Por Eduardo Louro

A 75ª edição da Volta a Portugal teve hoje o seu penúltimo mas decisivo dia. Hoje, com o contra-relógio que ligou o Sabugal à Guarda, conheceram-se as últimas decisões da Volta deste ano. Amanhã, como sempre acontece, será a última etapa, a da consagração. Já mais nada acontecerá até Viseu!
Ao longo destes onze dias não a trouxe aqui, o que não significa que, como amante do ciclismo, pudesse ter deixado de a acompanhar. Esta não era só a edição diamante da Volta, era também a do esperado regresso das vitórias portuguesas, depois do longo reinado do agora retirado David Blanco. Quase português, mas galego!
Mas ainda não foi desta que um ciclista português voltou a ganhar a Volta. Nem foi esta que acabou com o domínio galego, os espanhóis que mais portugueses são. E, no entanto, nunca antes – nos últimos anos, bem entendido – tantas e tamanhas oportunidades houve…
Esta foi, antes de mais, uma Volta estranha. Aconteceu de tudo. Logo na primeira etapa, no prólogo – um contra-relógio por equipas no coração da baixa lisboeta, de apenas cinco quilómetros – um dos favoritos (Edgar Pinto) furou e perdeu quase 1 minuto, deixando-o desde logo em maus lençóis. Na seguinte, o insólito: um ciclista asiático, quando seguia isolado com uma vantagem de mais de 11 minutos decidiu parar e aproveitar esse tempo para fazer uma refeição tranquila, à sombra da ponte de um viaduto. Logo a seguir, na terceira etapa, à chegada ao Monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo, os dois ciclistas que sprintavam para a meta seguiram o caminho errado e acabaram no chão, longe da meta.
O mais estranho, no entanto, prende-se com as opções de corrida da mais bem apetrechada equipa do pelotão – a Efapel/Glassdrive, de Carlos Pereira (na foto). Bem apetrechada - de mais - com demasiados corredores capazes de ganhar. Nunca se percebeu: estava em tudo o que mexia. Punha corredores em fuga para, depois, lhe mover perseguição. Mais do que uma estratégia, a ideia fixa de entregar a Volta a Rui Sousa, era obsessão. Que deu muito maus resultados!
Na etapa para Oliveira do Bairro, logo a seguir à da Senhora da Graça, em mais uma das coisas estranhas desta Volta, a LA Alumínios/Antarte, para vingar a derrota da véspera de Hugo Sabido – o segundo do ano passado e um dos principais favoritos – colocou sete dos seus nove corredores em fuga. Nesse grupo, que chegou a ter quinze minutos de vantagem, estavam quatro corredores da equipa de Carlos Pereira, sem que lá estivesse nenhum dos adversários. Podia ali ter ganho a Volta, deixando irremediavelmente para traz os corredores da Ofm/Quinta da Lixa – uma equipa em estreia, que teve uma Volta descansada, limitando-se a vê-los lançar os foguetes e correr atrás das canas – mas não. Na frente não fazia nada para ajudar na fuga e, atrás, rebocava o pelotão. Porque era lá que estava o Rui Sousa!
A cena voltaria a repetir-se na véspera da subida à Torre, já na Serra da Estrela. Nas Penhas Douradas era o Nuno Ribeiro – então sexto ou sétimo classificado, vencedor da Volta de há dez anos e grande trepador - quem seguia numa fuga com mais de 10 minutos. Dava-lhe para ganhar a Volta, mas não era o Rui Sousa, e o senhor Carlos Pereira põe a equipa a anular a fuga.
Ontem, na subida à Torre, era então o dia de Rui Sousa, que desde a Senhora da Graça seguia em segundo, exactamente com o mesmo tempo do camisola amarela, o espanhol Sergio Pardilla. Vestiu aí a camisola amarela mas, ironicamente, perdeu aí a Volta. Porque nem ganhou a etapa - voltou, como nos três últimos anos, a ser segundo, atrás de Gustavo Veloso, um dos galegos da Ofm/Quinta da Lixa, que passou para segundo, a apenas 6 segundos – nem ganhou tempo suficiente para se defender do outro, Alejandro Marque. Um contra-relogista, que hoje se superiorizou a ambos, ganhando 36 segundos ao seu colega de equipa (e amigo) e 1minuto e 28 ao Rui Sousa. E ganhou a Volta com 4 - a menor diferença de sempre, creio mesmo que em qualquer prova do género - e 50 segundos de vantagem, respectivamente.
Com o português, também pelo terceiro ano consecutivo, a ser terceiro na Volta a Portugal. É um lugar-comum dizer-se, nos desportos colectivos, que, quando ganham, são os atletas a ganhar e, quando perdem, são os treinadores a perder. Carlos Pereira também o disse - a excepção é Jorge Jesus, mas isso é no futebol – mas, para além de o dizer, deveria tê-lo sentido. Porque foi!
E permitiu que a equipa de José Barros, logo na estreia, ficasse com os dois primeiros lugares da Volta e arrecadasse a maior parte das vitórias em etapas. Restou-lhe a vitória por equipas, e por escassos 11 segundos. Fraco pecúlio para quem teve tudo para ganhar!