
Com menos de 50 mil nas bancadas da Luz, pela primeira vez nesta época – claro que isto faz mossa -, o Benfica tentava a reconciliação com os adeptos, começar a apagar os efeitos do desastre do Dragão e, ainda, um resultado que, para além condizente com isso tudo, desse garantias para a visita a Glasgow, daqui a uma semana.
O anúncio da constituição da equipa, que se vem tornando num momento alto das bancadas da Luz, não gerou controvérsia. Os assobios foram todos para Schmidt. O onze parecia finalmente à medida de uma equipa equilibrada, mesmo com o insolúvel problema dos laterais, mas esse é crónico. Florentino e João Neves constituíam o meio campo mais reclamado pelos adeptos, os três desequilibradores Di Maria, Rafa e Neres mantinham-se, mas desta vez com um ponta de lança - Arthur Cabral.
A equipa parecia bem montada e cedo começou a querer mostrar serviço, dentro, naturalmente, do seu registo habitual. Só que, logo aos 7 minutos, na primeira vez que chegou à área de Trubin, o Rangers marcou. Acontece muitas vezes, e mais ainda ao Benfica. O que punha em causa todo o programa da noite era o desposicionamento defensivo, a completa desorganização defensiva na abordagem ao lance. E isso, como se sabe, não é novo.
A equipa sentiu o golo – não havia como o sentir – mas foi-se gradualmente reerguendo. Sem deslumbrar, mas com a exibição a ir atingindo um mínimo de consistência, logo deu para confirmar que o Rangers é uma das mais fracas equipas em competição, comportando-se exactamente como as equipas pequenas no nosso campeonato. Depois de mais de meia hora em cima do adversário, mas com os mesmos problemas de sempre na decisão final, a que acresciam duas ou três defesas miraculosas do experiente Butland, o Benfica lá conseguiu marcar um golito e empatar. De penálti!
Não havia outra forma. Já teria havido razões para assinalar dois, antes. Por faltas sobre Di Maria e Neres. Mas só este foi assinalado, por intervenção do VAR, por corte da bola com a mão num canto de Di Maria, num lance que o árbitro deixou prosseguir, a que se seguiria um novo corte com a mão, que também deixou passar. O VAR, claro, só teve de convencer o árbitro pelo primeiro.
Com tudo isto, quando Di Maria converteu o penálti com a habitual classe (Butland foi admoestado com amarelo, por manobras de diversão), já o relógio ia no segundo dos 5 minutos de compensação.
Inacreditavelmente, logo a seguir, na segunda vez que se acerca da área do Benfica, o Rangers volta a marcar. De novo com a defesa benfiquista aos papéis, completamente desposicionada, e sem saber o que tinha para fazer. Depois de a bola ter andado ali a saltar de um lado para o outro sem ninguém a tirar dali, acabou em Fábio Silva (lembram-se da réplica do João Félix?) que "despachou" o Bah e devolveu a bola para dentro da área, rasteira, por entre quatro ou cinco jogadores do Benfica, a marcarem-se uns aos outros, que a deixaram passar para, ao segundo poste, e a ganhar posição a Aursnes, Sterling (sim, é apenas o mesmo nome) marcar.
Bastaram poucos segundos para destruir o que demorara 40 minutos a conseguir. E a primeira parte bem se pode resumir a 45 minutos a falhar: a falhar no tempo todo no ataque, e a falhar nas únicas duas vezes em que teve de defender. A última quando tinha acabado de empatar, e em cima do apito para o intervalo. Inadmissível a este nível de profissionalismo!
Nestas circunstâncias não era de prever grande coisa para a segunda parte. Mas não foi bem assim. Sem alterações a equipa surgiu mais forte para a segunda parte, com as linhas mais subidas, a fazer funcionar a pressão alta, e a meter a equipa escocesa num colete de forças donde não a deixava sair.
A exibição não era brilhante - brilhante, mesmo, só João Neves, mas para ele já não há adjectivos - porque falhavam aquelas pequenas coisas que só a confiança dá. O toque, a finta, o remate, tudo o que sai facilmente quando a equipa está confiante, não acontece nesta altura. O Benfica dominava por completo, sucediam-se os cantos (14) e remates (25), mas não assim tantas oportunidades de golo. E as que eram criadas eram desperdiçadas, algumas de forma gritante, como aquela de Di Maria.
O empate acabaria por chegar relativamente cedo, a meio da segunda parte. Mas ... num auto-golo. A tempo de tudo, mas também de nada.
O Rangers, bem longe daquele Steven Gerrard aqui trouxe há três ou quatro anos, defendeu o empate com tudo o que tinha ao alcance. O Benfica procurou por todos os meios, pelo menos, ganhar o jogo. Mas não conseguiu, perdido no meio dos fantasmas que o atormentam. Golos, só de penálti. Ou então que os marquem os outros...
Às vezes isto é como as tempestades. Só temos que esperar que passem. Mas os espaços de espera também dão para aproveitar para pensar!