Convidada: Clarisse Louro *
Os partidos políticos são indispensáveis à democracia, disso ninguém tem dúvidas. Mas também ninguém tem dúvidas da sua contribuição negativa para a actual imagem da democracia no nosso país. Ninguém tem dúvidas de que têm sido precisamente os partidos os maiores responsáveis pelo descrédito em que caiu o regime e, com ele, a democracia que com ele se confunde. Curiosamente também por responsabilidade dos partidos, que nunca pareceram muito interessados em discernir entre regime e democracia!
Os principais bloqueamentos da sociedade portuguesa passam por aí: pelos partidos e pelo regime. A principal reforma de que o pais carece passa por aí – pelos partidos e pelo regime, entendido como todo o sistema político e o seu modo de funcionamento.
Tem-se por adquirido que é total o peso dos partidos nas eleições nacionais, nas legislativas, e quase residual nas autárquicas. Que nestas prevalece a proximidade, a relação e o contacto directo entre eleitores e eleitos, condições que fazem com que as pessoas se sobreponham aos partidos. Não é bem assim!
Não disponho de dados que me permitam fundamentar esta opinião, mas parece-me mesmo – por sensibilidade e intuição – que vem sendo cada vez menos assim. Que cada vez mais são os directórios partidários – nas suas diferentes estruturas – a, sempre que chega a vez das ansiadas listas das candidaturas autárquicas, baralhar, partir e dar. O sucesso das candidaturas independentes não só não consegue iludir esta realidade como, acima de tudo, a confirma. É que a esmagadora maioria destas candidaturas vem dos partidos, das suas lutas intestinas e das suas roturas. Não vêm da sociedade civil.
Estas autárquicas que aí vêm têm confirmado isto mesmo. Com os partidos a insistirem, para além do razoável e do aceitável, nas candidaturas de legalidade duvidosa, empurrando para os tribunais o que cabe à política. Com estruturas locais dos partidos a imporem candidaturas que resultam das relações de poder saídas de lutas internas. À revelia do desempenho e da capacidade de quem já deu provas, gerando mais e mais falsas listas de independentes. De tudo isto se tem passado um pouco por todo o país, tocando praticamente a todos os partidos. Seguramente a todos os que têm implantação autárquica!
Em Leiria, também o PSD navegou nestas águas. Só que aqui, provavelmente por efeito da Ribeira dos Milagres, em águas muito sujas. E porque há muito sujas, nauseabundas. De cheiro insuportável!
Sabe-se que o PSD é tradicionalmente um partido com muitos partidos lá dentro. E que são frequentes actos desavindos entre eles. Há muito que se sabe que há em Leiria um PSD dividido em dois. E que, o que tem o poder, na comissão política concelhia, não tem feito lá muito bem ao outro, pondo em causa o todo. Que joga um jogo que nunca parece limpo, sempre com mangas que escondem alguma coisa. Desta vez, ao contrário da última, escolheu o candidato. Um candidato pouco provável, diria quem olhasse de fora. Tão pouco provável que levaria a pensar numa escolha para não agitar outras águas. E que alguma coisa ficava na manga, para jogar mais tarde, quando chega o tempo de ser o tempo quem mais ordena…
E assim foi. Assim mesmo, sujo e feio!
Ao candidato nada mais restou que recusar o papel de fantoche que pretendiam reservar-lhe e bater com a porta. Em nome da dignidade. Pessoal, porque a do partido já não tem salvação!
* Publicado hoje no Jornal de Leiria
Bom dia,
ResponderEliminareste post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Ana Barrela - Portal SAPO
Muito obrigado.
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