Por Eduardo Louro
A gritaria continua. No meio desta gritaria ensurdecedora já ninguém ouve ninguém. Talvez por isso o presidente nada diz. Um dia mais tarde - talvez no site da presidência ou no facebook - haverá de vir explicar que nada disse porque no meio desta gritaria ninguém o ouviria. Porque a Constituição não lhe dá poderes para falar mais alto, para falar por cima dos outros… E porque não tem meios: nem para um simples megafone. E pedir um emprestado aos Homens da Luta não iria bem com o estatuto!
Por tudo isso … deixa andar: esta não é a sua guerra! Os tipos da União Europeia que os mandem calar, como o mandaram calar a ele. Que lhes digam que deixem as eleições para mais tarde, que o tempo, agora, é de ver se o programa sai a tempo de ser aprovado pelo Ecofin, lá para meados de Maio. Que lhes expliquem que não vale a pena continuarem a esfolar-se porque as eleições não vão decidir nada. Nada a não ser o capataz que a UE e o FMI cá deixam a velar pelo cumprimento das suas ordens. Que tudo é decidido por estes tipos que não têm, nem nunca terão, nada a ver com eleições. Que eles só têm que assinar, nem que seja de cruz.
Assim é que, no meio desta gritaria, nem percebemos bem os pontos de ordem à mesa. Vêm em inglês e em voz grossa!
É que alemães, holandeses, suecos e especialmente finlandeses – e digo especialmente porque também estão em período eleitoral, quer dizer, no período em que têm voz – já não nos vêm se não como pedintes irresponsáveis. Se já nos achavam uns calões incorrigíveis – estou convencido que é precisamente por isso que eles embirram particularmente com a nossa legislação laboral – agora acham-nos uns miseráveis pedintes, a quem se pode virar a cara e deixar de mão estendida.
Imagine, caro leitor, que ao portão de um beco qualquer se deparava com um pedinte que lhe estendia a mão. Enquanto pensava em puxar do porta-moedas olhava para o fundo e, no meio de tudo a arder, via um tipo impávido e sereno a assistir ao incêndio. E uma data de outros tipos numa festa onde, puxando pelos últimos cobres do bolso, se continuam a embebedar, completamente alheios às chamas. Chegaria a abrir o porta-moedas? Muito provavelmente não: fugiria dali, sem se cansar de repetir que era tudo gente doida!
A imagem que o país está a passar para os seus credores europeus – já não vale a pena continuar a falar de parceiros europeus, porque já não é assim que eles nos vêm, a única relação que agora temos com eles é a de devedor/credor – não é muito diferente desta. Já só faltava mesmo aparecerem uns militares que, na perspectiva do dinheiro já não chegar aos ordenados - e sabe-se lá se influenciados pelo reclamado dono do 25 de Abril - começarem a deixar umas certas insinuações no ar! Não sei quando voltará a fazer sentido falar de parceiros europeus. Sei é que, hoje, é completamente descabido apelar, como ainda hoje fez o inefável Pedro Silva Pereira a propósito da posição finlandesa, à solidariedade europeia. Isso acabou tudo!
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