frente à Inglaterra? Ainda ontem, um uruguaio a quem chamam de El Loco, nos deixou mais um belo exemplar...


Uma nota final formativa (esta rubrica, embora não pareça, também tem um papel formativo): as leis do jogo já permitiram a paradinha e já a proibiram. Actualmente é permitida se efectuada a meio do percurso para a bola, mas proibida se imediatamente antes da execução do remate.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Mundial da África do Sul #9: Adeus ... Brasil

 


Por Eduardo Louro


 


 


Aí está a surpresa das surpresas: a selecção brasileira foi afastada (2-1) pela Holanda nos quartos de final do campeonato do mundo.  


A selecção do Brasil, depois de uma primeira parte de um domínio completo construído, a partir de um golo marcado muito cedo, caiu a pique na segunda. Depois de sofrer (mal) o golo do empate, logo no início do segundo tempo, os brasileiros perderam todos os equilíbrios tácticos e emocionais, confirmando uma fragilidade emocional que já se havia percebido no jogo com Portugal. Como também já se havia percebido que Filipe Melo, hoje, e apesar do fantástico passe para o golo, o verdadeiro réu (auto-golo e expulsão), é seriamente deficitário ao nível da mentalidade competitiva.  


A selecção holandesa, particularmente rija e esperta, mesmo sem conseguir pôr em prática o seu excelente futebol, acabou por justificar amplamente a vitória. Afirma-se a partir deste jogo, o seu primeiro verdadeiro teste na prova, como uma das candidatas de primeira linha, apesar da apregoada fragilidade defensiva.


 


 


 


 


 


 


 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

E depois do adeus

 


Por Eduardo Louro


 


Quis saber quem sou


O que faço aqui


Quem me abandonou


De quem me esqueci


 


… E depois de nós


O dizer adeus


O ficarmos sós


 


Escritos por Ary dos Santos e cantados por Paulo de Carvalho em 1974, numa das mais míticas canções da música ligeira portuguesa, estes bem podem ser versos de um fado saído hoje da voz de Carlos Queiroz.


Neste day after de todas as desilusões pudemos ver que a questão do seleccionador Carlos Queiroz está a dividir o país em duas partes: uma imensa maioria que vê no seleccionador a origem de todos os males e o responsável único por toda a enorme frustração deste adeus ao mundial e uma ténue minoria, associada a alguma elite que pretende intelectualizar o futebol, que o defende de uma forma militante.


Claro que as questões que se levantam ao futebol da selecção nacional não se esgotam, nem de perto nem de longe, no seleccionador. Mas é para aí que todas as atenções estão viradas!


Antes disso haveria, neste depois do adeus, que desmistificar as muitas mentiras que se instalaram no reino deste futebol. Ontem falava da maior: a classificação da FIFA, ao atribuir-lhe o terceiro lugar do ranking mundial. Mas há mais: temos o melhor jogador do mundo; dos melhores jogadores a jogarem nas melhores equipas do mundo; e até dos melhores treinadores do mundo.


Depois destas mentiras importaria reflectir na realidade da escassez de valores, consequência do abandono de uma política de formação em que a Federação, embalada por Scolari, se deixou cair. Ou na política dos clubes que em vez de investirem, também eles e de mote próprio, em formação, optam por importar jogadores em massa da América do Sul, que tapam a progressão dos poucos valores jovens que, apesar de tudo, vão surgindo. Apesar dos escalões jovens estarem inundados de estrangeiros: basta olhar para a constituição das equipas dos três grandes que disputam o campeonato nacional de juniores.


Mas é Carlos Queiroz que está de facto em causa, e o seu despedimento fora de questão. Nem que seja por razões financeiras: recorde-se que era apontado como o terceiro (seria por causa do tal ranking?) mais bem pago entre todos os seleccionadores e que, não se sabe por que carga de água, assinou um contrato de quatro anos. Vale por isso a pena olhar para as linhas com que Queiroz se cose.


Surge na área da formação onde, no final da década de 80 e no início da de 90, atinge o sucesso absoluto: títulos e sucessivas fornadas de jovens de elevado potencial – a geração de ouro do futebol português. Empurrado por esse sucesso toma conta da selecção A. Não resultou. Tudo acabou com o apuramento falhado para o mundial dos Estados Unidos de 94. Segue-se o Sporting, onde com a grande equipa de 94 não consegue ganhar nada. E depois uns largos anos pelo mundo fora: EUA, Japão e Africa do Sul. Sem grandes êxitos e com a particularidade de ser afastado da equipa sul-africana depois de garantido o apuramento dos para o mundial de 2002.


Regressa à Europa para adjunto de Ferguson, no Manchester United, que lhe não poupa os elogios que o levarão ao Real Madrid, dos galácticos. Não resiste mais que uns poucos meses e regressa a Inglaterra, onde Ferguson o receberia como o filho pródigo até ser recebido em ombros como seleccionador nacional em 2008.


A história de Queiroz mostra que quando assume a máxima responsabilidade em projectos de responsabilidade máxima, falha. As coisas correm-lhe bem quando assume a máxima responsabilidade em projectos que não são de responsabilidade máxima ou quando não assume a máxima responsabilidade em projectos de responsabilidade máxima.


Não será um problema de liderança?


Creio que todos nos lembraremos do bom futebol apresentado por aquela equipa do Sporting, em 94. Como nos lembramos que, quando pegou no galáctico Real Madrid, pudemos ver durante dois meses o melhor futebol que o Real apresentou na última década. O mesmo sucedeu com a entrada na selecção nacional: as exibições nos primeiros jogos foram fantásticas. Aquele jogo com a Dinamarca em Alvalade foi uma delícia. Mas perdemo-lo!


Queiroz sabe pôr as equipas a jogar bom futebol. Não consegue é mantê-las nesse nível por muito tempo. Não será, ainda, um problema de liderança?


Queiroz tem reconhecidas capacidades de planeamento. Mas depois ignora a realidade, que confunde com o seu plano. E fica perdido! Por isso as substituições não são as que o jogo pede, mas as que ele planeou. Por isso a táctica não é a que o jogo reclama mas a que projectou.


Há aqui um problema de equipa. Terá que ter na equipa técnica um adjunto com competências nestas áreas, que o liberte para a concentração na avaliação do jogo e que o proteja, aconselhe e ajude. O que, como vimos, estranhamente não há. Estranhamente porque Agostinho Oliveira, com muitos anos de trabalho com Queiroz e que até já passou por treinador principal da selecção, se esconde atrás dele, como que a querer dizer que nada tem a ver com aquilo. E Queiroz fica só, cada vez mais envolto numa solidão que o torna teimoso e refém dos seus fantasmas, como bem se viu com a desastrada convocatória.


Se não se resolverem estes problemas há sempre outra solução: contratar Alex Ferguson e deixar Queiroz como seu número dois. Pelo menos punha-se o CR a jogar á bola na selecção, coisa que ainda ninguém conseguiu fazer!


 

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...