quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Aberração política

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Pode até parecer que é perseguição. Ou falta de assunto. Não é. Apenas as circunstâncias da eleição de Bolsonaro revelam cada vez mais sintomas de aberração política.


Ontem, numa participação de culto evangélico da igreja a que pertence (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), na zona norte do Rio de Janeiro, seguida por todos os jornais brasileiros, entre outras frases de circunstância Bolsonaro disse: “Não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.


Em circunstâncias que daríamos por normais, em muitos outros países, esta seria uma frase politicamente mortal. Até porque a falta de qualificação para o cargo, agravada pela falta de um programa político e pela recusa na participação em debates é, pelo menos, tão relevante quanto o enquadramento político-ideológico daquilo que fez e disse em campanha. 


No Brasil, neste contexto, não é. É simplesmente mais uma frase pensada, e dirigida aos que o elegeram, em que Bolsonaro se coloca como um deles. Não serei o mais qualificado, mas Deus protege-me e não me vai faltar com ajuda. E isto é mortal, mas, por aberração, justamente o antónimo do mortal do parágrafo anterior. 


O anúncio público - ontem, também - do convite ao juiz Moro para integrar o governo, à luz das mesmas circunstâncias que daríamos por normais em países de maturidade democrática, é um óbvio e evidente atentado aos valores democráticos, em especial do Estado de Direito, e ao princípio da separação de poderes. Nas circunstâncias da eleição de Bolsonaro, é trazer para o governo gente séria, com provas dadas na perseguição à corrupção. 


E não é menos mortal. Nem menor aberração!


 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Que fofinhos!


 


Confesso-me estarrecido com as coisas que tenho visto escritas sobre a decisão eleitoral dos brasileiros. Não me refiro à Margarida Martins, essa deixou-me chocado. Duplamente chocado -  com o soneto e com a emenda!


Nem aos que se tinham declarado apoiantes convictos de Bolsonaro, seja porque defendem o fascismo, seja porque ainda não perceberam muito bem o que andam por cá a fazer. Refiro-me àqueles que, até domingo, juravam que acima de tudo estava a necessidade e a obrigação de defender a democracia. Que, se votassem, fariam como Álvaro Cunhal fez, e aconselhou fazer, em 1986. Que entre um fascista, e um democrata nas antípodas do seu pensamento, sempre o democrata. E que se riam dos brasileiros que diziam que apeariam Bolsonaro se ele viesse a fazer o que dizia que faria.


Mas que, de repente, logo no domingo, passaram a achar que nada poderia ter sido de outra maneira. Que quem está cá deste lado do Atlântico não percebe nada do que passa do lado de lá. Que ódio é ódio, e o que o Lula e o PT fizeram não merece outra coisa. Que o povo é sábio, e nunca se engana. Que o fascismo de Bolsonaro é uma ficção da esquerda. Que a palavra liberdade foi a mais repetida no discurso de vitória. Enfim, que o "cara" não é nada do que pintam. 


Pois. Eu até estava quase a ficar convencido. O diabo é que, de repente, começaram a desfilar pelas passadeiras da minha mente as declarações de voto daquela gente no parlamento que ditou o impeachement da Dilma. Depois aquela "oração" daquele militante evangélico de mãos dadas com o presidente eleito, de mãos dadas com a sua jovem esposa.


E quando sacudia a cabeça para afastar para longe estes pensamentos caem-me os olhos no apelo da jovem deputada Ana Caroline Campagnolo, eleita pelo PSL (percebem por que o outro teve que escolher Aliança?) de Bolsonaro. Que abriu um canal de denúncias e exorta os jovens a filmar os professores inconformados com o resultado eleitoral, e a remeter-lhe esses vídeos... 


Que fofinha... Que fofinhos eles são!


 


 

domingo, 28 de outubro de 2018

Valha-lhes Deus

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Os brasileiros elegeram Jair Bolsonaro presidente do Brasil, com 55% dos votos, contra os 45 de Fernando Haddad. A diferença reduziu-se, mas não houve "virada". A primeira coisa que ouvimos do novo presidente brasileiro foi uma oração evangélica, bem puxada. A primeira coisa que me ocorreu é que, se Deus é brasileiro ... "valha-lhes Deus"!

sábado, 27 de outubro de 2018

Sem comparação


 


Poderia começar continuando com o tema do último jogo do Benfica, em Amsterdão: sorte, azar e competência. Mas também poderia começar por lembrar o jogo da época passada, na altura no Restelo. A certa altura este jogo de hoje no Jamor era uma cópia digital desse, há pouco mais de seis meses. Entrada fulgurante do Benfica, oportunidades sucessivas, umas atrás das outras, e todas desperdiçadas. Também um penalti, desta vez arrancado a ferros pelo VAR ao Artur Soares Dias. Também falhado: então por Jonas, hoje por Salvio. 


Mas vou começar por comparar este jogo com os que o Beleneses fez recentemente, também no Jamor, com o Porto e o Braga, em que os azuis, que já não são do Restelo, procuraram jogar de igual por igual com os adversários. E por lembrar que o João Félix saiu dos convocados.


Ao contrário do que se esperaria, o Belenenses entrou com o autocarro. Na primeira meia hora não tirou o autocarro da frente da baliza, e o Benfica asfixiou. Nada  que incomodasse muito os de Belém, tudo aquilo parecia previsto no plano de vôo de Silas, até porque a bola não entrava mesmo. Parecia que o Belenenses estava à espera que o Benfica se convencesse disso mesmo - que a bola nunca entraria - para desmontar o autocarro. E passar a aproveitar as ofertas generosoas que os jogadores e o treinador do Benfica tinham guardadas. 


E foi assim que o Belenenses ganhou o seu primeiro jogo em casa, perante um Benfica deprimente. Não vale de nada dizer que o guarda-redes Muriel defendeu tudo, o que valia e o que não valia, porque isso nunca é mais que circunstâncias de jogo. Nem que o segundo golo do Belenses não poderia ter sido validado, porquanto a jogada inicia-se com uma falta sobre o Pizi. Ou que um jogador do Belenenses deveria ter sido expulso ainda na primeira parte, por agressão a Rúben Dias. Vale dizer o que Benfica não fez para ganhar um jogo em que dispôs de mais de uma dúzia de oportunidades de golo. Vale dizer que Rui Vitória não sabe mexer no jogo. Que, ou joga daquela maneira, sempre naquele tom e naquele ritmo do seu futebolzinho, ou é o descalabro e pontapé para a frente. Que deixou 90 minutos em campo André Almeida e Sferovic, sem ninguém perceber para quê. Que fez a última substituição (entrada de Zivkovic, que só conta no desespero) aos 85 minutos. Que deixou de fora João Félix. Ou que não faz ideia nenhuma do que (não) vale agora Jonas...


Não estivesse Rui Vitória claramente esgotado, sem chama nem alma e, já que me lembrei de outros jogos, lembraria que, também no ano passado, este Belenenses de Silas ganhou pelos mesmos 2-0 ao Porto. Só que, assim, não há comparação. Nem por onde os benfiquistas encontrem bons prenúncios. Como se viu pela multidão que abandou o jogo ao intervalo...

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Civilização*

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Ainda mal refeito da polémica lançada pelo outro senhor no “Prós e Contras”, cada vez mais o velho lavadouro público da aldeia transportado para a televisão, que deixou o país em alvoroço com a tal coisa escandalosa das crianças não deverem ser obrigadas a dar beijos aos avós, o país voltou a entrar em ebulição com as fotografias da detenção de três suspeitos de roubos e agressões as idosos na zona norte do país, que dias antes haviam fugido em pleno tribunal.  


Claro que uma não tem nada a ver com a outra, mesmo que as acções na origem de cada uma, e as posteriores reacções, tenham, e muito, umas a ver com as outras.


A questão levantada pelo tal senhor que, dizem, é professor numa universidade da praça, até faz sentido. O problema começou logo por não ter sido posto dessa maneira. Por não ter sido levantada como questão, mas lançada com a arrogância de uma certeza absoluta e indiscutível. A partir daí… valeu tudo. Porque nas redes sociais nada se perd(e)oa, tudo se transforma ... em crueldade cega e ilimitada.


A publicação da fotografia dos fugitivos acabados de deter, poderá perceber-se à luz da óbvia humilhação da polícia na fuga. Deixar fugir gente dada por perigosa pela janela de um tribunal é das maiores humilhações por que pode passar uma polícia. E daí a tentação da ostentação na recaptura, como um troféu redentor.


Só que a Polícia não serve para isso. A Polícia não serve nem para deixar fugir presos, nem para os expor como troféus. A Polícia serve, tem de servir, para preservar e defender os valores do Estado de Direito. Ao contrário, mais uma vez, da cultura das redes sociais, onde impera a lei de Talião, de “olho por olho, dente por dente”, a mais antiga lei da história da humanidade, anterior aos esforços de milhares de anos de civilização.


Os avanços civilizacionais são o resultado de milhares de anos a contrariar e sublimar os instintos mais básicos e primitivos do homem, para que a convivência harmoniosa seja possível em comunidades cada vez mais alargadas. Em sociedade!


O valor da dignidade humana é um desses resultados, porventura o maior. E justamente o que as redes sociais mais reiteradamente atropelam, de forma muitas vezes selvática.


 


Até para a semana. Ah… já me esquecia: “se Deus quiser”. Até para a semana, se Deus quiser!


 


* A minha crónica de hoje na Cister FM

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Quinta-feira (d)e outros dias...

Passos promete dizer e juntar muitas coisas em complemento às memórias de Cavaco


 


Presente na sessão de apresentação do boletim de coscuvilhice e lavagem de roupa suja de Cavaco, Passos Coelho, que considerou tratar-se de uma “contribuição muitíssimo relevante para o entendimento dos tempos da ‘troika’, prometeu dizer e juntar-lhe muitas coisas no livro que, também ele, está a escrever


Chama-se a isto ter uma vaga ideia de técnicas de marketing. O suspense, determinante na arte da escrita de ficção, está criado. Nunca se sabe se o que tem para dizer acrescenta ao entendimento dos tempos da troika, se há coscuvilhice, ao voyeurismo e às adjectivações baratas de Cavaco. Ou - sabe-se lá? - se, num golpe de arrojo, o que tem para dizer não é uma resposta de manual à de falta de experiência que generosamente Cavaco lhe aponta...


  

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Às vezes, as coisas têm que ficar claras...

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Não é só Trump que está a fazer equilibrismo com o assassinato de Khashoggi, o jornalista saudita esquartejado e morto (a ordem parece que é justamente esta, e os restos mortais do jornalista terão já sido encontrados nos jardins da residência do cônsul) no consulado da Arábia Saudita em Istambul. Em França e em Inglaterra não estão a fazer muito melhor, e só Angela Merkel - mais uma vez - parece capaz de uma posição firme e erecta, sem condicionar os princípios aos interesses. Do negócio das armas, que é o que, evidentemente, está em causa.


Mas em nenhum país a coisa ficou tão clara como em Espanha, o único, até ao momento, que levou ao Parlamento o embargo à venda de armas ao regime despótico e medieval de Riade. E aí, na hora da verdade, PP e PSOE, com a abstenção do Ciudadanos, chumbaram a proposta.


Às vezes, as coisas têm que ficar claras...

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A sorte da competência e do azar


 


Diz-se que no futebol não há sorte nem azar, há competência ou falta dela. Hoje, em Amsterdão, no último lance do jogo, o Benfica pode ter acrescentado qualquer coisa a essa ideia feita. 


Hoje ao Benfica faltou sorte quando lhe faltou competência, e nem se pode dizer que a sorte que lhe faltou foi a que acompanha os audazes. Creio que o Benfica foi suficentemente audaz para mercer a sorte que os protege. Não foi por aí, por falta de audácia, porque a Rui Vitória não falta só audácia. Nem sorte.


Faltou evidentemente competência ao Conti quando falhou desastradamente aquele corte mesmo no fim do jogo. A competência que teve quando, antes, tirou aquela bola de dentro da baliza. Com a sorte de lhe ter pegado escassos milímetros antes dela passar na totalidade a linha de golo. A sorte que lhe faltou quando, pelos mesmos escassos milímetros, não acertou naquela bola, tão fácil de cortar. 


Já a competência do Ajax mereceu três doses de sorte: a sorte do azar do Conti, mais a sorte do azar do André Almeida, que depois ainda interceptou a bola, mas direitinha para um adversário e, por último, a sorte do azar do Grimaldo, que se opôs ao remate, mas só para desviar a bola para o caminho da baliza.


Pois é. Isso da sorte e do azar... tem muito que se lhe diga. Aos oitavos da Champions é que o Benfica já ficou com pouco para dizer! 

Humor negro


 


O jornalista saudita Jamal Khashoggi entrou no consulado do seu país em Istambul, no passado dia 2, para tratar de documentação para o casamento. Lá fora, no carro, a noiva ficou à espera que ele regressasse com os papéis. 


Esperou, esperou três horas... Nunca mais saiu, nem nunca mais ninguém o viu. Diz-se que foi cortado às postas. Com um moto-serra, e ainda vivo.


Tendo qualquer cidadão o seu consulado pelo lugar mais seguro do planeta, não pode haver dúvidas: casar continua a ser negócio perigoso!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O "artista"

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Aí está de novo Cavaco, em nova prova de vida, agora com o segundo volume, e último capítulo, das suas memórias - “Quinta-feira e Outros Dias”. Não vindo daí nada de bom, daí não viria também grande mal ao mundo. O diabo - ele existe, nem que esteja apenas nos pormenores - é que, com este segundo volume, dá por concluída, nas suas próprias palavras, a prestação de contas aos portugueses.


Sendo tudo tão estranho em Cavaco, já ninguém estranha esta sua estranha maneira de prestar contas. Para Cavaco, prestar contas é apontar o dedo aos outros. Cavaco não presta contas de nada do que deve, apresenta as contas do que acha ele que os outros devem. Das suas contas, nada... E daquelas que ele sabe que nós sabemos que ele sabe, menos ainda que nada... 


Um artista, este Cavaco... Ao pé dele, Costa, o verdadeiro artista na ponta do seu dedo, não passa de um simples aprendiz. Com melhor feitio, evidentemente...


 

As fake news portuguesas


 


É mais ou menos do domínio público que nos resultados do referendo que ditaram o Brexit foi grande a influência das fake news. É conhecido que Donald Trump foi eleito através de uma campanha toda ela assente em fake news. E que na campanha que está a levar Bolsonaro à presidência do Brasil, as fake news terão provavelmente atingido dimensão e consequências nunca antes alcançadas. É de tal forma que o candidato não precisa de apresentar uma única ideia sobre um único tema,  que na verdade não tem, e recusa-se a participar em qualquer debate, na assunção óbvia que o que quer diga só atrapalha o "bom trabalho" da campanha negra levada a cabo nas redes socais.


Chegaram até notícias, através de uma reportagem de uma reputada jornalista da Folha de S. Paulo - Patrícia Campos Mello - que  um grupo de empressários teria investido mais umas dezenas de milhões de reais para um novo e deciso ataque de fake news para esta última semana, antes das eleições do próximo domingo. Chegaram também notícias de queixa ao Supremo Tribunal, que poderia afastar Bolsonaro da votação de domingo, porquanto a compra desses serviços configura uma doação não declarada para a campanha, o que é de todo ilegal no Brasil.


Por cá, há muito que chocamos com fake news por todo o lado. Especialmente, claro está, naquele que é o seu habitat natural, nos esgotos das redes sociais, que nem ratos, onde é surpreendente a forma como se multiplicam através de milhares de partilhas e comentários. Muitas vezes acabamos surpreendidos ao encontrarmos nessas partilhas e nesses comentários gente que nunca julgaríamos possível ver entrar naquele barco. Mas, é a vida...


O Diário de Notícias foi investigar donde vêm as fake news nacionais, e publicou ontem um trabalho notável. Ficamos por exemplo a saber que vêm do Canadá, e que, muitas vezes, uma mesma notícia serve para vários destinos, alterando-lhe apenas os nomes e as fotografias.


 


 


 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Tema(s) da semana*

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A passagem da semana anterior para esta foi verdadeiramente vertiginosa. Alucinante!


Começou com a demissão do ministro da defesa, por causa de Tancos. De que, quanto mais se sabe, mais sabemos que falta saber, e mais desconfiamos que vai acabar mal. Com a demissão do ministro, e agora com a do Chefe do Estado-maior do Exército, nada acabou nem nada se esclareceu, e é grande a probabilidade de estarmos perante um sério problema de regime.


Logo a seguir veio o furacão Leslie, com os primeiros estragos a acabarem por acontecer nas televisões, com imagens degradantes de um jornalismo desesperado, à espera de bater no fundo. Insuficientes no entanto para esconder os empurrões do Bloco e do PCP, acotovelando-se para ver quem se chegava à frente para apresentar primeiro a sua medidazinha no Orçamento que aí haveria de vir. Não bastava que se tivessem colocado em posição de terem de se contentar com umas migalhazitas, foi ainda preciso prestarem-se a esta triste representação, talvez a mais deprimente imagem da geringonça, a fazer finalmente jus ao nome que Vasco Pulido Valente lhe deu.


De seguida, e sem pausa para um café que fosse, apanhamos com a remodelação do governo, logo engolida pela entrega do Orçamento. À maneira antiga, como manda a tradição, à última da hora e com muito aparato, muitos carros, muitos jornalistas, muitas câmaras, muitas máquinas fotográficas e … uma pen, essa relíquia de museu transformada em estrela da noite, posando envergonhadamente para as câmaras no alto do braço erguido da segunda figura do Estado.


Finalmente uma pausa, um bocadinho para olhar para o Orçamento…


Pura ilusão. O alto da actualidade era já dominado pela maior inquietação dos jornalistas. E de repente o problema principal da República, que já rasgava o país a meio, era o de confirmar que o orçamento era eleitoralista. Era já só o que faltava…


Valeu-nos - como sempre, o que seria de nós sem ele? - o Presidente da República. Rapidamente sossegou os jornalistas, e tranquilizou o país: “não é um orçamento eleitoralista, mas pode estar contaminado pelo clima eleitoral”.


Ainda bem. Ainda bem que é só isso. Com contaminações sabemos nós lidar…


Com algoritmos é que não!


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM


 

Mitos e fantasmas

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Mais do que um país dado a mitos, somos um país marcado por mitos. Os mitos são como as fadas: há os bons e os maus, como nos revela a nossa História. Camões mostrou-nos o melhor dos nossos mitos - o Adamastor. Um mito desafiador, que despertou o que de melhor temos escondido para nos lançar no mais empreendedor dos feitos históricos da humanidade. Ironicamente, pouco depois da sua morte, surgia o pior dos nossos mitos - o sebastianismo - nas antípodas, a puxar-nos para baixo, virados para trás.


O juiz Carlos Alexandre é provavelmente um dos nossos mais recentes mitos. Rapidamente se instalou a ideia que seria o nosso Baltasar Garzon, ou o nosso Giovane Falconi, o único magistrado capaz de enfrentar os poderosos e o crime de alto nível. Foi até criada uma página do facebook de "apoio ao juiz Carlos Alexandre". Se o título não enganasse, seria uma vaga de fundo, como se todo um país se transformasse na sua claque de apoio. Como o título engana, é apenas uma página de fake news, pejada do mais abjecto populismo.


Ontem, numa coisa que não é uma entrevista nem se sabe bem o que é, que passou na RTP, o Sr Juiz voltou a mostrar pés de barro. Pode até ter granjeado mais umas centenas de apoiantes para essa página do facebook, mas cavou mais uns metros na sepultura da transparência, da credibilidade e até da dignidade. Da sua própria, mas também do sistema judiciário que integra.


Só não matou o mito, porque o mito virou fantasma. E esses não se conseguem matar...


 


 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Ainda vai a ministro...

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Fica hoje concluída a remodelação do governo, com a tomada de posse de quinze secretários de Estado. Entre eles, João Galamba, a estrela da companhia, com a pasta da energia. Mesmo quando a companhia inclui Raquel Duarte Bessa, na Saúde, que recentemente se demitiu do Hospital de Gaia, em protesto contra a falta de condições no SNS. Ou João Correia Neves, na Economia, que foi chefe de gabinete de Manuel Pinho, quando este por lá passou em part-time, no governo de Sócrates, dividido entre o ministério, a EDP e Ricardo Salgado, como agora se sabe.


Vir-lhe-á o estrelato da pasta da energia?


Provavelmente, não. Estrela rima com energia, como se sabe, ou não fossem justamente as estrelas as mais poderosas fontes de energia. Mas, em Portugal, energia quer simplesmente dizer EDP, China Tree Gorges e, agora também, Paul Singer, especulador americano da Elliott Management Corporation, acabado de chegar e de se tornar no 2º patrão da energia em Portugal... E rendas e cmecs...


E tanto quanto se sabe, Galamba não percebe muito disso.


Arriscaria que a sua fama vem de trás. E que, se calhar, tem a ver com a sua exposição na máquina da propaganda de Sócrates, circunstância que depressa o transformou num belo exemplar daquilo a que alguns gostam de chamar tralha socialista. Que depois reforçou quando o renegou que nem Pedro, e sem que o galo cantasse.


Ainda vai a ministro. E não faltará muito!


 


 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A tradição ainda é o que era!

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A escassos minutos das doze badaladas que põem fim a este dia 15 de Outubro, que a Constituição estabelece como data limite para a entrega da Proposta de Orçamento, uma série de belos carros, de alta cilindrada, como se diz, acompanhados de batedores, partiu do Terreiro do Paço em direcção a S. Bento. 


Escassos minutos depois, sob o testemunho de dezenas de repórteres, fotógrafos e operadores de câmaras de filmar, aí entrava a equipa das finanças, liderada por Mário Centeno. Outros escasos minutos depois, o ministro das finanças retira uma pen de um envelope, e entrega-a ao Presidente da Asembleia da República que, de seguida, a ergue aos presentes e às câmaras, como se de um troféu se tratasse. E como se o cumprimento do prazo constitucional fosse uma vitória suadíssima, no fim de um jogo emocionante e de resultado incerto.


Podia bastar um simples mail, com um pedido de confirmação de entrega. Podia, mas não era a mesma coisa. A tradição ainda é o que era. E continuará a ser!

As voltas da remodelação

 


 


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Não faço ideia se António Costa quis aproveitar o Leslie para tão grande grande remodelação no governo. Nem se os ministros deitados fora pela madrugada, já coheciam do seu destino ao fim da noite por que se prolongou o sábado de trabalho nos últimos retoques no Orçamento. O que sei é que o primeiro-ministro é especialista em dar a volta às coisas, faz isso bem, mesmo que nem sempre depressa. Mas isso, depressa e bem...


O ministro da economia não se soltava, mantinha-se preso, acanhado. Do da cultura, nem falar... O da saúde estava de rastos, e o da defesa já tinha ido, pelo seu próprio pé. Antecipando-se ele próprio, e obrigando também António Costa a antecipar-se... 


O Bloco e o PC andavam numa roda viva a dar notícias do orçamento. As suas notícias... As notícias das sua pequenas vitórias: livros gratuitos até ao 12º ano, dizia um, num dia; redução das propinas, dizia o outro, noutro. Ao aumento extraordinário das pensões, respondia o outro com a despenalização da antecipação das reformas nas carreiras contributivas com 40 anos. E por aí fora...


Era mais ou menos neste pé que as coisas estavam, quando se anunciava que o Leslie entraria por Lisboa e levaria tudo à frente. Nada melhor que remodelar o governo, e ... não se fala mais nisso - terá António Costa pensado. E nada melhor que reforçar o seu círculo mais apertado, porque o que aí vêm eleições, umas atrás das outras. Nem que para isso tenha de mexer na própria orgânica do governo: se Pedro Siza Vieira, agora também na economia, tem alguns conflitos de interesses com o sector energético - leia-se EDP e China Three Gorges - nada como passar a energia para a tutela do ambiente. 


Tudo sem uma palavra aos parceiros de geringonça. Bem feito! Pelos vistos, não podem saber de nada...

domingo, 14 de outubro de 2018

Sentido de decência

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António Bagão Félix diz que o aumento de pensões "é uma medida claramente eleitoralista". É capaz até de ter razão. Mas fico sempre impressionado quando pensionistas de luxo se referem às pensões dos outros.


Não é por feitio ... É por prezar o sentido de decência. Impressiona-me mais ainda quando o pudor falta a pessoas que até tenho por decentes!

Se em equipa que ganha não se mexe...

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... António Costa disse, inesperadamente, a um ano do fim do jogo, que não estava a ganhar. Quatro, que são cinco, é muita substiuição. É muita mexida para quem acreditasse que estava a ganhar... Parece que, afinal, o Leslie passou mesmo por Lisboa!

Drama, horror, tragédia...

 


 


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Foi devastadora a passagem do Leslie pelas televisões portuguesas, deixando atrás de si um rasto de destruição, com prejuízos incalculáveis e danos irrecuperáveis no jornalismo que se faz na televisão, em Portugal.


Tanto quanto se conseguiu apurar os prejuízos não estão cobertos pelo seguro, o que só faz aumentar a tragédia. Um mal nunca vem só!


Ou não tivesse sido dado ao furacão ... nome de estrela de televisão ...

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Tema da semana*

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Normalmente não se repete numa semana o tema da anterior. Mas não é assim tão raro que uma notícia permaneça na ordem do dia durante mais que uma simples semana, como inevitavelmente teria de acontecer com a acusação que caiu que nem um raio sobre Ronaldo. 


Na semana passada abordei o contexto. Nunca me referi ao que teria acontecido, porque disso não faço a mínima ideia, nem sequer ao que era dito que tinha acontecido, na altura apenas com a versão publicada pelo jornal alemão Der Spiegel.


Referi-me, apenas e só, à forma como o movimento me too exponenciava as dificuldades para Cristiano Ronaldo na situação que acabava de vir a público, e as consequências que potenciava.


Hoje são já conhecidos dados da defesa de Cristiano Ronaldo, bem construída pelo que vai percebendo – nem outra coisa seria de esperar -, e que tem já em vista - e bem - limitar os danos de reputação. Ou seja, começam agora a ser conhecidos dados, informação - que nunca factos, bem entendido - para que se comece a construir opinião com alguma sustentação.


No entanto, o que vimos foi que não foi preciso esses dados, nem outros quaisquer, para que a semana fosse dominada pelo debate à volta de Cristiano Ronaldo, com a opinião pública a dividir-se rapidamente pelas duas partes em confronto.


Digamos que esta contenda se disputou em dois campeonatos. Um, que poderia chamar-se de segunda divisão, dominado pelos preconceitos mais básicos (“ela estava á espera de quê, quando subiu ao quarto?”; “acabou-se o dinheiro, e agora quer mais”, e outras do género), e outro, que poderíamos chamar-lhe de primeira divisão, com preconceitos politicamente correctos.


No campeonato da segunda divisão, Cristiano Ronaldo não ganhou de cabazada, ganhou por falta de comparência. Era o herói nacional, e no herói nacional ninguém toca. Sem competição, não teve grande interesse, como sempre acontece nos campeonatos pouco competitivos.


No da primeira divisão as coisas passaram-se de forma diferente. Foi um campeonato maioritariamente feminino, e não faltou competição, muitas vezes mesmo dentro das próprias equipas. E foi bonito de ver como tantas barricadas foram levantadas e com se puseram em lados opostos pessoas que sempre estiveram do mesmo lado, com evidentes fracturas no campo da causa da condição feminina.


No fim, é isto: a crítica simples, imediata e que não precisa de factos, ou mesmo os despreza, acaba sempre a extremar posições à volta de preconceitos. Acaba sempre num conflito que nunca é de ideias, num confronto que, em vez de opor quem concorda e quem discorda, opõe os que atacam aos que defendem o que quer que seja!


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM


 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Coisas extraordinárias

Reprodução


 


Pelo que se vai vendo, inclusivamente pelo próprio papel da juventude na candidatura de Balsonaro, já nada nos pode surpreender no caminho para o inferno que o Brasil está a escolher. Mas, confesso, nunca me passaria pela cabeça encontrar peregrinos desse caminho num concerto de Roger Waters. Nunca os imaginaria "no público" do fundador dos Pink Floyd!


Já perto do fim do concerto de terça-feira, em S. Paulo, Roger Waters, de quem se não esperaria outra coisa, associou-se à contestação mundial àquilo que Bolsonaro representa, exibindo na tela "Ele Não". Contam os jornais que a reacção foi imediata, e que quase todas as 40 mil pessoas que no Estádio assistiam ao concerto explodiram em insultos e vaias, impedindo mesmo o músico de falar com sobreposição de gritos ensurdecedores...


Ontem, no segundo concerto, Rogers Waters subiu a parada e foi mais acutilante com Bolsonaro e seus inspiradores pelo mundo fora, e a reacção do público não foi diferente.


Inacreditável!


 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O prefácio

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Foi ontem apresentado (por Marques Mendes) no (meu) ISEG um livro de Eduardo Catroga: "Gestão, Política e Economia - Vivências e Reflexões". É uma espécie de "Memórias" de um dos mais proeminentes exemplares da fauna giratória do centrão que tem dominado a vida política do país nas últimas décadas, que assumiu especial protagonismo no processo de instalação da troika, em 2011. Terá por isso os seus pontos de interesse, nem que seja por razões voyeuristas, se  outras não houver. Mas eu fico-me pelo prefácio.


E...o prefácio é de quem? 


Acertaram. De Cavaco Silva, quem mais poderia ser? 


E, tendo sido escrito por Cavaco, quem é a estrela do prefácio?


Acertaram de novo: o próprio Cavaco, como não poderia deixar de ser...


Obcecado com a irrelevância a que se conduziu, Cavaco não perde a mínima oportunidade para se pôr em bicos de pés. Na improvável hipótese de Dias Loureiro vir a publicar as suas "memórias", o provável prefácio de Cavaco seria apenas mais uma oportunidade que não desperdiçaria.


Desconfio que Cavaco desconfia dos historiadores, e quer ele próprio deixar escrita a sua História. Ou pelo menos o prefácio...


 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Ainda não é desta...

capa Jornal i


 


O PSD foi sempre, desde o originário PPD de 74, um partido onde coube tudo, uma espécie de saco de gatos. Lá se incluíam social-democratas, liberais, democratas-cristãos, para além de muita gente sem qualquer ideologia definida, que para lá foi e por lá ficou porque ... sim. E de muita gente alinhada com o antigo regime, de extrema-direita, por convicção ideológica ou por um certo saudosismo mais ou menos bacoco.


Não é fácil gerir um partido com sensibilidades tão divergentes. É possível porque é, e sempre foi, um partido de poder. Ou está no poder ou a sentir-lhe o cheiro, e isso faz o cimento que o segura.


Neste momento, o PSD não está no poder e, no fim da legislatura, não lhe cheira a poder. E, claro, as dificuldades em segurar o partido aumentam, como Rui Rio não deixa diariamente de sentir.


Santana Lopes, um histórico da direita, conservador nos valores e liberal na economia, saltou fora, e criou a Aliança. Não sei se levou muita gente consigo, e até parece que não, mas deixou lá muita gente que, vê-se pelas redes sociais, não lhe escondem o apoio. Agora é um tal de André Ventura, um produto televisivo do Correio da Manha (sem til), um populista de extrema direita que se baba com Jair Bolsonaro, que aproveitou o sucesso eleitoral do fascista brasileiro para anunciar o "Chega", um partido que, pegando no mais elementar cardápio do poulismo. apresenta como bandeiras a "prisão perpétua para homicidas e violadores", a "castração química para pedófilos", a "proibição constitucional da eutanásia" e a "proibição do casamento homossexual". Chega - chega-lhenão é preciso mais!


Não levará também muita gente, e bem menos certamente que o opositor de Rui Rio na última disputa partidária, mas, pelo que também se tem visto nas redes sociais no apoio ao brasileiro, deixa lá também muita gente.


Daí que me pareça que ainda não seja desta, à enésima purga, que o PSD deixe de ser o saco de gatos que sempre foi!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Brasil ou .. Mas... (parte II)

Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que disputam o segundo turno das eleições presidenciais


 


Bolsonaro está à porta do Palácio do Planalto, mas poderá não ser uma formalidade o que falta para que se lhe abra, daqui a três semanas. Chegou até a parecer que teria entrada directa, que tudo ficaria ontem resolvido, logo na primeira volta. Não ficou, e os 46% de votos que atingiu não são, hoje, mais que um copo meio cheio. E a direita portuguesa do "mas", que aqui trouxe há dias, voltou a fazer-se ouvir. Mais hipocritamente, agora que os resultados são conhecidos.


Que Bolsonaro é um fascista - gostam mais de dizer extrema-direita radical -  mas... Que a quase eleição à primeira volta de um candidato de extrema-direita radical mostra que o povo brasileiro está disposto a trocar a liberdade pela segurança. Mas ... ou porque, a verdade é que a insegurança no Brasil atingiu o extremo, e os brasileiros acreditam que só Bolsonaro pode resolver isso.


Sobre os gigantescos interesses da indústria da segurança no Brasil é que nem uma palavra. Sobre o lóbi da segurança, dos carros blindados às armas, é que nada. E sobre de que lado está Bolsonaro nesta "guerra" da segurança, menos ainda... E, da tal troca  a liberdade pela segurança, não vem qualquer mas  para as redes sociais, e a sua manipulação organizada. Nem  para as seitas religiosas. Nem para o bispo Edir Macedo e para a IURD...


 


 

domingo, 7 de outubro de 2018

Reconquista - agora sim, faz todo o sentido!


 


Com esta alma e com este coração, reconquista é muito mais que um mero slogan motivacional. É um estado de alma, uma crença inquebrável. É a chama imensa que nos guia!


Comecei pelo fim, por onde podia terminar, mas é isto, este sentimento, o que mais se tira deste clássico, com a Catedral esgotada, ao rubro. 


Pela intensidade, pelas incidências, e até, aqui e ali pelo bom futebol, este foi um jogo que não defraudou as expectativas de um grande clássico. No entanto começou morno, e mais morno ainda pela parte do Benfica. Que nos primeiros dez minutos não se conseguiu superiorizar ao Porto, permitindo-lhe adquirir alguma confiança. Depois sim, aos poucos o Benfica foi-se superiorizando, mas sem daí tirar grandes dividendos.


Foi assim a primeira parte, com um bocadinho mais de Benfica. Mas a nota mais saliente deste período foi a epidemia de impunidade que tomou conta da equipa do Porto. Depois dos clássicos Felipe e Maxi Pereira, chegou a vez de Octávio. Fez tudo, sempre com impunidade absoluta. De tal forma que, quando no início da segunda parte viu finalmente o cartão amarelo, o Sérgio Conceição teve de o tirar do jogo.


O árbitro - desta vez, finalmente, não veio do Porto, mas o penichense Fábio Veríssimo não fez diferente - foi lesto a mostrar o amarelo a Grimaldo, na primeira oportunidade fez o mesmo a Lema, mas nunca usou do mesmo critério com os jogadores do Porto. Limitou-se a Casillas, que desde muito cedo mostrou que, para além de defender a sua baliza, como lhe competia, estava ali para queimar todo o tempo que o árbitro lhe permitisse. Teve, por isso, muita influência no jogo, mais ainda quando expulsou o central Lema (grande estreia, a mostrar que é bem melhor que o seu compatriota que tem sido a opção de Rui Vitória, e que nem falta cometeu) e quando, pouco depois, nem sequer assinalou falta numa entrada do Herrera, de sola, sobre o Rafa. Só porque - e não ser outra a conclusão - se o fizesse, teria de lhe mostrar o amarelo, que seria o segundo. Nunca usou de critério igual, fosse na punição técnica das faltas fosse na desciplinar. Nos últimos minutos do jogo sucederam-se as faltas atacantes na grande área do Benfica, sem que uma sequer fosse assinalada.


Nenhuma novidade, portanto, quando, no fim, Sérgio Conceição elogiou o trabalho do árbitro. Nenhuma novidade também na omissão do VAR. Tão comum como a expulsão de centrais do Benfica - três, em três jogos consecutivos - é os lances que prejudicam o Benfica estarem fora do protocolo do VAR. Aí está: o Lema foi expulso, mas ... por amarelo.


Arbitragem à parte, na segunda parte o jogo tornou-se mais vivo, mais intenso e bem melhor. Muito por acção do Benfica, que melhorou bastante e partiu à procura do golo e que, mesmo sem ter conseguido muitas oportunidades para isso, fez o suficiente para lá chegar. Por Seferovic, que desta vez não falhou. Aos 62 minutos o Estádio da Luz veio abaixo!


Ao contrário do que se poderia esperar, o Benfica não tirou o pé de cima do jogo. O segredo foi continuar a disputar cada lance como têm de ser discutidos, nunca ficando nada a dever àquilo que, nesse aspecto, são dados como atributos do Porto. Com o mesmo querer, e com o mesmo crer, os jogadores do Benfica foram, depois, sempre melhores.


Quando, com menos um, nos últimos 12 minutos, foi preciso, o Benfica uniu-se à volta de Rúben Dias, um grande campeão, e o grande capitão. A partir de hoje a braçadeira tem dono, entreguem-na quando quiserem. É ele o sucessor de Luisão!


E pronto, o Rui Vitória matou o borrego. Já não tem razão para acreditar em bruxas, e tem agora tudo para partir de peito feito para a reconquista!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tema da semana*

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Cristiano Ronaldo é possivelmente o maior desportista português de todos os tempos, é certamente o mais mediático de sempre, é seguramente o português mais conhecido no mundo, e é uma das maiores marcas mundiais.


Tive a primeira noção da dimensão comercial de Cristiano Ronaldo há mais de uma dúzia de anos quando, na Primavera de 2006, em Paris, me deparei com os Campos Elísios literalmente forrados com a sua imagem. Loja sim, loja também, das mais diversas e das mais prestigiadas marcas mundiais. Assim mesmo, no mais emblemático centro comercial de uma das mais cosmopolitas capitais do mundo. E com 21 anos, acabados de fazer…


Nos doze anos que se seguiram tornou-se numa lenda mundial, num caso único de performance desportiva, num fenómeno de imbatível popularidade. A uma carreira de sucesso ao mais alto nível, Cristiano Ronaldo juntou uma gestão de excelência da sua imagem pública, tornando-se num ícone planetário.


O primeiro revés surgiu há pouco mais de um ano, com a acusação de um conjunto de crimes fiscais, que acabariam por lhe custar umas duas dezenas de milhões de euros, e por levá-lo a abandonar Madrid. Mas nada de irremediável: a Juventus recebeu-o em Turim de braços abertos, os milhões não são problema e, não sendo hoje em dia motivo de orgulho, as faltas fiscais também não são uma nódoa que nunca mais saia. E não passava pela cabeça de ninguém responsabilizar moralmente Cristiano Ronaldo por um pecado fiscal. De fiscalidade têm de perceber os seus assessores, ao que sabe principescamente pagos.


O que agora por aí corre – que, estranhamente, os media nacionais fizeram por ignorar, pegando-lhe apenas quando o seu silêncio já era ensurdecedor – tem outra dimensão. É outra coisa. O movimento “me too” tornou-se num furacão incontrolável, pronto a engolir Cristiano Ronaldo e capaz de acabar com uma carreira, com uma marca planetária e com uma lenda histórica!


Ache-se o que se achar deste terramoto com epicentro em Los Angeles, a verdade é que o fabuloso mundo das grandes estrelas do “show bizz” passou a dividir-se em duas eras: antes, e depois do “me too”.


* A minha crónica de hoje na Cister FM

Festa é festa

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A renovação com Paddy Cosgrave, por mais 10 anos, foi anunciada como uma contratação de ... Bem, desse ... agora não. Mas foi assim uma coisa parecida, com Fernando Medina aos pulos, com gritos de "ganhámos, ganhámos, ganhámos"... E António Costa agradecido por poder confundir as oportunidades da Web Summit com as oportunidades do país.


Portugal é, por mais dez anos, o país da Web Summit. Se não chover... E o Panteão aguentar.


 


 

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Manha não é pragmatismo

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Ao anunciar, ainda na entrevista à TVI de anteontem, que prefere aumentar os salários mais baixos da função pública, mantendo os restantes (eufemisticamente, os mais altos), o primeiro-ministro não revela apenas a sua manha. Revela também a sua falta de princípios, e a "casa de papel" de que é feita a sua consciência política.


António Costa é manhoso, todos já reparamos. E, por ser manhoso, diz que prefere aumentar em 35 euros os salários mais baixos, que aumentar todos em 5 euros. Antes, com a mesma manha, já tinha dito que, desta vez, a revisão salarial na função pública não seria estabelecida em bases percentuais, mas em valores absolutos.


O salário é, e terá sempre de ser à luz da dignidade dos cidadãos e da organização da sociedade, um valor sagrado. É aquilo por que cada um vende o seu trabalho. No plano dos princípios, o trabalho é o que de melhor cada um tem para oferecer à sociedade, e o salário o reconhecimento por esse trabalho, sabendo-se que o reconhecimento é, a seguir às necessidades primárias de sobrevivência, a mais básica necessidade humana. 


António Costa, em nome do que gostam de chamar pragmatismo político, mas que não é mais que manha em estado puro, ignora estes princípios, e coloca tudo no saco da redistribuição de rendimento, como se de um saco de esmolas se tratasse.


Mas - é assim - um manhoso não tem princípios. Só tem manha!


 

Sem palavras...


 


Não há palavras para este jogo do Benfica, em Atenas, com o AEK. Desde logo porque no final estávamos todos sem fôlego para o que quer que fosse, sem pingo de sangue para articular qualquer movimento, sem palavras...


Mas também porque, por mais que procuremos, não há palavras para descrever a volta de 180 graus da exibição do Benfica, que passou do dia cheio de sol para uma noite escura, de um negro impenetrável.


No primeiro quarto de hora o Benfica asfixiou a equipa grega, criou quatro grandes oportunidades de golo e marcou por duas vezes. Não entrou logo na penumbra, prolongou por mais quinze a vinte minutos a qualidade do seu futebol, com o controlo absoluto do jogo. A partir daí, nos últimos dez minutos da primeira parte, começou a cair a pique. A ponto de, não fosse já então o acerto do seu guarda-redes, poder ter mesmo perdido a vantagem, ainda antes do intervalo. A expulsão de Rúben Dias, já depois de esgotados os três minutos de compensação, e que não foi mais que a consequência de descalabro que já tinha tomado conta da equipa, adensou o negro do cenário para a segunda parte.


Com dez, e com dois centrais que praticamente ainda não tinham jogado esta época, era preciso muito treinador ao intervalo. E, mais uma vez, viu-se que ... não há!


A segunda parte foi um pesadelo, com a equipa grega sempre a fazer a mesma jogada, pela direita, e sempre a criar perigo. E a marcar. Sempre sem que o André Almeida tenha percebido o que lhe estava a acontecer. Tal como o Benfica na primeira parte, o AEK marcou dois golos ainda no primeiro quarto de hora. Depois, só não fez mais, porque o Odysseas continuou soberbo, com defesas do outro mundo.


Estava o jogo nisto, com a equipa do Benfica encher-nos de vergonha, e todos a lembrarmo-nos de Basileia, há um ano, quando o Alfa Semedo, na sequência do canto que resultou da maior de todas grandes defesas do Odysseas, à entrada do último quarto de hora, foi por ali fora e fez um golo á Éder.


Depois, foi sofrer até ao fim, para segurar uma vitória que, se por volta das oito e um quarto da noite só podia ser de goleada, uma hora mais tarde só podia ser devaneio.


No fim, este jogo, mas também esta jornada do grupo, pelo que se viu que o Ajax fez em Munique (o empate a 1 golo foi claramente lisongeiro para o Bayern), confirmou que Rui Vitória, por muito respeito que lhe tenhamos, esgotou-se. Não consegue já ter mais nada para dar...

A música de Costa e la chanson

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No dia que Charles Aznavour escolheu para partir, o primeiro ministro disse-nos que neste ménage à trois são ... apenas amigos. É apenas ... "La bohéme". "Il faut savoir" que ... Catarina Martins, "She"... pode tirar o cavalinho da chuva....


"Et pourtant", se nem a mudança de hora muda, e mesmo sem "Mourir d´aimer", não há por que mudar de geringonça.


"For me, Formidable"!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Mas...

 


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As elites da direita portuguesa politicamente correcta assumem-se sempre muito democráticas. Demarcam-se de Trump, de Orban ou de Matteo Salvini ... mas ... sempre com um "mas". 


Eles são nacionalistas.. ...mas a economia cresce. Eles são xenófobos ... mas o desemprego desce. Eles são racistas ... mas também não se pode abrir as portas a toda a gente. Ou, normalmente por fim, na última das últimas alegações, eles até poderão nem ser flores que se cheirem ... mas foram eleitos democraticamente. 


Sabemos que é assim, vemos coisas destas todos os dias. Mas... o mais refinado dos "mas" surgiu agora com Bolsonaro.


Como lhes fica difícil (permitam-me este apropriado toque brasileiro) defender a criatura, atacam-lhe o ataque. Então transformam as gigantescas manifestações deste fim-de-semana do "ele não" num erro estratégico, nem que, para isso, tenham de recorrer a raciocínios "non sense" e a comparações espatafúrdias. 


Não há volta a dar. O "mas" está-lhes na massa do sangue!

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...