
Grande noite na Luz!
Um grande jogo de futebol num grande ambiente, como há muito se não vivia na Catedral. E no entanto nada disto seria expectável, à luz do que tem sido o desempenho da equipa do Benfica. Sabia-se que o Ajax tem selo de garantia, e que viria à Luz exibir a qualidade do seu futebol. Isso era praticamente dado por adquirido.
Mas isso não era garantia de um grande noite. Era, pelo contrário, mais um motivo para recear uma noite de pesadelo. Para que fosse uma grande noite era preciso Benfica. Só com um grande Benfica poderia haver uma grande noite na Luz. E esse não estava anunciado. Não era na teoria dos 50/50 de Nelson Veríssimo que se via esse anúncio. Ninguém acreditava naquilo, era coisa para levar tão a sério como a outra de continuar com o objectivo de ser campeão nacional.
Mas a verdade é que houve Benfica. O Benfica compareceu, disse presente e, juntou o querer e a qualidade dos seus jogadores à qualidade dos jogadores e do futebol do Ajax, para que a Luz voltasse a viver uma grande noite. De que só ficam dois amargos - o resultado, o empate fica aquém do que a equipa fez por merecer, e fica a dever-se à menor eficácia na finalização, e ainda á influência da arbitragem, ao negar o penálti claro sobre o Gonçalo Ramos; e confirmação que o Benfica está na situação em que está porque os jogadores não têm querido fazer mais.
Hoje quiseram, e aceitaram o desafio de se bater de igual para igual com a melhor equipa da Europa, a seguir aos três grandes de Inglaterra e ao Bayern. E quiseram durante o jogo inteiro, e não só a espaços, como tem vindo a acontecer.
O jogo até nem começou da melhor maneira para o Benfica. O Ajax começou a pressionar muito alto, condicionando muito a saída de bola, que Nelson Veríssimo decidiu desta vez fazer através dos laterais, em vez do eixo central através de Weigl. Com essa pressão ganhava muitas bolas que, depois, a qualidade dos seus jogadores e as dinâmicas mais que consolidadas da equipa, cedo começou a criar problemas. Foi assim que chegou ao golo, logo aos 18 minutos: saída de bola pela esquerda, com Grimaldo a dominar mal a bola, que já não vinha fácil de receber pela pressão sobre o guarda-redes, e a perdê-la. Depois foi o craque Antony a colocar a bola na esquerda, onde não estava Gilberto, que ia a sair, mas Tadic, sozinho, para marcar.
Poderia pensar-se que a equipa afundaria, como sempre tem acontecido à primeira contrariedade. Mas não. A Luz não deixou, e os jogadores quiseram responder ao apoio que o golo simplesmente intensificou. E responderam, e à segunda oportunidade chegaram ao empate, num auto-golo de Haller, o melhor goleador desta edição da Champions, mas perfeitamente justificado pela reacção ao golo sofrido, apenas 7 minutos antes.
Mas era notória a diferença da qualidade do futebol praticado pela equipa de Amesterdão. O futebol do Ajax fluía naturalmente, altamente mecanizado e com dinâmicas de posicionamento verdadeiramente espectaculares, que não se esgotam nos movimentos daquele notável trio atacante. Os laterais aparecem em todo o lado, até a finalizar. Como surgem os próprios centrais a finalizar lances de construção. E o empate não chegou a durar 5 minutos, com Haller a marcar, agora na baliza certa, e a fazer o que tem feito em todos os jogos. Numa recarga, a uma defesa para a frente de Vlachodimos.
Faltava mais de um quarto de hora para o intervalo, e pensar-se-ia que o descalabro teria apenas sido adiado. Mais uma vez as bancadas disseram para dentro do campo que não. Que havia que resistir. E foi praticamente isso que a equipa fez, com a alma e crença que não tem tido, até ao intervalo.
Para a segunda parte estaria guardado o melhor bocado da grande noite da Luz, com o Benfica a mandar no jogo, e a impor uma superioridade no jogo que não se julgaria possível perante um adversário tão qualificado. Foi mesmo uma grande exibição do Benfica, a superiorizar-se em todos os capítulos do jogo, com todos os jogadores em grande ritmo e num elevado nível exibicional, mas em especial Grimaldo, Darwin, Taarabt, Gonçalo Ramos e Rafa. E até Yaremchuk, que entretanto entrara a substituir Everton - outra bela exibição -, que marcaria o golo do empate, numa recarga a um grande remate de Gonçalo Ramos, depois de espectacular defesa do guarda-redes adversário. Que não se quis dissociar deste momento difícil para o seu povo, tirando a camisola para mostrar o símbolo das forças armadas do seu país, numa manifestação que a UEFA não deixará de penalizar. Bem mais que o inevitável amarelo que viu de imediato. Gonçalo Ramos - em mais um exemplo da maturidade que ainda teve tempo de deixar em campo - tentou impedi-lo de tirar a camisola, mas a determinação do ucraniano era inabalável.
E o Benfica só não juntou a vitória à exibição porque desperdiçou três ou quatro flagrantes ocasiões de golo. E porque, como já referido, o árbitro esloveno - sempre muito mais permissivo, quer em faltas quer no plano disciplinar, para os jogadores do Ajax do que para os do Benfica - fez vista grossa ao tal penálti sobre Gonçalo Ramos.
Veremos o que fica desta exibição, e desta grande noite da Luz. Se vai dar razão aos 50/50 de Nelson Veríssimo, em que ninguém acreditava. Se vai servir para finalmente acabar com a intermitência da equipa, e estabilizá-la para o que falta de uma época em que, já nada tendo para ganhar, poderá ainda lutar pelo segundo lugar no campeonato que garante o apuramento para a Champions. Ou se não vai servir para nada!
Nem para ajudar o Rui Costa na escolha das companhias. Depois de há dois dias ter sido visto a cumprimentar afavelmente Pinto da Costa, hoje também não ficou bem visto entre Fernando Gomes e Pedro Proença. Como as coisas estão, e com a centralização dos direitos televisivos a avançar a alta velocidade, aconselhar-se-ia algum cuidado com as companhias.