quinta-feira, 29 de julho de 2010

Invejosos

Por Eduardo Louro


 


 


Acho que um dos piores defeitos dos portugueses é a inveja. Como se ser invejoso já não fosse atributo suficientemente deplorável, a inveja arrasta ainda uma vasta série dos piores defeitos: a preguiça, a maledicência, a cobardia…


Isto bastaria para que eu me declarasse não invejoso e, mais, com raiva dos invejosos!


Portanto não tenho inveja nenhuma do Dr António Mexia, pessoa cujo currículo profissional admiro sem qualquer reserva. O que, ao contrário do que ele diz, não me impede de criticar o absurdo do abuso do tão badalado prémio de 3,1 milhões de euros que recebeu da EDP relativo ao exercício económico de 2009.


Não é por achar absurdo, particularmente inoportuno e mesmo ostensivamente ofensivo um prémio daquela dimensão que passo a ser invejoso. E não aceito que venha o Sr Mexia, que deveria ter pudor, recato e respeito pelos compatriotas que passam sérias dificuldades, chamar-me invejoso!


Também não sou dos que acham que é fácil gerir as empresas monopolistas e que se mantêm à sombra do Estado (ou será o Estado à sombra delas?) depois da privatização. E que sendo tão fácil não faz sentido procurar os melhores para a sua gestão.


Não, acho precisamente o contrário: é nestas empresas fáceis de gerir – EDP, Galp, PT, etc., onde recursos não faltam e a concorrência não aperta – que as grandes asneiras mais facilmente são tapadas. Maus gestores à frente destas empresas conseguem fazer mandatos sucessivos de decisões desastradas sem que os resultados os denunciem. Porque dão para tudo!


É aqui que são necessários os melhores gestores, naturalmente pagos em conformidade. Mas não em obscenidade! Para tirar resultados do potencial destas empresas, afinal das poucas que o país tem com dimensão internacional.


Não é também por aqui que me apanham. Isto é, ao criticar o prémio do Sr Mexia, não só não estou a ser invejoso, como não estou a ser populista nem a apanhar aquela onda da facilidade desprevenida. Estou, apenas e mais uma vez, a denunciar um abuso socialmente inaceitável e a utilizar a minha obrigação cívica de o condenar!


Sendo esta uma polémica que já não é nova, acredito que os meus mais fiéis leitores (se é que os tenho, mas presunção e água benta …) se estejam a interrogar sobre a oportunidade do tema: “mas por que é que este tipo foi agora pegar nisto, quando já quase toda a gente se tinha esquecido?” - admito que perguntem.


Por uma simples razão: é que o próprio Mexia, sentiu necessidade de, um pouco à maneira das estrelas nas revistas cor-de-rosa, vir limpar a imagem. Então encomendou – se não foi encomenda pelo menos parece – uma entrevista à Revista Única onde foi colocado numa posição super star doutra galáxia. Que tudo legitima e a quem tudo se perdoa!


Como fica sempre bem dar um ar de subida a pulso – esta é mais uma das especificidades do ser português, não perdoamos a quem salte directamente para o topo – a entrevista mostra-nos um Mexia deveras peculiar. Que foi estudar para Suíça porque, note-se, não tinha dinheiro. Mas porque tinha lá amigos. Que teve de trabalhar como modelo, mas também a vender roupa e até de carteiro. Bem ... era a meias com um amigo, e se calhar não era bem carteiro. Mas cujo avô era embaixador e negociador de tudo o que de importante foi negociado no seu tempo. E a família tem um título de nobreza: Conde de Arganil. Mas não nascera num berço de ouro: ia de boleia para o norte da Suíça, fazer esqui…


Não Sr António Mexia, não é preciso fazer estas piruetas. Não é com papas e bolos… Sabe bem que outra das coisas que caracterizam os portugueses é a memória. Curta!


Já todos se tinham esquecido… Não havia necessidade de nos vir chamar invejosos!

2 comentários:

  1. Aqui de terras onde o acesso à internet ainda é escasso, não posso deixar de comentar este post, tanta que foi a indignação que o dito artigo da Unica me suscitou. Para o efeito, acrescento uma outra característica ao povo Luso - a tremendíssima falta de originalidade, de que este tipo de entrevista sempre nos dá conta. Não passamos sem o belo cliché da subida a pulso, do sonho americano (de um início a servir cafés nos arredores de NY e um final glamoroso nos palcos da Brodway). Note-se que o cliché não é a síndrome Cinderela, o cliché surge quando todos (até a madrasta e as irmãs narigudas da Gata Borralheira) querem ser a própria da Cinderela. Não tenho nada contra os playboys que decidem tirar um ano "sabático" após as estafadas licenciaturas e correr o mundo, aproveitando para experimentar uma vida alternativa de pobreza e de labuta num qualquer café da urbe. Mas já me irrita solenemente que esses mesmos playboys confundem essa experiência livremente assumida com "dificuldades de vida". Apesar do clicché, Mexia acabou por nos brindar com alguma excentricidade. De facto, fazer-se de pobrezinho porque andou muitas vezes á boleia até à Suiça para fazer ski... enfim faz lembrar aquela anedota da minha infância de uma familia que era tão pobrezinha que até o motorista era pobre, e bem assim, o cozinheiro, já para não falar do mordomo, da piscina e do jardim de inverno, até as safiras da senhora metiam dó de tão pobrezinhas...

    Enfim, o mínimo de respeito pela inteligência dos leitores é o que se impõe. Aliás a falta dele também já vem sendo um cliché, mas este dos (maus) jornalistas.

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    1. A este propósito não posso deixar de transcrever dois cronistas do Expresso deste sábado 31 de Julho.

      Miguel Sousa Tavares:
      “Qualquer Zé careca conseguia lucros a gerir a EDP. Mas o dr Mexia acha-se um caso único e notável: de três em três meses, quem lhe gere a imagem anuncia ao país que o dr Mexia foi eleito o melhor CEO da Europa por uma qualquer organização de que nunca ninguém ouviu falar. E, entrevistado pelo Expresso, o melhor CEO da Europa gastou três páginas a gabar-se de si próprio e a explicar que tem um particular talento para «energizar» tudo…”

      Faltou-lhe acrescentar: “com a complacência e a conivência dos jornalistas entrevistadores”, acho eu!

      Henrique Raposo:
      “Em Portugal, a pornográfica assimetria dos salários … é uma das causas do mal-estar que todos sentimos”.

      “O que não é aceitável, o que torna Portugal num país injusto é esta aritmética aristocrática: para os Bavas e os Mexias receberem como se estivessem a jogar no Real Madrid, um exército de gente anónima tem de levar 700 euros para casa. E isto, caro leitor, é injusto.”

      “Estou apenas a apontar para a injustiça óbvia que é ter o topo da empresa em Manhattan quando o corpo … está em Odivelas ou no Barreiro”

      “Nas nossas empresas o Real Madrid convive com o Barreirense, e esta assimetria … está a destruir a fibra moral da nossa sociedade”

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