Por Eduardo Louro
Limpar é, em futebolês, um verbo – bem como os adjectivos e os substantivos correlacionados - de mixed feelings. Presta-se a tudo e, muitas vezes, ao seu contrário! Nem sempre é jogo limpo!
Limpar a jogada é cortá-la, acabar com ela. Um corte que pode ser, também ele, limpo. Ou não, pode também ser um corte faltoso – não se diz sujo, por muito sujos que possam ter sido os processos usados!
Limpa-se a jogada com um corte, mesmo que não seja limpo. Com um corte faltoso – sujo – o que se faz é sujar a jogada, nunca limpá-la. Interromper uma jogada com falta é jogo sujo, mas o futebolês, parcial como é, acha que o jogo sujo pode limpar uma jogada.
Já limpar bem a jogada é mesmo limpo: aqui não há corte em falta, nem mesmo a falta cirúrgica. Limpar bem a jogada já reporta para um feeling de elegância, num corte ou numa antecipação com saída a jogar, de preferência de cabeça levantada, pronto a iniciar o ataque.
Há entradas limpas, como todas deveriam ser, mas também se limpam cartões. Normalmente sujando outras
coisas... E há quem não consiga limpar a a imagem: Pinto da Costa, por exemplo, não consegue limpar uma certa imagem!
E conforme há mar e mar há ganhar e ganhar! Há ganhar limpo e ganhar sujo. Ganhar bem e ganhar mal.
Ganhar sujo é sempre ganhar mal, não há volta a dar-lhe. Mas já ganhar bem nem sempre é ganhar limpo. Nem mesmo ganhar limpo coincidirá sempre com ganhar bem!
Vamos por partes: uma equipa pode ganhar limpo sem ganhar bem. Eventualmente de forma fortuita e, seguramente, de forma afortunada. Com a sorte do jogo mas sem nada a dizer. E pode ganhar bem – aquilo que chamamos de justiça no resultado, que os entendidos teimam em negar, agarrando-se ao pragmático e politicamente correcto princípio de que o mérito de ganhar se esgota em marcar mais golos – ter jogado mais e melhor e, por isso, merecer claramente ganhar, mas lograr consegui-lo de forma irregular. Não ganhou limpo, porque decorreu do favor ou do erro do árbitro, mas ganhou bem. Às vezes diz-se que é escrever direito por linhas tortas!
A mim parece-me que em linhas tortas não é possível escrever direito. Dizer isso é já limpar, agora com um feeling de branqueamento. Sim, porque limpar não tem que ser obrigatoriamente branquear!
Há por cá muita gente especialista no branqueamento: sem qualquer pejo em jogar sujo sabendo que, depois, se há-de apresentar limpinha!
E há por cá gente que não só assiste calmamente a isso como ainda tudo faz para ajudar à limpeza. Estou a lembrar-me da estrutura dirigente do Benfica, que não se cansa de fazer asneiras que limpam muitas das coisas sujas dos outros. Apagam a luz e ligam a água e não percebem que, com isso, limparam anos e anos de coisas sujas e feias: pedradas, bolas de golfe, guardas abéis, agressões, pivetes nos balneários, etc., etc.….
Os dirigentes do Porto – gente que sabe da poda e não brinca em serviço - apresentaram esta semana um vídeo com os erros (que lhe interessavam, evidentemente) da arbitragem de Duarte Gomes no (último) Benfica – Porto do título e da Luz sem luz. Uma arbitragem lastimosa, com prejuízos para ambas as partes, mas que os dirigentes do Benfica decidiram desatar a defender, sem que ninguém tenha percebido porquê. Claro que, ao fazê-lo em vez de responder com os erros que lhe foram desfavoráveis, limpam todas as muitas arbitragens que beneficiaram o Porto. Quase que até limpam o apito dourado que, como se sabe, cobriu apenas uma pequena parte dos anos – décadas, mesmo – de arbitragens sujas de Calheiros, Martins dos Santos, Guímaros e sei lá mais quantos… E nem sequer beliscaram os objectivos da iniciativa portista: condicionar a arbitragem do decisivo jogo da meia-final da Taça de Portugal que se joga na próxima quarta-feira! Permitiram-lhes, mas pior ainda, legitimaram-lhes mais uma vez o jogo sujo.
Limpinho foi o apuramento das três equipas portuguesas para as meias-finais da Liga Europa. Sem espinhas, como também se diz! E com a garantia de um finalista português, com a forte probabilidade – dada a competência e capacidade do Porto – de uma final lusa. Com três jogos em perspectiva – dois na meia-final e um na final - entre equipas portuguesas sob a governação da UEFA. O que, parece-me, vai soar a estranho: três jogos sem bolas de golfe, isqueiros, confusões e agressões e com arbitragens insuspeitas e ao nível desta fase da prova.
Jogo limpo, como sempre deve ser! E se pudessem ficar a servir de exemplo…