domingo, 31 de julho de 2011

BPN: O QUE NASCE TORTO...

Por Eduardo Louro


 


Três anos e milhares de milhões de euros depois, o Estado – nós – vai livrar-se do BPN. Porquê só agora ou porquê agora?


Porque a troika mandou que fosse agora! O memorando da troika prescrevia a data limite de 31 de Julho, e o memorando é para cumprir! Escrupulosamente, como todos os dias é repetido. Tão escrupulosamente que deu nisto: foi hoje, último dia do mês e domingo, que o negócio foi fechado!


Estranho? Não, nada. Nós somos mesmo assim, não há nada a fazer… Andamos anos a encanar a perna à rã mas quando somos obrigados, mesmo á última, fazemos. Não importa - nem ninguém discute - como! Somos desenrascados, não é?


O governo vendeu aos angolanos de Mira Amaral e pronto. Por 40 milhões de euros! Mas ainda terá que entrar com – diz-se – perto de mais 600 milhões. Mas mais: como os angolanos do BIC de Mira Amaral apenas aceitam ficar com 750 dos 1.580 trabalhadores do BPN, as indemnizações pelo despedimento dos restantes ainda terão que ser suportadas pelo Estado. A todos os milhares de milhões que já lá vimos desaparecer – o ministro das finanças fala em 2,6 mil milhões mas ninguém tem razões para acreditar nisso, esse valor já lá vai há muito – irão ainda somar-se aqueles 600 milhões e o valor dessas indemnizações que, não estando fixado, está mesmo a ver-se no que irá dar.


 Havia mais três propostas de compra. Uma do Montepio, outra de um grupo de investidores privados não identificado - de que não chegamos a ver cor – e uma última de um designado Núcleo de Investidores Privados (NEI) que, tanto quanto se sabe sem outras condições, garantia a totalidade dos postos de trabalho e tinha oferecido 100 milhões de euros, valor que subiu ainda nos instantes finais. Pois: assim à vista do que podemos ver não dá para perceber! Ninguém percebeu mesmo. Nem o próprio Mira Amaral, que em entrevista à SIC Notícias apenas dizia que a sua oferta resultou das contas bem-feitas, como ele sabe fazer, e que o governo achou credível.


A não ser que a diferença tivesse sido feita por este pormenor: se o banco, ao fim de cinco anos, apresentar resultados positivos superiores a 60 milhões de euros – como espera Mira Amaral, que também diz que o BPN desaparecerá por integração no BIC - pagará ao Estado 20% sobre o valor excedente! Aí está: a cereja no topo do bolo!


Mas qual banco? 20% do excedente? Somos todos parvos, não?

sábado, 30 de julho de 2011

DISTO É QUE A MALTA PRECISA!

 Por Eduardo Louro


 



 


Parece que vale por três, mas é ilusório. Vale por muitos mais: é quilo e meio de tomate!


É disto que o país precisa: de tomates grandes, a sério! E de gente com eles deste tamanho e no sítio… Como o pai do meu amigo Zé Carlos, que os tem lá no sítio... em Estói!


Não, não é no Entroncamento. É mesmo em Estói, ali à beira de Faro. E de Olhão!


 


 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Futebolês #86 LINHA DE PASSE

Por Eduardo Louro


 


Linha de passe é uma das expressões do futebolês mais directas e mais claras. É de utilização exclusiva em futebolês – não se presta portanto a confusões – e percebe-se claramente ao que vem: é uma linha imaginária por onde a bola pode passar até chegar a um colega de equipa.


Percebe-se assim que compete aos jogadores duma equipa abrir ou criar linhas de passe para os seus colegas e tapar as linhas de passe da equipa adversária, na fundamental e mais excitante das dialécticas do jogo. Encontrar as melhores respostas para esta dialéctica é o desafio que se coloca à dimensão táctica e à dinâmica de jogo. É disto que os treinadores terão que se ocupar! Está aqui uma das valências técnicas das competências gerais de um treinador de futebol, uma das mais exigentes actividades profissionais da actualidade.


As restantes passam pela comunicação – interna e externa – e pela gestão dos diferentes recursos, muito especialmente dos humanos, com especial ênfase na gestão psicológica - individual e de grupo – e na questão motivacional.


É principalmente aqui que tenho frequentemente sido crítico com Jorge Jesus. É aqui que lhe encontro os mais evidentes pontos fracos! E era, pensava eu, por outros – entre os quais ele próprio - terem chegado à mesma conclusão, que foi anunciada a contratação dos serviços do Prof. Manuel Sérgio!


Mas, ou porque não tenha ainda iniciado funções ou porque Jorge Jesus revele dificuldades de aprendizagem, a verdade é que a nova época arrancou carregadinha de erros básicos. De palmatória e cujo preço irá ser pago a curto prazo!


Sou levado a crer que seja mesmo por dificuldades de aprendizagem. Digo isto porque acabo de saber, pelo próprio Jesus que, sentindo a responsabilidade pela grandeza do clube, tomou a decisão, logo que chegou ao Benfica há dois anos atrás, de fazer um curso de comunicação. Como os resultados são conhecidos, subsistem apenas duas hipóteses: sérias dificuldades de aprendizagem ou burla nítida da entidade formadora. Desconhecendp-se qualquer reclamação – a única conhecida respeita ao Banco Privado Português – resta a primeira.


Em vésperas do primeiro – e decisivo, tão decisivo quanto o fora há um ano o desafio da supertaça com o Porto – jogo da época, onde se jogava o acesso à Liga dos Campeões – a mais importante e ambicionada prova do calendário mundial – Jorge Jesus voltou a demonstrar exuberantemente as suas incompetências. Em primeiro lugar porque ficou demonstrado que não tinha a equipa preparada para este desafio, ficando por provar que não tivesse recursos suficientes para, em particular porque era o mais gritante, constituir uma estrutura defensiva para encarar o jogo. Depois, perante essas evidentes dificuldades, optou por uma estratégia de salvar a pele, resguardando-se de um perspectivável insucesso com a incrível declaração de que a Champions não era objectivo prioritário do Benfica: na véspera de um jogo decisivo – pelas consequências desportivas e financeiras talvez o mais importante jogo da época – o treinador vinha dizer que aquele jogo não importava para nada, que os objectivos da equipa não passavam por ali. Inacreditável!


Depois, ainda, veio a cobertura dada ao inaceitável comportamento de Luisão. Que chegou quando quis, depois de mais de um mês de declarações impróprias e intoleráveis que reafirmou logo à chegada. Não poupou nas palavras, cortando todas as linhas de passe que a administração procurasse para resolver o conflito que ele despropositadamente abrira. Seguiu-se o inenarrável episódio Maxi Pereira: um jogador que jogara (e ganhara) a final da Copa América no domingo, em Buenos Aires, que viajou para o Uruguai (recorde-se que, no arranque da Copa América, se dizia que o Benfica teria um jacto privado na Argentina para, logo no domingo, trazer todos os seus craques), onde participou dos festejos com os seus compatriotas e onde foi ainda conhecer os seus filhos gémeos, entretanto nascidos, e que chegaria a Lisboa no próprio dia do jogo, poderia afinal alinhar! Inacreditável a este nível competitivo! Mas, para além de tudo, um atestado de desconfiança para o plantel que trabalhara toda a pré-época, aos jogadores que ele próprio contratou e um atestado de incompetência a si próprio em matéria de contratações.


E Maxi Pereira jogou mesmo. Não entrou de início porque – e esta é mais uma das asneiras – jogou o Rúben Amorim, que não jogava há oito meses nem estivera na preparação da época.


E jogou o Luisão. E foi o capitão, como nada se tivesse passado.


E, como se nada se tivesse passado, parece que a administração da SAD do Benfica se prepara para ceder à habitual chantagem de Verão do Luisão, revendo-lhe mais uma vez o contrato. Tem sido assim todos os anos!


Parece mesmo que treinador e estrutura de gestão estão unidos na tarefa de cortar as linhas de passe para o sucesso. Porque, não haja dúvidas, tudo isto se paga. E bem caro!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

TRAPALHADAS

Por Eduardo Louro


 


Seja por vontade da troika, do governo ou de ambos aí estão as alterações à legislação laboral e ao seu alfa e ómega: o despedimento individual sem justa causa!


Entendem residir aqui o principal estrangulamento e o decisivo factor do défice de competitividade da nossa economia. Ao resolver este problema abrem-se as portas do crescimento económico e fecham-se as do desemprego!


Claro que ninguém acredita nisto. É tão evidente que isto é o resultado dos ventos que sopram, e que são muito difíceis de contrariar – todos temos que compreender - quanto óbvio que não vai resolver nenhum dos verdadeiros estrangulamentos da nossa produtividade, da nossa competitividade e do nosso crescimento. Não era preciso muito mais para que isto já fosse uma razoável trapalhada!


Mas, discutir na Assembleia da República a fixação da indemnização por despedimento em 20 dias por ano de trabalho quando já está nos jornais, e é público, que o que se pretende é fixa-la nos 10 dias, é uma trapalhada inaceitável. E ver um Secretário de Estado – o jovem Pedro Martins -  gaguejante, a meter os pés pelas mãos, completamente atrapalhado que a nada consegue responder nem nada consegue justificar, apenas transforma uma razoável trapalhada numa gigantesca trapalhada.


E remete-nos para um problema que se desvalorizou aquando da constituição do governo: a falta de capacidade política de grande parte dos seus membros. Lembro que este foi um dos problemas que muitos observadores – entre os quais me incluo – se apressaram a a transformar em virtude, porque – era mais ou menos isto – de políticos estávamos todos fartos. Precisávamos era de gente nova, sem vícios, e de forte perfil técnico!


Parece-me que começamos agora a, como diz o povo, torcer a orelha. As coisas não são explicadas, os ministros ou não falam – como é, por exemplo, o caso do super ministro da economia – ou, se falam, como o das finanças, não dizem nada. Não explicam, não esclarecem, não justificam!


Isto é, a comunicação neste governo está transformada – também ela – numa grande trapalhada. É certo que estamos fartos do uso e abuso da comunicação – da poderosa máquina de propaganda que era a comunicação no governo anterior – mas é preciso explicar as coisas. Direitinho, sem floreados, na exacta medida do que precisamos de perceber!

TRUQUES

 


Por Eduardo Louro


 


 



O Presidente Cavaco Silva, em cerimónia oficial de inauguração de um complexo residencial para idosos, ontem em Torres Vedras, convidado a pronunciar-se sobre a justificação do imposto que nos leva metade do subsídio de Natal – a sobretaxa de IRS que, esfumado o desvio colossal, agora ninguém consegue justificar – começou por dizer que “o senhor ministro já teve ocasião de explicar a razão pela qual o governo fez essa proposta”.


Tornou-se de resto recorrente o Presidente subscrever as explicações do ministro das finanças: ainda há bem pouco fez o mesmo a propósito do famoso desvio colossal, repetindo até os gestos. E teve ainda oportunidade de acrescentar que a sua preocupação vai para os que se não encontram em condições de contribuir para este imposto extra. Explicou rapidamente – e nós rapidamente percebemos – que essa preocupação não tinha nada que ver com todos os que ficaram de fora deste esforço adicional exigido ao país, designadamente a banca, as empresas e os investidores financeiros. Não: “são muitos dos desempregados, são muitos daqueles que se encontram em situação de exclusão social, são doentes crónicos, são famílias de muitos baixos rendimentos”!


A preocupação do Presidente não é a equidade, a distribuição equitativa dos sacrifícios que já reclamou. Nem sequer se já se atingiu o limite dos sacrifícios, o tal limite que, ainda há bem pouco tempo, na sua tomada de posse, lembrava ao governo anterior. A preocupação do Presidente não é uma preocupação: é um truque! Naturalmente que é quem vai pagar que protesta, não é quem irá ficar de fora. É para esses o truque: não se queixem por pagar porque são uns felizardos! Ao contrário dos outros, dos pobres e excluídos, vocês até têm a sorte de ter rendimentos que vos permitem pagar este imposto!


A isto chama-se lata, para não dizer falta de vergonha!


Este Presidente passou da cooperação estratégica com o governo anterior, do início do seu primeiro mandato, ao silêncio estratégico, lá mais para a parte final - quando, tentando passar por entre os pingos de chuva sem se molhar, tudo valia para não comprometer a reeleição -, daqui para a afronta estratégica, logo que aquele desiderato foi atingido e, finalmente, para o mimetismo estratégico com este novo governo!


Este Presidente, já depois de, enquanto chefe de governo, ter feito o que fez ao país, permitiu que o anterior governo destruísse o que ainda faltava destruir. Ora em registo de cooperação estratégica, ora no de não me comprometam, a tudo virou a cara em nome dos superiores interesses da sua reeleição. Só depois de reeleito se lembrou de todos os males do governo, passando então a disparar em todas as direcções e descobrindo que havia limites aos sacrifícios.


Mas veio o novo governo e esqueceu-se desses limites. E lembrou-se de uns truques…

quarta-feira, 27 de julho de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

ABRIU A ÉPOCA!

Por Eduardo Louro


 


Deixou de se falar na privatização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e ainda bem. Bom, mas sabemos que a privatização dos negócios dos seguros e da saúde é mesmo para a avançar o que, confesso, não me parece mal!


Pela mão da nova administração, de que pouco tenho ouvido falar. Daí que decidisse meter os pés a caminho até à João XXI para dar uma espreitadela.


Chego lá e encontro logo António Nogueira Leite: o homem de Passos Coelho para as coisas das Finanças. E que não quis ser ministro… E que entra na administração da Caixa acabando de atravessar a porta de saída do Grupo José de Mello, o dos negócios na Saúde!


Incompatibilidades? Não, mas se as houver é o próprio vice-presidente que nos tranquiliza: já avisou que sairá da sala sempre que em discussão estejam temas que suscitem conflito de interesses entre as suas novas e as suas anteriores funções. Descansado, portanto!


A seguir encontro Eduardo Paz Ferreira, Pedro Rebelo de Sousa e Álvaro Nascimento, todos advogados de negócios, que, evidentemente, nunca conflituarão com os da Caixa! Pedro Rebelo de Sousa, por exemplo, é apenas advogado da italiana ENI, accionista da GALP – e player decisivo no processo de recomposição accionista – onde a CGD tem igualmente um papel a desempenhar. Mas também da Compal, em contencioso com a Caixa no negócio Sumolis/Compal… Não tenho dúvidas que, também ele, saberá encontrar a melhor maneira de resolver esses conflitos de interesses… Se se vierem a colocar, evidentemente!


Depois encontro uma pessoa que não conheço e que não faço ideia do que lá esteja a fazer: chama-se Nuno Fernandes Thomaz. Dizem-me que está lá em representação de Paulo Portas.


Não resisto a manifestar a minha surpresa: “Ah! Não sabia que já tinham privatizado alguma coisa da Caixa e que o Paulo Portas era accionista”!


Corrigem-me: “não, não houve privatização nenhuma, representa o ministro dos negócios estrangeiros. Percebo então que é o Ministério dos Negócios Estrangeiros que tem m lugar na Administração… “Não? Também não”? Pronto, não quero mais explicações…


Sigo em frente e encontro então Norberto Rosa, Jorge Tomé, Rodolfo Lavrador e Pedro Cardoso. Estes sim, conheço-os! E sabem o que estão lá a fazer, já vêm de trás. Aproveito e dou um abraço ao meu amigo Jorge Tomé que, para além de meu antigo colega e amigo, é um homem altamente competente e conhecedor do negócio, com muitos anos de banca e de CGD.


Já só me faltam os dois do topo: José Agostinho de Matos e Faria de Oliveira. Dizem-me que o primeiro é o novo CEO – o presidente executivo – e que Faria de Oliveira passa agora para chairman – mantém-se Presidente do Conselho de Administração, mas agora como figura decorativa, sem funções executivas.


Estou no fim do corredor e interrogo-me: porquê este modelo? O que é que faz um chairman numa sociedade com um único accionista – o Estado? E por que é que houve tanta preocupação em reduzir o número de ministros e, agora, a administração da CGD cresce desta maneira? Passa de sete para onze! Mais quatro: cresce 57%!


Não preciso de fazer grande esforço para encontrar as repostas: são os sete necessários, conforme as anteriores composições, mais um a representar o Presidente da República e outro o Primeiro-Ministro. O terceiro, como acima deixei perceber, não sei bem quem representa: se Paulo Portas – himself -, se o CDS ou se o MNE. Finalmente, o quarto – Faria de Oliveira – representa-se a si próprio. Então para onde é que haveria agora de ir? Cria-se um novo lugar e resolve-se o problema!


Não tivesse eu ouvido o Ministro da Finanças afirmar-se “or-gu-lho-so” da equipa que nomeou para a Caixa e estaria seriamente preocupado com a abertura da nova época dos jobs for the boys!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

GENTE EXTRAORDINÁRIA XI

 


Por Eduardo Louro


 


Uma conhecida empresa de transportes de mercadorias entrou em insolvência. A assembleia de credores decretou a liquidação da empresa!


Entretanto surge uma empresa do ramo interessada em adquirir os activos da massa falida, pagar aos credores e garantir os 126 postos de trabalho, assumindo os respectivos contratos de trabalho!


Os trabalhadores tinham tomado uma série de iniciativas – entre as quais marchas lentas na zona da grande Lisboa e mesmo uma frustrada incursão pela capital, com passagem por S. Bento – para tornar público o seu desespero. Mas, logo que se acende aquela luz ao fundo do túnel, eis que surge o delegado sindical: alto e pára o baile! “Um delegado sindical tem que duvidar disto: é preciso avaliar bem o que é que os trabalhadores ganham com esta situação”!


É verdade. Eu ouvi isto! Gente extraordinária mesmo…

domingo, 24 de julho de 2011

O PESO DAS PALAVRAS

Por Eduardo Louro


 


É curioso reparar como as palavras têm pesos diferentes conforme as diferentes circunstâncias. É caso para também dizer que as palavras são elas mesmas – as palavras – e as suas circunstâncias!


Palavras ou expressões que uns se recusam a pronunciar mas que outros não encontram sequer um sinónimo para alternativa. Tudo isto sem que muitas vezes se perceba muito bem por quê, mas a verdade é que há palavras e expressões que, se a uns queimam, a outros refrescam!


Na política isto é recorrente!


São muitos os exemplos – prometo que voltarei ao tema – mas, por hoje, detenho-me em dois que estão na ordem do dia.


Na passada quinta-feira toda a gente aplaudiu as notícias que chegavam da cimeira europeia. Pelas decisões sobre a Grécia mas particularmente pelo que nos tocou a nós na componente do resgate financiado pela UE: com a quebra significativa na taxa de juro e o alargamento do prazo de reembolso para o dobro.


Isto é, regozijámo-nos porque, finalmente, a UE reconheceu aquilo que, há muito, uma boa parte da sociedade portuguesa reclamava: a necessidade de reduzir a taxa de juro e alargar o prazo. Porque, independentemente de serem ou não criadas as condições para trocar políticas económicas recessivas por outras de crescimento – e é aí que está de facto a chave do problema -, sem essa reformulação não era mesmo possível pagar a dívida.


Toda a gente o percebia, toda a gente o reclamava - excepto o ministro das finanças (o que tem que se compreender) que, quando lhe falavam nisso, dizia de imediato que isso não era importante e nem sequer para já – e toda a gente lhe chamava reestruturação da dívida! Expressão maldita para o governo – para facilitar chamemos-lhe assim – e para a direita, mas que a esquerda sempre utilizou. A direita, ou mesmo o chamado arco do governo, teve medo da expressão logo que ela foi introduzida na discussão pública pela esquerda. Pela conotação e pelas agências de rating, e por isso nem sequer ousava falar na redução da taxa de juro…


E, no entanto e em qualquer circunstância, alterar condições tão determinantes – mesmo as mais determinantes – de uma operação de financiamento é reestruturá-la. Com todas as letras!


O outro exemplo que me ocorre vai - pode dizer-se – em sentido contrário. Na abordagem da actual e dramática situação portuguesa é comum ouvir-se dizer que ela resulta de termos andado a viver acima das nossas possibilidades. Esta é uma expressão – e permitam-me mais uma vez que simplifique – usada pela direita mas que indigna a esquerda, que contrapõe com a impossibilidade de alguém que ganhe os salários mais baixos e mais desiguais da Europa gastar acima das possibilidades.


E é de facto chocante admitir que quem ganha 500 euros – muitíssima gente, pois o salário médio nacional ronda os 700 – e que tem que pagar a água, a electricidade, o gás, a renda de casa e as mais básicas das despesas básicas viva acima das suas possibilidades. E no entanto todos percebemos que, enquanto país, andamos há muitos anos a viver não do que produzimos mas do que nos emprestam. Isto é, de facto acima das nossas possibilidades! E percebemos isso tão claramente quanto isso nos entra pelos olhos dentro: basta olhar para os automóveis que circulam nas nossas estradas e nas nossas cidades! E já nem digo para que se compare com o que se vê na Holanda, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega ou na Suécia, só para referir alguns dos mais ricos dos países mais ricos do mundo!


Pois é: da mesma forma que a direita não quer ouvir falar de reestruturação da dívida porque isso mexe com os mercados financeiros, também a esquerda se recusa a ouvir falar de vivermos acima das nossas possibilidades porque isso mexe com a sua suposta base social de apoio. E pur si muove !

INSERÇÃO SOCIAL

Por Eduardo Louro


 


Na passada quinta-feira tive de me deslocar à estação dos CTT para levantar um registo. Cheguei e, quando me preparava para sair o carro, já com a porta aberta e ainda a pegar na carteira e nos óculos, vejo-me rodeado de três concidadãos – entre os vinte e os tinta e poucos anos – de uma das mais antigas minorias étnicas instaladas no nosso país. Olho à volta e vejo mais uns quantos com as mãos cheias de notas que iam arrumando nos bolsos. Os que me rodeavam olhavam pormenorizadamente para o carro e, sem mais nem menos, um deles pergunta: “é 5.25 ou 5.30”?


Dei uma resposta! “É igual ao meu”, retorquiu de imediato o mesmo que iniciara o interrogatório que, sem mais demoras, lançou uma nova série de perguntas às quais fui respondendo afirmativamente até perceber que teria que encontrar uma resposta negativa: “não, não tem caixa de cd`s”! “O meu tem” – concluiu o meu inesperado interlocutor. “Pois, o teu tem os extras todos … “, sentenciou um dos seus acompanhantes, enquanto eu aproveitava aquela oportunidade única para fechar o carro e começar a afastar-me em direcção à porta da loja, logo ali.


A loja estava cheia de homens, mulheres e crianças – familiares e amigos do pequeno grupo que deixara para trás, mas que também já entrava porta dentro – num berreiro infernal que deixava os dois únicos funcionários em atendimento de cabelos em pé.


Cada um tinha na mão um cheque da Segurança Social – e percebi então a primeira imagem que me tinha ficado – que, passadas as formalidades das assinaturas e da apresentação do cartão de cidadão, era transformado numa mão cheia de notas. Também a mão do meu anterior interlocutor – o da frase “é igual ao meu” –, agora já abraçado à mulher que dentro da loja lhe garantia a vez, exibia o título que rapidamente se transformaria em notas.


Rendimento mínimo, evidentemente! Não! Rendimento de Inserção Social!


De inserção social?


No sábado – ontem – fui ao mercado municipal. Fora encerrado pela ASAE mas já estava de novo em funcionamento!


Os muretes da frente, que delimitam o parque de estacionamento, lá estavam, como em todos os sábados, cobertos de lenços, cuecas, calças, vestidos, saias, t shirts, camisas e pólos. De todas as marcas… Só que, desta vez, uma boa parte da exposição estava tapada por um verdadeiro (não, não era contrafeito) BMW, de portas e capot abertos. À sua volta um grupo de concidadãos, que eu tinha encontrado num lado qualquer, espreitava-o de todos os ângulos…


“É igual ao meu”!

sábado, 23 de julho de 2011

TERROR EM OSLO

 


 


Por Eduardo Louro


 


No mais improvável país, na mais improvável cidade e na mais improvável sociedade surge um dos mais dramáticos atentados terroristas.


Habituamo-nos a associá-los ao fundamentalismo islâmico. Este mostra-nos que não há só fundamentalismo islâmico. Ou que o fundamentalismo não é mais do que o mimetismo da loucura!


Este criminoso louco declara-se de orientação cristã fundamentalista: não é fundamentalista de coisa alguma nem tem orientação nenhuma! Roubou criminosamente a vida a perto de 100 cidadãos e ameaçou a paz e a tranquilidade de milhões de seres humanos!


Neste mundo actual há cada vez menos lugares seguros para viver. E isto é que é verdadeiramente dramático!

CADEL EVANS GANHA O TOUR!

 


Por Eduardo Louro


 


 


Cadel Evans ganha!


Andy Shleck não podia ficar fora dos dez primeiros no contra-relógio. Ficou bem fora e, pela terceira vez consecutiva, faz segundo.


Justo? Injusto? Não adianta, o Tour é a maior prova do ciclismo mundial e o contra-relógio faz parte da corrida. Diz-se até que é a prova da verdade… Será?


 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Futebolês #85 AQUISIÇÕES

Por Eduardo Louro


 


Continuamos em tempo de pré-época, em tempo de aquisições!


Não se trata de repetir as contratações de uma das últimas edições (número 79) do futebolês, não obstante serem, obviamente, sinónimos. No futebol há muitas aquisições ou, melhor dito, adquire-se tudo o que se adquire noutra actividade qualquer, quase sempre sem olhar a meios. Contudo, em futebolês, não se adquire outra coisa que não sejam jogadores: aquisições é de jogadores. Como compras, um sinónimo verdadeiro. No futebol tudo se compra – mesmo o que não está à venda – mas em futebolês também as compras, como as aquisições, se referem exclusivamente a jogadores.


Em boa verdade as aquisições têm uma abrangência mais larga que as compras. As aquisições não se esgotam nas compras. Adquirem-se jogadores por compra, mas também por empréstimo. E ainda a custo zero, que é uma transacção inventada pelo futebolês, como uma terceira via: não é compra nem empréstimo. Mas também, por estranho que pareça, por roubo: é verdade, também há aquisições por roubo!


Como as empresas têm uma política de investimentos ou até políticas de compras, também os clubes têm a sua política de aquisições. Estrutura fundamental dessa política é o departamento de prospecção que, em futebolês, se chama scouting.


O Benfica tem uma política de aquisições que passa pelo empréstimo – normalmente com uma cláusula de opção de compra no final –, como foi no ano passado o caso do Salvio e este o do Eduardo, pelo custo zero – como foram os casos do guarda-redes brasileiro Artur Moraes (ex-Braga), e do espanhol Nolito (ex-Barcelona) – mas, fundamentalmente, pela compra no mercado sul-americano, em resultado de aturado trabalho de scouting. Na variante de empréstimos o sucesso do negócio está no valor fixado para a opção de compra. Quem empresta fá-lo por uma de duas razões: ou porque aposta em manter o jogador e apenas o pretende colocar a rodar noutra equipa, ou porque pretende desfazer-se dele mas não o consegue vender. No primeiro caso, evidentemente, cláusula de opção de compra não faz qualquer sentido. No segundo sim. Mas aí o jogador está obviamente desvalorizado, pelo que não faz nenhum sentido negociar o empréstimo sem salvaguardar um baixo valor de compra.


É este o estranho caso do Sálvio. O jogador estava desvalorizado e, no entanto, o Benfica aceitou – embora sempre me tenha parecido que havia por aqui alguma coisa mal explicada – a fixação da opção de compra em 15 milhões de euros. Valorizou o jogador e, depois, era caro!


Um erro, evidentemente. Outros têm sido aqui denunciados!


O Scouting do Benfica tem indiscutivelmente rivalizado com os dos melhores clubes europeus, detectando, identificando e negociando com muitos dos maiores talentos que brotam do lado de lá do Atlântico.


A política de aquisições do Porto é diferente. Passa pela estratégia pessoal de Pinto da Costa que se sobrepõe a qualquer estratégia de gestão do clube. E que, habilmente sem dúvida, ele trata de fazer confundir. Pinto da Costa acha que o seu sucesso não se mede por critérios objectivos de gestão desportiva, acha que, antes de tudo, se mede pelas acções em que faça crer que achincalhou o Benfica!


Nesta estratégia não há competição em livre concorrência. Nem ética de negócio. Vale tudo, como na selva.


O Porto não precisa da tal estrutura de scouting, porque parasita a do Benfica, como Pinto da Costa orgulhosamente sustenta. A Jardel, Deco  e Cristian Rodriguez (que, sendo formalmente diferente, não o são na substância) Alvaro Pereira, Falcao e James Rodriguez juntam-se agora os jovens brasileiros Alex Sandro e Danilo, conforme aqui tinha previsto.


O Benfica identifica os jogadores e inicia as negociações. Depois surge Pinto da Costa e cobre as ofertas: 10 milhões pelo primeiro e 13 pelo segundo, que tinha uma cláusula de rescisão de apenas 6,5 milhões de euros. A partir daqui qualquer um em negociação com o Benfica já sabe que Pinto da Costa aparecerá a cobrir!


A estratégia de Pinto da Costa é projectar-se a si próprio antes de qualquer outra coisa. Á saída de André Vilas-Boas teve como preocupação única safar a sua imagem pessoal de líder sagrado e infalível. O esperto que ninguém consegue enganar. A renovação do contrato de Falcao, antes de ser um grande negócio para o FC Porto – que está por provar e é o mais estranho dos estranhos negócios do futebol – é uma operação de imagem pessoal: um botox. Estas duas aquisições – 23 milhões de euros dificilmente justificáveis – têm como objectivo único projectar a sua imagem num espelho de humilhação do Benfica. Mas para seu desespero o Benfica é demasiado grande! Nunca o humilhará nem o diminuirá. Antes pelo contrário: reforça-o! Porque, desta forma, os benfiquistas perdoam os erros que os responsáveis têm acumulado nas aquisições. Que, mais do que de uma ou outra hesitação que num ou noutro momento possa ter aberto uma ou outra  brecha aproveitada pelo lobo mau – sempre à espera do capuchinho vermelho - resultam da falta de critério. Com compras em massa, em vez de selectivas, muitas dessas aquisições nem sequer chegam a pisar o relvado do Seixal, quanto mais o da Luz!


 

ALPE D`HUEZ

Por Eduardo Louro


 


 


No Alpe d´Huez ganhou o jovem francês – primeira, e muito provavelmente única vitória francesa na prova – Pierre Rolland, líder e provável vencedor do prémio da juventude, mas o espectáculo foi de Alberto Contador, o derrotado de ontem. Contador atacou na penúltima subida – no Telegraph – e, com Andy Shleck – que não acusou o desgaste de ontem – na companhia do nosso Rui Costa, treparam ainda sozinhos o mesmo Galibier de ontem, hoje por outra vertente. Onde Thomas Voeckler foi novamente herói na defesa da sua camisola amarela e Cadel Evans parecia irremediavelmente derrotado.


Na longa descida que se seguiu tudo se reagrupou, iniciando-se a subida final com tudo a zeros. O primeiro a sair, logo no início, seria o jovem francês. Mas o ataque a sério partiria novamente de Contador que foi por ali acima e deixou tudo para trás: espectáculo Contador! Mas o espanhol Sanchez – que se viria a sagrar rei da montanha – fugiu dos manos Shleck e de Evans. Rapidamente alcançou o jovem Rolland que ainda por ali andava e, rebocando-o até lá acima, alcançou Contador e entregou-lhe a vitória.


E pronto: o Tour decide-se no contra-relógio de amanhã, entre Evans e Andy Scleck – agora de amarelo – separados por 57 segundos.


Thomas Voeckler – hoje a imagem do desespero - despiu finalmente o maillot jaune! Que, depois de tanto sangue, suor e lágrimas, já pouco tinha de amarelo!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

JUIZINHO - PARTE III

Por Eduardo Louro


 


 Finalmente uma ponta de juizinho. Não há motivos para grandes euforias mas, pelo menos por agora, parece que a Alemanha – não há volta a dar-lhe, a UE é isso mesmo – começa a perceber que só tem a ganhar em ajudar a resolver este imbróglio.


Vamos esperar que assim seja!


 


 


 


 

GUERRA E PAZ

Por Joana Louro *


 


Acabei de chegar a casa depois de um dia de trabalho intenso... Já é tarde e estou cansada! Ligo a televisão num dos canais de noticias, na tentativa de fugir à deprimente programação dos canais abertos no suposto horário nobre, e deixo-a a falar sozinha enquanto preparo qualquer coisa para o jantar, de preferência rápido e saudável! Finalmente os meus primeiros minutos de sossego… Entre o jantar que se cozinha e a mesa que falta pôr, sento-me uns minutos no sofá atenta às notícias e o que o mundo tem para contar.


Pouco menos que deprimente: a crise por cá, por lá e por todo o lado. A Europa, a Alemanha e a Srª Merkel, que tem que perceber que tem de ajudar e que ora percebe ora não percebe. Nem eu, com tantas explicações dadas por tanta gente expedita no verbo que defende uma coisa e o seu contrário. Desisto, estou saturada deste cenário e não quero saber mais...


Acabo de preparar o jantar e ponho a mesa, enquanto recapitulo mentalmente (e involuntariamente!) os doentes que deixei internados no hospital... E detenho-me no Sr. Silva, o doente da cama 5, um doente simpático, que me trata por “menina doutora”, “ menina por carinho e doutora por respeito”, vai dizendo com um sorriso franco na tentativa de justificar a utilização destas duas palavras, numa tão curiosa associação. Tem pouco mais de 70 anos e, depois de uma vida inteira dedicada à agricultura, deveria estar a gozar a sua velhice (com aquela idade eu ainda deverei estar a trabalhar – foge-me o pensamento neste parêntese). Mas não está! Não está porque o corpo está doente, mas sobre tudo porque a mente também! “A minha mente está mais doente que o meu corpo, menina doutora, tantas que são as preocupações”, confessa-me numa voz que me enche o coração. Os dois filhos estão desempregados, eram trabalhadores não qualificados de empresas que a crise e a globalização destruíram. “Mas os meus netos, menina doutora, esses foram para a faculdade e também não têm emprego. E isto como é que se explica? Pensei que estudar era assegurar o futuro deles!”. E para assegurar o futuro e o estudo deles foi vendendo as terras, que tinham sido noutros tempos o sustento da família. “Se pelo menos tivesse as terras, podiam ser cultivadas” pelos netos doutores, faltava-lhe acrescentar ao desabafo...


Quis-lhe explicar que as coisas não seriam assim tão simples e que as opções de outros tempos não foram erradas, que nem tudo tem uma explicação lógica, que a vida e o mundo são bem mais complexos... mas não consegui, afinal o que é que uma menina doutora tem para ensinar a um Sr. Silva. Ofereci-lhe o meu sorriso mais sincero e profundo, o mesmo que esboçava enquanto punha o jantar na mesa.


Depois de jantar ainda fiz uma visita aos meus blogs preferidos, numa nova tentativa de me encontrar com as noticias e o com o mundo... mas era mais do mesmo. Desisto e desligo o computador.


Opto pelo sofá e pelo meu livro dos últimos meses “Guerra e Paz”. Outro mundo, outro tempo... Não melhor, nem mais fácil, simplesmente uma crise diferente... Mas pelo menos serve para desligar!


 


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

VIVE LE TOUR

 


Por Eduardo Louro


 


Andy Shleck – brilhante – ganhou hoje no Galibier a mais dura etapa dos Alpes e do Tour. Dobradinha dos manos Shleck, já que Frank fez segundo. O australiano Cadel Evans fez, sozinho, todas as despesas da perseguição a Andy – que atacou bem cedo, na penúltima subida - e, com isso, reforçou a sua candidatura à vitória final e afastou Alberto Contador, a grande decepção de hoje. E Thomas Voeckler, o herói improvável deste Tour, foi mesmo heróico na defesa da sua amarela, que mantém presa à pele por 15 segundos.


E amanhã há mais: o mítico Alpe D`Huez na despedida dos Alpes, na véspera do contra-relógio que tudo decidirá.


Ao rubro este Tour! Vive le Tour!

GENTE EXTRAORDINÁRIA X

Por Eduardo Louro


 


Capdevilla chegou hoje a Lisboa para assinar contrato com o Benfica. Chegou hoje, quando a apresentação da equipa aos sócios foi ontem…


É um jovem de 33 anos cuja experiência irá ser muito útil à equipa. Onde não cabem velhos de 34, como Nuno Gomes, cuja experiência, história e ligação ao clube não acrescentam nada que se compare com o apport deste espanhol campeão do mundo!


Jorge Jesus também é gente extraordinária…


O Presidente Cavaco Silva reconfirmou, em Abril passado, na sequência da tomada de posse no seu segundo mandato, Mota Amaral como Chanceler das Ordens Honorificas Nacionais. Sem que se perceba porquê – e no maior dos silêncios – Mota Amaral pediu a demissão. Pelo meio ficara, no passado 10 de Junho, a condecoração de Manuela Ferreira Leite. Na altura ninguém percebeu! Percebeu-se agora: Cavaco nomeou-a em substituição do antigo presidente da Assembleia da República! Quer dizer: vistas curtas!


O Presidente Cavaco é mesmo gente extraordinária: o seu campo de visão esgota-se nos seus amigos!


Macário Correia é um político de toda a vida, a quem se não conheceu outra actividade. Mas é daqueles que, como Cavaco, não quer ser político. Ele está sempre do lado certo, ele sabe tudo enquanto todos os outros são mentecaptos e apresenta sempre as coisas exactamente assim. Desde aquela tirada famosa: “beijar uma mulher que fuma é como lamber um cinzeiro”!


Foi assim nas portagens da Via do Infante (A22). Arrogando-se de sério, coerente, honesto e de ter princípios (Expresso, 30 de Março de 2011) assumia-se como líder do movimento algarvio anti-portagens e, ainda há pouco mais de duas semanas, no jornal i de 30 de Junho, classificava a introdução de portagens como uma medida tonta, esquisita, de quem não tem noção da realidade.


De repente, e sem que percebamos o que se alterou nas últimas duas semanas, Macário mudou de campo. E de opinião, justificando-se com a situação das finanças públicas!


Gente extraordinária esta que agora é que se apercebe da situação das finanças do país. Extraordinária mas séria, coerente, honesta e de  princípios!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

FLASHES NUMA SALA DE ESPERA

Por Eduardo Louro


 


Hoje fui a uma consulta médica no hospital. Estava marcada há dois meses (nada mau!), tinha sido confirmada por carta pouco depois da marcação e, no fim-de-semana, tinha recebido por sms um último aviso. Planeei bem a deslocação e, tendo em consideração os imponderáveis do trânsito e do estacionamento, preparei uma almofada de tempo que a prudência aconselha. Resultado: 40 minutos antes da hora estava a entrar no serviço e proceder à confirmação e ao pagamento da consulta!


Tinha um longo período de espera pela frente. Fiz contas: 40 minutos mais, na melhor das hipóteses, meia hora de inevitável atraso dá uma hora e dez minutos! Que fazer com todo esse tempo?


A falta de rotina nestas andanças não ajudava nada. Não tinha comigo um livro, uma revista. Nem sequer o jornal. A loja dos jornais do hospital fica do outro lado – teria de sair e dar uma volta inteira, pelo exterior, ao hospital. Não era opção! Olhei à volta e lá estava, ao canto, a inevitável mesinha coberta de jornais e revistas já amarelecidos, como se tivessem estado ao sol. Não era bom augúrio. Confirmei: aqueles títulos - que não me interessavam minimamente – tinham já alguns dias. Semanas mesmo!


Regressei ao meu ponto de partida, à entrada da sala, donde poderia ouvir o meu nome a sair de uma das portas daqueles gabinetes.


Sentei-me. À minha frente, do outro lado, estava uma senhora com ar rural e aspecto que lhe dava à volta dos 70 anos. Chamou-me a atenção por ter a perna esquerda alongada pela cadeira ao lado, ocupando duas das três cadeiras daquele lugar estratégico da sala. Uma outra mulher de semelhante condição, talvez com menos uns (poucos) anos, acaba de entrar acompanhada pelo marido. Lança um olhar recriminatório sobre aquela perna ali estendida a roubar-lhe um daqueles lugares privilegiados, feitos à sua medida e à do seu marido. A outra finge que não percebe e é o marido que toma a iniciativa de ocupar a única cadeira realmente vaga, obrigando-a a entender. Retira a perna e o oferece o lugar enquanto vai explicando que precisa daquela posição para a perna não inchar, o que leva a nova conviva, enquanto avançava decididamente com o bem preenchido traseiro para a cadeira agora vazia, a fazer aquelas figuras de não … ó …mas deixe-se ficar … E, sem mais intervalos, lançaram-se para uma conversa que não mais despegou. De doenças, claro: uma sempre mais doente que a outra. O marido, visivelmente encantado com a conquista da mulher ali mesmo ao lado, fixava os olhos na televisão e puxava-lhe o braço uma, duas, três vezes: “olha ali aquela cobra na televisão”. Não valia de nada, a mulher não queria saber nem do marido nem da cobra. Aquela conversa é que não largava por nada…


Olho para lado, ali junto ao guichet e vejo duas mulheres a chegar. Bem diferentes das que deixara de observar: ar urbano e relativamente bem-postas. A da frente parece quarentona e seca de carnes: nem bonita nem expressiva – magra, que nem sempre é elegante. A que vem atrás parece-me pouco mais velha e tem um ar balzaquiano: bem cheinha, sem deixar perceber que tinha sido uma moça bonita.


Reparo que se conhecem. E que já não se vêm há muito! Percebo que a conversa chega aos filhos e que sacam dos respectivos telemóveis para se presentearem com as fotografias dos que foram os seus rebentos. De repente aquela voz e aquele sorriso começam a parecer-me familiares: aquele tom de voz e aquelas gargalhadas resgatam uma cara bonita e um sorriso ainda mais bonito daquela figura balzaquiana. Ah! Já sei quem é!


Tinha sido recepcionista numa empresa onde eu trabalhei muitos anos e donde saí há quase vinte. Lembro-me que terá saído um ou dois anos antes. Em resultado, se não estou em erro, de um daqueles romances de trabalho que normalmente dão mau resultado. As duas iam matando saudades e pondo as novidades em dia enquanto eu ia procurando o nome daquele sorriso: Idalina? Não, não me parece… Vieram-me mais três ou quatro nome à cabeça até que, quando ouvia chamar pelo meu – no único sítio onde o poderia ouvir, havia escolhido bem a minha cadeira – se fez luz: Margarida!


Olhei para o relógio e só tinham passado dez minutos da hora marcada. Enquanto me levantava olhei em redor e vi que nem a perna da senhora da frente tinha inchado nem a conversa entre ambas tinha acabado.


Quando saí do gabinete médico a Margarida já lá não estava… Mesmo assim nem sempre é mau não ter um livro à mão!

terça-feira, 19 de julho de 2011

GOLDEN SHARES

Por Eduardo Louro


 


A União Europeia há muito que pressiona Portugal para acabar com as acções privilegiadas, as chamadas Golden Shares, que o Estado detém nas principais antigas empresas públicas entretanto privatizadas. Os sucessivos governos nacionais, a exemplo dos do resto da União – porque estas acções não são uma particularidade nacional -, foram resistindo a abdicar desses direitos especiais que tanto jeito dão, como ainda há bem pouco se viu no caso da PT, aquando da venda da posição na brasileira VIVO à Telefonica.


Como resistimos a todas as pressões, e até mesmo à sentença do Tribunal Europeu, a União Europeia resolveu o problema incluindo esta medida no memorando da troika. E como memorando da troika é para cumprir… não há nada a reclamar!


Mas há. E muito! Estas acções têm um valor que nada tem a ver com o seu valor de mercado, pela simples razão que não são iguais às outras. E o mercado só atribui valor às outras!


E numa altura em que, mais uma vez, vemos que são sempre os mesmos chamados a pagar a crise. Numa altura em que vemos que não há volta dar e que os governos, sejam eles quais forem, só conhecem o caminho para o nosso bolso. Que de fora ficam sempre os sectores empresarias, e em especial o financeiro. Que cortar na despesa nunca passa de conversa. E que até as privatizações parecem mais viradas para satisfazer outros interesses que os da maxização da receita do Estado, numa altura destas – dizia eu – é muito estranho que o governo não diga nada sobre a estratégia que definiu para alienar essas acções especiais da EDP, da GALP ou da PT.


O facto de se limitar a dizer que vai abdicar delas já começava a ser preocupante. Apesar assunto andar no ar o governo continuou calado. Até que Octávio Teixeira começou a falar do assunto, cada vez mais alto. E aí o silêncio do governo passou a ensurdecedor!


Já ninguém tem dúvidas que o governo se limita a entregar as golden shares aos accionistas de borla. E que está a tentar fazê-lo sem uma única palavra aos contribuintes!


Isto é absolutamente inaceitável. Mas, nas actuais condições, isto é criminoso!


Não importa – nem vale a pena trazer para discussão – se a solução técnica para determinar o valor destas acções preferenciais é fácil ou difícil de encontrar. O que importa é a decisão política: e essa só poderia ser usar estes instrumentos para nos ajudar neste momento dramático da nossa História!


Retirar-lhes os direitos e simplesmente entregá-las pelos valores cotados é um roubo - mais um - que se faz aos contribuintes! O mesmo Octávio Teixeira fala de 800 milhões de euros, precisamente o valor que nos vai ser retirado com o subsídio de Natal. Não faço a mínima ideia da razoabilidade desse valor, mas também não estou por agora preocupado em quantificar o roubo!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

SEGURO E NÃO FORMOSO

Por Eduardo Louro


 


Na corrida à liderança do PS - que acaba de entrar na recta final - António José Seguro segue tranquilamente à frente, rumo à vitória. Francisco Assis lá vai fazendo pela vida, mas já nem ele próprio acredita que lá chegue. Vai-se esforçando em lançar uma outra ou ideia, às vezes mesmo uma pedradazita no charco, enquanto, Seguro mas não formoso, o seu adversário se limita a olhar para os botões da máquina, vendo se está tudo no sítio e distribuindo afectos a eito.


É a força da máquina, dizem. Nestas coisas quem não domina a máquina perde, sem apelo nem agravo. É assim no PS, mas é assim em todos os partidos. E com a moda das directas é ainda mais assim!


Nada a opor. Nem nada a fazer: são as regras do jogo!


O problema vem a seguir. Olho para as redes sociais – não há volta a dar, não é preciso espreitar pelo buraco da fechadura, as portas estão todas escancaradas – e reconheço as caras que estão à volta de Seguro: todas as que estiveram na linha da frente na defesa de Sócrates, todas as que vibraram com o líder no congresso de há três meses, todas as que deixaram aquela imagem de seita que de lá saiu. Onde, se bem se lembram e repescando a expressão então utilizada e que aqui trouxe já em diversas ocasiões, Seguro nunca saiu de trás dos arbustos. E onde Assis não se escondeu: sempre ali na tribuna, disponível para todos os encómios ao chefe endeusado…


Olho para trás, mais para trás – dois, três…seis anos - e continuo a ver Seguro sempre lá! No mesmo sítio, atrás dos arbustos, sem ninguém dar por ele! E Assis sempre bem a vista, sempre na primeira linha, a defender o chefe até à derrota final. Na Assembleia da República, um líder parlamentar com a missão impossível de defender o indefensável porque, na verdade, o Sócrates que toda aquela gente cegamente idolatrava, já não tinha defesa. No entanto Assis nunca o abandonou, nem por um só momento!


Se Assis não pode – por muito que até quisesse - largar a pele socratista, Seguro pode ser acusado de tudo – e especialmente de ter hibernado à espera que a oportunidade lhe caísse do céu – excepto de admirador e seguidor de Sócrates. Mandaria a lógica que as expectativas apontassem para que toda aquela gente que até há um mês atrás seguia Sócrates em perfeito delírio, estivesse agora ao lado de quem mais próximo dele sempre esteve. Mas não! Nada disso, justamente o contrário!


E isto diz tudo sobre os partidos que temos e a quem entregamos a chave da democracia.


 

JUIZINHO - PARTE II

Por Eduardo Louro


 


Ontem o Der Spiegel divulgava que Helmut Kohl teria confidenciado que ”Merkel estava a dar cabo da Europa que ele ajudara a construir”.


Hoje é Hortst Teltschik – antigo conselheiro para a política externa de Kohl – a criticar, em entrevista à revista DerTagesspiegel, a actuação de Merkel e a dizer, sem papas na língua, que “a chanceler não apresenta qualquer ideia sobre o futuro da Europa”. E a reclamar uma intervenção imediata, lembrando que é preciso uma política orçamental comum, uma política comum para combater as dívidas soberanas, e uma política financeira comum.


E a oposição social-democrata – o SPD – acaba de manifestar o apoio que Merkel necessite para as medidas (impopulares) de intervenção na actual crise.


Parece que uma aragem de juizinho está a passar pela classe política alemã. Não é sem tempo!


 

PARABÉNS A VOCÊ... NESTA DATA QUERIDA...

Por Eduardo Louro


 


93 anos! Ainda bem, porque o mundo continua a precisar de Nelson Mandela!

domingo, 17 de julho de 2011

CISTERMÚSICA

Por Eduardo Louro


 


Acabo de chegar de Cós, do Convento de Santa Maria de Cós – a que regressei pela primeira vez depois do casamento da minha filha Filipa, aí realizado – onde tive oportunidade de assistir a mais um fabuloso espectáculo musical da programação do cistermúsica – XIX Festival de Música de Alcobaça, este ano “em Torno de Inês”.


Desta vez assisti a uma extraordinária actuação de uma fabulosa orquestra de … duas violas! Os gémeos Katona – Peter e Zoltan -, cidadãos alemães nascidos na Hungria e residentes em Liverpool, não se limitam a convocar-nos para um extraordinário recital, onde o difícil é saber o que mais nos emociona: se o virtuosismo da sua extraordinária capacidade de execução, se o inimaginável desafio que o seu repertório coloca à viola ou se a fantástica resposta daquelas duas violas a esse desafio. Eles revolucionam todos os conceitos de instrumentos musicais: para mim, a partir de hoje, a viola está entre os mais nobres dos instrumentos com que se produz música!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Futebolês #84 TITULAR

 


Por Eduardo Louro


     


 Em tempo de pré-época mais um termo apropriado: titular!


Titular, em futebolês, não é o proprietário de qualquer título. Mas é proprietário, há também aqui uma relação de propriedade. De posse!


O titular é precisamente o proprietário, o dono: o dono do lugar! O lugar, a posição ocupada no xadrez da equipa, é um bem escasso. Só há 11 disponíveis!


Se a ambição faz parte da condição humana aspirar à condição de proprietário cobre uma das mais comuns ambições humanas. No caso do futebol, sendo um lugar na equipa um bem escasso, essa ambição toma outra dimensão: não há jogador que não ambicione ser o dono do lugar. Seja ele qual for!


Conforme já vimos, nesta altura de preparação da época começa por se construir o plantel: à volta de 25 jogadores, como vimos. Idealmente três guarda-redes, mais dois jogadores para cada lugar - um o titular e o outro o suplente - e mais dois jogadores polivalentes (se bem que haja polivalentes que são titulares), que possam cobrir certos imponderáveis. Todos ambicionam ser os donos do lugar mas nem todos o conseguem. Apenas alguns são titulares indiscutíveis, isto é, têm um estatuto de dono absoluto do lugar, sem deixar qualquer tipo de dúvida! Como há os que são eternos suplentes. E ainda os suplentes que são armas secretas


Nesta altura de aquisições – a época irá durar até 31 de Agosto e, pelo que temos visto em Portugal, até ao lavar dos cestos é vindima – procura-se reforçar o plantel, mas acima de tudo a equipa. Exigem-se contratações de titulares indiscutíveis, daqueles que entram de caras na equipa! Mas nem sempre assim acontece…


Já ninguém sabe muito bem quantos jogadores já contratou o Benfica. Muitos e com pouco critério, como facilmente se constata: dispõe no plantel 20 (!!!) jogadores para o meio campo – no sistema de Jesus, em 4-4-2, dá para cinco (!!!) meios campos – , não tem jogadores para construir uma linha defensiva e não tem um ponta de lança de alternativa a Cardozo que, ao que se diz, até será para vender. E, sabendo há muito da óbvia e inevitável saída de Fábio Coentrão, é muito difícil entender como é que, entre tanta contratação, não há um único para o substituir.


Com este critério – ou, melhor, com esta falta de critério – é evidente que está fora de causa aquele requisito básico da entrada de caras na equipa. À excepção do guarda-redes Artur, e não é exactamente mérito seu ou da sua contratação, é porque o Moreira foi posto a andar e ficou lá o Roberto, nenhuma contratação vem com o estatuto de titular indiscutível.


Estatuto que têm indiscutivelmente o brasileiro Luisão – o capitão e agora o jogador com mais tempo de casa – e o uruguaio Maxi Pereira, pedras absolutamente basilares da equipa. Ambos ao serviço das respectivas selecções nacionais na Copa América e, ao que por aí se diz, pouco interessados em regressar. Luisão apontado ao PSG e Maxi (quem é consegue entender por que não foi o seu contrato renovado atempadamente?) a dizer – e só acredita quem for anjinho - que quer ficar por lá, pela sua terra natal.


É com enorme preocupação que vejo, sistematicamente, os jogadores de referência da equipa a sair ou a pretenderem sair. Foram saindo todos, mandados embora na maioria dos casos, e, agora, os dois únicos jogadores com mais de três anos no clube querem sair. Acredito que seja uma circunstância que agrade a Jorge Jesus - poderá, assim, ser ele o rei absoluto do balneário, condição sine qua non para o exercício da sua rudimentar liderança - mas será catastrófica para o Benfica!


E isto é tão mais preocupante quanto olhamos um pouco lá para Norte e continuamos a vê-los apanhar as lebres levantadas pelo Benfica e, pasme-se, a renovar o contrato com o Falcão – que também está na Copa América, com todos os grandes clubes europeus atrás dele, e que podia estar muito bem a tratar da sua vida com o Chelsea ou com o Real Madrid – fazendo passar a cláusula de rescisão de 30 para 45 milhões de euros. Esta sim, uma verdadeira jogada de mestre, mesmo que sobeje muita coisa por explicar!


Ah! E o agente do Falcão é o Jorge Mendes: o mesmo que levou o Fábio Coentrão para Madrid, lembram-se? Então lembram-se como foi diferente, como aí ele estava do outro lado…

UM GOVERNO QUE GOSTA A DAR EXEMPLOS

Por Eduardo Louro


 Assunção Cristas e os seus colaboradores, esta manhã, já de acordo com as novas regras de indumentária


 


A ministra Assunção Cristas decidiu acabar com as gravatas lá no Ministério. A imprensa gostou - gosta sempre destas coisas meio fracturantes – e a ministra marcou pontos. Mais pontos! As televisões entraram pelo ministério dentro, para mostrar aquela gente toda a trabalhar sem gravata. Mas de casaco vestido. A ministra até explicou: a trabalhar aqui dentro não é necessária gravata!


A justificação é boa: poupar no ar condicionado! Então mas por que é que estavam todos de casaco vestido? A gravata aquece mais que o casaco?


Desconfio que afinal o ar condicionado estava ligado. E bem no frio!


 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Por Eduardo Louro


 


 O ministro das finanças convocou uma conferência de imprensa para as 18 horas de hoje com o anunciado objectivo de apresentar a configuração do novo imposto, do imposto extraordinário ou do que quer que lhe chamem. Sim, porque chamem-lhe o que lhe chamar, ele não é só injusto. Nem indecente. É também ilegal!


Chamo a atenção, a este propósito, para este excelente texto do Prof. Meneses Leitão, que tive oportunidade de comentar.


O ministro das finanças, para iludir a ilegalidade, optou por chamar-lhe sobretaxa extraordinária de IRS e, constituindo o tema central, dedicou-lhe apenas 5 dos 35 minutos da exposição com que abriu a conferência de imprensa: 1/7.


Mas não é por isso que deixa de ser ilegal!


Os restantes 6/7 da comunicação foram dedicados a pequenas histórias, com duas únicas excepções: uma para fazer passar uma mensagem publicitária – “a estratégia de consolidação orçamental passará a consistir em 2/3 da redução da despesa e 1/3 de aumento da receita” –; a outra para a anunciar o programa de privatizações e a lista de empresas a privatizar.


Mas, sobre a redução da despesa, nem uma única medida … Apenas a confissão conformista que já estamos cansados de ouvir: não produz efeitos imediatos! Precisamente por isso é que deveriam ser as primeiras a ser programadas e anunciadas, para que pudessem produzir efeitos mais cedo. Pudemos por isso perceber que bem podemos esperar sentados pelos 2/3 da consolidação orçamental!


Ao contrário, as privatizações estão já todas programadas. Por que será?


Tranquilizem-se que eu dou a resposta: é porque fica do lado em que esta gente sabe mexer. Do da receita! Como só sabem mexer deste lado não importa se, privatizar aqui e agora, quer apenas dizer entregar ao desbarato boas empresas ao capital estrangeiro. Esta já é uma medida que produz efeitos de imediato … vamos a isso!


Não fosse isto e teria sido uma grande performance do novo ministro das finanças. Na pele do tecnocrata, fora do registo político formal! Grande na forma mas pequeno (e mau) a substância!


Comecemos pela pontualidade: às 18 horas em ponto o ministro entrava na sala, numa prova de respeito pelas pessoas que ali estavam - pelos jornalistas – e por todas as que seguiam a conferência de imprensa através dos media. Às 19:30 encerrou, conforme aviso inicial.


Não estamos habituados, embora devêssemos, a este rigor!


Nem à disponibilidade para responder às perguntas dos jornalistas: sem outra condição que não fosse o tempo - cerca de uma hora. Nem à preocupação na resposta objectiva: o ministro anotava todas as questões que lhe eram colocadas, indiferente aos minutos de silêncio que isso provocava na sala. E respondeu a todas no seu tom pausado mas claro, mesmo às que toda a gente fugiria, como foi o caso de uma pergunta sobre o desvio colossal que, lembrando a silly season que está à porta, foi transformado no grande problema desta semana. Chegou a ser naif nessa resposta mas respondeu-lhe e, com essa resposta, matou à nascença qualquer tentativa de novas perguntas tolas. E até das incómodas!


Reconheço que é um estilo que conquista adeptos: é jogar para a bancada, como se diz em futebolês! Mas não é ganhador. E nós temos de ganhar, não podemos perder nem sequer empatar!


Só há uma oportunidade de deixar uma boa primeira impressão. Esta não é uma primeira grande impressão, mas venham daí mais oportunidades…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

CONTRA O LIXO

 Por Clarisse Louro *


 


 


Há pouco mais de um ano começamos a ouvir falar de rating e de agências de rating. E de notações: os resultados das avaliações de risco!


Não fazíamos ideia de nada disto mas rapidamente aprendemos. E depressa nos fomos familiarizando com estes nomes: Moody`s, Fitch, Standard & Poor´s. Aprendemos que havia AAA – o triple A - em inglês, pois claro. E que isso era bom: tão bom que era, em 2008 e um mês antes da falência, a classificação que tinham atribuído ao Lehman Brothers. Mas que, depois, pode cair. Para um único A, depois para B+, para B- e por aí abaixo. Até chegar a lixo!


 Foi aí que acabamos de chegar: a Moody`s avaliou a nossa dívida externa como lixo. Junk, em inglês. Mas aqui o português sobrepõe-se ao inglês, e é lixo! Porcaria!


Há pouco mais de um ano isto tinha acontecido à Grécia. E nós estamos fadados para nos guiarmos pela lanterna grega. Estamos num buraco negro, completamente escuro, onde apenas sabemos que ali à frente vai a Grécia com uma lanterna. A luzinha que vemos não é a famosa luz ao fundo do túnel: é a da lanterna grega!


Já devíamos ter percebido isto há muito. Mas não quisemos! Daí a indignação que tomou conta do país. Há muito que não víamos o país tão unido em torno de uma causa. Se calhar desde a causa de Timor!


A indignação e a revolta com esta classificação uniu os portugueses. Para já não se percebe que nos tenha unido em torno de qualquer coisa, a favor de um objectivo ou de uma missão. Mas percebe-se que nos uniu contra a Moody´s! Contra a Moody`s marchar, marchar… No facebook, evidentemente!


O país está mobilizado e unido nesta guerra. Bem organizado sob o comando do comandante-chefe das forças armadas: o Presidente da República. Foi o primeiro a sair, a dar o corpo às balas, a dar o exemplo. Logo ele, que ainda há bem pouco tempo – já bem depois da lanterna da Grécia por aqui ter passado – era o primeiro a dizer que não era esse o inimigo. Que nem sequer deveríamos falar neles, porque isso era desviarmo-nos das nossas obrigações. E os mercados? Bem, esses tinham sempre razão…


Esta é uma guerra para ganhar. Claramente, sem sombra de dúvida: estamos todos unidos, com uma liderança clara – a do Presidente da república – mas, mais, com a Europa connosco, como já não estava desde os tempos do PREC. Quando, estando com Mário Soares, estava connosco!


E nem sequer é a Europa do Durão Barroso – se bem que essa também esteja, apesar de não contar para nada -, é a Europa da Alemanha. Essa mesma, a da Senhora Merkel. Connosco como nunca antes tinha estado. E a do Sr Trichet – na verdade também é da Senhora Merkel – do Banco Central Europeu, que veio logo dizer que os ratings das agências, para ele, já não contavam nada. E até já veio explicar que bem podem tirar o cavalinho da chuva, porque em países intervencionados – o nosso, a Grécia e a Irlanda e deve ficar por aqui, porque já não há dinheiro para mais – eles não irão poder meter o nariz.


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

JUIZINHO

Por Eduardo Louro


 


 


José Poças EstevesAcabei de ouvir o meu amigo José Poças Esteves – responsável da SAER (subsidiária da Companhia Portuguesa de Rating, que pode desempenhar um papel naquela ideia de uma agência de rating europeia), em declarações difundidas pela Antena 1 – chamar a atenção para a necessidade da Alemanha, finalmente, adoptar, no seu próprio interesse, uma posição de defesa dos países da União mais pobres e vulneráveis à complexidade da actual crise.


Dizia que, se o não fizer, a Alemanha põe em causa a sua própria estratégia de crescimento e começa, também ela, a empobrecer. Parece-me que toda a gente percebe isto, que também por aqui tem sido defendido. Daí que tenha recomendado à classe política alemã que se preocupe em explicar isto muito bem ao seu eleitorado. Que explicasse muito bem que a Alemanha ganha com o euro a competitividade que não ganha com uma moeda própria: com o marco!


E é aqui que, a meu ver, está o ponto!


Os dirigentes alemães não têm só que alterar a atitude institucional da sua política europeia, saindo rapidamente e em força, sem mais hesitações, em defesa dos seus parceiros periféricos e fragilizados. Têm que explicar muito bem aos seus eleitores – o que, depois de tanto tempo a fazer crer que os do sul são uns ineptos, incapazes e preguiçosos que vivem do trabalho alemão, não irá ser nada fácil – o que ganham com o Euro e com os PIGS. E o que perdem sem eles!


O risco de países como a Grécia, Irlanda e Portugal (e a Espanha, e a Itália e a Bélgica…) abandonarem a união monetária é elevadíssimo. Mas, como tenho denunciado, não é menor o de ser a própria Alemanha a fazê-lo, o que daria no mesmo: a implosão do euro!


Com eleições em 2013, nas actuais condições, creio que pouca gente terá dúvidas que, se surgir algum aventureiro a candidatar-se com um programa de restaurar o marco, terá grandes probabilidades de as vir a ganhar. Foi assim que, há perto de 80 anos, Hitler chegou ao poder. Salvaguardadas as devidas distâncias, nada nos garante que não possa surgir outro kaiser!


É por isso, meu caro Zé, que fizeste muito bem em lhes recomendar que tenham juizinho. Que eles te ouçam!

terça-feira, 12 de julho de 2011

LABORATÓRIO DE IDEIAS

Por Eduardo Louro


 



 


 


 


Acabamos de perceber que António José Seguro está condenado a adiar sine die a abertura do seu laboratório por falta de matéria-prima!

NOTAS E VISTAS DO CAMPO (VI) - Agricultura e economia

Por Luís Fialho de Almeida


 


Nos anos de economia a crescer, com o crédito fácil, a abertura dos mercados, a acessibilidade a todo o género de produtos e proveniências e o deslumbramento perante novos bens de consumo, alterou-se a relação entre a produção nacional e o consumo interno, pelo que estamos agora a importar grande parte dos bens que consumimos e, em valor, exportamos metade do que importamos.


A abertura de mercados trouxe grandes desafios às explorações nacionais que tiveram de se modernizar para ganhar competitividade, processo doloroso que levou à perda de muitas explorações e activos.


Desde a entrada na UE, só na região de Lisboa, Oeste e Vale do Tejo, uma das regiões mais dinâmicas na produção agrícola nacional, (com cerca de 12% da superfície agrícola útil, contribui com 30% do produto agrícola final), verificou-se uma redução de 65% de activos.


Apesar do carácter depressivo do sector, e das mais chocantes das suas causas, é justo salientar o mérito de muitos agricultores e de muitos agentes de instituições públicas que, vencendo enormes contrariedades, com muito trabalho e pouco discurso, procuram e vão encontrando soluções.


Michael Porter, em 1994, identificou os clusters para desenvolvimento da nossa economia e, volvidos estes anos, verificamos a progressiva internacionalização de sectores por ele referidos no domínio agro-florestal: o vinho, a madeira, o papel e a cortiça. Também os hortofrutícolas ganham progressiva notoriedade nos mercados externos. No milho e no tomate de indústria temos as mais elevadas produtividades do mundo.


Nas produções competitivas a exportação deve ser uma prioridade, já que o escoamento interno se encontra afunilado e estrangulado pelas grandes superfícies, cada vez mais representativas da distribuição (cerca de 80%), e que vendem o que adquirem no mercado global.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

RATING

Por Eduardo Louro


 


 


A União Europeia (EU) reagiu à notação da Moody`s à dívida portuguesa de forma concertada - ao que pareceu – com as instituições nacionais. A reacção vale o que vale – que não é muito – e em particular a de Durão Barroso valeu pouco. Valeram bem mais as alemãs e valeu, essa sim porque foi bem para além da simples declaração formal, a do BCE ao declarar que deixará de condicionar a sua actividade pelas notações de rating.


Esta é uma decisão relevante e que há muito se impunha. O BCE, bem como os restantes organismos europeus, conhecem – têm toda a obrigação disso – as economias europeias e as condições financeiras dos estados membros. Nem o famoso caso grego serve para o pôr em causa. Os gregos não enganaram a União Europeia, esta é que quis deixar-se enganar! Já vinha dos tempos da integração no euro: a UE sabia perfeitamente que a Grécia não cumpria os critérios de adesão!


Não precisa, por isso, dos serviços das agências de rating e faz muito bem em dispensá-los. Percebe-se mal, de resto, a intervenção das agências de rating nas dívidas públicas, mas isso é outra história.


Esta é uma decisão eficaz e com todo o sentido: de oportunidade e de princípio. Já a anunciada criação de uma agência de rating europeia – prevista lá para o Outono mas que António José Seguro pateticamente reclama para já – não faz qualquer sentido. Se as agências americanas não estão acima de suspeição, a resposta tem que ser dada através dos dispensa dos seus serviços, nunca substituí-las por outras criadas com todo o ar de quem procura favorecimento (a agência chinesa foi criada num cenário que nada tem a ver com o que actualmente vive a Europa).


Outra coisa seria o lançamento não de uma, mas duas ou mesmo três novas agências que alarguem a oferta e confrontem o oligopólio americano com uma concorrência séria. Porque, para além de todas as suspeitas, há os factos: estas empresas, ligadas aos interesses financeiros americanos, tiveram uma participação escandalosa na crise financeira mundial de 2008 que ainda hoje asfixia milhões de pessoas por esse mundo fora. E isto não pode continuar como se não tivesse acontecido!


 


 

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