sábado, 30 de abril de 2011

CORTE DE ESTRADA

Por Eduardo Louro


 


Tinha assistido no Nou Camp, em Dezembro passado, ao Barcelona - Real Sociedad. Assisti agora, mas pela TV, à partida da segunda volta em S. Sebastian: um jogo mauzito – o Barça também não é obrigado a jogar sempre bem – que os bascos ganharam por 2-1, tornando-se na segunda equipa a vencer os catalães no campeonato. Valeu por isso, pelo inusitado!


Mas valeu, acima de tudo, pelos cortes de Estrada! E pelos cruzamentos de Estrada. Mesmo que tenha sido por um buraco de Estrada que tudo tenha começado. Que se abriu a via … para o golo do Barça, de um desconhecido Thiago Alcantara!


Sem dar conta o Barcelona só deu por si já perdido nos caminhos da derrota. O marcador já tinha invertido o sentido de marcha e o Barcelona procurou desesperadamente o nó de saída. E Estrada fechou-lhe então todos os caminhos: nos últimos minutos, quando o Barcelona procurava desesperadamente saída para a derrota, Estrada tapava-lhe todos os caminhos. E se Messi inventava uma saída logo surgia mais um corte de Estrada!


Ah! Estrada é o lateral esquerdo da Real Sociedad. Não fez assim uma exibição tão notável:os nomes é que têm destas coisas. Às vezes dão jeito, mesmo em dias raros como o de hoje, este primeiro de Maio que também é dia da mãe. Para mim mais um dia de saudade!


 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Futebolês #74 CRENÇA

Eduardo Louro


     


O futebol tem, como se sabe, muito de religião. São muitos os pontos de contacto entre a religião e o futebol, muito para além do factor alienante que é frequentemente invocado! Estranhamente o futebolês não recorre muito a esses pontos de contacto: ao contrário do que poderia parecer esta crença não tem nada a ver com a fé religiosa ou com a crendice básica que tantas e tantas vezes sustenta as religiões. E a ignorância!


A crença, em futebolês, corresponde a um estado de espírito colectivo que se traduz num forte acreditar. Em acreditar em si, nos seus pares e nos seus líderes! Nada que seja exclusivo do futebol: é antes um dos alicerces de qualquer teoria de motivação. É qualquer coisa de fundamental sempre que se trate de gerir recursos humanos. E, como sabemos, tudo o que seja desporto colectivo de alto rendimento transformou-se no mais exigente laboratório de manipulação de variáveis de comportamentos físico e emocional de pessoas com vista à optimização de desempenhos.


Manuel Sérgio, o professor que tenho por grande filósofo do futebol, e que frequentemente aqui cito, usa esta expressão emblemática: “uma grande equipa vive de uma grande crença”!


É de facto assim: uma grande equipa de futebol é constituída, indubitavelmente, por grandes jogadores, por jogadores de grande capacidade técnica em boa condição física. Mas se lhes faltar a crença – uma grande capacidade psicológica capaz de os fazer ultrapassar os obstáculos, as dificuldades e as contrariedades – falta-lhe aquele plus, aquela mola que é capaz de transformar o azar em sorte, a tristeza em alegria e, no que finalmente mais importa, de virar a derrota para a vitória.


Incutir essa crença na equipa é seguramente a mais exigente das tarefas do líder, do treinador. Não havendo quem a não saiba cumprir de todo, raros, raríssimos, são os que permanentemente a conseguem desempenhar. Qualquer treinador consegue num determinado período, nem que seja num único jogo, transportar para a equipa toda a carga motivacional que a faça transcender-se. De forma idêntica qualquer jogador consegue reagir positivamente a esses estímulos. Já é bem mais difícil encontrar um treinador que consiga manter os índices psicológicos da equipa no topo, se não na totalidade, na maior parte e nos mais decisivos momentos da época. Precisamente porque essa é a sua mais exigente competência, porque é a cereja no topo do bolo, porque só resulta depois de exercidas todas as restantes competências: táctica, técnica, planeamento, comportamento e comunicação.


Exigem-se hoje muito mais qualificações aos treinadores. Percebe-se que hoje, como também diz o Prof. Manuel Sérgio,” um treinador que saiba muito de futebol, se só sabe de futebol, nem de futebol sabe”!


Esta equipa do Porto está realmente uma grande equipa porque vive de uma grande crença. De uma grande crença incutida por um treinador que, mesmo muito novo, sabe muito de futebol. Mas que não sabe só de futebol!


Por isso vai igualar o recorde do Benfica e ganhar o campeonato sem derrotas – arrisco mesmo que com apenas dois empates. Por isso chegou à Luz com dois golos de desvantagem e, acreditando, em 12 minutos em que tudo saiu bem, eliminou o Benfica. Por isso ainda agora frente aos espanhóis do Villareal – uma equipa de topo do futebol espanhol – depois de uma primeira parte (recorde-se igualmente a primeira parte do jogo da Luz) em que o adversário lhe foi claramente superior (com muitas ocasiões e com o único golo), acabou por marcar 5 golos, arrumar a questão do apuramento para a final, e atingir o terceiro jogo consecutivo na Europa com chapa 5. E por isso ninguém se lembra nem discute que, por exemplo, o decisivo segundo golo na Luz foi irregular (fora de jogo) e que o terceiro resultou da sorte de um desvio da bola num adversário. Ou que o decisivo primeiro dos 5 golos aos espanhóis surgiu logo no início da segunda parte, mas, mesmo assim, já depois de o adversário ter falhado a oportunidade de fazer o dois a zero, e através de um penalti inexistente! E que logo a seguir veio o 2-1, que levou os espanhóis a partir para a frente com pouca cabeça…


Mas a crença é como o futebol: é isto mesmo!


 

REAL CASAMENTO

 


 


Por Eduardo Louro


 


 


 


Fotografia

                 


 


Não importa se até o beijo tem hora marcada. É o casamento do século – mesmo que este seja ainda é uma criança – e o resto é conversa!


 


E às portas do Palácio de Buckingham o povo pediu “só mais um”. Quebrou-se a tradição e lá de cima, da varanda, soltou-se o segundo beijo. Nem num muito british casamento real a tradição já é o que era!


 

quinta-feira, 28 de abril de 2011

UM GOVERNO IGUAL A SI PRÓPRIO

Por Eduardo Louro


 


Em gestão ou em pleno exercício legítimo do poder, este governo não muda na sua imensa capacidade para manter, imperturbavelmente, um discurso de costas viradas para a realidade e para o mais elementar bom senso. É o rumo de Sócrates: há muito traçado e do qual ninguém se afasta um milímetro que seja!


Hoje, enquanto Sócrates continuava a sua nobre tarefa de sacralização do PEC 4 – já a antecipar um dos seus cavalos de batalha da campanha, agora na variante da sua comparação com o que será o produto final da troika, e a adornar a sua tese conspirativa (tirou da cartola que o PSD tinha outras maneiras de provocar eleições, sem prejudicar o país) – o seu ministro mais que tudo, Silva Pereira, falava-nos de Teixeira dos Santos. Para dizer que o ministro menos que tudo está integralmente dedicado às negociações com a troika!


Isso mesmo: o ministro que Sócrates publicamente indicou como o interlocutor do governo junto da troika, o chefe mor do governo nestas negociações - na primeira afronta pública de Sócrates ao seu ministro das finanças (a segunda seria o seu afastamento das listas) - estava agora a dizer, com a maior e habitual desfaçatez, que ninguém sabe do ministro das finanças porque ele está fechado com a troika e sem tempo de sequer aparecer!


Vale a pena citá-lo: «O ministro das Finanças está integralmente dedicado, trabalhando desde muito cedo até muito tarde, para que este processo tenha um desenlace compatível com aquele que melhor serve os interesses do país», E vale a pena ainda referir que, quando os jornalistas lhe perguntaram pelo ministro das finanças, achou a pergunta “extraordinária”. Despropositada, acrescento eu! Extraordinária é no entanto a sua resposta, e volto a citá-lo: «Os portugueses sabem perfeitamente o que está a fazer o ministro das Finanças. Está a negociar o processo de ajuda externa; está a trabalhar intensamente no Ministério das Finanças com a troika europeia para defender Portugal neste processo de negociação internacional».


É fantástico! Teixeira dos Santos agora até passa por escriturário - vá lá, contabilista - de Pedro Silva Pereira!


Tão fantástico quanto o impagável (bom, com mais uma PPP talvez se consiga pagar! Lá bem mais para a frente!) ministro das Obras Públicas, António Mendonça, vir também hoje garantir que aguarda o visto do Tribunal de Contas para o TGV!


Caramba, não haverá ninguém que abane o homem?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

ASCENSÃO E QUEDA DO BLOCO DE ESQUERDA

Por Eduardo Louro


 


O Bloco de Esquerda surgiu e consolidou-se no nosso espectro partidário porque soube conquistar o seu próprio espaço e porque soube aproveitar as oportunidades que se lhe foram deparando. Chegou ao parlamento por força da aritmética – a soma dos votos antes dispersos pelos vários partidos que lhe deram origem -, e foi crescendo por ter sabido conquistar um espaço da esquerda que estava por preencher.


E cresceu até chegar onde chegou nas eleições de Setembro 2009. Fez-se grande ao ponto de discutir o último lugar no pódio do campeonato dos partidos. E aí as coisas começaram a correr menos bem: são muitos os exemplos das coisas que nasceram para ser pequenas e que se descaracterizam quando crescem para além daquilo para que nasceram. Umas vezes porque não sabem crescer e outras porque não o merecem!


Esta era a fatalidade do Bloco de Esquerda: ocupando um espaço da esquerda muito centrado no protesto e sustentado por um discurso mais aberto e arejado, capaz de fazer moda, estava condenado a crescer. A personagem de José Sócrates fez o resto, deu-lhe o plus! E o Bloco foi, por força desse crescimento, obrigado a sair da sua zona de conforto: o espaço de protesto. E aí estatelou-se ao comprido!


A moção de censura – mais a forma que a substância – foi a primeira grande escorregadela. A encenação com o Partido Comunista também não ajudou nada. Mas a queda, decisiva e irreversível, surge quando, colado ao PCP, se coloca de fora do quadro de diálogo com a troika que está a tomar conta do país. Diz aí o último adeus a umas centenas de milhares de votos, porque perde a confiança de uma franja de eleitorado que não entende que se voltem as costas às instituições de que o país, quer se queira quer não, depende. E com quem é indispensável dialogar, independentemente da margem de negociação.


O resto está a cargo de José Sócrates. O que é justo, parece-me: se foi esse personagem a dar-lhe o tal plus, é justo que seja ele a tirar-lho! É que desta vez o personagem vai desencadear o fenómeno de voto útil: como o meu clube, aqui há uns anos, se uniu para correr de lá com aquele tipo que toda a gente sabe, agora o país vai unir-se para correr com Sócrates. E, ao contrário do que ouço a todos analistas, - que garantem uma grande transferência de votos do Bloco para o PS – eu acho que a grande maioria dos votos irá fugir directamente para o PSD.  Votos decisivos, nas circunstâncias que vamos conhecendo, para garantir a vitória de Passos Coelho.


É claro que, depois, toda a gente irá dizer que esses são os votos do Fernando Nobre. Olhem que não… olhem que não!


 

terça-feira, 26 de abril de 2011

ECOS DO DISCURSO DE UNIÃO

Por Eduardo Louro


 


Pela primeira vez – e aproveitando uma Assembleia da República demissionária – o presidente Cavaco Silva, provavelmente animado por este súbito impulso de unidade, chamou os ex-presidentes (curiosamente estão vivos todos os ex-presidentes eleitos e já não estão entre nós os dois que exerceram a função por nomeação) do pós 25 de Abril para, com ele, cumprirem as comemorações oficiais. E o resultado foi um discurso oficial de apelo à convergência dos partidos, em especial dos do chamado arco do poder.


É um discurso que, percebendo-se, não deixa de soar a estranho. O que é curioso é que se perceba e se estranhe precisamente pela mesma razão!


Não me parece que se deva perceber este discurso à luz da actual crise política, económica, financeira, social e ética. Apelar à união de todos em período de crise é um lugar-comum, não traz nada de novo. Não é normal, nem sequer em meu entender razoável, que em período pré-eleitoral, e em ambiente de campanha eleitoral, se venha falar de convergência entre os partidos. Pelo contrário, em democracia o normal é, em períodos destes, salientar as diferenças e puxar pelo que distingue as diferentes opções.


Por isso acho que se poderá perceber facilmente que marcar eleições e, ao mesmo tempo, pedir a unidade dos partidos, não bate certo. Não joga a bota com a perdigota! Marcar eleições antecipadas quer dizer que é tempo de se ir à procura de novas soluções, de alternativas. Ao invés, se a ideia for procurar soluções consensuais e promover a convergências e a unidade, o que há a fazer é criar plataformas de entendimento nesse sentido. Nunca antecipar eleições!


Então porquê este anacronismo? Porque já toda a gente percebeu que as eleições não vão dar em nada. Que a solução não está ali! Que as eleições, em vez de clarificarem a situação política, tornam-na ainda mais complicada.


E, portanto, se as eleições não vão resolver o que se supunha resolverem, há que voltar à outra fórmula: procurar criar plataformas de entendimento. O que em campanha eleitoral não é fácil. Entra então aí a outra parte do discurso: aquela que, reconhecendo o bizarro que é pedir união, pede contenção no discurso de campanha. Para que da campanha não saiam minadas e envenenadas as hipóteses de entendimentos pós-eleitorais.


Quer isto dizer que foi errada a decisão de antecipar eleições? Vista daqui e de agora a resposta é clara: foi! Mas vista de então e de lá não foi um erro. Foi azar!  

domingo, 24 de abril de 2011

25 DE ABRIL:1974-2011

 Por Eduardo Louro


 


Visto assim o título poderá até parecer necrológico. Mas não é!


 É mesmo para assinalar os seus 37 anos: uma idade madura! Para trás ficaram tempos de irreverência, tempos de sonhos e de promessas. Como as pessoas, chegado aos 37 anos, o 25 de Abril não fez tudo o que prometeu, não fez um percurso limpo e direitinho, aqui e ali perdeu-se. Desiludiu alguns e frustrou expectativas, mas sabemos como é difícil agradar a todos… Ainda na semana passada vimos alguém que reivindica a sua paternidade – já lhe ficou bem, não é agora o caso – dar conta do seu desencanto, ao ponto de confessar o seu arrependimento por essa autoproclamada paternidade. Renegá-lo - terá sido?


 Aquele não é o título de um epitáfio. Ao longo destes 37 anos muitos têm sido os que o têm dado por morto. Podem alguns jurar que morreu, podem mesmo garantir que confirmaram a sua morte. Mas não! É pura ilusão, no caso e mais propriamente, pura desilusão. Porque há muitos 25 de Abril: arriscaria mesmo a dizer que há um 25 de Abril para cada um de nós. Cada um dos que tivemos a felicidade e o privilégio de o viver criou o seu próprio 25 de Abril, concebeu-o e desenhou-o à sua medida, à medida do seu próprio romantismo, da sua própria imaginação, da sua ideologia e dos seus valores.


Renova-se a cada dia 25 deste mês de Abril porque é nosso. Mantém-se vivo nas nossas memórias e manter-se-á sempre vivo se não deixarmos que desapareça das memórias que temos a responsabilidade de alimentar. Temos a responsabilidade de o manter vivo pelo menos uma vez por ano, pelo menos neste dia. Mesmo que a Assembleia da República, que mesmo demitida acaba por reunir para coisas e com fins que poucos entendem, entenda não abrir portas para lhe cantar os parabéns!


 

SOBE... SOBE... BALÃO SOBE!

Por Eduardo Louro


 


O défice de 2010 não pára! Já vai em 9,1%! Era 6,8, lembram-se?


Estatísticas, meras estatísticas que nada põem em causa, diz o governo através do agora seu novo homem forte: Vieira da Silva, ministro da Economia. A culpa é do Eurostat, que voltou a alterar as regras…


Ouvimos esta explicação e vem-nos logo á cabeça que não engoliram aquela do fundo de pensões da PT: caramba, lá nos obrigaram a puxar o gato cá para fora! Não. Nada disso, ainda não chegaram lá: era apenas qualquer coisa que faltava de umas PPP!


Pronto, já sabemos: daqui a uma ou duas semanas ainda há-de chegar essa! O Eurostat há-de voltar a alterar as regras e o défice passar para lá dos 11%. O que é que havemos de fazer? Como o Eurostat não tem mais nada que fazer entretém-se a alterar as regras de apuramento dos défices… Cada semana arranja uma nova!


Esqueletos no armário? Não … Isso é conversa de maldizentes…


E depois vou ouvindo que estes tipos estão a subir nas sondagens... Que sobem a um ritmo maior que o défice!


Mas pirou tudo de vez?

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Futebolês #73 DUAS PARTES DISTINTAS

Eduardo Louro


                  


Ora aqui está uma das mais clássicas expressões do futebolês: duas partes distintas! Se tivesse que caracterizar esta expressão não teria dúvida nenhuma em pôr-lhe um bigode, uma camisa aberta com os pelos do peito ao léu, um cigarro na mão e um palito no canto da boca. Nem mais: uma das expressões mais populares do futebolês! E uma das mais abrangentes, particularmente do gosto de alguns treinadores.


O jogo tem duas partes, de 45 minutos cada uma, unidas por um intervalo que era de 10 minutos que, por culpa das televisões, já vai no quarto de hora. São portanto tão distintas como qualquer coisa que se distingue de qualquer outra coisa. E tão indistintas quanto acontecerem no mesmo local, nas mesmas condições e terem a mesma duração.


Observadas com mais atenção conseguimos encontrar-lhe algumas diferenças imperceptíveis a olho nu. Por exemplo: a segunda parte é normalmente um bocadinho maior, por culpa de uma coisa chamada período de compensação. O internacional extra-time que os árbitros decidem para compensar algum do tempo perdido – sempre demasiado e exagerado para quem está a ganhar e sempre de menos para quem precisaria de estar a ganhar – e que, por força das substituições, é normalmente maior na segunda parte. E também se consegue perceber que, na segunda parte, as equipas estão a jogar para o lado contrário. Mas, por mais que procuremos, não conseguimos encontrar-lhe mais diferenças. Mais nada as distingue!


Não são, na realidade, as duas partes que são distintas. O jogo é que é distinto: a atitude das equipas, as circunstâncias de jogo, a matriz táctica, a velocidade - e mais um sem número de variáveis que fazem de um jogo tão simples como o futebol um espectáculo apaixonante – é que podem fazer alterar por completo a rota traçada para o jogo. Umas vezes por estratégia assumida por um dos treinadores. Ou até por ambos! Outras por imponderáveis próprios do jogo e outras ainda por imponderáveis da simples condição humana.


Na noite da passada quarta-feira tivemos oportunidade de assistir a dois jogos com duas partes distintas. São de resto esses dois jogos, e as circunstâncias de terem decorrido à mesma hora e de ambos, tão flagrantemente, ilustrarem as duas partes distintas, que me empurraram hoje para o assunto.


A final da Taça do Rei de Espanha reeditou o duelo entre o melhor futebol do mundo (de todos os tempos, na minha opinião) – o Barcelona – e o melhor treinador do mundo à frente de um conjunto de jogadores do melhor que há - o Real Madrid. O segundo – depois do empate do passado sábado, em Madrid – de uma série de quatro que em pouco mais de duas semanas. Com uma primeira parte onde Mourinho bloqueou o Barcelona, impedindo-o não só de apresentar o seu fabuloso tic-tac como, pasme-se, de efectuar um único remate. E onde apenas o Real foi capaz de criar ocasiões de golo. A segunda foi completamente distinta: o Real Madrid já não conseguiu impedir o jogo do Barcelona, e o melhor futebol do mundo impôs-se à táctica do melhor treinador do mundo, esmagando o Real naquilo que era já outro jogo. As ocasiões de golo sucederam-se ao mesmo ritmo que se sucediam as grandes defesas de Casillas. Por isso não houve golos mas prolongamento, e mais uma parte distinta que permitiu o golo de Cristiano Ronaldo e o primeiro título de Mourinho em Madrid.


Também o Benfica-Porto teve duas partes distintas. Na primeira viu-se um Benfica atípico, mesmo contra-natura, a segurar a bola num jogo sem ritmo, a atingir 61% de posse de bola. Uma completa anormalidade perante um Porto com cultura de posse de bola, que assenta toda a sua estratégia de jogo num triângulo feito de posse, desmarcação e passe. E um Porto surpreendentemente resignado!


A segunda parte, como se sabe, foi completamente distinta! Ao ponto de inverter por completo a estatística, que fixaria, no final do jogo, a posse de bola em 50% para cada lado. É certo que o Benfica teve a infelicidade de encarar o jogo – e o que falta da época – sem os seus dois alas. Que sustentam toda a estratégia de jogo da equipa, que agitam o agitado jogo da equipa e que desequilibram os adversários. É certo que a arbitragem acertou sempre nos foras de jogo do Benfica e, na única vez em que foi chamada a acertar num único do Porto, errou. E influenciou directamente o resultado. É certo que o árbitro teve mão leve a puxar pelo primeiro cartão amarelo e nunca teve mão para o segundo que se justificou, e em mais que uma ocasião, para dois jogadores portistas. Tudo isto é já normal como, ainda no domingo, no jogo com Sporting no Dragão, se pôde ver. Mas é também verdade que foi já sem grande surpresa que o Porto fez o primeiro golo. E é certo que a equipa tinha de saber que, marcando primeiro, o Porto cresceria emocionalmente e ameaçaria tornar-se imparável. È certo que a equipa teria de estar preparada para reagir essa eventualidade. Mas não estava e em apenas dez minutos conseguiu a proeza de sofrer mais dois golos que a afastaram de uma final que todos davam por certa. E de, uma vez mais – mas agora em plena semana santa – atirar Jesus para a cruz!


Duas partes distintas! Mas haverá alguma coisa mais distinta que estas duas épocas do Benfica de Jesus?

NEGÓCIOS DO DIABO

Por Eduardo Louro


 


Teixeira dos Santos, o ministro das finanças, ficará na História como o ministro da banca rota, ficará para sempre ligado à imagem do desgoverno, dos PEC`s - uns atrás dos outros sem que nada resolvam –, dos erros trágicos nas contas públicas que não param de corrigir défices em alta - 2008, 2009 e 2010 - e da falta de credibilidade do país. Quando olharmos para este que é um dos períodos mais negros da História de Portugal veremos sempre dois rostos: José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos!


Este é o resultado da capitulação do Teixeira dos Santos perante a estratégia suicida de Sócrates. Teixeira dos Santos, por razões que a razão desconhece, depressa deixou de ser um técnico respeitado e altamente prestigiado e de inquestionável competência, para se transformar num capacho político. No capacho de Sócrates! Depressa deixou de ser o ministro que carregava o governo às costas, que lhe dava substancia e credibilidade, para passar a ser um irresponsável e desacreditado funcionário de Sócrates. Quem o conhecia nem queria acreditar!


Ficou agora fora das listas do PS. Mas pior que ficar de fora é a forma como ficou: sozinho e abandonado como qualquer descartável. Como um cão abandonado pelo próprio dono, um dono a quem se havia dedicado com toda a fidelidade!


Adivinhara aqui este desfecho no próprio dia do debate parlamentar do PEC, quando ficou só, e já abandonado, a representar o governo no parlamento, enquanto Francisco Assis era aplaudido de pé e em êxtase. Mas também já o adivinhara quando o PS criou a doutrina – a primeira das muitas que se têm sucedido para intoxicar a opinião pública – de que o problema do PEC não passara de um erro de comunicação. Quando António Costa o exibiu – a lembrar o actual momento pascal – como o pior e o mais inábil mensageiro político do hemisfério norte. Disse eu então que Teixeira dos Santos merecia aquela sua condição de cordeiro pascal pronto para o sacrifício. Reafirmo-o agora, quando se sabe que o último e decisivo pontapé de Sócrates aconteceu precisamente quando o ministro das finanças, que há muito sabia que já devia ter pedido ajuda externa, teve que mandar uma resposta por escrito para o Jornal de Negócios a anunciá-la!


Teixeira dos Santos vendeu a alma ao diabo (nunca a expressão terá feito tanto sentido, Sócrates é mesmo o diabo)! Só o diabo nos quer comprar a alma, mais ninguém ousa fazer uma proposta dessas… A alma não é para ser vendida! E são negócios do diabo os negócios com o diabo...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

URGÊNCIAS

Por Joana Louro *


 


O País caiu no fundo... A Europa, sem se aperceber que estamos todos entrelaçados, vai a caminho! É o fim anunciado de um sonho e de um projecto... E o fim de um país autónomo, independente, digno e respeitável. Mas também o fim de um sonho, do sonho europeu, de uma Europa do Atlântico aos Urais, unida pelos laços da paz e do desenvolvimento. É uma desilusão em dose dupla. Porque Portugal e Europa são indissociáveis, por muito que do lado de lá se queira negar a realidade…  


O desencanto instalou-se no país... E não existem piores sintomas que o desencanto, a descrença e a desilusão, que surgem quando já tudo se perdeu sem que sequer se vislumbre um ramo a que deitar a mão. Um país sem autoconfiança, sem auto-estima e que simplesmente deixou de acreditar é um país doente e com péssimo prognóstico... O desencanto é tanto que abafa a revolta: até o FMI deixou de ser o papão mau de outros tempos para passar a ser um mal menor! Bem menor, pelo que vamos vendo das posições da União Europeia, claramente mais papista que o papa: mais FMI(sta) que o FMI!


Não pretendo encontrar culpados nem tão pouco consigo encontrar soluções... Mas não consigo olhar para esta classe política sem um forte sentimento recriminatório. Só me ocorre banir toda a actual classe de políticos, inibi-los do exercício de uma actividade que não souberam defender, quanto mais prestigiar. E acreditar que ainda existam pessoas sérias e competentes, com suficiente altruísmo e sentido cívico, para reformular um projecto e recriar um país quase milenar e com uma História que não cabe – nem nunca poderá caber – neste rectângulo desgovernado, desrespeitado e humilhado. Sei bem que isto é difícil. Também esta esperança se vai desvanecendo por detrás de cada desilusão!


E com o país lá bem no fundo a miséria instala-se, cresce e avança. Há já pessoas vão ao serviço de urgência com uma qualquer desculpa apenas para comer uma sopa que já não encontram e que, provavelmente, será a sua única refeição do dia. Os doentes, cada vez mais idosos, cada vez mais crónicos, cada vez mais doentes, recorrem cada vez mais aos cuidados de saúde por descompensação da sua patologia de base: porque já não há dinheiro para os medicamentos que necessitam para o seu equilíbrio. Não há urgência em que não dê entrada alguém que vem de uma tentativa de suicídio: pessoas totalmente destruídas que, esgotado o limiar da resistência humana, pensam encontrar ali, bem no centro do desespero, a única solução para todos os seus problemas.


Esta é a dura e crua realidade. Há miséria, fome, angústia e desespero neste país. Vejo-a passar à minha frente no Serviço de Urgência. Todos os dias, num retrato real de um país que caiu no fundo.


 


 


* Convidado especial: Texto publicado hoje no Jornal de Leiria

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A VINGANÇA DO TEMPO

Por Eduardo Louro


 


Suponho que nunca como agora Portugal terá estado tão debaixo de olho da comunidade internacional. O número de correspondentes dos maiores e mais influentes jornais do mundo tem engrossado nos últimos tempos.


O mundo quer saber o que se passa cá. Os credores querem saber o que fizemos ao dinheiro, como vivemos, se temos gosto pelo trabalho, como tratamos das coisas… Não se preocupam se merecemos ajuda, preocupam-se é se merecemos crédito. Se valerá a pena emprestarem-nos o seu dinheiro e, mais do que isso, se teremos condições para lho pagar de volta.


É realmente muita coisa que, aos olhos de toda esta gente que por cá vai passando, está em jogo. São todos estes correspondentes que irão levar a nossa imagem ao mundo. Uma imagem que já está viciada à partida: a maioria destes correspondentes aterra em Lisboa já com uma ideia pré-estabelecida. Com preconceitos, evidentemente! Que, como todos os preconceitos, resvalam muito frequentemente para a caricatura, que nada tem a ver com a realidade. Creio que todos nós tivemos já oportunidade de constatar muitos desses preconceitos: analfabetos, baixíssima educação cívica – o nosso comportamento nas estradas suporta o mais pesado rótulo que nos colam à testa – calões, irresponsáveis, etc.


Estes correspondentes, que se instalam nos nossos melhores hotéis e passam uma ou duas semanas entre os nossos melhores restaurantes e os mais cosmopolitas cantos de Lisboa, levam uma visão de nós que nada tem a ver com aqueloutra dos muitos estrangeiros que se fixam entre nós e connosco partilham vidas. E não me refiro sequer ao típico imigrante, aos que escolheram o país à procura de melhores condições de vida, de condições que os seus países, menos desenvolvidos, lhe não podiam oferecer, refiro-me aos muitos que escolheram Portugal depois de aqui terem vislumbrado, entre as condições naturais do país e a nossa própria cultura, verdadeiros factores de qualidade de vida. Estes, ao contrário dos primeiros, já cá se fixaram despidos de preconceitos – caso contrário não o teriam feito - e têm realmente oportunidade de nos conhecerem. De conhecerem a nossa solidariedade, a nossa forma aberta de receber e de nos relacionarmos, a nossa gastronomia, e tantas outras nossas coisas boas. E as más, evidentemente!


Mas estes poderão, quanto muito, escrever isso numas cartas e juntar umas fotografias que mandam às suas famílias. Os outros fazem chegar a sua visão, as suas experiências e os seus preconceitos a toda a gente, a todo o mundo!


E fazem-lhe chegar que os restaurantes estão cheios, que têm de esperar em fila por uma mesa na Trindade, que à noite, no Bairro Alto, não cabe uma agulha e que, chegada a semana da Páscoa – com praticamente 5 dias de feriados, onde para além dos homens da troika da “ajuda externa”, mais ninguém trabalha – os portugueses correm para o sol e esgotam a capacidade hoteleira do Algarve onde, de papo para o ar, dão uma semana de férias à crise. É isto que vai correr por esse mundo fora. Que vai alimentar as opiniões públicas da Alemanha, da Suécia, da Holanda e da Finlândia… Esses que não acham boa ideia que os seus governos nos emprestem dinheiro!


Quero crer que a meteorologia quis temperar um pouco isto. É a vingança do tempo: já que vocês não se sabem dar ao recato e dão esta imagem a estes tipos, tomem lá chuva e frio em vez de sol!

terça-feira, 19 de abril de 2011

E O PROGRAMA ELEITORAL, PÁ?

Por Eduardo Louro


 


Anda tudo muito agitado com a falta de propostas eleitorais dos partidos políticos. O PSD não tem programa e o do PS é o PEC4 - é o que se ouve por todo o lado. E que quer dizer apenas isto: do PSD não sabemos nada e, do PS, o que sabemos não presta.


É verdade – sabemos pouco do PSD. Mas, do PS – e então deste PS que insistiu em apresentar-se com a mesma roupa, e nem sequer lavada – sabemos de mais. E sabemos que não presta, não é apenas o PEC que não presta!


Mas voltemos ao grande problema que preocupa hoje os portugueses – os programas eleitorais dos partidos. Ou melhor: a falta deles! Especialmente a do programa eleitoral do PSD.


No Eixo do Mal, da SIC Notícias do último sábado, era a Clara Ferreira Alves que levantava uma folha de papel para a câmara e dizia:”olhem, aqui está o programa do PSD”. Nas entrevistas deste fim-de-semana – ao Expresso e à RTP – Fernando Nobre, o homem de quem se fala, também lamentava essa falta. Mais acentuada quando chegou a correr que ele próprio teria estado envolvido na sua preparação. Ontem era ainda Freitas do Amaral, numa boa entrevista na RTP, a voltar a apontar o dedo a esta falha grave. Que não entendia, acrescentava, porque não é necessário um calhamaço de uma tese de doutoramento com 500 páginas: basta uma simples folha de papel com uma dúzia de ideias. Para o provar recorreu mesmo ao baú das suas memórias da histórica liderança do CDS, quando recordou que se era preciso apresentar qualquer coisa de um dia para o outro, tudo se resolvia numa noitada com o Adelino Amaro da Costa e o Basílio Horta (sim, sim, esse mesmo – o cabeça da lista do PS por Leiria).


Isto já para não falar do jogo politiqueiro, onde o PS já dá tanto uso a este argumento como ao da culpa pelo chumbo do PEC e pela crise política.


Confesso que também a mim me fez uma enorme confusão que, ao fim de um ano – e que ano, um ano com o governo sempre no fio da navalha – a nova liderança do PSD não tenha tido forma de delinear a tal dúzia de ideias, quando andou erraticamente a passear por becos e ruelas. Para onde entrava sem que ninguém percebesse e donde saía só depois de andar a bater com a cabeça por aquelas paredes.


Nada que entretanto não tenha percebido, e nada por que me não penalize. Afinal era preciso vistas bem largas para perceber isto. Humildemente reconheço que as minhas vistas curtas me impediram de lá chegar mais cedo. Lamento é ter de denunciar as vistas curtas de personalidades como as que acima referi!


É que, como é hoje perfeitamente evidente para a maioria dos comuns mortais, não faz qualquer sentido que um partido – seja ele qual for – apresente um programa eleitoral. Não faz sentido, mas também não pode: o programa está ainda e apenas no início da preparação. Estão só agora a decorrer os primeiros contactos com os parceiros sociais – os sindicatos foram hoje recebidos, e as organizações patronais apenas amanhã – e com os partidos políticos. Encontros que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista recusaram liminarmente!


E como a coisa não se resolve numa noitada, nem com uma dúzia de ideias numa folha A4, como preconizava Freitas do Amaral, o programa dos partidos ainda está bem atrasado. Os homens nem sequer vão gozar os feriados da Páscoa para não atrasar a coisa. Mas, mesmo assim, só lá para o final da próxima semana – que também será fim do mês - é que haverá fumo branco. Nessa altura já ninguém perguntará pelo programa de quem quer que seja!


Pelos vistos apenas ao PCP e ao BE se pode exigir que apresentem as suas propostas para o país. O Bloco já se mostrou disponível, mas a conta gotas: serão 20 pontos – mais que a tal dúzia – a apresentar ao ritmo de um por dia!


Percebe-se que o outro chegará primeiro!


 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

OS INDEPENDENTES E OS PARTIDOS

Por Eduardo Louro


 


Com a constituição e apresentação das listas de candidatos às próximas eleições os independentes vieram para a ribalta. E de que maneira!


É, nestas alturas, inevitável. Os partidos não têm em Portugal a melhor das imagens – antes pelo contrário -, a sociedade civil tem pouco espaço, a vida pública (e política) está demasiado partidarizada, os partidos são fechados sobre si mesmos, o próprio regime é muitas vezes visto como uma partidocracia. Isto já não falando das clientelas partidárias, da tomada de assalto do aparelho de estado, da percepção que os cidadãos retêm de que são os partidos os principais bloqueadores da reforma do Estado e mais uma infinidade de argumentos – que não caberiam em duas ou três páginas – que fazem com que os partidos, chegada a hora das listas, se desdobrem à procura de independentes. Que lhes compensem alguma da credibilidade perdida, que lhes abram portas a espaços proibidos, que lhes garantam, enfim, mais uns votos. Porque é isso, ao fim de contas, que todos procuram!


E, no entanto, reflectindo um pouco e indo um bocadinho mais para além deste horizonte curto que se nos depara sempre que aceitamos a primeira vista como definitiva, começa a parecer-nos que há aqui qualquer coisa que não bate certo. Este clique surgiu-me à entrada deste fim-de-semana quando, conversando com alguém envolvido no processo de constituição das listas e presidente de uma concelhia do PSD, fui surpreendido com a mais desassombrada das reacções: “…eles só querem independentes e mais independentes nas listas então também terão que mandar os independentes fazer o trabalho que nós fazemos…” Quando poderia imaginar que esta seria a menos politicamente correcta das reacções, a observação inconveniente que nem em desabafo eu ouviria percebi, de imediato, que aquilo sim. Aquilo é que é normal e natural. Percebi aqui a primeira e grande contradição desta obsessão dos partidos pelos independentes. Não é natural – é mesmo contra-natura – que gente que dedica grande parte da sua vida a um partido - uma opção que é indissociável de uma vontade de intervenção política – quando chega a hora de se apresentar e de se submeter à avaliação por que sempre esperou, seja afastada dessa oportunidade por alguém que vem de fora. Alguém que, ainda para mais, têm de carregar às costas durante toda a campanha eleitoral.


Esta lógica tem graves consequências no processo de descredibilização dos partidos, a começar pela sua própria desacreditação. Quando um partido procura independentes está a dizer que os seus, os que lá estão, não são de confiança. E se é o partido a desconfiar deles como é que poderemos nós acreditar? Mas é também aqui que vamos encontrar a origem genética do problema do assalto ao aparelho de estado. É que os sapos que os militantes engolem neste processo terão de ser compensados… Mas quando recruta independentes está não só a dizer ao eleitorado que não tem confiança nos seus como, de alguma forma, a pedir-lhe um cheque em branco. Porque um independente é alguém que não comunga da ideologia do partido e, nessa medida, menos previsível. Que dá menos garantias de prosseguir um rumo conhecido e balizado por valores e conceitos ideológicos: veja-se o caso Fernando Nobre – o mais mediático e discutido de todos os independentes – que provocou ontem algo de verdadeiramente surreal, com Passos Coelho a reclamar-lhe clareza e que deixasse tudo esclarecido na entrevista à RTP onde, de resto, viria a reafirmar a sua condição de homem de esquerda.


Mas há ainda outro aspecto, que muito tendemos a valorizar, onde os independentes ficam a perder: a independência perante o líder. Os militantes do partido têm sempre mais por onde bater o pé ao líder que os independentes. Porque as lideranças passam e eles ficam. Ao passo que os independentes só lá estão pela vontade do líder, de quem dependem em absoluto e a quem - é assim a vida – são incapazes de dizer não.


Parece-me que conseguimos começar a perceber que o eleitorado não tem muitas razões para premiar os independentes. Ou melhor, de premiar os partidos por apostarem em independentes. Pelo menos se o eleitorado se esforçar para ir um bocadinho para além do que lhe cantam ao ouvido! E que os partidos estão afinal enganados, teriam mais a perder que a ganhar com esta estratégia dos independentes. Mas quando já perderam tudo…

domingo, 17 de abril de 2011

NÃO ESTAMOS ARRUINADOS: FOMOS SALVOS!

Por Eduardo Louro


 


Miguel Relvas, hoje, à saída do Conselho Nacional que aprovou as listas para as próximas eleições: “Vi hoje as listas do PS e quem lá está? Os ministros e secretários de estado que quase arruinaram Portugal. Não arruinaram porque o PSD não deixou”!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Futebolês #72 LIMPAR

Por Eduardo Louro


     


Limpar é, em futebolês, um verbo – bem como os adjectivos e os substantivos correlacionados - de mixed feelings. Presta-se a tudo e, muitas vezes, ao seu contrário! Nem sempre é jogo limpo!


Limpar a jogada é cortá-la, acabar com ela. Um corte que pode ser, também ele, limpo. Ou não, pode também ser um corte faltoso – não se diz sujo, por muito sujos que possam ter sido os processos usados!


Limpa-se a jogada com um corte, mesmo que não seja limpo. Com um corte faltoso – sujo – o que se faz é sujar a jogada, nunca limpá-la. Interromper uma jogada com falta é jogo sujo, mas o futebolês, parcial como é, acha que o jogo sujo pode limpar uma jogada.


limpar bem a jogada é mesmo limpo: aqui não há corte em falta, nem mesmo a falta cirúrgica. Limpar bem a jogada já reporta para um feeling de elegância, num corte ou numa antecipação com saída a jogar, de preferência de cabeça levantada, pronto a iniciar o ataque.


Há entradas limpas, como todas deveriam ser, mas também se limpam cartões. Normalmente sujando outras coisas... E há quem não consiga limpar a a imagem: Pinto da Costa, por exemplo, não consegue limpar uma certa imagem!


E conforme há mar e mar há ganhar e ganhar! Há ganhar limpo e ganhar sujo. Ganhar bem e ganhar mal.


Ganhar sujo é sempre ganhar mal, não há volta a dar-lhe. Mas já ganhar bem nem sempre é ganhar limpo. Nem mesmo ganhar limpo coincidirá sempre com ganhar bem!


Vamos por partes: uma equipa pode ganhar limpo sem ganhar bem. Eventualmente de forma fortuita e, seguramente, de forma afortunada. Com a sorte do jogo mas sem nada a dizer. E pode ganhar bem – aquilo que chamamos de justiça no resultado, que os entendidos teimam em negar, agarrando-se ao pragmático e politicamente correcto princípio de que o mérito de ganhar se esgota em marcar mais golos – ter jogado mais e melhor e, por isso, merecer claramente ganhar, mas lograr consegui-lo de forma irregular. Não ganhou limpo, porque decorreu do favor ou do erro do árbitro, mas ganhou bem. Às vezes diz-se que é escrever direito por linhas tortas!


A mim parece-me que em linhas tortas não é possível escrever direito. Dizer isso é já limpar, agora com um feeling de branqueamento. Sim, porque limpar não tem que ser obrigatoriamente branquear!


Há por cá muita gente especialista no branqueamento: sem qualquer pejo em jogar sujo sabendo que, depois, se há-de apresentar limpinha!


E há por cá gente que não só assiste calmamente a isso como ainda tudo faz para ajudar à limpeza. Estou a lembrar-me da estrutura dirigente do Benfica, que não se cansa de fazer asneiras que limpam muitas das coisas sujas dos outros. Apagam a luz e ligam a água e não percebem que, com isso, limparam anos e anos de coisas sujas e feias: pedradas, bolas de golfe, guardas abéis, agressões, pivetes nos balneários, etc., etc.….


Os dirigentes do Porto – gente que sabe da poda e não brinca em serviço - apresentaram esta semana um vídeo com os erros (que lhe interessavam, evidentemente) da arbitragem de Duarte Gomes no (último) Benfica – Porto do título e da Luz sem luz. Uma arbitragem lastimosa, com prejuízos para ambas as partes, mas que os dirigentes do Benfica decidiram desatar a defender, sem que ninguém tenha percebido porquê. Claro que, ao fazê-lo em vez de responder com os erros que lhe foram desfavoráveis, limpam todas as muitas arbitragens que beneficiaram o Porto. Quase que até limpam o apito dourado que, como se sabe, cobriu apenas uma pequena parte dos anos – décadas, mesmo – de arbitragens sujas de Calheiros, Martins dos Santos, Guímaros e sei lá mais quantos… E nem sequer beliscaram os objectivos da iniciativa portista: condicionar a arbitragem do decisivo jogo da meia-final da Taça de Portugal que se joga na próxima quarta-feira! Permitiram-lhes, mas pior ainda, legitimaram-lhes mais uma vez o jogo sujo.


Limpinho foi o apuramento das três equipas portuguesas para as meias-finais da Liga Europa. Sem espinhas, como também se diz! E com a garantia de um finalista português, com a forte probabilidade – dada a competência e capacidade do Porto – de uma final lusa. Com três jogos em perspectiva – dois na meia-final e um na final - entre equipas portuguesas sob a governação da UEFA. O que, parece-me, vai soar a estranho: três jogos sem bolas de golfe, isqueiros, confusões e agressões e com arbitragens insuspeitas e ao nível desta fase da prova.


Jogo limpo, como sempre deve ser! E se pudessem ficar a servir de exemplo…


 


 


 

É EVIDENTE QUE É PROPAGANDA

Por Eduardo Louro


 


O ministro da propaganda – perdão, da presidência –, Silva Pereira, garantiu hoje, enquanto, também ele, anunciava os fabulosos resultados da execução orçamental do primeiro trimestre, não existir qualquer risco de rotura no pagamento de salários da função pública. E chamou de terroristas as notícias que davam conta desse risco, como as que ontem circularam relativamente às forças armadas.


“Quando a receita cresce 15% e a despesa desce, é evidente que as receitas cobrem despesas…”, disse. É evidente que sim - é mera aritmética - partindo de um défice menor ou igual a 15%. É o caso, suponho! Portanto é assim evidente que não há défice – que é o que acontece quando as receitas cobrem as despesas. 


É evidente que a troika está cá por engano. Foram chamados para Espanha e vieram, por engano, parar a Portugal.


O que a propaganda faz. É tal o esforço de propaganda que até com o défice se acaba! Tivesse o governo investido tanto na governação como agora investe na propaganda e hoje não tínhamos problemas nem de défice, nem de dívida, nem de confiança, nem de credibilidade, nem de nada…

OS SMS

 Por Eduardo Louro


 


Ainda esperávamos pela explicação dos encontros (e desencontros) de Sócrates e Pedro Passos Coelho – também, pelo que vi, só eu é que a pedi – e já estávamos a levar com outra: desta vez ficou a saber-se que, provavelmente na sequência desse encontro, os deputados do PSD receberam, por sms, ordem para manter a boca fechada ao longo desse famoso 11 de Março. Para não se pronunciarem sobre as negociações à volta do PEC 4 que decorriam em Bruxelas, para nãos as prejudicar.


Não me importa, agora e aqui, perceber se esta inconfidência de Pacheco Pereira, ontem no Quadratura do Círculo da SIC Notícias, é acidental ou se é premeditada. Se resulta de um simples lapso ou se é uma facada destinada a atingir mortalmente Passos Coelho. Lá porque arrancou com um “como já toda a gente sabe” não quer dizer nada. Porque a verdade é que ninguém sabia. Como ele bem sabia…


O que me importa é que isto adensa mais as nuvens já bem carregadas que tornam este ar irrespirável. É urgente explicar o que se passou com a tal reunião de S. Bento na véspera da partida para Bruxelas com o PEC 4, no dia da discussão da moção de censura no parlamento e no dia seguinte à tomada de posse do presidente. Uma reunião - ao que se diz - de quatro horas, naquela conjuntura, seguida dos tais sms, não bate certo com o desenvolvimento circunstancial que desembocou no chumbo do PEC e na actual crise política.


Mas o que decididamente não bate certo é o silêncio absoluto sobre tudo isto durante mais de um mês. O que não bate certo é este secretismo que interessa às duas partes: Sócrates e Passos Coelho. O que confirma que nada bate certo é a própria forma como estes factos chegam ao conhecimento público: o primeiro soprado – bem baixinho e sem grandes ondas – a partir do partido do governo e, o segundo, directamente de alguém que, independentemente de juízos e avaliações de traição, é bem conhecido pelo afastamento crítico que cultiva em relação à liderança do seu partido.   


Mas é, e continua a ser, estranhíssimo que Sócrates e a sua fabulosa máquina de marketing não utilize estes episódios. Ainda hoje temos visto ao longo de todo o dia um autêntico desfile de ministros a demonstrar, através do anúncio dos sensacionais resultados da execução orçamental do primeiro trimestre – com evidente manipulação propagandística, mas isso agora não vem ao caso – as culpas da oposição na actual situação do país. Mas nem a mais leve utilização destas culpas ...  E isso continua a fazer-me confusão!


 


 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

VINGANÇA

 


 Por Eduardo Louro


  


É a nossa vingança: desprezam-nos e humilham-nos por essa Europa fora, mas a gente vinga-se na bola!


Três em quatro: maioria qualificada de 75%! AAA: triple A!


Um lugar na final já cá canta! E a caminho está uma final toda portuguesa, em Dublin.


Pelo caminho ficaram alemães e holandeses. Não ficaram finlandeses - porque esses só têm jeito para os carros – mas ficaram os russos, que sempre são vizinhos do lado…

OS NOSSOS PARCEIROS EUROPEUS

 


 Por Eduardo Louro


 


A gritaria continua. No meio desta gritaria ensurdecedora já ninguém ouve ninguém. Talvez por isso o presidente nada diz. Um dia mais tarde - talvez no site da presidência ou no facebook - haverá de vir explicar que nada disse porque no meio desta gritaria ninguém o ouviria. Porque a Constituição não lhe dá poderes para falar mais alto, para falar por cima dos outros… E porque não tem meios: nem para um simples megafone. E pedir um emprestado aos Homens da Luta não iria bem com o estatuto!


Por tudo isso … deixa andar: esta não é a sua guerra! Os tipos da União Europeia que os mandem calar, como o mandaram calar a ele. Que lhes digam que deixem as eleições para mais tarde, que o tempo, agora, é de ver se o programa sai a tempo de ser aprovado pelo Ecofin, lá para meados de Maio. Que lhes expliquem que não vale a pena continuarem a esfolar-se porque as eleições não vão decidir nada. Nada a não ser o capataz que a UE e o FMI cá deixam a velar pelo cumprimento das suas ordens. Que tudo é decidido por estes tipos que não têm, nem nunca terão, nada a ver com eleições. Que eles só têm que assinar, nem que seja de cruz.


Assim é que, no meio desta gritaria, nem percebemos bem os pontos de ordem à mesa. Vêm em inglês e em voz grossa!


É que alemães, holandeses, suecos e especialmente finlandeses – e digo especialmente porque também estão em período eleitoral, quer dizer, no período em que têm voz – já não nos vêm se não como pedintes irresponsáveis. Se já nos achavam uns calões incorrigíveis – estou convencido que é precisamente por isso que eles embirram particularmente com a nossa legislação laboral – agora acham-nos uns miseráveis pedintes, a quem se pode virar a cara e deixar de mão estendida.


Imagine, caro leitor, que ao portão de um beco qualquer se deparava com um pedinte que lhe estendia a mão. Enquanto pensava em puxar do porta-moedas olhava para o fundo e, no meio de tudo a arder, via um tipo impávido e sereno a assistir ao incêndio. E uma data de outros tipos numa festa onde, puxando pelos últimos cobres do bolso, se continuam a embebedar, completamente alheios às chamas. Chegaria a abrir o porta-moedas? Muito provavelmente não: fugiria dali, sem se cansar de repetir que era tudo gente doida!


A imagem que o país está a passar para os seus credores europeus – já não vale a pena continuar a falar de parceiros europeus, porque já não é assim que eles nos vêm, a única relação que agora temos com eles é a de devedor/credor – não é muito diferente desta. Já só faltava mesmo aparecerem uns militares que, na perspectiva do dinheiro já não chegar aos ordenados - e sabe-se lá se influenciados pelo reclamado dono do 25 de Abril - começarem a deixar umas certas insinuações no ar! Não sei quando voltará a fazer sentido falar de parceiros europeus. Sei é que, hoje, é completamente descabido apelar, como ainda hoje fez o inefável Pedro Silva Pereira a propósito da posição finlandesa, à solidariedade europeia. Isso acabou tudo!


 


 


 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

PIOR É IMPOSSÍVEL

 Por Eduardo Louro


 


Com o país no estado em que está, com o FMI já instalado e os alemães a apresentarem uma providência cautelar no Tribunal Constitucional, porque não estão dispostos a dar mais para este peditório, com o PS no estado que acabámos de ver no fim-de-semana e com o PSD e Passos Coelho como estamos a ver – sem rumo, sem estratégia, sem clarividência e que decididamente não convence – já está à vista no que vão dar as eleições!


Porque vivemos na fatalidade de dois terços do eleitorado votar no PS e no PSD, independentemente do seu desempenho, das suas propostas eleitorais - que ninguém sequer está interessado em conhecer - e da personalidade e carácter das suas lideranças – o que bloqueia todo o espectro partidário – já dá para perceber que, com um Passos que não convence e um PSD que não descola (com Fernando Nobre a ser o tiro que sai pela culatra) e com Sócrates agarrado à bóia, nenhuma maioria parlamentar efectiva poderá sair destas eleições que não passe pelo bloco central.


Parece-me que Paulo Portas terá sido o primeiro a percebê-lo. Prepara-se já para ser o novo de líder da oposição.


Da esquerda não há muito a esperar. O Bloco cresceu até rebentar… Já rebentou! O PCP vai-se segurando com um tecto nos 10% que um eleitorado fixo lhe garante. Ambos bem agarrados às suas crenças e de olhar perdido em tempos que já não voltam.


Eis pois o que nos espera: um governo com este Sócrates e com este Passos Coelho (continua por esclarecer aquela trapalhada do encontro em S. Bento), um presidente de magistratura activa invisível e com o discernimento político que ainda no passado fim-de-semana demonstrou, e uma oposição liderada por Paulo Portas.


Seria possível pior?


 


 

EXPLIQUEM LÁ, SE FAZEM FAVOR!

Por Eduardo Louro


 


Um mês depois ficou a saber-se que Sócrates e Passos Coelho se encontraram em S. Bento na véspera da apresentação do famoso PEC 4 em Bruxelas.


Saber-se de um encontro entre estas duas figuras um mês depois de ter ocorrido não é anormal. Não pode ser normal! Não se percebe como poderia não ser relevante para se tornar público! Se foi entendido conveniente mantê-lo privado não se percebe a razão. Se esse entendimento resultou de um acordo de cavalheiros entre ambos, menos se percebe ainda!


Quando o governo – Sócrates – foi tão duramente criticado por, ao arrepio de elementar espírito democrático, se ter vinculado a mais este PEC sem consultar o seu parceiro de lides PECianas e sem informar o presidente. Quando Sócrates sempre reagiu a isso precisamente (apenas) com o argumento de que tinha telefonado a Passos Coelho (quanto ao presidente justificaria que mais não fez que repetir o que sempre fizera – não informar previamente). E quando passou para o país que, mais que propriamente divergências de conteúdo sobre o PEC – conforme os imensos tiros nos pés de Passos Coelho – o que esteve em causa era a forma, a forma como Sócrates desprezou o(s) seu(s) parceiro(s) de tragédia, com as consequências conhecidas, nada disto se percebe.


Não se percebe que Sócrates não tenha dito que chamara Passos Coelho a S. Bento e que se tenha ficado pelo telefonema. Ninguém percebe o que teria Sócrates a ganhar com isso…


Ninguém percebe que, quando passou para o país que Passos perdera toda a confiança em Sócrates – o que todo o país percebia sem qualquer dificuldade - estes dois se pudessem entender em esconder tal encontro durante um mês.


Ninguém percebe que venha agora o aparelho do PS – eu ouvi Francisco Assis, mas não tenho dúvidas que muitos outros se seguirão – reclamar a mentira de Passos Coelho. Porquê só agora?


Como ninguém percebe a reacção de Passos Coelho: dizer, sem mais, que recebeu o telefonema e que foi chamado a S. Bento mas apenas para ser confrontado com o facto consumado!


O que é que terá acontecido agora? Por que é que, depois de já terem dito um dos outros o que Maomé não diria do toucinho, este ponto fraco permaneceu escondido? Por que é que, depois de o PS ter manipulado factos e mais factos para atacar o seu principal adversário, não utilizou este que seria um trunfo aparentemente bem mais legítimo?


É muita coisa que se não percebe. Não haverá ninguém que queira explicar?


Não me digam que foi a forma que encontraram para dar as boas vindas ao FMI…


 


 


 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

IDEIAS NOBRES MAS MÁS

 Por Eduardo Louro


 


O convite de Fernando Nobre para cabeça de lista do PSD por Lisboa é um mais tiro de Pedro Passos Coelho no próprio pé. O tão absurdo quanto despropositado anúncio da sua candidatura à Presidência da Assembleia da República é mais que um tiro no outro pé. Começam a ser muitos tiros nos pés …


Presidente da Assembleia da República? Agora? Mas por que carga de água?


Porque tinha já convidado Manuela Ferreira Leite? Já isso tinha sido errado, mas era um erro que se perdoava: tratava-se de deixar claro que não é de vinganças. A nobreza dos fins fazia com que se perdoasse a fraqueza dos meios!


Repetir o erro sem fins que se percebam é muito mais difícil de entender…


Fernando Nobre até poderá alargar, o que está muito longe de adquirido, a base eleitoral do PSD. Até poderia ter – que não tem - perfil para Presidente da Assembleia da República. Mas para quê falar agora de uma eleição que cabe exclusivamente aos deputados eleitos a 5 de Junho? Não lhe bastaria convidá-lo para integrar uma lista qualquer? Precisaria de ser número um de Lisboa? E logo com essa particularidade – nunca vista – de acumular com a candidatura à presidência da AR. Dois em um: absolutamente desnecessário!


Não bastou a estória da revisão constitucional, a subida do IVA ou a privatização da Caixa Geral de Depósitos?


 E, depois, Fernando Nobre também não ajuda à festa. Acaba de esbanjar o pouco do prestígio político que lhe sobrou das presidenciais e fica com muita dificuldade em arrancar a pele de oportunista que se lhe colou. E deixou-nos conversados quanto à conversa da cidadania!


Em pouco tempo habituamo-nos ao percurso errático, confuso, trapalhão e inconsequente de Fernando Nobre. Receio que Passos Coelho esteja a copiá-lo!


 


 

NEM TODOS FICARAM ESCONDIDOS ATRÁS DOS ARBUSTOS

domingo, 10 de abril de 2011

PS: S de SEITA?

 Por Eduardo Louro


 


Correu o pano sobre o mega comício do fim-de-semana do PS, sob o culto majestático do líder. Um líder sacralizado, deificado!


Sócrates confundiu-se com o governo. E fez do PS o Partido de Sócrates. O congresso do PS revelar-nos-ia já não um partido mas uma seita. Uma seita que segue cegamente o seu pastor, algures entre o líder idolatrado e o déspota temido.


Um líder que prometera pôr o país a crescer e o deixa em recessão. Que prometera criar 150 mil postos de trabalho e o deixa com a maior taxa de desemprego de sempre. Que prometera recuperar as contas públicas e as deixa na maior penúria de sempre. Que, no limite de tudo isto, nega a realidade. Que, por pura teimosia pessoal, garante que o país não precisa de ajuda externa enquanto as taxas de juro não param de subir e a credibilidade do país de descer. Que, por arrastar o país nessa irresponsável teimosia, acaba por nos deixar ao “Deus dará” da União Europeia e do FMI. Por nos entregar ao mesmo FMI que diabolizou e com o qual nos assustou como ninguém.


O líder que, pela primeira vez, leva pelas suas próprias mãos o país de rastos até ao FMI. É que Soares, nas duas vezes anteriores, fê-lo para expiar penas alheias – na primeira arrastado pelos desmandos do PREC e, na segunda, pela incompetência e eleitoralismo de Cavaco Silva (sim, ele já cá anda há muito, e, quando ministro das finanças do primeiro governo da AD - um governo de apenas um ano, pelas vicissitudes da lei eleitoral de então - para voltar a ganhar as eleições no ano seguinte, protagonizou um regabofe que passou pela valorização do escudo em 6%, uma valorização irresponsável que fez disparar as importações e todos os défices) que nos encaminhou durante os dois governos de Sá Carneiro (quem diria que também isto faz parte do mito Sá Carneiro?), alegremente até ao FMI. Mário Soares foi, na altura, apenas motorista num percurso traçado pelos governos da AD.


Que nos entrega ao FMI sem poder imputar responsabilidades a mais ninguém. Porque é ele que em 6 anos nos leva até lá e não, como pretende fazer crer, uma oposição que há duas semanas lhe chumbou um PEC – para ele o quarto mas para nós o inconsequente enésimo – que ele, sem o mínimo respeito pelas regras democráticas, negociara à revelia de tudo e de todos.


Mas Sócrates não nos entregou ao FMI apenas depois de ser o responsável por isso e de nos assustar com isso. Entregou-nos depois de nos mentir também sobre isso. Depois de, na véspera, ter negado qualquer hipótese disso vir a suceder. Depois de negar que isso tivesse sido abordado no Conselho de Estado, abrindo a porta a uma sucessão de vergonhosas indignidades, e arregimentando para essa mentira figuras do seu partido sempre disponíveis para a cumplicidade na construção das suas realidades forjadas.


Seria possível, num contexto que não o de uma seita, reeleger por mais de 93% um líder como este? E votar a sua moção com 97% dos votos? E aclamá-lo e responder-lhe em uníssono que estão com ele?


O culto da personalidade que pairou sobre o congresso demonstra bem a afinidade de Sócrates com Kadhafi e Chavez. Não, ele não quis apenas fazer negócios com eles. Ele identifica-se com essas duas personalidades. Só isso explica aquilo em que transformou o congresso!


Um congresso que ele tinha preparado para surgir como o salvador da pátria das garras do FMI e onde, porque os banqueiros, ao lado dos quais sempre esteve e que sempre estiveram ao seu lado, tirando-lhe o tapete, o obrigaram a uma mudança de guião de última hora. Com a qual lidou com o maior dos à vontades. Como se nada se tivesse passado!


Tenho pena, muita pena, de ter visto o que vi neste embuste!


De ver dentro, mas principalmente fora do Congresso, gente que tenho por inteligente trocar o cartão de militante pelo de membro da seita. De ver, António Costa, sem surpresa, e António Vitorino, com alguma surpresa e todo o ridículo, integrarem a seita. E de ver Ferro Rodrigues resumir-se ao simples papel de coelho que Sócrates tirou da cartola.


De resto pouco mais deu para ver. Deu para ver Jaime Gama, ainda com a cadeira de segunda figura do estado quente e já com a janela da retirada aberta sobre o Atlântico, sair um pouco do guião. Deu para ouvir Luís Amado – a única voz sensata e (estranhamente ou talvez não) dissidente - admitir que seria bom que o PS fizesse uma cura de oposição. Deu para ver que ninguém quis ouvir, quanto mais aplaudir, Ana Gomes, deu para ter pena de Manuel Alegre (já só dá pena, cada vez mais) e para ver António José Seguro “escondido atrás dos arbustos”.

sábado, 9 de abril de 2011

SÓ FALTAVA ESTA!

 Por Eduardo Louro


 


Enquanto Sócrates e o governo foram de fim-de-semana para Matosinhos, o presidente Cavaco – é outro luxo - foi de fim-de-semana para Budapeste, ali bem perto do local onde as instituições europeias andam às voltas com a ajuda que lhe pedimos. E de lá já disse que não tinha nada a ver com isso de promover o consenso entre os partidos que a União já exigiu: parece que isso não está na Constituição, e que não tem meios, vejam bem!


Mas soube dizer que a União tem que ter imaginação. Imaginação para resolver o problema sem que ele tenha de se incomodar com os partidos, imaginação para desenhar uma solução intermédia para o imediato e deixar o resto para o novo governo, lá mais para o Verão…


A resposta, para vergonha dele e nossa – mais nossa, acho eu – veio de imediato: imaginação é o que não falta na União Europeia, o que lhe começa a faltar é paciência para aturar as autoridades portuguesas.


Já não bastava que o ministro das finanças lhes tivesse dito que não estava ali para negociar nada. Que isso era lá com eles!


Só visto… Sem dinheiro, sem honra e sem vergonha! A quem havíamos de ter entregue isto…


 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Futebolês #71 ÚLTIMO TERÇO

Por Eduardo Louro


 


O último terço poderia sugerir alguma analogia com, por exemplo, o último cigarro. Não o último cigarro dos muitos – cada vez mais, acho muito bem! – que diariamente estão a abandonar um vício que já foi moda e símbolo, mas, e recuando a esses mesmos tempos, o último cigarro do condenado à morte. Assim como o último desejo piedosamente concedido a quem já tinha atravessado o corredor da morte ou subido as escadas da forca. Neste caso o último desejo de um crente que, receoso de algumas contas por acertar, substituiria o cigarro por um terço. Ou não se chamasse também contas ao terço!


Saldassem-se contas com terços e não precisaríamos agora desta coisa do FMI ou do FEEF, ou lá o que é! Com os terços que por cá se rezam, e apesar de também aí os tempos serem outros – hoje rezam-se bem menos terços que há trinta anos – éramos bem capazes de rezar para consumo interno e ainda para exportar alguma coisa, para ajudar a equilibrar a balança comercial.


Estamos em sede de futebolês e aqui o terço não é nada que se reze. Em futebolês o terço é cada uma das três partes em que se pode dividir o terreno de jogo: a zona defensiva, a zona intermediária e a zona de ataque. Por esta ordem, seriam o primeiro, o segundo e o último terço.


O último terço é a zona da decisão, por muito que em futebolês de diga que os jogos se decidem no meio campo. Como também se diz que se decidem por pormenores. Isso são tretas do futebolês, que está cheio de ideias feitas! É no último terço que tudo se decide, mesmo que por pormenores: o resto é conversa!


O último terço é assim como que um campo de batalha: é lá que tudo se decide mas, para que isso aconteça, para que lá se possa decidir, é preciso levar até lá toda a logística. E posicionar lá a artilharia, evidentemente! É por isso que aos outros dois terços também o futebolês chama zonas de construção.


Quando se diz que os jogos se decidem no meio campo é claramente um exagero. Alguns, mais cuidadosos com os rigores da linguagem, dizem que se começam a decidir no meio campo. Ou que se começam a ganhar no meio campo! Isto já é mais aceitável: a ambiguidade do verbo começar dá uma ajuda!


Mas então por que é que não se começam a ganhar na defesa? Claro que se começam a ganhar é na defesa. Depois continuam a começar-se no meio campo. Mas sempre a começar, porque acabar, resolver, decidir … isso é lá à frente, no ultimo terço!


Outra coisa bem diferente é perder-se. Tão diferente que é mesmo o antónimo. Por exemplo: o Benfica, no último domingo, perdeu o jogo que deu ao Porto o supremo gozo de fazer a festa precisamente na Luz – sem luz, mas com água – na defesa. Perdeu-o, como em tantas outras vezes, mesmo no guarda-redes. Precisamente onde o Porto começou a ganhá-lo! Ora aí está: enquanto o Benfica o perdeu aí o Porto não o ganhou aí, mas começou aí a ganhá-lo!


Tempos houve em que o futebol português – clubes e selecções – não atingia o último terço. Ficava-se pela construção, mas não construía nada. Nem sequer se atrevia a ir à luta!


Era o tempo em que José Maria Pedroto – “um Deus” (porque ao fim de 19 anos os ressuscitou) para os portistas, mas com obra (que se visse) deixada em Setúbal – celebrizou o problema do último terço ao proclamar que faltavam 30 metros ao futebol português. Era verdade, uma verdade que ele denunciou mas à qual se acomodou. Nada fez para a corrigir e com ela conviveu como Deus com os Anjos. Nos seus tempos de seleccionador nacional um empate a zero era uma vitória!


Hoje, e de há alguns anos a esta parte, não é assim. Nem na selecção nem nos clubes, como ainda ontem se viu nos quartos de final da Liga Europa, com Benfica e Porto a golearem os campeões holandês e russo. E com, em especial o Benfica, instalado durante todo o jogo no último terço e a ganhar o jogo aí. Onde se ganham os jogos, mesmo quando o guarda-redes cuida mal do seu primeiro terço. Contas de outro rosário…


Mas não é o campo que o futebolês divide em três terços. Também o próprio campeonato se divide dessa forma, sendo que aqui cada terço corresponde a dez jornadas.


E como comecei com analogias, termino com analogias. Que são muitas: também aqui tudo se decide no último terço. Também aqui o Benfica teve problemas no primeiro terço. Ironia das ironias: nas primeiras quatro jornadas, bem no início do primeiro terço – na baliza do campeonato! Problemas de arbitragens, é certo. Mas maiores eram já os da baliza!


Mas há mais: foi aí que o Benfica perdeu o campeonato e foi aí que o Porto o começou a ganhar. Ganhá-lo é que, como não podria deixar de ser, foi mesmo no último terço. Bem cedo, mesmo ao fechar a primeira metade do último terço!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

AFINAL HÁ OUTRA

 Por Eduardo Louro


 


Enquanto uma Europa nos mija em cima outra há estendida a nossos pés. Enquanto uma nos dá ordens, outra há que pomos em sentido. Enquanto uma Europa nos olha de cima, outra olha-nos com admiração e reverência. Enquanto uma nos chama incompetentes e calões, a outra pasma-se com o nosso desempenho.


Afinal há outra: é a do futebol. É pena?


Pena é que seja a da segunda divisão… Mas não se pode ter tudo. Neste intervalo da primeira para a segunda mão da Liga Europa tudo aponta para uma grande vingança lusa, com três dos quatro semi-finalistas. E com uma final portuguesa em Dublin. Na Irlanda, tinha que ser…


 

CAMBALHOTAS

 Por Eduardo Louro


 


Sócrates tem uma capacidade extraordinária para a cambalhota. Um verdadeiro especialista em cambalhotas: muitas delas verdadeir(os)amente mortais!


A última, o pedido de ajuda ou de resgate - eufemismos universais – de ontem, não é só o último exemplo dessas cambalhotas. É bem mais que isso, é um exemplo de como um líder especialista em cambalhotas consegue pôr todo um país … às cambalhotas.


Repare-se nisto: Sócrates consegue entregar o país nas mãos do FMI – o mais terrível dos papões para qualquer povo – e deixar toda a gente contente. À excepção das pessoas e dos partidos que o sistema já expulsou – Partido Comunista e Bloco de Esquerda são invariavelmente apresentados como externalidades, os partidos que não fazem parte do sistema (percebe-se por que não são ilegalizados: porque ficaria mal à democracia mas também porque fazem falta ao ecossistema) – toda a gente foi unânime a aplaudir a boa nova de ontem. Nas televisões e nos jornais não se consegue perceber uma única voz contra: aí estava Sócrates a fazer o pleno! Aí está um país inteiro (em Portugal o que não passa na televisão não existe) a dar uma cambalhota nunca antes vista: toda a gente a apoiar uma decisão de Sócrates, que outra não era que entregar o país ao resgate!


Isto é absolutamente extraordinário e não deixará de vir a ser capitalizado pelo timoneiro da nossa desgraça. Como, não sei, mas ele há-de arranjar maneira. Não fosse ele um especialista!


Há coisas assim: como o homem andou meses a dizer que só por cima do seu cadáver, os portugueses assumiram que só poderia ser bom. Depois, mesmo que sem cadáver, a ideia já estava assimilada como boa. A cambalhota estava dada. Irreversível como todas as cambalhotas!


Evidentemente – e agora a sério – que as coisas chegaram ao ponto em que (no contexto específico e institucional do país) já não havia alternativa. A resistência de Sócrates já não era resistência, já não passava de intolerável e irresponsável teimosia. Daí que o pleno, nestas circunstâncias, não seja assim tão extraordinário. É apenas irónico!


Tão irónico como os nomes com que a operação nos é apresentada: ajuda externa! Ou resgate!


O que aí vem não vai bater leve … levemente! E ajuda não é certamente … Perguntem aos irlandeses!


Também não é resgate, que pressupõe libertação. Não iremos ser libertados de coisa nenhuma (talvez de Sócrates, com um pouco de sorte!). Iremos ser capturados! Perguntem aos gregos…


Aos mais novos iria sugerir que perguntassem ainda aos mais velhos. Aos que, como eu, se lembram de 1977 e de 1983. Perguntem: ouvirão falar de fome – sim houve fome, quem se não lembra de Setúbal? – de miséria e de destruição. De muitas estruturas e até de vidas!


Mas não se esqueçam que em 1977 estávamos a sair da revolução, a ensinar democracia bebé a dar os primeiros passos e a apresentar o nosso pedido de adesão à CEE, com todo o mundo ocidental, e em especial os Estados Unidos e a Alemanha (outra Alemanha, a RFA de Willy Brandt, que nada tem a ver com esta de Merkel) - então sim – verdadeiramente empenhados num resgate. E que em 1983 tínhamos o escudo para utilizar como válvula de escape – muitos dos ajustamentos passaram por aí – e tínhamos uma luz bem forte lá no fundo: a adesão à CEE, a dois anos de distância, com os milhões todos que lá viriam!


Desta vez não teremos nada disso: os tempos são outros, já não há mais Willy Brandt. Há Merkel! Já não há mais milhões a chegar da Europa. Já vieram e desapareceram todos. Já não há escudo para nos amparar. Há um euro forte, em que não podemos mexer, que obriga a concentrar todos os esforços de ajustamento nas mesmas medidas. Que tocam sempre aos mesmos! E que vão doer a sério…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

ORA AÍ ESTÁ!

 Por Eduardo Louro


 


Jorge Lacão entreabria a porta ao fim da manhã. À tarde seria Teixeira dos Santos a escancarar a porta que Sócrates tem teimado em manter fechada, como ainda há dois dias atrás deixava claro na entrevista à RTP. Pouco depois o primeiro-ministro anunciava uma comunicação ao país para as oito da noite: viria comunicar a demissão do ministro das finanças? Não! Vinha confirmar que havia finalmente abandonado aquela trincheira. Apenas tinha usado dois dos seus fiéis escudeiros!


Evidentemente que a situação era absolutamente insustentável. Sócrates não podia mais prolongá-la por mero capricho pessoal. A decisão de recorrer a ajuda externa – eu não gosto desta terminologia (porque não é de ajuda que se trata, ajuda andamos nós a receber há muito tempo), mas como é a que vem sendo utilizada … - não podia continuar adiada, ao sabor da teimosia irresponsável do primeiro-ministro.


Quererá isto dizer que Sócrates foi finalmente convencido pela realidade? Que abandonou as suas fantasias? Que cedeu na sua teimosia?


Vamos a ver. Depois da entrevista de segunda-feira encontramos três ocorrências eventualmente relacionáveis com a decisão de recurso à dita ajuda externa: a polémica do Conselho de Estado, que ele próprio despoletou na entrevista, as declarações (apelo desesperado ou ordem?) do presidente do BES, Ricardo Salgado, e a nova operação de colocação de dívida de hoje. O downgrading das notações de rating dos bancos de primeira linha já vem da semana passada, ontem apenas foram atirados para lixo bancos de segunda linha. Por isso não entra para estas contas!


Não estou a ver que a lamentável novela em torno do Conselho de Estado possa ter sensibilizado o primeiro-ministro. Essa apenas é mais uma machadada na credibilidade das instituições e na da actual geração de políticos.


Nem o Conselho de Estado – órgão consultivo do presidente - teria que se pronunciar sobre a matéria (a não ser que - e perdoem-me a brincadeira - andando o governo a dizer que cabia ao presidente pedir ajuda externa, toda a gente tenha levado isso a sério) nem os conselheiros poderiam vir pronunciar-se sobre o que lá se passara. Não o podia ter feito o conselheiro primeiro-ministro, que lançou a trapalhada, não o deveria ter feito, por muito que lhe custasse engolir em seco as palavras de Sócrates, Bagão Félix. E não podiam ter feito o que fizeram os restantes conselheiros ligados ao PS, em especial Carlos César e Almeida Santos.


A verdade é que a dignidade deste órgão, que se deveria situar no topo da respeitabilidade institucional, já estava em causa desde Dias Loureiro!.


Não seria portanto por aqui que Sócrates mudava de agulha!


A colocação dos pouco mais de mil milhões de dívida de hoje – duas operações de curto prazo – correu como as restantes: encontrou procura (embora tudo indique que foi envolvido o fundo da segurança social) mas a taxas de juro cada vez mais insustentáveis – a taxa de juro dos bilhetes do tesouro a 6 meses chegou perto dos 6%, o dobro da última, há um mês atrás. Razão suficiente para fazer José Sócrates mudar de ideias? Talvez, mas dados os antecedentes, tenho dúvidas.


Sobram as declarações de ontem de Ricardo Salgado, também com uma porta entreaberta de véspera por Carlos Santos Ferreira: apoio externo já e em força!


Bingo! Era a ordem que faltava… Esperemos agora que ele dê também a outra: TGV fora dessa cabeça, já!


 

terça-feira, 5 de abril de 2011

A VERDADE DA MENTIRA

 


 Por Eduardo Louro


 


Sabemos que uma mentira mil vezes repetida passa a verdade. Sócrates sabe isso melhor que ninguém e, como não tem sombra de vergonha – mente sem qualquer constrangimento -, já passou a barreira das mil vezes em muitas matérias. Já criou portanto uma série de verdades!


A mais fantástica dessas verdades é que Sócrates tomou posse na manhã de 11 de Março, foi a correr para Bruxelas salvar o país – “o meu país “ – dele, que por acaso também é o meu – e o euro, e regressou com tudo salvo: o país, o euro, a Europa e o mundo! E, em vez de ter o país em apoteose a recebê-lo, tinha uma oposição a dar-lhe cabo da cabeça e que não sossegou até, ao fim da tarde de 23 de Março, o obrigar a ir até Belém pedir a demissão ao Presidente da República!


Esta verdade provocou depois outras verdades: a partir de então as agências de rating desataram a empurrar pela escada baixo as notações da República, dos bancos e das principais empresas nacionais; e os mercados especuladores a fazer subir as taxas de juro como se fossem balões aquecidos.


Sabemos, como comecei por dizer, como Sócrates é capaz e competente nesta arte. Parece-me no entanto que, nas actuais circunstâncias, depois de tudo o que fez ao longo de todo este tempo, do desgaste de tantas trapalhadas pessoais e de outras tantas guerras para salvar a pele, Sócrates já não estava em condições de chegar às mil repetições – ponto de fusão da mentira em verdade. Acredito que conseguisse chegar perto das oitocentas, mas já não tinha fôlego para chegar às mil. Convenhamos que até podia cheirar a injusto: então um homem com esta determinação, com esta resiliência, e com esta fibra poderia lá morrer na praia?


Por isso surgiu muita gente a ajudá-lo. Uns mais insuspeitos que outros, mas todos sempre eficazes. Os mais insuspeitos vêm do PSD e lá vemos Morais Sarmento, Pacheco Pereira e mais um ou outro. O próprio Passos Coelho dá umas ajudas. E das boas! E já nem é preciso falar da suspensão da avaliação dos professores… Nem o Presidente Cavaco quis deixar de dar a sua contribuiçãozita!


E, claro, muitos comentadores, muitos fazedores de opinião, alguns mesmos com responsabilidades acrescidas por serem especializados no comentário económico, supostamente iminentemente técnico e desprovido de quaisquer subjectividades. Cheguei a ouvir um deles – o meu colega (é meu colega de curso) Nicolau Santos, por exemplo – dizer que as reduções da notação de rating da semana passada eram de todo incompreensíveis. E insinuar mesmo que as agências de rating não passavam de malditos aliados dos mercados especuladores. O Expresso deste fim-de-semana era um verdadeiro festival: era Teixeira do Santos nos Altos do Pedro Lima e era, ainda e de novo Nicolau Santos que, bisando no elogio e na defesa do ministro, atribuía a responsabilidade pela actual crise política ao ódio cego da oposição: “…teve muito a ver com o ódio que José Sócrates desperta nos seus opositores e nada com os verdadeiros interesses do país e dos portugueses”, escrevia! E ainda a concluir “uma coisa claríssima”: …”que este processo coloca-nos certamente na iminência de termos de pedir ajuda externa ao FEEF e ao FMI”.


Então mas há quanto tempo é que estamos nessa iminência? E há quanto tempo a devíamos ter pedido? Quanto nos custou já essa teimosia? Será que ninguém percebe a bagunça que vai nas contas públicas? Que ninguém entende que fomos obrigados a corrigir as contas e que o défice de 6,8% do governo é afinal de 8,6% (a inversão é mera ironia!) e seria de 10% se não fosse a batota do fundo de pensões da PT e se não tivéssemos escondido os submarinos? E que ninguém percebe por que é que toda a gente andava a falar em auditoria às contas públicas e, de repente, o Presidente Cavaco Silva os veio mandar calar a todos?


Pois, é isso que estão a pensar! E isso que estão a pensar entra pelos olhos dentro dos mercados e das agências de rating! Não é preciso ajudar a chegar às mil repetições da mentira. O que é preciso é, de uma vez por todas, encarar a verdade: este país – o meu país de Sócrates – está falido! Sócrates, com muitos cúmplices – e com Teixeira dos Santos à cabeça – deixou-nos um país falido e desacreditado em todo o mundo. Agora não há volta a dar-lhe: vamos mesmo ter de dar volta a isto!

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...