terça-feira, 31 de maio de 2022

Lá se terá salvado alguma decência

Reunião do Tribunal Constitucional termina sem escolha de novo juiz. Almeida Costa foi chumbado


Estava marcada para hoje a reunião do Tribunal Constitucional onde seria decidida a polémica escolha do famigerado António Almeida Costa para juiz conselheiro, em substituição de Pedro Machete, que concluiu o seu mandato em Outubro passado. 


António Almeida Costa, conhecido pelas suas posições retrógradas, que alega a inconstitucionalidade da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, vulgo aborto, que defende que uma mulher não engravida por violação, recorrendo para isso a teses estabelecidas nos campos de concentração nazis contra qualquer evidência científica, e que parte do princípio que, se a mulher engravida, é porque a relação é consentida; e que afronta os princípios basilares da liberdade de imprensa, era o único candidato para preencher aquela vaga. 


Esta escolha tornou-se pública por uma qualquer fuga de informação, e tornou-se de imediato alvo de contestação generalizada na opinião pública. Não fosse isso e, provavelmente, teria mesmo sido cooptado para o juiz do Tribunal Constitucional. Porque tudo é informação interna do Tribunal Constitucional, com a qual o país nada tem a ver.


A generalidade da comunicação social está a divulgar a notícia que o senhor foi chumbado. Alguma dá mais pormenores e refere que ficou a um voto dos sete necessários. Que a votação se repetiu por cinco vezes, sempre com os mesmos 6 votos a favor, e 4 contra. O comunicado do Tribunal Constitucional diz simplesmente que " o processo de cooptação relativo ao nome proposto foi concluído sem que se tenha procedido à cooptação. A cooptação será retomada em breve". O resto é - lá está - informação interna do Tribunal Constitucional.


É estranho, mas é assim. E, mesmo assim, no fim lá se terá salvado alguma decência!

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Não estou em condições de quantificar os efeitos desta reforma estrutural, mas também não é grave. Os governos também não quantificam nenhuma das que apresentam e, quando o fazem não acertam!


De qualquer modo a utilidade das reformas estruturais não esgota no seu impacto financeiro. Na poupança. Se à poupança se juntar transparência, melhoria do estado de saúde da democracia, da cidadania e da preservação dos direitos fundamentais e da tranquilidade dos cidadãos, ficam poucas dúvidas sobre os méritos da reforma. Qualquer mudança – e não há reforma sem mudança -, como uma balança, tem sempre dois pratos: num pesa o que se ganha e no outro o que se perde. Se não perde nada, ou quase nada, deixa de haver qualquer razão para não a implementar.


Pois é, a reforma de que falo é a extinção completa e total dos serviços secretos!


Acabar com as secretas poupar-nos-ia dinheiro mas, mais importante, poupar-nos-ia à enormidade de dislates e de poucas vergonhas a que temos assistido.


E o que é que perderíamos?


Nada!


Porque, perdida a soberania, o que é que há para defender? Dizer que os serviços secretos são uma peça fundamental do Estado de Direito nunca foi tão ridículo. Estes serviços secretos são, como está mais que demonstrado, precisamente a negação disso.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


A defesa que o primeiro-ministro, a maioria e o PSD fazem do envolvimento de Miguel Relvas neste processo das secretas atinge o patético. Quando essa defesa tem Luís Filipe Meneses como protagonista, como já vi em duas circunstâncias – a última das quais há momentos na SIC Notícias – passa a tesourinho deprimente, digno da famosa e saudosa rubrica dos Gato Fedorento.


Vou deixar de lado o tesourinho deprimente para me centrar apenas no mais patético dos argumentos da defesa oficial do primeiro-ministro. Que irá conduzir a outro patético argumento do PSD.


O grande argumento que vem sendo apresentado, e que foi hoje reafirmado pelo primeiro-ministro no Parlamento, é que os pedidos feitos a Miguel Relvas através dos tais sms não tiveram consequências. Não foram atendidos e – mais - alguns dos nome sugeridos acabaram mesmo por ser demitidos das secretas. É tão patético quanto isto: se a marosca foi descoberta e divulgada pelo Expresso logo no processo de constituição do governo, a partir da nunca explicada retirada do nome de Bernardo Bairrão da lista de secretários de estado (recordo que o seu nome constava, como secretário de estado do Ministério da Administração Interna, da lista já entregue ao Presidente da República e que tinha sido anunciado por Marcelo Rebelo de Sousa no seu programa dominical da TVI, fazendo uso do seu estatuto de bem informado que tanto e tão bem lhe rende), como é que o governo, sentindo-se apanhado, iria dar os seus bons ofícios aos pedidos de Silva Carvalho?


O lobo estava ali, de boca bem aberta. Então e o governo ia meter a cabeça lá dentro?


Patético!


Um dos muitos outros patéticos argumentos do PSD é que o ministro Miguel Relvas não é tido nem achado nisto pela simples razão que não era ministro à data daqueles sms. Era então um simples cidadão que, como qualquer outro, não está livre de receber sms, mesmo que indesejados. Mesmo que não os leia! O primeiro-ministro diria hoje no Parlamento que não demite ministros por receberem sms, o que não deixando de ser igualmente patético, vai contra o patético argumento.


Que não colhe pela mesmíssima razão. Porque todos bem sabemos que quando Miguel Relvas foi empossado já lá estava o lobo com a boca toda aberta. Como todos bem sabemos que Miguel Relvas era virtualmente ministro, pelo menos, desde o discurso de tomada de posse do Presidente da República!


Que usem argumentos patéticos – e são tantos outros, como, para referir apenas mais um, o de que tudo isto não passa de uma guerra entre empresas (a Impresa, de Pinto Balsemão e a On Going, de Nuno Vasconcellos) – é lá com eles. É o que faz há muitos anos este leque de políticos que permitimos que tenha nidificado no nosso país. Que continuem a tratar-nos como patetas é que me custa mais! 

Crime

Diário Comercial - Lobby de armas dos EUA faz convenção e diz que refletirá  sobre massacre


 


Três dias depois do massacre de 19 crianças e duas professoras na escola primária de Uvalde, no Texas, a 400 quilómetros, em Houston, ainda no Texas, realizou-se a convenção nacional da Associação de Armas norte-amerricana, a RNA - a maior associação pró-armas norte-americana e o mais influente ‘lobby’ da América, numa demonstração de poder, mas também de falta de pudor e vergonha.


Lá estavam o governador do Texas, o senador Ted Cruz e ... Donald Trump, que naturalmente era a estrela da companhia. Pediu silêncio e nomeou cada uma das 21 vítimas mortais, todas com apelidos latinos, que teve dificuldade em pronunciar. Discursou inflamadamente sobre o dever de protecção das crianças e a segurança nas escolas, para concluir que a solução é ... mais armas!


 “A única forma de parar um tipo mau com uma arma é um bom tipo armado”. Reafirmou a sua velha tese dos professores armados, garantindo - imagine-se - que, armar os professores, é a forma de tornar as escolas num espaço “livre de armas”, concluindo que  “se tivéssemos um professor soubesse manejar uma arma de fogo, poderia ter parado o ataque rapidamente”.


Isto já não pode ser apenas qualificado pelas balizas do populismo. Isto é criminoso. A questão estará em saber se é crime por ignorância ou se por deliberada defesa dos mais sinistros interesses.

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Já não bastava a forma desastrada e inaceitável como a directora do FMI, Christine Lagarde, se referiu às crianças africanas e às gregas para falar de fuga aos impostos na Grécia. Desastrada, gravemente ofensiva de uns e de outros - de crianças africanas e de crianças gregas, mas em especial dos gregos – e da inteligência de todos nós. Como se quem fugisse aos impostos na Grécia – ou em qualquer outra parte - fossem exactamente os mais pobres, os pais das crianças que sofrem!


Não bastava isto. Era ainda preciso que ela própria não pagasse impostos. Que auferisse de rendimentos próximos de meio milhão euros anuais sem que, por isso, pagasse um cêntimo de impostos. Que autoridade!


Este é um mundo perdido, sem pés nem cabeça. Um mundo desigual, feito por e para uns poucos, que se arrogam ao direito ao disparate e à afronta sem perceberem que continuam a esticar uma corda que já não estica mais.


Quando a Europa o FMI e o mundo querem desesperadamente inclinar o sentido de voto dos gregos para os que, ironicamente, os levaram à actual situação – aqueles que enganaram os gregos e os europeus, que, com a ajuda dos Goldman Sachs boys, mentiram durante anos e anos nas contas que apresentaram à União Europeia, são os que eles proclamam agora como salvadores da Grécia, do euro, da Europa e do mundo – o comportamento da Senhora Lagarde mais não faz que acentuar o sentimento de revolta dos gregos.

domingo, 29 de maio de 2022

Campeões europeus


 


Depois de ontem ter conquistado o campeonato nacional de futebol em sub-19 (não, não foi de forma dramática, foi contra as tramas do costume, dos mesmos do costume, porque também nos juniores vale tudo), hoje o Benfica conquistou a a Liga Europeia de andebol, a segunda mais importante competição europeia da modalidade, ao vencer hoje, na final, o Magdeburgo, a equipa alemã campeã em título.


É um feito notável do andebol do Benfica. Foi a primeira vez que uma equipa portuguesa chegou a esta final, e naturalmente a primeira a vencer esta competição europeia, depois de ter disputado já por duas vezes, e sem sucesso  - em 2010/11 e 2015/16 - a final da Taça Challenge, a terceira competição europeia. Essa sim, já conquistada pelo Sporting, por duas vezes 2009/10 e 2016/17, e uma pelo ABC, de Braga, em 2015/16.


 


 


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


O anterior ministro das finanças – Teixeira dos Santos, objecto, como temos visto, de incompreensíveis e sucessivas tentativas de reabilitação – declarou hoje no Parlamento, no âmbito da Comissão de Inquérito ao BPN, que, se fosse hoje, com o conhecimento que tem dos factos e das consequências da decisão, voltaria a fazer o mesmo.


Depois de sabermos – creio que ainda não sabemos, nem nunca viremos a saber, mas bastam os 8 mil milhões que são dados por conhecidos - o que nos custou aquela decisão obtusa, este senhor, em vez de aproveitar a oportunidade para pedir desculpa, vem simplesmente dizer que fez bem e que não está arrependido.


E com que argumentos? Com uma espécie contrafactual que, como se sabe, nunca se consegue provar. Diz ele que se o banco tivesse então falido a economia iria afundar profundamente.


Quer dizer, o responsável por uma das mais gravosas decisões para a vida dos portugueses, acha que lava as mãos e pode assobiar para o lado dizendo que a economia iria afundar profundamente. Simplesmente. Sem mais, como se fosse o Rei Sol!


É cá de um desplante… E não se lhe pode fazer nada… Vai continuar por aí a dar umas conferências aqui e a receber uns prémios ali. E a ser indicado para isto e mais aquilo!


Porque, afinal, nós só temos de lhe agradecer por isto não estar ainda pior…


Os políticos não podem ser julgados judicialmente, são julgados em eleições. Ainda bem, porque eu gostaria de ver este senhor a defender-se em tribunal nos termos em que o fez na Assembleia da República. Seria como um agressor a justificar o seu crime garantindo que se não tivesse espancado a vítima, se não lhe tivesse partido as pernas e os braços e atirado com ele para a cama do hospital, o desgraçado teria ido assaltar um banco. O BPN, quem sabe…

sábado, 28 de maio de 2022

Champions e Real Madrid confundem-se!


A História ganha jogos, Curtois faz o resto. E o Real Madrid ganha a Champions. A décima quarta!


Em Paris, o Liverpool jogou mais, e rematou muito mais. O Real fez dois remates, acertou com um na baliza, fez um golo e ganhou. Alison não fez uma defesa, Courtois fez dez!


Champions e Real Madrid confundem-se!


O jogo não foi lá grande coisa. E não deve ter sido por ter começado com quase 40 minutos de atraso, coisa nunca vista. Como nunca se tinha visto adeptos entrarem no estádio trepando pelos portões fechados.

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Quando se fala do estado da banca espanhola, fala-se em números que batem todos os dias novos recordes.


As perdas sobem já aos 260 mil milhões de euros, e fala-se na necessidade de uma ajuda de 60 mil milhões. No Bankia – que resultou da fusão de oito Cajas de Haorro – começou por se falar de 4 mil milhões, depois nove. O Estado espanhol já lá pôs 4,5 mil milhões e, para já, o Banco pediu mais 19 mil milhões!


As agências de rating já fizeram o seu trabalho, e mandaram alguns deles para o lixo. Já vimos isto…


Rajoy grita aos sete ventos que não precisa de ajuda externa. Já vimos isto…


Ainda falta saber o que vai por aquelas autonomias fora. Não falta saber tudo, porque a mais próspera – a Catalunha – já pediu com urgência dinheiro ao governo. O presidente desta região autónoma – Artur Mas – utilizou mesmo uma expressão curiosa: “Não queremos saber como eles o farão, mas nós precisamos de fazer os pagamentos até ao final do mês”!


Pois é. As autonomias falam assim. Também já vimos isto…


A Espanha não é Portugal… Pois não. É Portugal, mais a Grécia, mais a Irlanda…

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Teias que a História tece

Angola 27 de Maio 1977: orfãos das vítimas querem esclarecimentos - Em  directo da redacção


 


Passam 45 anos sobre o chamado golpe de de Nito Alves, em 27 de Maio de 1977, com que Agostinho Neto - e os  cubanos que tinha como "assistentes" - aniquilou parte da jovem elite do MPLA da altura, a pretexto de reprimir os chamados "fraccionistas". Foi uma das maiores atrocidades da História de Angola. Prolongou-se por dois anos, e somou mais 70 mil mortes à tragédia angolana.


Atrocidades desta dimensão são comuns, fazem parte da História de praticamente todos os regimes totalitários, e dos mais cruéis ditadores. Sabemos que foram capazes disso ditadores como Hitler, Mussolini, Estaline, Mao, Idi Amim, Mengistu Haile Mariam, Hisséne Abré, Pol Pot, Saddam Hussein, François Duvalier, o Papa Doc, Pinochet, Videla, kadafi, ou os Kim Jong, da Coreia do Norte.


Por mim, continuo sem perceber como tenho de juntar o nome de Agostinho Neto a esta lista. Não há como não o fazer, mas confesso - custa-me perceber como um poeta e, a par de Amílcar Cabral, o maior símbolo da resistência ao colonialismo português, chegou a isto. Teias que a História tece, que temos dificuldade em desvendar.


Nito Alves, como tantas outras figuras elite do MPLA - como José Van Dunem e a mulher, Sita Valles, que deixaram órfã a ministra da Justiça (e, no fim, também da Administração Interna) do anterior governo português, Francisca Van Dunen - foram sumariamente executados. António Costa Silva, depois de preso e torturado, escapou. E é o Ministro da Economia do actual governo de António Costa!


 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

O vírus tramou o nosso campeão

Diretor de João Almeida fez as contas: ″Carapaz tem de ganhar um minuto″


 


 Depois de em 2020 se ter revelado ao mundo do ciclismo, trazendo a maglia rosa  no corpo durante duas das três semanas do Giro, e consluindo no quarto lugar da geral, e de no ano passado, mercê de uma série de equívocos da sua equipa de então, ter acabado na sexta posição, a poucos milésimos de segundo do quinto, João Almeida entrou neste Giro deste ano com aspirações a vencê-lo ou, no mínimo, ficar no pódio.


Não tinha equipa para isso - a Emirates é uma das melhores equipas do World Tour, mas os ciclistas escolhidos para participar no Giro estavam longe de formar uma equipa à medida dessas ambições, e muito longe do poderio das equipas dos seus principais adversários - mas, até à etapa de ontem, andou sempre entre o segundo e o terceiro lugar da geral. E o desenho da competição, com apenas dois contra-relógios, e curtos - menos de 30 quilómetros no total dos dois - e muitas etapas de alta montanha (opção da organização para aliciar os principais trepadores do mundo para a prova), também lhe não era favorável. 


Mesmo assim lutou que nem um herói nas etapas de alta montanha. Os adversários, o colombiano Carapaz, da Ineos, o australiano Jai Hindley, da Bora, e o espanhol Mikel Landa, da Bahrain, todos com equipas muito mais fortes, elegeram-no como alvo a abater. Mas resistiu sempre. Ficou sempre sozinho, sem a ajuda de qualquer colega de equipa, contra todos eles, e lutou como um herói para defender a sua posição, com o objectivo de se aguentar até ao contra-relógio, no fecho, no próximo domingo, onde acreditava que, mesmo com os escassos 17 quilómetros, lhes poderia ganhar pelo menos 1 minuto. Ou até mais que isso a Landa, o menos dotado de todos para a especialidade.


Ontem, na mais dura etapa de montanha, mais uma vez sem ajuda da equipa, mais uma vez sozinho contra todos, as coisas não lhe correram pelo melhor. E perdeu a 3ª posição para Landa, de que ficou a 49 segundos. Que certamente recuperaria. Depois já só ficaria a faltar a última etapa de montanha, no sábado, para garantir um lugar no pódio. A camisola branca, da liderança da juventude, essa já ninguém lhe tiraria.


Hoje corre-se a única etapa em linha desta semana, tranquila. Para roladores e sprinters. Mas João Almeida já não partiu. Resistiu às altas montanhas italianas, e aos melhores trepadores, mas não resitiu ao Covid. Testou positivo, e teve de desistir. Logo a seguir ao único dia em que realmente perdera. Já com o vírus dentro dele, mas não derrotado.


O vírus não derrota os campeões. Só os trama de vez em quando. E o João estará de volta em pouco tempo, para espalhar classe por essas estradas fora e nos dar mais alegrias.


 


 


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Por muito que o segredo seja a alma do negócio – regra que no futebol vale mais que em qualquer outro lado -, que a surpresa – o tão valorizado factor surpresa – seja tantas vezes um dos grandes desequilibradores de jogo, a verdade é que lá está sempre o modelo de jogo como forma de sistematizar a abordagem do dito.


O modelo de jogo não se esgota na estratégia, e muito menos na táctica escolhida para cada jogo. Quer isto dizer que o modelo de jogo é algo de mais profundo, é aquilo que vai para além da estratégia e da táctica. Porque é a forma como se faz, como se executa uma determinada estratégia. Traduz-se numa ideia de jogo ou, mais do que isso, numa filosofia para o próprio jogo.


É, nessa medida, a matriz, o lado institucional e estrutural do jogo. Sem modelo de jogo a equipa anda à deriva, sem guião. Pode saber o que quer fazer, mas não sabe como fazer. Sem noção de colectivo, com cada jogador por si, perdido num colectivo que não comunica, sem fio condutor…


È por isso o lado do jogo que não permite surpresas nem guarda segredos. O mais famoso – e também o mais bem afinado – modelo de jogo é, sem dúvida, o do Barcelona. É tão óbvio que nem vale a penas gastar mais uma linha a justificá-lo!


A selecção nacional, que em breve irá dar o pontapé de saída no euro 2012, tem um modelo de jogo. Que há muito tempo está definido e instalado, e que só em momentos de desvario – que não têm sido assim tão poucos como isso, basta lembrarmo-nos do período de desnorte de Carlos Queiroz – é esquecido. Tem a ver com o próprio perfil do jogador português, de base mais técnica que física. É um modelo de passe curto, de posse de bola e de repentismo, de pensamento e de execução rápida.


Daí Hugo Viana. Que tinha feito uma boa época no Braga, onde foi decisivo naquele modelo de jogo e que, só por isso, mereceria, na óptica de muitos dos adeptos do futebol – e aqui sem clubismos que invariavelmente cegam e turvam a lucidez da análise -, a convocação para o europeu. Merecimento que teria de ser visto precisamente como um prémio ao seu desempenho durante a época!


Paulo Bento justificou, logo na apresentação das suas opções de convocatória, que Hugo Viana não cabia no modelo de jogo da selecção. E, friamente, toda a gente teria de lhe dar razão: Hugo Viana não se integra no modelo do passe curto e de posse da bola, do drible e da velocidade, com bola ou em desmarcação. Pelo contrário, faz da visão e da precisão do passe longo a sua grande vantagem comparativa!


Acontece aos melhores. São muitos os exemplos de jogadores de excelência que se não integram em determinados modelos de jogo. Lembramo-nos de Ibrahimovic, que não cabia claramente no modelo do Barcelona!


Claro que há jogadores que, por si só, impõem a definição de um modelo de jogo ajustado às suas características. Mas, para isso, terão que ser eles próprios maiores que a equipa. E umas vezes não o são e, outras, é a equipa que não permite que o sejam. Lembremo-nos de Jardel que, sendo nos seus tempos áureos o fabuloso goleador que o mundo conheceu, nunca teve oportunidade de jogar numa grande equipa europeia e mundial, nem de chegar à selecção do seu país.


É por tudo isto que a convocação de Hugo Viana, logo que a oportunidade surgiu, é estranha. Não pelas suas qualidades, nem sequer porque, na tal lógica de prémio, não o merecesse. Apenas porque o modelo de jogo da selecção, ao que se saiba, não vai ser alterado. E porque não fazem sentido nenhum as suas próprias palavras, segundo as quais se iria esforçar para se adaptar ao jogo da selecção!


Assim sendo, não fazendo sentido, só resta admitir que a sua convocação se deve a factores externos ao processo de decisão do seleccionador. Que não terá resistido às pressões que sofreu para o convocar!


Se o que parece é, estaremos perante o colapso de um dos principais pilares do edifício de Paulo Bento. E sabe-se como é: quando um pilar cede, os restantes não são suficientes para manter a coisa de pé.


E por falar em pé, o mais provável é que Hugo Viana não o chegue a pôr nos relvados da Ucrânia. Se assim for esperemos que o lugar que está a ocupar entre os 23 não venha fazer falta nenhuma. Que nunca nos lembremos que só lá está um lateral esquerdo... Porque o Miguel Veloso tem mais vocação para modelo (e não é de jogo) que para lateral esquerdo!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

"Quem gosta de futebol, gosta do Benfica"

A chegada de Roger Schmidt: "Amo o futebol, e quem ama o futebol ama o  Benfica" - Diário do Distrito


Roger Schemidt assinou ontem o contrato para treinar o Benfica nos próximos dois anos. É o treinador do Benfica, e por isso o meu treinador. 


Nem sempre tem sido assim. Muitos foram os treinadores do Benfica que não reconheci como meus. O último foi ... o penúltimo. Mas outros houve: Pál Csernai, Ebbe Skovdahl, Ivic, Artur Jorge, Graeme Souness, Yupp Heynckes, que me lembre assim de repente ...


Mas neste caso é, assumo-o. Não seria a minha primeira escolha, mas não me cabe a mim fazer essas escolhas. Mas, tendo outras preferências e todas elas ou indisponíveis ou inacessíveis, parece-me uma boa escolha. É um treinador alemão, e os treinadores alemães estão na moda. Não tem no seu currículo nem muitos, nem grandes títulos, é verdade.


Mas os que cá chegaram com mais, e mais sonantes, títulos foram dos piores que nos calharam: Heynckes e Artur Jorge. O alemão - também alemão, mas de outros tempos - chegou cá carregado de títulos nacionais - na Alemanha e em Espanha - e com dois títulos europeus. Trazia no currículo o Borússia de Monchengladbach, dos bons velhos tempos, com uma Taça UEFA; o Bayern de Munique com dois campeonatos (onde regressaria para conquistar mais dois e uma Champions); e o Real Madrid com uma Supertaça Espanhola e uma Champions, ainda fresquinha. Já tinha ganhado tudo o que havia para ganhar. O português - o "Rei Artur", como lhe chamavam, com Porto, Racing de Paris e PSG no currículo, também já tinha ganhado tudo o que havia para ganhar em Portugal e em França, e até campeão europeu tinha também sido.


Foram os piores, ficaram a marcar os piores anos da História do Benfica, e foram escolhas das duas das três mais ruinosas presidências do Benfica. 


Não é pois por ter poucos títulos no currículo que se deve pôr em causa a probabilidade de sucesso de Roger Schemidt no Benfica, por muitos que sejam - e são - os problemas no clube. O treinador é, neste momento, o menor deles. Diria até que, se os problemas do Benfica fossem de treinador, estariam resolvidos. Não são, e estão por isso longe de estar resolvidos.


E diria também que, se o sucesso do treinador dependesse da empatia com os adeptos, estaria garantido. Chegou e conquistou os benfiquistas com uma frase: "Quem gosta de futebol, gosta do Benfica"!


Espalhou simpatia, elogiou tudo o que viu, e manifestou o prazer que é trabalhar num dos maiores clubes do mundo. Mas foi com aquela frase que conquistou os benfiquistas. Bem diferente da fanfarronice de meia tigela do "vamos arrasar e jogar o triplo"!


Benvindo Roger Schemidt. E bom trabalho!


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


                                                             


Como aqui previra logo no início o tema da semana estava encontrado. Os seguimentos que estes dias lhe trouxeram confirmaram o que já era o seu destino.


Hoje é incontornável, e nem mesmo os que desde o início quiseram circunscrevê-lo ao domínio do fait divers ousam hoje mantê-lo aí. O tema tomou a verdadeira dimensão de caso. De caso sério!


Parece que, com Miguel Relvas, cada pontapé numa pedra levanta novas e gigantescas nuvens de pó. Miguel Relvas já não só ameaçou ou chantageou. Também se irritou. Também mentiu!


Mentiu na Assembleia da República. Preparou-se mal. Depois, a tal pergunta da jornalista do Público e a lei de Murphy fizeram o resto!


Afirmou ter conhecido o tal Silva Carvalho em 2010 mas, das informações irrelevantes que ele lhe dera, recordava-se de uma inócua notícia de uma visita de Bush ao México. Notícia de 2007!


Já há um cordeiro sacrificado: chama-se Adelino Cunha, do gabinete do ministro. Não se percebe muito bem para que serve esse sacrifício, mas é o costume… Há sempre raia miúda!


Por mim espero que, demita-se ou não o ministro – num país normal há muito que isso teria acontecido -, não se esqueça que, na origem disto tudo, estão gravíssimos problemas na organização e funcionamento dos nossos serviços secretos.


Se cada macaco no seu galho, esperemos que não se esqueçam destes macacões!  

Armas como brinquedos ou ramos de flores

19 crianças e 2 adultos são mortos em novo massacre em escola no Texas


 


Ontem aconteceu mais um massacre na América. Neste ano já são mais de 200 tiroteios em massa. No ano passado foram 700!


Ontem foi numa escola - escolas, supermercados e centros comerciais são os locais preferidos para abates em massa - na cidade de Uvalde, no estado norte-americano do Texas. O número de mortes já vai em 21 - 19 crianças, dos primerios anos de escolaridade, e dois adultos - mas poderá ainda subir. Entre a dezenas de feridos, três correm o risco de ainda virem a morrer. O atirador era um miúdo de 18 anos, e foi morto pela polícia no local.


Joe Byden, a regressar de uma viagem ao Japão, questionou mais uma vez. "Porquê"?


Por que é que - perguntava ainda - tendo outros países problemas de saúde mental, disputas domésticas e pessoas perdidas, estes tiroteios em massa não acontecem com a frequência que acontecem nos Estados Unidos? 


E voltou a apontar a resposta para o ‘lobby’ das armas: “Onde, em nome de Deus, está a nossa espinha dorsal para ter coragem de lidar e enfrentar os lobistas?


Claro que é aí, no  ‘lobby’ das armas, que está a parte maior da resposta. Um ‘lobby’ que a política americana definitivamente não quer apoquentar, simplesmente porque é aí que os agentes políticos da maior democracia do mundo, mas também a mais imperfeita das maiores, encontram o financiamento para as suas campanhas.


É dessa imperfeição que se alimenta este poderosíssimo ‘lobby’. Mas também de uma cultura de armamento pessoal única em todo o mundo, proveniente dos primórdios da nação americana. Oferecem-se armas como prendas. Pais oferecem oferecem armas a filhos, crianças de sete, oito ou nove anos. Namorados oferecem armas a namoradas, ou vice-versa. 


Há duas semanas correu mundo a notícia da morte de Anna Moriah Wilson, uma ciclista de "gravel" de primeiríssimo plano, de 25 anos e altamente popular, encontrada morta depois de alvejada várias vezes no apartamento que ocupava, na véspera de uma competição, no mesmo Estado do Texas. As circunstâncias do crime foram agora reveladas: Mo, como era conhecida, tinha tido uma curta e passageira relação amorosa com um colega ciclista, Colin Strickland, que interrompera uma relação de três anos com a namorada, Kaitlin Marie Armstrong, uma instrutora de ioga de 34 anos, que depois veio a retomar. Nessa relação retomada ofereceu-lhe de prenda uma pistola de calibre de 9mm, justamente a arma com que Kaitlin se deslocou ao apartamento de Mo, para a assassinar depois de saber que ela e o namorado tinham jantado juntos. 


Lembro-me também de, há uns tempos - não sei precisar quanto - um pai ter oferecido uma arma a um filho de 9 anos, que logo lhe deu uso para matar a madrasta. 


Porquê?  - perguntava Joe Biden. É porque nos Estados Unidos se vendem armas como pipocas, se oferecem a crianças como brinquedos, e a namoradas como ramos de flores. 


 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Faz hoje 90 anos e continua em plena forma, pleno de lucidez e sem trair os seus princípios, cada vez mais actuais. Bem longe de outros exemplos que vemos por aí!


Parabéns Sr Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. Que conte muitos mais!


Obrigado pelo que deu ao país, mesmo quando recusaram aceitar. E pelo que exemplo que vai deixando! Peço-lhe perdão por nunca lhe terem dado ouvidos, por terem estragado o nosso jardim apenas porque ignoraram os seus avisos e as suas opiniões. Peço desculpa pelo estilo de vida que seguimos, à revelia dos seus conselhos! 

90 dias de guerra

O início da guerra. As imagens das primeiras horas de invasão russa à  Ucrânia - Renascença V+


 


Passam hoje 90 dias sobre o dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia, em 24 de Fevereiro. Três dias antes Putin tinha praticamente confirmado o que no Ocidente há muito se vinha anunciando, e que Moscovo desmentia. Declarando que a nação ucraniana não existia, nem nunca tinha existido, Putin declarava a sua intenção de eliminar a Ucrânia da lista de Estados soberanos, invadindo-a e anexando-a, tal qual Hitler fizera há mais de oito décadas.


Era quinta-feira, e Putin tinha por certo tudo deixar resolvido no fim-de-semana. Como tinha por certo que tudo se resolveria como em 2014, quando anexara a Crimeia. Que o mundo anunciaria umas sanções que nunca cumpriria, e tudo voltaria à realidade do facto consumado, e ao esquecimento em poucos dias. 


Sabe-se que não foi assim, e não se sabe ainda como será. Sabe-se apenas que o mundo já não é o mesmo que era há 90 dias ... e que também não será o mesmo que é hoje!


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Portugal foi o primeiro país a ratificar a chamada regra de ouro do pacto orçamental europeu. Antes de qualquer outro, e antes das eleições presidenciais francesas, onde o esperado e confirmado candidato vencedor anunciava mandá-lo às malvas.


Um governo que dificilmente conseguirá conter o défice nos 5,5% a que este ano está obrigado, apressou-se para ser o primeiro a ratificar um tratado que o obriga a um défice máximo de 0,5%. Quando nada o obrigava a isso, e quando tudo aconselhava a uma pausa, a um prudente wait and see!


Quando a questão das eurobonds cai em cima da mesa com um estrondo nunca antes visto, imposta pelas lideranças francesa, italiana, irlandesa e mesmo as do próprio BCE e da comissão europeia, e começa inclusivamente a ver alguma flexibilidade da parte da Alemanha, o nosso primeiro-ministro chega-se à frente e afirma peremptória e inequivocamente que nem pensar. Eurobonds nunca!


Poderíamos até perceber a famosa e mil vezes repetida expressão de nem mais tempo nem mais dinheiro, ou o repetido anúncio de que iríamos para além da troika, como parte integrante da estratégia de comunicação externa. Para a Europa e o Mundo ouvirem bem alto enquanto, de baixinho e com pinças, se ia tratando com o FMI, o BCE e a Comissão Europeia dos inevitáveis mais dinheiro e mais tempo. Era isto que se esperava que, responsavelmente, estivesse a acontecer!


Dava-se até de barato que aquela camisola amarela na ratificação do tratado, apesar de injustificada e injustificável, pudesse fazer parte de um jogo de charme e sedução para levar por diante aquela estratégia. Mas, quando somos os que mais temos a ganhar com as eurobonds, vermos o nosso primeiro-ministro desalinhado com os que as estão defender e, uma vez mais, dar o passo em frente e assumir o comando desta frente de batalha, percebemos que não é nada disso. Percebemos que é mesmo assim, que todas estas atitudes nada têm de estratégico na defesa dos interesses do país. Que são apenas faces da mesma moeda ideológica!


E percebemos uma coisa verdadeiramente dramática: este primeiro-ministro, e este governo, entre a defesa do país e a dos seus princípios ideológicos, não hesitam. Preferem colocar-se ao serviço da ideologia. Isto é fundamentalismo ideológico, do mais radical!

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Futebol a sério

Manchester City vs Aston Villa LIVE: Premier League result and reaction - Man  City win title | The Independent


Chegou ontem ao fim a Premier League. Manchester City e Liverpool chegaram à última jornada separados por um ponto, a favor da equipa de Guardiola. Ambas as equipas jogavam em casa, junto do seu público: o City recebia o Aston Villa, de Steven Gerrard, um dos mais emblemáticos jogadores e capitães da História do Liverpool, onde passou toda a sua vida de praticante de futebol; em Anfield Road, o Liverpool recebia o Wolverhampton, de Bruno Lage, a equipa mais portuguesa de Inglaterra. 


A possibilidade de terminarem em igualdade pontual era remota, mas no melhor campeonato nacional do mundo tudo pode acontecer. Seria necessário que a equipa de Guardiola perdesse e que a Yurgen Klopp empatasse. Mais improvável seria que esse empate pontual servisse para o Liverpool conquistase o título. O desempate far-se-ia pela diferença entre golos marcados e sofridos, e esse factor era favorável ao City. Seria necessário que fosse derrotado por uma diferença de seis golos. Pelo que o cenário verdadeiramente realista para que o Liverpool fosse campeão passava por ganhar o seu jogo e esperar que Steven Gerrard desse uma ajuda, ganhando em Manchester.


Os dois jogos arrancaram, à mesma hora, naturalmente. Em Manchester o City tomava conta do jogo, ao seu jeito. Mas as coisas não saíam bem, era evidente o peso da responsabilidade que os seu jogadores carregavam. Nem os melhores e mais experientes escapam a estes momentos. Em Liverpool tudo começou ainda pior, com a equipa de Bruno Lage a jogar muito bem, e com Pedro Neto endiabrado. Marcou logo aos 3 minutos e esteve por mais duas vezes muito perto do golo, antes de sair, lesionado, ainda antes do meio da primeira parte. E aí o jogo começou a mudar. De tal forma que Sadio Mané empatou logo a seguir, aos 24 minutos.


Pouco depois, aos 37, em Manchester o Aston Villa, que só defendia, na primeira vez que o pontapé para a frente resultou, marcou. E fez-se festa em Anfield onde, apesar de tudo, os Wolves iam discutindo o jogo e até obrigando Allison a muito e bom trabalho. O intervalo deixava tudo na mesma, e o nervosismo passou ansiedade dramática no Etihad quando mais um pontapé para a frente, desta vez do próprio guarda-redes, levou a bola a Philippe Coutinho, e o ex-Liverpool, com a classe que se lhe reconhece, marcou o segundo. Guardiola acabara de trocar Bernardo Silva por Gudogan, e a resposta era um inacreditável 0-2, a 20 minutos do fim.


Mais festa em Liverpool, mesmo que o empate por lá subsistisse. Entretanto, no Jamor começara o jogo da final da Taça, entre o Porto e o Tondela. Enquanto na Cidade do Futebol o VAR se entretinha durante cinco minutos a descortinar um fora de jogo para acabar a descobrir um penálti a favor dos do costume, em Manchester esse mesmo tempo, entre os 76 e os 81 minutos, era aproveitado pelo City para marcar três golos - dois do "herói" Gudogan, a lembrar Kun Aguero, há dez anos, com o de Rodri pelo meio -, dar a volta ao resultado e garantir o segundo campeonato consecutivo. 


Demonstrativo do que é o futebol, a sério, em Inglaterra, e o da palhaçada, em Portugal. Enquanto aqui, numa final da Taça, o VAR se entretém entre um fora de jogo e um penálti sempre a favor dos mesmos, em Inglaterra ganha-se um campeonato!


Já o Machester City tinha feito a reviravolta, e o Etihad rebentava em festa, quando Salah, aos 84 minutos, em Anfield conseguia desfazer o empate, e assegurar a vitória - confirmada com o terceiro golo (Robertson) já em cima do minuto 90 - que já não servia para nada. E na verdade, nem mesmo com o City a perder por 2-0, nunca o Liverpool esteve virtualmente campeão! 


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


O desemprego – os absurdos recordes de desemprego que atingimos e continuaremos a atingir por mais uns anos – não esgota o seu impacto nos dramas económicos e socais que todos conhecemos. Não se limita a lançar na miséria centenas de cidadãos e de famílias, faz muito mais que isso: corrompe e destrói toda uma sociedade!


Alimenta gente sem escrúpulos, autênticas máfias de um submundo que prospera e floresce à custa das mais abomináveis práticas, grosseiros e inaceitáveis atentados à dignidade humana. São muitos os casos que se vão conhecendo de autêntico esclavagismo. São frequentes os relatos chocantes de pessoas que, à procura de condições mínimas de subsistência, acabam arrastadas para circunstâncias da mais absoluta exploração, dentro e fora do país, às mãos de estrangeiros ou de compatriotas sem escrúpulos. De gente que não tem uma pontinha de vergonha de viver da miséria que alastra e de a aprofundar, que não tem nome nem cara, sempre escondidos nas teias secretas do crime.


O que não sabíamos era que já tínhamos entrado noutra dimensão. O que não sabíamos era que os danos colaterais já tinham rompido com essa barreira, que hoje já há gente que não sente necessidade de se esconder para exercer essas abomináveis práticas. Que anda por aí de cara descoberta, que coloca anúncios de emprego como quaisquer outros, que tem escritórios abertos e, pasme-se, que até recorre à Justiça para defender o seu bom nome quando é desmascarada. 


O caso corre a blogosfera*, nasceu aqui e conta-se em poucas palavras. Uma empresa que se dá pelo nome de Axes Market - mas também pode ser Ambição Internacional Marketing ou mais não sei quantos nomes, com escritórios na Rua Barata Salgueiro, mas também na dos Fanqueiros, em Lisboa, mas também em Aveiro, no Porto ou em Faro – dedica-se precisamente à exploração do filão do desemprego. Uma vítima dessa exploração fez a denúncia (link acima) num blogue, seguindo-se umas centenas de comentários de outras tantas vítimas. Perante isto a empresa apresenta queixa em tribunal e requer que sejam eliminados todos os comentários do blogue, a que o tribunal rapidamente deu provimento, mandando apagar, não todos, mas muitos desses comentários.


Não é a decisão do tribunal que, para o caso, releva. Não é aí que pretendo colocar ênfase, até porque sei que os tribunais se pronunciam estritamente sobre a peça processual em causa e não sobre o que, sendo-lhe marginal, constitua a sua envolvente. O que verdadeiramente me choca é perceber que chegamos a um ponto em que esta gente até já acha que tem bom nome. Um bom nome a defender!


O desemprego mede-se, vai-se medindo. Ainda hoje se soube que o número de casais desempregados (com ambos os membros em situação de desemprego) subiu de 70% no último ano. Mas, efeitos colaterais como estes, não!


 

domingo, 22 de maio de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


A OCDE lançou hoje mais um balde de água gelada sobre todos nós. Pelas suas previsões o PIB cairá 3,2% este ano e 0,9% no próximo, e falharemos o défice previsto para este ano e para o próximo. O desemprego continuará a crescer, atingindo os 16,2% no próximo ano.


Nada que não se esperasse!


O desemprego real é já bem mais alto que aquela previsão e no cumprimento das metas do défice apenas o governo acreditava. Ou dizia acreditar!


O governo tem dito que não há alternativa ao cumprimento do programa de ajustamento e que o défice será cumprido, custe o que custar. O ministro das finanças tem dito ultimamente que não haverá agravamento das condições de austeridade.


Chegamos ao ponto em que não é possível conciliar estas duas posições do governo. O primeiro-ministro ainda ontem, em Chicago, voltava a reafirmar que Portugal não precisa nem de mais tempo nem de mais dinheiro. Quer dizer, que negociar o que quer que seja com a troika está fora de causa.


Não há milagres, se assim é, terão que aí vir novas e mais medidas de austeridade. Todos sabemos que o governo tem dois pesos e duas medidas. Que a palavra dada vale muito numas circunstâncias e nada vale noutras. E, depois do corte nos subsídios de férias e de Natal, todos sabemos quais são as circunstâncias em que não vale nada!


O que nós não sabemos é a que é que o governo ainda pode lançar mão… Que vai cair sobre os mesmos de sempre, não temos dúvida nenhuma!


Entretanto a troika está de regresso, para nova avaliação. Provavelmente para continuar a dizer que estamos no bom caminho!

sábado, 21 de maio de 2022

Dia D

Destino incerto para os ″heróis″ da Azovstal após a rendição


A guerra na Ucrânia aproxima-se do seu terceiro mês, e é hoje absolutamente claro que se prolongará por muito mais tempo. Quanto, não se sabe, mas será muito. 


Com muita História para contar. Do que já mudou o mundo, e do muito que ainda tem para mudar. Basta pensarmos na escassez e nos preços dos cereais para imaginarmos quanta guerra estará ainda para vir em muitas das regiões mais pobres do mundo.


Da História da invasão da Ucrânia fazem já parte Bucha, Hostomel ou Irpin. Mas será Mariupol, e Azovstal - o complexo siderúrgico de Mariupol transformado em campo de batalha - que certamente a História irá perpeptuar. Renderam-se hoje os últimos militares das forças ucranianas de Azovstal, e serão estes quase três meses que hoje terminaram que serão contados em livros, e que alimentarão a indústria de Hollywood por muitos e bons anos. 


Hoje poderá ser o dia D desta guerra. Mas porque é bem capaz de ser o dia em que Putin celebra a sua vitória de Pirro!


 


 


 


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Logo no início já há um tema da semana: Miguel Relvas. Que já vem da semana passada, mas como o fim-de-semana se atravessou à frente, entra de rompante por esta dentro!


Não sei se Miguel Relvas chantageou ou não a jornalista do Público. Se o fez é evidentemente grave!


Mas sei duas coisas: sei que a personagem é useira e vezeira neste tipo de exposição, e sei que a sua defesa – feita a partir da entourage do governo e proximidades – não apresenta consistência e assenta apenas em bases subjectivas. E por isso pouco credíveis!


Miguel Relvas deixa-nos a ideia que passa a vida à volta de jornalistas e da comunicação social em geral - que não é apenas por ter esse pelouro – cola-se facilmente à imagem da manipulação e mesmo de uma certa promiscuidade com a imprensa. Não parecendo que tenha exactamente boa imprensa, fica a ideia de que tem muita influência. Como a de que sabe muito bem usar o (grande) poder que tem!


A verdade é que este episódio não surpreende ninguém. A verdade é que na opinião pública fica claramente a ideia que, se não ameaçou nem chantageou, podia muito bem tê-lo feito. É uma suspeita que lhe assenta que nem uma luva. O que, em sede da opinião pública, torna a sua defesa muito difícil e muito mais exigente. Os que têm agenciado essa defesa estão a descurar essa realidade e longe de ser minimamente eficazes. E por isso, em vez de ajudar, agravam!

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Timor

CRONOLOGIA: Timor-Leste/20 anos: Principais acontecimentos desde a  independência em 2002 - Observatório da Língua Portuguesa


 


Comemoram-se hoje 20 anos da independência de Timor, o primeiro país deste milénio, e certamente o maior êxito da História da diplomacia portuguesa. Não temos muito de que nos orgulhar na nossa diplomacia. Temos Aristides Sousa Mendes, mas aí estamos de falar de um diplomata, e da sua coragem pessoal, não de diplomacia. E teremos sempre Timor para recordar que, fazendo bem e nunca desistindo, as causas justas nunca serão causas perdidas.


Às vezes esquecemo-nos disso. E de Timor, também!


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


“Dar os parabéns à Académica, que criou as melhores oportunidades e foi um justo vencedor”!


Estas palavras não são minhas, são de Sá Pinto, na conferência de imprensa no fim do jogo. Que me levam a dar-lhe os parabéns, pelo desportivismo que até há pouco tempo ninguém julgaria possível numa personagem que seria exemplo de muito coisa menos de fair play!


Sá Pinto tem revelado, na hora da derrota, uma lucidez e uma dignidade que infelizmente não é comum. Vindo de quem vem, de quem era tido quase como um arruaceiro, só tem de ser ainda mais valorizado e só pode funcionar como um exemplo que gostaria de ver fazer escola. A Académica ganhou a sua segunda Taça de Portugal, 73 anos depois da primeira, que foi mesmo a primeira de todas. E ganhou bem, como refere o treinador do Sporting!


Que me perdoem todos os conimbricenses em festa mas, para mim, o mais importante foi mesmo a atitude do Sá Pinto. Só por isso diria que ainda bem que foi o Sporting a estar hoje no Jamor, e não o Nacional, não fosse o árbitro da final da Champions de ontem ...


Esta Taça tem sem dúvida mais encanto!

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Levando a sua estratégia italiana até ao fim o Chelsea é finalmente campeão europeu, na segunda vez que atinge a final. Parece que está descoberta a receita de Abramovich: despedir um treinador português e entregar a equipa ao adjunto da casa!


Desta vez Mata fez de Cristiano Ronaldo e Schweinsteiger, sem escorregar, de Terry. De resto, tendo sido um jogo recheado de incidências e de emoção, não foi um grande jogo. As estrelas da equipa bávara simplesmente não apareceram no jogo em que o Bayern tinha apostado toda a época. Robben e Schweinsteiger estiveram mesmo nos momentos mais desastrados da equipa, o primeiro a falhar um penalti decisivo, já no prolongamento – que levou Heynkes, e bem, a afastá-lo da lista de marcadores dos penaltis que decidiriam o campeão -, e o segundo, infeliz, a falhar (com a bola no poste) o último e decisivo dos pontapés que couberam à equipa.


De resto, apenas algo que ocorreu ao minuto 66 merece destaque. É cobrado um pontapé livre a favor do Bayern, sobre a direita e já perto da grande área do Chelsea. Ashley Cole salta à bola já dentro da área e ela bate-lhe na parte superior do braço. Pedro Proença – e bem – manda seguir!


Ironicamente – ou talvez não - esta jogada é a cópia mais fiel que se possa imaginar de uma outra que se passou em Braga, naquela famosa partida em que sempre que o Benfica acelerava a voltagem do jogo rebentava a instalação eléctrica da Pedreira. Substitua-se Cole por Emerson e a camisola azul pela vermelha e... voilá!


Como toda a gente sabe, o árbitro Pedro Proença marcou penalti que, a meias com os apagões, acabou por garantir o empate ao Braga! O mesmo Pedro Proença, o mesmo lance, as mesmas circunstâncias de jogo… mas juízos opostos. Depois digam que não há coisas… Ou coiso, como diz o outro!


 Ah! Já agora vejam como se confirmou a decisão dos deuses...

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Infeliz coincidência feliz

Coincidência feliz.″ Marcelo revela que Costa visita Ucrânia quando o  Presidente estiver em Timor


 


De "picareta falante" (mais uma notável expressão que devemos à memória de Vasco Pulido Valente) a incontinente verbal vai um pequeno passo - justamente o que Maecelo deu ao anunciar a visita do primeiro-ministro à Ucrânia que, por razões óbvias, era mantida secreta. E por razões óbvias secreta deveria ser mantida.


Assim não achou Marcelo. Mais uma vez. Como se estar Presidente fosse o mesmo que estar outra coisa qualquer e apenas "uma coincidência feliz". 


Há certamente coincidência entre a visita de Marcelo a Timor e a de António Costa à Ucrânia. Que o Presidente tenha encontrado nela uma  "coincidência feliz" para falar quando deveria estar calado não é coincidência. E muito menos feliz!


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Tempo de compensação, também chamado período de compensação ou até tempo extra, é a designação que o futebolês dá para o tempo de jogo que subsiste depois de o ponteiro dos minutos do relógio ter completado três quartos de uma volta completa. É o tempo que o árbitro acrescenta à primeira e à segunda parte de cada jogo, comunicado à plateia através de uma placa mostrada pelo chamado quarto árbitro. Para compensar, e por isso a designação de tempo ou de período de compensação! E deixemos o tempo extra para outras coisas, até para nome de programa de televisão…


Para compensar o quê? O tempo perdido com assistência médica aos jogadores - por necessidade real ou por manha –, o tempo perdido com as substituições e com as mais diversas habilidades para o fazer passar, a que o futebolês chama anti-jogo. Com atrasos na reposição da bola ou com quebras de energia, estranhas ou nem tanto, como em Braga, por exemplo. Estranhamente não é comum vermos compensar o tempo perdido com o festejo dos golos… Faz sentido: festa é festa!


Está na mão – e no relógio - do árbitro a decisão do tempo de compensação. Como tudo o resto, afinal. E na pressa. Se estão com muita pressa dão pouco tempo de compensação. Se pelo contrário, têm muito vagar, aquilo nunca mais acaba!


Também os adeptos olham para este período de compensação com relógios muito diferentes. Se a nossa equipa está a ganhar e sob forte pressão do adversário, não há razão nenhuma para compensar o que quer que seja. Se, ao contrário, é a nossa equipa que está ali numa luta titânica contra o tempo e a precisar de alterar o resultado, o tempo de compensação terá que ser tanto quanto o necessário para isso!


É normal que os adeptos assim reajam. O que não é normal é que haja árbitros exactamente na mesma onda. Mas há!


Umas vezes estão com uma pressa danada para acabar com aquilo, e percebe-se que há ali marosca. Noutras percebe-se que tem todo o tempo do mundo, e que só acaba com aquilo quando quiserem. Há tempos de compensação que não são medidos em tempo, são medidos numa unidade antiga, dos tempos em que se jogava à bola nas ruas e os jogos não duravam minutos, duravam golos: mudava-se aos cinco e acabavam aos dez!


Não admira pois que muita coisa importante se decida nesse espaço de tempo. E nem sempre isso significa marosca, embora muitas vezes haja mesmo…


Já houve Ligas dos Campeões decididas também nesse espaço de tempo. Mas um campeonato, e mais a mais um campeonato como o inglês, disso é que não há memória!


Mas aconteceu no passado domingo. À entrada do tempo de compensação – fixado aí em cinco minutos – a parte de Manchester mais habituada a festejos estava em festa, enquanto a outra parte da cidade, que há quarenta e quatro anos não sabia o que era festa, chorava, incrédula, a ver fugir para os mesmos de sempre o campeonato que julgavam impossível escapar-lhe desta feita. Para eles, aquele era o jogo que só podia acabar depois de a sua equipa marcar os dois golos que faltavam para o ganhar. Mas, também para eles, aquele era um dos jogos que poderia prolongar-se pela tarde e noite fora, que a bola não entraria…


E, no entanto, o milagre aconteceu. Era 13 de Maio!


Desconfio que, do outro lado, poucos se terão lembrado que, uma dúzia de anos antes, um milagre idêntico lhes entregava uma Champions que o Bayern – que hoje mesmo, e mesmo com um dos árbitros mais dados à marosca, vai reclamar vingança perante outra equipa inglesa – já festejava!

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Metadados? E o Fisco, pá?

Lei dos metadados: Afinal o que se passa em Portugal?


No plano noticioso, a questão dos metadados subiu ao topo da agenda mediática. No plano institucional, ao topo das preocupações políticas. Em ambos, tarde e a más horas. Em ambos carregada de meias-verdades, e mais ainda de ambiguidade.


"À Política o que é da Política, e à Justiça o que é da Justiça", já se sabe, é coisa para uso só quando dá jeito. Só quando  "o que é da Justiça" oferece uma boa escapatória ao que é da Política... Quando não dá jeito já ninguém quer saber disso, e lá se volta ao que dá mais jeito. Se dá jeito à Política meter-se na Justiça, mete-se sem escrúpulos. E vice-versa. 


A ideia de avançar para uma revisão constitucional para resolver o imbróglio é uma das manchas que salpicou a política, deixando-a menos recomendável para consumo. A conflitualidade entre a segurança colectiva e a liberdade e a privacidade individual é o eterno desafio das sociedades democráticas. A sociedade da informação, da comunicação, e da digitalização obriga a traçar linhas vermelhas nesse desafio. Passar essas linhas vermelhas com pretextos conjunturais é sempre abrir portas que nunca se sabe onde irão levar. É deixar mãos livres, que se hoje estão limpas e escrupulosas, amanhã podem ser sujas e sem escrúpulos.


Tratando-se de um tema central nas sociedades actuais, esta discussão, nos termos em que está a ser conduzida a propósito dos metadados, deixa-me duas enormes perplexidades: a primeira é como prezamos tanto a nossa privacidade ao telefone, mas não nos importamos nada de a expor, muito mais explicitamente, e na maioria das vezes sem o mínimo de pudor, em directo nas redes sociais; a segunda é tanta preocupação com os dados das operadores de telecomunicações, que dizem onde estamos e com quem falamos, e nenhuma preocupação com os da Autoridade Fiscal, que dizem - literalmente - tudo da nossa vida.


Nas comunicações, só falamos onde e com quem quisermos. E ainda podemos escolher o que dizer. Nas redes sociais só lá está quem quiser. E só expõe a vida toda quem o quiser, seja lá por que razão for. Ao Fisco é que somos obrigados a dizer tudo. E tudo lá fica lá guardado sem prazo à vista!


Mas isso já não preocupa nada. Nem a Justiça, nem a Política!

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


“Acaba de sair numa carrinha celular. Não, afinal não era naquela. É nesta agora.


Passamos já para a casa de Duarte Lima, onde a carrinha celular vai chegar dentro de poucos minutos, com o ex-deputado lá dentro”!


Do lado de lá, uma grande dúvida: a dúvida do dia! Será que entra pela porta da frente ou pela da garagem, nas traseiras?


Nenhum problema, a dúvida não ficará por esclarecer. Quer de um lado quer do outro não faltam câmaras, microfones e máquinas fotográficas… Entre por onde entrar, não irão faltar meios para captar o grande momento: o momento em que, seis meses depois, Duarte Lima regressa a casa. Uma casa agora devidamente preparada para instalar os mecanismos de segurança da pulseira electrónica!


As câmaras apontam para toda a rua, até ao fundo, à procura de uma carrinha celular. Que não surge, deixando por minutos o país em suspenso.


Finalmente aparece lá ao fundo. Mistério desvendado, segue para a garagem. Onde uma porta de serviço se abrirá para dar entrada à vedeta do dia…


Dezenas de repórteres acotovelam-se de microfone estendido. Os operadores de câmara procuram os melhores ângulos. Todas as televisões estão em directo… Abre-se a porta da carrinha, o homem sai e as perguntas soltam-se… Interessantes, como se esperava. Diz “muito obrigado”, e quando acaba a frase já está do outro lado da porta. Que se fecha, deixando todo aquele exército de profissionais no vazio da notícia. Resta-lhes desmontar a tenda!


O costume. Deprimente, como de costume!

terça-feira, 17 de maio de 2022

Suécia e Finlândia

EUA e Canadá apoiam adesão de Finlândia e Suécia à Otan - Mundo - SBT News


A adesão da Finlândia e da Suécia à NATO, abandonando o seu estatuto de neutralidade - na Suécia já com mais de dois séculos - é mais uma consequência natural da detonação da loucura imperialista de Putin que explodiu com a invasão da Ucrânia, e o rompimento definitivo com ordem internacional até aqui estabelecida. 


Estes dois países conviveram bem com a sua neutralidade durante meio século de guerra fria, ali às portas da União Soviética, e ainda há poucas semanas as suas opiniões públicas rejeitavam esmagadoramente qualquer alinhamento com a NATO. A invasão da Ucrânia mostrou-lhes que a ameaça de Putin é bem maior que a representada pela União Soviética, e que só naquele célebre artigo 5º do Pacto da Aliança Atlântica encontram protecção e segurança. Não querem bases militares nos seus territórios, nem armas nucleares, de dissuasão ou não.


É por isso que a adesão destes dois países nórdicos, historicamente neutrais, mas não desprovidos de capacidade militar, ao contrário do que acontece noutros casos de neutralidade, é um acontecimento histórico. Especialmente pelo que representa no reforço da dimensão da natureza defensiva da NATO. Como se sabe essa natureza, sendo estatutária, era muito questionável. Absolutamente questionável pelos ditos pacifistas - que inclui verdadeiros, mas também falsos pacifistas -, mas também muitas vezes contrariada pela prática e pela História.


Trata-se de dois países com democracias maduras e opiniões públicas sólidas e robustas, que afinal estão a dizer que acreditam que lhes basta estarem integrados na NATO para que Putin afaste da cabeça "sonhos húmidos". Dificilmente se encontrarão argumentos mais fortes para sustentar a tese da natureza defensiva da Aliança. 


É também por isso que mais uma vez o PCP se "estatela ao comprido" e se "afoga" no seu esquizofrénico quadro geo-estratégico para ver neste processo uma "escalada da confrontação, uma clara expressão de submissão aos interesses dos Estados Unidos da América". Mas a isso já não há volta a dar!


 

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


O presidente do Conselho de Administração da RTP, Guilherme Costa, foi apanhado de calças na mão no notável caso da contratação de Paulo Futre.


A Direcção de Programas decidiu contratar o antigo futebolista que virou entertainer naquela inenarrável conferência de imprensa da campanha de Dias Ferreira para a presidência do Sporting. Diz-se que era para comentar o europeu de futebol na estação pública, e ofereceram-lhe, para isso, 30 mil euros por mês. Consta que qualquer coisa como o sêxtuplo do que a TVI lhe pagara para o programa que agora terminou com uma rábula de fuga (a captura do ex-craque para ir cumprir o que lhe restaria do serviço militar) bem ao nível da sua qualidade e da dos protagonistas!


Não importa agora – embora, evidentemente, importe e muito a noção de serviço público e de gestão dos dinheiros públicos desta gente que manda na RTP – se a contratação faz algum sentido. E não faz, obviamente. Desde logo porque o Paulo Futre não é comentador do que quer que seja, nem de futebol. Importa que o ministro Miguel Relvas - que não tira o olho da RTP - soube da marosca e mandou parar o baile. Com estrondo, em voz alta e grossa!


Guilherme Costa começou por dizer ao ministro e à comunicação social que não sabia de nada. De calças na mão!


Depois, passou a dizer que afinal sabia dessa intenção, mas que só por cima do seu cadáver. Que ele nunca assinaria uma coisa daquelas. E de novo de calças na mão!


Finalmente, ao que se diz, a Direcção de Programas vai levar mesmo a sua avante. Vai mesmo contratar Paulo Futre, se bem que por muito menos dinheiro. Quanto muito menos é que se não sabe!


O presidente do Conselho de Administração da televisão pública é que já não está de calças na mão. Já as deixou cair por completo!

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A cantiga é uma arma mesmo que não o parece

Grupo ucraniano vence Festival Eurovision da Canção | Exame


"A cantiga é uma arma" ... - escreveu e cantou o saudoso Zé Mário Branco. Ele próprio, e muitos outros, pelos vários cantos do mundo, já o tinham feito sentir ainda antes de ter sido escrito e cantado.


Numa das passagens menos batidas da canção, que não faz parte do refrão, o próprio Zé Mário Branco dá a receita para fazer da cantiga uma arma:


"Uma arma eficiente
Fabricada com cuidado
Deve ter um mecanismo
Bem perfeito e oleado
E o canto com uma arma
Tem que ser bem fabricado"


A Ucrânia não precisou sequer de usar a receita. Sabia-se que no actual contexto a Ucrânia ganharia sempre o Festival da Eurovisão, fosse qual fosse a canção que apresentasse. O mecanismo não era perfeito, nem bem fabricado. Nem precisava de ser...


Três meses de resistência épica à invasão russa fizeram de uma cantiga sofrível e pouco interessante, uma arma que conta. E nesta altura todas as armas contam!

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


No primeiro trimestre deste ano a economia caiu 0,1%. Menos que o esperado, e a permitir alimentar a ideia que se possa confirmar a quebra de 3% prevista pelo governo para este ano, em vez dos 3,5% previstos pela Comissão Europeia. Mesmo - quem sabe - a permitir a ideia que o fundo esteja perto e que lá estejamos a bater. Este conceito técnico de recessão garante-nos que ela alguma vez haverá de ser interrompida. Mas não nos garante que não haja mais fundo para além desse fundo. Basta ver que a queda da actividade económica neste primeiro trimestre é de 0,1% em relação ao anterior, mas já vai para perto dos 3% se comparada com o trimestre homólogo do ano anterior.


E o desemprego não pára de subir, bem para lá dos 14,5% que o governo estimava ser atingido lá para o final do ano. Já vai nos 15% e a procissão ainda agora saiu do adro!


Se alguém quiser festejar, se alguém quiser dizer que é apenas por uma escassa décima percentual que não saímos de recessão, e que o ponto de viragem está mesmo aí à mão, está apenas a vender banha da cobra. Mais que os números da recessão, pesam os números das suas consequências!

domingo, 15 de maio de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Pedro Proença é o árbitro da final da Champions.


Não há qualquer dúvida que é o árbitro mais influente de Portugal: determinante na decisão do campeonato e determinante na decisão de um dos finalistas da Taça. Mas ninguém imaginaria tanta influência na UEFA… 

sábado, 14 de maio de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


licença sem vencimento é uma das mais sólidas prorrogativas da (boa) vida portuguesa. Uma verdadeira instituição. Não reformável!


Exactamente, começo por uma impossibilidade. Reformar uma das instituições que não é mesmo reformável!


Basta ver que se fala de reformas estruturais a torto e a direito, que se corta no que o que até há bem pouco era inimaginável cortar-se. Que já ninguém ousa em falar de direitos, e muito menos dos adquiridos. Porque disso já não há!


Bom, há alguns. Mas são precisamente os daqueles que nos dizem que isso acabou…


licença sem vencimento é o instituto mor dos direitos adquiridos. As pessoas – algumas pessoas, as que nos ensinam que isso de direitos adquiridos já foi chão que deu uvas, as que nos ensinam que devemos ser todos empreendedores, que não existem dificuldades, o que há é oportunidades - escolhem, normalmente logo no início da vida, um cadeirão numa das inúmeras salas do Estado – o tal que tem que emagrecer, que não deve existir para intervir em coisa nenhuma e cujas funções têm de ser reduzidas ao mínimo, para não atrapalhar, mas sem tirar de lá esses cadeirões – e sentam-se lá. São normalmente cadeirões com boas vistas. Desses cadeirões rapidamente saltam para uma das coisas boas que a vista alcança. É legítimo: procurar o melhor é o que compete a qualquer um! Nada é mais legítimo que procurar mudar para melhor. Se bem que todas as mudanças encerrem riscos.


Toda a gente muda procurando o melhor, mas pode não o encontrar. Quantos de nós, e se calhar quantas vezes, já mudou de trabalho vindo depois a arrepender-se? Pensando erradamente que estava a mudar para melhor?


Dificilmente encontraremos alguém que possa afirmar que mudou sempre para melhor. Que nunca se arrependeu de ter saído daqui ou dali. Ou porque o novo destino não confirmou as expectativas, ou porque não se adaptou às novas condições ou até porque a antiga origem acabou por seguir rumos e projectos bem mais interessantes do que então pudera perspectivar.


É o risco da mudança. Toda a mudança tem riscos!


Bem, toda, toda também não. Aquelas pessoas de que falava acima, que têm a possibilidade de escolher aqueles cadeirões, quando fazem essas opções deixam-nos reservados. Vão embora, para uma, duas, três novas experiências, muitas vezes para toda uma vida de novas e sucessivas experiências, mas sempre com o lugar reservado no cadeirão. É a licença sem vencimento, essa extraordinária e manhosa rede só ao alcance de alguns. Que lá está sempre disponível, no Banco de Portugal, nos Ministérios, na Segurança Social, na CP, na PT, na EDP, na CGD (e mesmo na banca privada), nas Universidades, na Estradas de Portugal, sei lá… Uma lista interminável. Onde acabam por ainda acumular reformas, quantas delas verdadeiramente pornográficas.


E não se pense que este instituto serve apenas umas centenas daqueles que começam a vida precisamente nesses cadeirões. Também há dos que dele fazem uso a partir de pequenas e menos confortáveis cadeiras, partindo daí para actividades privadas alavancadas na mesma cadeira, pouco confortável mas nem por isso menos alavanca. Acabam por regressar dezenas de anos depois para agarrar a totalidade da pensão de reforma que, muitas vezes, nem sequer tem expressão nos rendimentos de que usufruem.


A importância de acabar com este instituto esgota-se no ponto final num privilégio inaceitável? Não, se bem que isso - por maioria de razão nos tempos que correm - seja decisivo no plano moral e dos princípios. Mas, para além do que representam no agravamento da despesa pública, subsistem ainda uma série de anacronismos potenciadores de incompatibilidades, de jogos de favor e até de corrupção, que tornam o próprio Estado irreformável.


É por tudo isto que a primeira reforma estrutural a implementar teria mesmo de passar por proibir as licenças sem vencimento. Simples, barato e dava milhões!


Mas também essa ficará por fazer. Sabem porquê?


Sei que alguns estão a pensar que é porque prejudica a mobilidade. Mas não é por nada disso, apesar disso até poder servir de (hipócrita) justificação. A resposta seria dada se perguntássemos a todos os que decidem, ou contribuem para a decisão política, quantos deles recorreram a esta prorrogativa.


Aposto que seriam mais de 80%! Pois é: arriscar, empreender, sair do conforto é linguagem bonita… É a velha história da pimenta e do refresco!

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Os miúdos têm mais encanto na hora da despedida


Foi um bom jogo, agradável de seguir, este de Paços de Ferreira, com que o Benfica se despediu deste campeonato, desta época de má sina e pior memória, e de Nelson Veríssimo. E uma agradável surpresa.


A surpresa começou na constituição do onze que subiu ao relvado. Nelson Veríssimo tinha anunciado que iria dar oportunidade a alguns jovens da formação. Não se esperava é que na equipa inicial, de uma assentada, entrassem logo cinco -  Tomás Araújo e Sandro Cruz, na defesa, Paulo Bernardo no meio campo, Tiago Gouveia na ala esquerda e Henrique Araújo como ponta de lança. Seis, se contarmos com Morato - mais de meia equipa. E não se esperava de todo que, nos restantes cinco, nenhum fosse um habitual titular. Na realidade nem se pode dizer que Gilberto seja o habitual lateral direito. No fim, sabe-se que é o melhor que há no plantel para a função, mas nem isso fez dele um titular absoluto.


Introduzir três miúdos da formação numa equipa de titulares, experientes e rotinados, é uma coisa. Juntar cinco miúdos entrados de novo, a cinco ou seis jogadores que passaram ao lado da época, guarda-redes incluído, é coisa nunca vista. Nem para o último jogo.


A verdade é que funcionou, e resultou numa exibição colectiva agradável e num jogo bem conseguido. E num bom punhado de boas exibições individuais. Mas não tenhamos ilusões, resultou neste jogo. Muito provavelmente não resultaria em nenhum outro, noutro contexto. Num jogo em que o Paços, ou fosse quem fosse, estivesse à procura do pontinho, fechado lá atrás e a disputar cada bola como se fosse a última, seria diferente. 


A equipa do César Peixoto quis disputar o jogo pelo jogo. Sabe tratar e trocar a bola, como bem demonstrou em alguns períodos da primeira parte, e até terá acreditado que poderia ganhar a esta espécie de equipa B do Benfica. (Que, e já que vem a propósito, desfalcou, e muito, a equipa do Benfica B que à tarde ganhara no Olival, ao Porto B, no fecho da Segunda Liga. Vi esse jogo no Porto Canal, narrado e comentado por um Miguel não sei quantos e por um tal Bernardino Barros. O Benfica B ganhou por 3 uis a 2 gooooooooolos. Isso mesmo, os dois golos dos portistas B foram berrados à boa maneira da velha rádio - goooooolo até o fôlego aguentar. Para os do Benfica B apenas "ui". Nunca foi golo, foi "ui"). E por isso houve um jogo aberto,  sem truques e com espaço para os melhores jogadores jogarem à bola. E os do Benfica, mesmo estes, são bem melhores que os do Paços, por muito bem trabalhados que estejam.


E foi um regalo ver finalmente Paulo Bernardo a jogar à bola. Encheu o campo, a mostrar ao Taarabt como se faz. Ver o Henrique Araújo a mostrar ao Yaremchuck como se joga  a ponta de lança, e se marcam golos. Ver como todos espevitaram os restantes, para que o João Mário voltasse a mostrar classe, Gil Dias e Meité a parecerem jogadores e até o Helton Leite a parecer que é guarda-redes para o Benfica. 


Os golos, ambos do Henrique Araújo, surgiram no início e no fim da primeira parte, inteiramente do Benfica na primeira metade, mas bem dividida na última. Mas, mesmo sem golos, a segunda parte foi ainda melhor. Pelo menos até á altura das substituições, que deram para as estreias de Martim Neto e Diego Moreira, e para Taarabt e Yaremchuck mostrarem que não aproveitaram muito do que Paulo Bernardo e Henrique Araújo lhes tinham dada a ver. 


Como Coimbra, na canção, os miúdos têm mais encanto na hora da despedida!


E para que acabasse bem uma época tão má, e bonito o que foi horroroso, deu ainda para os benfiquistas presentes no "Capital do Móvel" prestarem um belo tributo ao sempre nosso Nico Gaitan.


Para o ano, há mais. Esperemos que não seja do mesmo. Não vai ser, queremos acreditar!

João Rendeiro (1952-2022)

Sou um poderoso fraco″ e outras frases marcantes de Rendeiro


 


João Rendeiro foi hoje encontrado sem vida na cadeia onde estava detido, no Centro Correcional de Westville, em Durban, na África do Sul, onde aguardava uma decisão sobre o processo de extradição para Portugal.


Independentemente das circunstâncias da morte, por ora desconhecidas, não se poderá dizer que esta seja uma notícia surpreendente. Dificilmente seria outro o fim de alguém que há muito vinha cavando a sua própria sepultura.

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


 


O JP Morgan Chase, o maior banco dos Estados Unidos, perdeu no primeiro trimestre mais de dois mil milhões de dólares em novas brincadeiras com derivados. O Lehman Brothers não serviu de lição!


Simplesmente não aprendem. Ou serão como o escorpião?


O problema é que a rã morre sempre, não fica cá para contar. E os Goldman Sachs boys espalhados pelo mundo continuam a providenciar novas rãs, sempre disponíveis para os carregar às costas, rio fora até nova picada mortal…

Afinal o seleccionador nacional é só gerente do seleccionador nacional

FPF: Fernando Gomes explica as razões para a renovação de Fernando Santos -  Seleção Nacional - SAPO Desporto


 


Fernando Santos, o seleccionador nacional, tem o Fisco à perna.


Ao que consta criou uma empresa e, em vez de assinar um contrato de trabalho com a FPF, foi a empresa criada - a Femacosa - que assinou um contrato de prestação de serviços com a Federação. Quando pensávamos que Fernando Santos era o seleccionador nacional, estávamos enganados. Ele era apenas gerente da empresa, um homem de negócios, como se diz na gíria. O seleccionador era a desconhecida Femacosa.


Quando sabíamos que a vida tinha corrido ao seleccionador nacional, com os milhões do campeonato da Europa de 2016, não imaginávamos que pudesse não estar a correr assim tão bem a Fernando Santos, que afinal recebia apenas um salário mensal de 5 mil euros da sua empresa pelas suas funções de gerência. De que pagava o seu IRS, à taxa correspondente. Os milhões a sério que a FPF pagava è empresa eram tributados em IRC, à simpática taxa de 19 ou 20%. Coisas que a fiscalidade portuguesa trata sem grande margem para dúvidas no regime de transparência fiscal, e em especial numa cláusula geral antiabuso.


Daí que não surpreenda que a Administração Fiscal lhe esteja agora a exigir qualquer coisa como 4,5 milhões de euros de IRS por pagar. Como também não surpreende que Fernando Santos esteja a recorrer a advogados, daqueles pagos a peso de ouro, para fugir com o dito à seringa do Fisco. O seleccionador que não é seleccionador mas apenas gerente, é Santos, mas não é santinho. Por mais que o possa querer fazer crer. Santinho é só nos bonecos da Contra-informação. O que surpreende mesmo é o comunicado da FPF, entidade com o estatuto de utilidade pública, que acusa a Administração Fiscal de "violação grosseira do direito ao sigilo fiscal" e declara que "Fernando Santos não só não deve um único cêntimo à Autoridade Tributária, como nunca deixou de ter a sua situação regularizada nos termos da lei."


A verdade nem anda muito longe - se tudo tivesse permanecido em segredo, em "sigilo fiscal", todos estaríamos convencidos que o seleccionador era Fernando Santos e não a tal empresa, e tudo estaria regularizado nos termos da lei. O problema é o raio do sigilo. E outro ainda: é que Fernando Gomes, e a sua FPF com estatuto de utilidade pública, sabia que contratara Fernando Santos para seleccionador nacional mas que pagava à Femacosa. Que tanto quanto seja possível saber nem deve ter curso de treinador!


 


 

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Verdade desportiva é seguramente o jargão do futebolês mais utilizado nos tempos que correm. Particularmente neste final de época!


A verdade desportiva é como qualquer outra verdade. É verdade que esta verdade anda à volta uma ideia mítica de correspondência entre o desempenho puro – bacteriologicamente puro – e o resultado produzido. Mas não deixa de ser verdade que cada um tem a sua verdade!


Verdadeiramente complicado!


A verdadeira fórmula de iludir a verdade desportiva é criar várias verdades desportivas. Se cada um tem a sua veja-se bem quantas podem existir, e de como é fácil iludir a verdadeira verdade desportiva. Que nem se chega a saber qual é!


Para baralhar mais isto há ainda quem, mesmo tendo a sua verdade desportiva, trate de arranjar mais umas quantas mentiras desportivas que, claro, vai apresentar como mais umas quantas verdades desportivas. Não há verdade desportiva que resista...


Mas como se isto não bastasse há ainda verdade desportiva produzida em laboratório. Não, não é essa, a bacteriologicamente pura. É a que é produzida nos programas desportivos das televisões onde, mesmo sem bata branca, estão aqueles cientistas que representam cada uma das três marcas que dominam o mercado.


Conseguem autênticos milagres, que só os não são porque, como se sabe, a ciência – de que são os mais ilustres representantes – não tem, nem quer ter, nada a ver com milagres.


Num desses programas, um deles, anda desde a terceira jornada do campeonato a dizer que, na sua verdade desportiva, o seu Sporting tinha mais dez pontos. Não é milagre mas está lá perto: ainda só estavam disputados nove pontos e já se declarava injustiçado em dez!


Para que o programa mantenha algum equilíbrio e não desate a inflacionar o mercado  de verdades desportivas, mesmo ao lado, está outro que não se mete nessas coisas. Acha mais apropriado conviver com a verdade desportiva oficial, de preferência à mesa de um ex-líbris da boa mesa da capital!


Por outro desses programas passa um outro que também se esforçou ao longo de todo o ano por criar uma verdade desportiva. Nessa, o seu rival foi escandalosamente beneficiado em dez jogos e, eventualmente, ligeiramente prejudicado em três. Já o seu próprio clube, esse, foi sempre prejudicado, mas não é razão para se queixar…


Pois é, a verdade desportiva é uma treta. Essa é que é a verdade que afinal eles perseguem…


Mas nem por isso deixará de ser verdade que há verdades que são mentiras enormes. E essas são como o algodão: não enganam!


Validar um golo irregular nos últimos momentos de um jogo decisivo, ou transformar uma agressão a um avançado dentro da área numa falta desse mesmo atacante, num daqueles jogos em que se percebe que a bola não quer entrar. Levantar os braços e mandar seguir a dança quando o defesa abalroa – uma vez, duas vezes – o avançado contrário dentro da área, na parte final de um jogo que carimba o título. Encontrar sempre um penalti que em tempo útil desbloqueie um jogo que começa a complicar-se ou assinalar o penalti que convém quando a bola toca no ombro de um jogador que, de costas e em movimento rotativo, salta à entrada da área, e já não o assinalar quando outro deliberadamente – porque sabe que está protegido – a corta no interior da sua área. Expulsar um jogador que, depois de lhe ser assinalada um falta, deitado no chão, bate com a mão na relva, mas não expulsar outro que, a um metro da baliza, derruba por trás o adversário e o impede de fazer golo. Ou mesmo incompreensíveis quebras sucessivas de energia no estádio, para provocar idênticas sucessivas quebras de ritmo de jogo, são apenas alguns sacos dos cheios de pedacinhos de algodão…


E, já agora, será que também haverá verdade desportiva na atribuição do título de melhor marcador? Sendo, para além da definição de quem a acompanha a desgraçada União de Leiria na viagem para a Segunda Liga, a única decisão guardada para a última jornada, será que faz sentido que o Sporting - Braga seja jogado duas horas depois dos restantes jogos?


É que, se o Cardozo não tiver marcado em Setúbal, nem o Hulk feito três golos em Vila do Conde, ao Braga bastará deixar o Lima no banco para que seja ele o vencedor desse troféu!

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...