terça-feira, 31 de março de 2020

O vírus

Hungria. Orban vai governar por decreto, por entre críticas da ...


 


Entretanto na Hungria o Parlamento reforçou poderes a Viktor Orbán. Que, à boleia do coronavírus, perpetuou o estado de emergência. Vigora enquanto quiser, sem qualquer limite de tempo. E enquanto vigorar, isto é, enquanto quiser, Orbán poderá governar por decreto, sem qualquer necessidade de consultar o Parlamento. Pode adiar ou cancelar a realização de eleições e alterar todas as leis que quiser. 


Em tempos passados a democracia era condição indispensável para a entrada na União Europeia. Nos tempos que correm não é já condição necessária para a permanência. Se fosse já teríamos provavelmente visto algum ministro holandês a recomendar que se investigasse o que há mais de dez anos se está a passar na Hungria. Ou alemão, ou austríaco, ou finlandês... Ou até - quem sabe? - se um qualquer primeiro-ministro, de um qualquer país do sul, não estaria já a achar isto repugnante. 


Se calhar querem convencer-nos que é só uma estratégia de confinamento do vírus ...


 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Números e disparates


Os números que medem a pandemia, que fazem as curvas, as desejadas achatadas, como a tartaruga, ou as temidas esguias, como a girafa, são os de infectados e os de mortes.


A correlação entre eles está a prestar-se a muita especulação, e a infindáveis teorias da conspiração que ganham vida, crescem e multiplicam-se no sítio do costume. Que não é evidententemente no Pingo Doce.


Uma dessas teorias, que achei particularmente disparatada vem na sequência das "repugnantes" declarações do ministro das finanças holandês, já reafirmadas pelo chefe do seu governo e que, pelos vistos, encontram eco em muitos portugueses que passeiam as suas alarvidades pelo sítio do costume. E diz que espanhóis e italianos estão a inflacionar o número das mortes para suscitarem comiseração, e no fim da linha ajuda externa. 


Os números não mentem, diz-se, para salientar o rigor e a infalibilidade matemática. Mas podem mentir, mesmo que sejam verdadeiros e que dois mais dois seja sempre rigorosamente quatro. Olhar para a taxa de mortalidade de 0.72% na Alemanha, e compará-la com os 10,8% da Itália e com os 8% de Espanha, não quererá apenas dizer que a Alemanha tem mais dinheiro para investir no seu sistema nacional de saúde, e que por isso tem melhores resultados. Mas poderá querer dizer que a Alemanha, por ter mais dinheiro e por outras quaisquer razões, optou por generalizar a realização dos testes.


Daí que os seus números de infectados projectem uma muito maior aproximação à realidade do que os de Itália, Espanha ou Portugal, onde os testes são apenas, e muito lentamente, realizados a quem já apresenta sintomas adiantados da infecção. Ou do que na tal Holanda, onde os testes são apenas realizados a pessoas já internadas em hospital.   


Resultando a taxa de mortalidade da doença de uma fracção que tem no numerador os óbitos, contados de forma muito idêntica nos diversos países (óbitos de infectados, independentemente da comorbilidade) e no denominador um número obtido de maneira substancialmente diferente, o resultado final deixa de ser comparável.  Naturalmente que, com o denominador mais alargado, e mais próximo da realidade, como sucede no caso alemão, o resultado final é logo, à partida, muito mais baixo. 


Se aquela tese é já um disparate, tentar sustentá-la na comparação das taxas de mortalidade é acrescentar-lhe mais disparate.


 


 


 


 

sábado, 28 de março de 2020

sexta-feira, 27 de março de 2020

Repugnante

Holanda nacionalizou quarto maior banco do país - Mundo - Correio ...


 


Alemanha, Áustria, Finlândia e Holanda estão prontas para assinar a certidão de óbito da União Europeia. Repugnante. Tal e qual António Costa chamou ao discurso do ministro das finanças holandês, o velho conhecido Dijsselbloem. Está de volta o tal nome impronunciável de um repugnante imbecil. E aldrabão, tanto quanto se diz...

quinta-feira, 26 de março de 2020

Perder a alma*

Pasárgada da Alma: Como não perder a alma?


 


Passou pelas redes sociais, especialmente durante a semana passada, uma moda de franco mau gosto, como a maioria das que por lá passam, deve dizer-se. Como sabemos tudo aí se replica facilmente, e as pessoas começaram a adaptar um certo texto, que se tornou viral, à sua realidade geográfica.


Só mudava a região de cada um, o resto mantinha-se: aqui não há shoppings, não há internet, e o cinema é a preto e branco. Aqui não há nada que interesse, isto é de todo desaconselhável, não venham para cá. Nem pensem nisso!


A pretexto de alguma piada, que logo desaparecia sem deixar rasto quando se percebia o perigo daquela ideia que tantas pessoas difundiam pela rede fora, muitas delas sem o perceber, pensando apenas estar a fazer graça fácil, transmitia-se um conceito de medo e de ignorância, de natureza xenófoba, com requintes de segregação e discriminação. Que sabemos sempre como começam mas nunca como acabam. 


Lembrei-me disto quando me deparei com uma notícia que ontem vimos nos jornais. Aconteceu em Espanha, em La Línea de la Concepcion, uma pequena cidade da Andaluzia, na província de Cadiz, onde uma caravana de ambulâncias com um grupo de 28 idosos, despejados de um lar por estarem infectados com o coronavírus, foi recebida à pedrada por um grupo de autóctones.


Chegados à residência onde o governo autonómico da Andaluzia os realojou, os idosos foram cercados por uma pequena multidão em fúria, gritando impropérios contra os pobres e fragilizados "maiores", como por lá lhes chamam. Durante a noite foram arremessados vários engenhos explosivos a partir de casas nas imediações, fechava a notícia.


Não há grande diferença entre este relato que chega de Espanha e aquilo que por cá circulou pelo facebook. É a solidariedade a desaparecer, perdida no meio de todas as perdas que estamos sentir. É a alma a esvair-se na crise sanitária, e a acrescentar-lhe crise moral. Provavelmente de bem mais difícil recuperação….


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

Senadores de meia tigela

Resultado de imagem para marcelo e jose miguel júdice


 


O país confia nas suas instituições, como o mostram as sondagens dos últimos dias. Em poucos outros  momentos históricos os portugueses revelaram tanta confiança nas instituições, o que é tão mais sintomático quanto sabemos que, ainda  há poucos meses e poucas semanas não era essa a ideia que tínhamos.


As decisões políticas têm merecido, também em conformidade com estudos de opinião publicados nestes dias, fortíssima aprovação dos portugueses. A decisão do estado de emergência, por exemplo - com a qual não concordei, como bem sabe quem por aqui perde parte do seu tempo - tem índices de aprovação largamente maioritários.


No Parlamento, em vez da crispação habitual, constata-se um saudável ambiente de serenidade, com as diferentes forças políticas disponíveis para apoiar as medidas que o governo vai anunciando, e a deixarem a afirmação das suas diferenças para outras oportunidades, que esta é de união.


Nas ruas, reina a tranquilidade. Duas ou três dezenas de detenções, por violação do regime de emergência, não beliscam minimamente essa tranquilidade. Os portugueses estão ou em casa, ou no trabalho, civicamente a acatar as regras instituídas.


E no entanto há por aí uns quantos que se acham senadores da nação a clamar por um governo de salvação nacional. Há uma semana foi Marçal Grilo, num espaço que partilha com Luís Nobre Guedes na RTP 3. Ontem foi José Miguel Júdice - "Se há momento em que um Governo de salvação nacional é necessário, é este” - no seu espaço na SIC Notícias.


Hão-de vir mais. É só esperar mais um bocadinho. 


Se, depois de passado o tsunami, e de toda a extensão da devastação ficar à vista, perante a avaliação da tarefa de reerguer a economia nacional e a própria sociedade portuguesa, se poderia admitir essa discussão, agora não. Não, não é este o momento. Por muita que cresça todos os dias a pressa do Presidente Marcelo... 


 


 

quarta-feira, 25 de março de 2020

É oficial: Portugal teve excedente orçamental em 2019

Resultado de imagem para excedente orçamental 2019


 


E de repente, quando o vírus nos roubava o inédito e festejado excedente orçamental de 2020, ei-lo a acabar de chegar vestido de 2019. 


Não sei se o INE fez tudo para que o primeiro excedente orçamental da democracia portuguesa se não esfumasse ingloriamente às mãos de um vírus. Mas se fez, fez bem!


Não era justo que uma coisa tão desprezivelmente microscópica roubasse esta medalha a Centeno.

Assim vai o mundo

Resultado de imagem para o coronavirus pelo mundo


 


Um estudo da Universidade de Oxford revela que metade da população inglesa poderá estar infectada pelo novo coronavírus. Entretanto a Organização Mundial de Saúde está convencida que os Estados Unidos se estão a transformar próximo grande foco do vírus. Estados Unidos onde Trump, com mais medo das consequências para as eleições de Novembro que do vírus, está a pedir ajuda à Coreia do Sul. Vírus que chegou à Índia onde, pelas condições sanitárias e pela densidade populacional do país, tem tudo para atingir uma dimensão verdadeiramente apocalíptica. Coisa que não passa pela cabeça de Bolsonaro, que continua a falar de uma inventona dos media perante uma gripezinha, menos ainda, um simples "resfriazinho", e a dar ordens às autoridades estaduais brasileiras para acabarem imediatamente com todas as medidas de contingência decretadas.


Assim vai o mundo...

terça-feira, 24 de março de 2020

Mais que uma mentira

Resultado de imagem para entrevista antónio costa à tvi


 


Nas poucas coisas que teve para dizer, o Presidente Marcelo disse que ... mentir, não valia. Disse que "ninguém vai mentir a ninguém" como se isso fosse uma alínea do decreto do "estado de emergência" que acabara de assinar.


Da mesma forma que há portugueses a "furar" o "estado de emergência", e vão para a praia, para as marginais ou para os copos, há gente a mentir. Por todo o lado. E ontem o primeiro-ministro mentiu. Não sei se foi a primeira vez que furou esta alínea do "estado de emergência" de Marcelo, mas mentiu.


Ao garantir que até agora não faltou nada ao Serviço Nacional de Saúde para combater a pandemia, António Costa mentiu. E soube que mentia, viu-se-lhe nos olhos que sabia que estava a mentir. 


Não terá provavelmente ponderado toda a extensão da mentira. Terá intuído que a mentira teria menos danos que a verdade, mas o sentido de responsabilidade - de que tem até dado sobejas provas - obrigava-o a mais. Obrigava-o sobretudo a mais o respeito pelos milhares de profissionais que nos hospitais se debatem com carências de toda a ordem, que a todo o momento os obrigam fazer opções, muitas delas dramáticas. Que, por falta de equipamentos de protecção individual, arriscam todos os dias a sua própria saúde, e que, para não colocarem em risco a dos seus, se vêm forçados a um esgotante isolamento nas poucas horas de retemperamento de que podem dispor.


Sem dúvida, António Costa poderia e deveria ter por momentos virado as costas ao lado mais cínico da expressão política, e procurado outra saída para a pergunta que, de tão óbvia que era a resposta, nem precisava de ser feita. A que encontrou foi chocante. Não tanto por ser mentira, mas por projectar uma insensibilidade que porventura até não terá.


 

Coisas do distanciamento social

Capa


 


"Pandemia reforça imagem de Costa e desgasta Marcelo", diz que dizem as sondagens. Pois é, sem beijos e abraços não é fácil. E na hora da desgraça fica ainda mais difícil... 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pessimista, eu?

Resultado de imagem para van der leyen, merkel e lagarde


 


Percebemos que o governo tinha de rapidamente anunciar qualquer coisa que pudesse ajudar-nos a pensar que o país não vai colapsar, e que vamos resistir a este primeiro embate com o monstro que anda à solta. Como começamos a perceber que anunciou uma mão cheia de nada, e que na realidade o governo apenas tratou de ganhar tempo, porque não havia tempo para perder.


Percebemos isto na sexta-feira à noite quando, estando anunciada uma conferência de imprensa para a hora dos telejornais para anunciar novas medidas - o que por si só já confirmava que as primeiras anunciadas, dois ou três dias antes, tinham apenas por destino satisfazer o tempo -, vimos que foi sucessivamente adiada (novamente o tempo) até, já noite dentro, ter acabado em ... nada a declarar. Nada a declarar, e nada a revelar que não o estado de exaustão da ministra Mariana da Silva, a quem nem a juventude valeu.


É claro que o governo está à espera da União Europeia, donde nada chegou até agora. Espera agora que alguma coisa possa vir da reunião do Eurogrupo, amanhã. Ironicamente presidido por Centeno. 


É este o drama da (falta) liderança europeia. Quando tinha que haver uma voz a fazer-se ouvir, vemo-los todos a olhar uns para os outros, sem ninguém a perceber que nesta altura, hoje precisamente, a União Europeia só tem um caminho: reforçar-se, reforçando de vez e irreversivelmente, todos os mecanismos da união. Não há outro caminho, fora desse simplesmente desaparece. 


Se a União não conseguir dar uma resposta colectiva a esta crise desaparece. E sem deixar saudades... Porque, se não serve para um momento como este, não serve para mais nada!


A primeira coisa que a Srª Lagarde fez foi dizer que isto não é problema do BCE. Depois emendou a mão, mas já o Banco Central Alemão tinha dito que sim senhor, assim é que é falar... E ficou dito. A Srª Van der Leyen veio dizer que suspendia as regras orçamentais, e que os países - nunca a União - poderiam gastar o que quisessem para enfrentar a crise sem quaisquer preocupações com o défice, como se não soubesse que os países não podem gastar dinheiro que não têm. E que não têm condições de pedir emprestado, como é o caso de Itália, de Portugal e até de Espanha. 


A Srª Merkel - vejam bem, já é a luz ao fundo do túnel -  veio dizer o óbvio, que a resposta, como o seu financiamento, têm de ser europeus. E abrir agora a porta às eurobonds. Que o seu Parlamento nunca autorizará.


Teme-se até que já não sejam a solução. Não há sequer tempo para preparar toda a legislação e de dar resposta a toda a carga burocrática que as ponha de pé. A solução estará apenas e só na injecção de liquidez do BCE: emprestando dinheiro directamente aos governos, através do Banco Europeu de Investimento (BEI), com protocolos de cobranças com as Autoridades Tributárias dos países, para não envolver os bancos (ainda em convalescença, é bom não esquecer) nisto; ou, eventualmente mais ajustado nesta altura, pondo as rotativas a trabalhar.


Provoca inflação? Sim, e ainda bem. Faz falta, como se tem visto. 


Os alemães nem querem ouvir falar nisso? Nem nisso, nem noutra coisa... É para isso que servem as lideranças.


Reparem que só falamos em três líderes. Em três senhoras. Das três só conhecemos uma, e não gostávamos muito dela. As outras duas não começaram nada bem... 


Pessimista, eu?

sábado, 21 de março de 2020

Oportunidades


 


Não é fácil ser optimista nesta altura, mas também não se ganha nada em recusar todas as máximas do optmismo. Entre elas está aquela que os gurus do empreendedorismo transformaram em princípio sagrado, que diz que cada ameaça esconde um sem número de oportunidades. Por cada um que chora há outro a ganhar dinheiro em lenços de papel, não é?


Nesta crise dramática que planetariamente vivemos há certamente muita gente a ganhar dinheiro em lenços de papel. E em papel higiénico, mesmo que se continue sem perceber por quê... Mas isso não são oportunidades para a humanidade, são, comme d´habitude,  só para alguns.


Quero crer que desta terrível ameaça também para a humanidade emergirão oportunidades. Coisas boas a reter para o futuro. 


Uma delas é que bastaram os primeiros dias desta crise para que toda a gente, por este mundo fora, pudesse finalmente ver as cabeças ocas de Trump e Bolsonaro, só cheais de merda. A forma como estes dois idiotas negaram o vírus, como o tentaram ridicularizar, como sempre fazem com as coisas mais sérias que ameaçam a humanidade, e como depois correram a meter o rabinho entre as pernas, em mais uma alarve demostração de ignorância, não passou despercebida a ninguém. Toda a gente viu. E hoje toda a gente percebe a sua monstruosa ignorância, quando vê Bolsonaro com uma máscara ao pescoço, ou Trump a querer comprar para si a descoberta da vacina, retratado no espectacular cartoon (mais um, e na foto) do António, hoje publicado no Expresso.


Hoje, toda a gente pode facilmente comparar tudo o que estes dois fizeram e disseram deste vírus,  que já estava à frente dos olhos de toda a gente, com tudo o que têm vindo a fazer e a dizer do ambiente, tão só a maior emergência da humanidade. E concluir que não passam de dois idiotas, do mal que fazem as suas idiotices, e de quão perigoso é votar neste tipo de gente. Que, como sabemos, está longe de se esgotar nestes dois exemplares!


 


 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Primavera


Começa hoje a Primavera!


Quem diria?


Valha-nos a esperança que sempre traz, mesmo quando chega embrulhada em dias tristes, cinzentos e frios...

quinta-feira, 19 de março de 2020

Presente envenenado?*

Resultado de imagem para presente envenenado


 


Com a vida parada e as pessoas em casa, com o número das pessoas infectadas a crescer diariamente a ritmo acelerado e com as notícias das primeiras mortes, o país, por enquanto ainda sem dar por isso, está em estado de emergência há já mais de 24 horas.


Até que o Presidente da República tivesse decretado o estado de emergência o país dividia-se em dois: entre os que o reclamavam e os que achavam desnecessário. Agora que está decretado, divide-se em três. Ironicamente tantos quantos  os grupos em que o governo dividiu a população. Mas não os mesmos.


É que, os que antes o reclamavam, dividem-se agora em dois: os que o acham brando, que pretendiam uma coisa mais musculada, e os que entendem que tem o tom certo. Poderia então dizer-se que quem estava contra poderá ter passado a concordar com este estado de emergência em vigor, e que, assim, o país continuaria apenas dividido em dois. Poderia dizer-se isso se, entretanto, os que antes estavam contra a declaração do estado de emergência não tivessem, com isso, apenas confirmado a sua desnecessidade. E passado a ter mais razões para desconfiar.


Sobre o estado de emergência decretado, o país agora divide-se em três: os que defendem o estado de emergência “a sério”, os que defendem o que vigora para defender o Presidente da República, e os desconfiados.


O decreto presidencial do estado de emergência é uma carta branca emitida pelo Presidente da República e entregue ao governo. Só que é uma carta branca que o governo não pediu. Que não acha que lhe faça falta. E sempre que alguém dá a outrem algo que lhe não foi pedido pode sempre suspeitar-se de presente envenenado!


Um presente estranho, anacrónico, que serve mais a quem o oferece que a quem o recebe…


* A minha crónica de hoje na Cister FM

quarta-feira, 18 de março de 2020

Estado de emergência

Resultado de imagem para estado de emergencia portugal


 


Como era esperado, o estado de emergência com que o Presidente Marcelo quis fazer prova de vida, e assim ressuscitar para para a reeleição, está decretado. E já em vigor.


Não será por isso que deixou de ser discutível. E discutido.


Como aqui disse por várias vezes os prós e contras dividiam-se entre os mais dados às teorias seguritárias e à exibição da força,  e os mais afeiçoados às teses dos direitos e liberdades individuais. Entre os que acham que polícias e tanques nas ruas são como que uma vacina, e os que acham que polícias e militares servem para outras coisas, que não para tratar uma epidemia. Entre os que acham que a guerra ao covid-19 se ganha com toda a gente fechada em casa, e os que acham que com toda a gente fechada em casa o país morreria da cura antes ainda de morrer da doença. E até entre os que achavam que, no meio disto tudo, a prioridade era, no mais descarado oportunismo populista, aproveitar a opinião pública favorável ao estado de emergência para recuperar a popularidade do Presidente, e os que, cansados do seu populismo, se estão já nas tintas para a sua popularidade e para a sua reeleição.


O estado de emergência é um instrumento que o Presidente da República cria para, depois, entregar ao governo. É uma carta branca que o Presidente dá ao governo para este faça o que entender sem quaisquer condicionalismos constitucionais. Ora, como se sabe, o governo entendia que não precisava nada disso. E, não precisando, o mais provável seria que não a utilizasse.


Daí que o decreto presidencial que institui o estado de emergência tenha acabado por ser pouco mais que nada. Com a irónica particularidade de vermos os seus principais defensores transformarem essa inocuidade no grande mérito da decisão do Presidente.


Se o maior mérito deste estado de emergência é dispensar as prerrogativas do "estado de emergência", ficamos todos mais esclarecidos sobre os seus verdadeiros objectivos. E não surpreenderá que tenha desagradado à grande maioria dos que, de boa fé (independentemente das motivações), o defendiam.


 


 

Decisões

Resultado de imagem para decisões


 


Hoje é dia de ficarmos a saber se, como é vontade do Presidente Marcelo, entramos em "estado de emergência", ou se, como é desejo do primeiro-ministro Costa, não vamos tão longe. Se se fecha já o país, ou se se vai fechando aos poucos. 


As opiniões dividem-se, como se vê logo por estes dois principais órgãos de soberania. Dividem-se entre os que apreciam mais uma sociedade comandada por um Estado mais musculado, e os que privilegiam uma sociedade comandada pelos valores dos direitos e liberdades individuais mas, acima de tudo, dividem-se entre os que, num momento destes, entendem que toda a prioridade tem que ser dada, em absoluto, ao combate à pandemia, e os que entendem que, dessa forma, se poderá estar a deitar fora o bebé com a água. Ou a matar com a cura.


Tudo depende agora da capacidade do Conselho de Estado para persuadir o Presidente a mudar de opinião, porque já se percebeu que nem o governo, mesmo que em discordância, nem a Assembleia da República, irão contrariar a decisão presidencial.


Entretanto começam a chegar boas notícias. E não me refiro às que anunciam a vacina que todos já conseguiram descobrir, até porque surpresa seria se quando alguém anunciasse resultados não viessem todos os outros dizer que também já lá chegaram. Refiro-me à abertura, pela primeira vez, da Alemanha, de Angela Merkel, às famosas eurobonds (obrigações europeias). É que se a União Europeia não conseguir responder a esta crise com emissão de dívida conjunta, muito provavelmente desaparecerá de vez.


E refiro-me ao pacote de 3 mil milhões de euros de financiamento à economia, e de mais um conjunto de importantes medidas fiscais, num total de 9,2 mil milhões de euros, que o governo, através dos ministros da economia e das finanças, acabou de anunciar. Não faço ideia se é suficiente. À luz dos 200 mil milhões de que o governo espanhol lançou mão parece até ridículo. Mas é uma resposta pronta, e isso é quase sempre o mais importante!


 

terça-feira, 17 de março de 2020

Pedro Barroso (1950-2020)

Resultado de imagem para pedro barroso


 


Morreu o último trovador, poucos meses depois do "seu irmão ibérico" Patxi Andion ("nasceram" ambos no mítico Zip Zip do Carlos Cruz, do Fialho Gouveia e do Raúl Sonado). Pedro Barroso, o artista das palavras e da música, da pintura e da escrita, partiu aos 69 anos. Deixou-nos as suas cantigas que tantas vezes nos enchem a alma.


Viva quem canta!


E viva quem cantou como Pedro Barroso!  

Sentido de oportunidade

Resultado de imagem para pela calada da noite


 


Chama-se Decreto-Lei nº 10-A/2020, nasceu no passado dia 13 de Março, emanou da Presidência do Conselho de Ministros e, segundo o próprio, estabelece medidas excepcionais e temporárias no quadro da actual crise social, económica e epidemiológica do país.


E, como há gente que nunca dorme, e que sabe que todas as oportunidades são para aproveitar, diz no seu artigo 4.º: "A decisão de contratar a aquisição de serviços cujo objeto seja a realização de estudos, pareceres, projetos e serviços de consultoria, bem como quaisquer trabalhos especializados, não carecem das autorizações administrativas previstas na lei, sendo da competência do membro do Governo responsável pela área setorial".


Felizmente também aqui pela blogosfera há gente como os Ladrões de Bicicletas que não anda a dormir e apanha-lhas todas. Ou quase todas...

segunda-feira, 16 de março de 2020

O tamanho da onda gigante

Resultado de imagem para pânico nas bolsas


 


Ninguém consegue prever o tamanho da onda gigante que se está a formar, pronta a abater-se sobre a economia nacional (e europeia e mundial, evidentemente), a sua real capacidade devastadora e a dimensão da catástrofe que se avizinha.


Fala-se de outros exemplos, e de outros momentos da História de alguma forma similares, mas sabemos que não há precedentes e que estamos a mergulhar no desconhecido. Sabemos todos que nunca nada aconteceu em momento de tanta interdependência global. A economia é um jogo de expectativas, que depende muito do que acontece, mas mais ainda do que se espera que aconteça. E quando não se sabe o que vai acontecer, pode sempre esperar-se que aconteça o pior. 


O que está a acontecer nas bolsas fala-nos disso, e dá-nos uma ideia da dimensão da onda. Mas, ao vermos tudo a parar, e percebendo as receitas das empresas a desaparecerem sem que desapareçam  os custos, e que nesses estamos também todos nós, sentimo-la mais próxima e mais gigante ainda.


 


 


 

domingo, 15 de março de 2020

Mais valia ter continuado calado

marselfie.jpg


 


Ontem trazia aqui o silêncio do Presidente. Hoje Marcelo quebrou-o!


Mas mais valia ter continuado calado. Pela forma -  na inaceitável qualidade do som e da imagem da emissão, e na inaceitável qualificação de mensagem pessoal - e pelo conteúdo. Vazio e ridículo.


Vazio, porque não disse nada quando há tanto para dizer. E ridículo, com esta ideia de uma emergência nacional a prazo.  


Não, o presidente não está apenas de quarentena. Simplesmente não existe!

sábado, 14 de março de 2020

Quietinhos em casa!

Resultado de imagem para marcelo rebelo de sousa com máscara sanitária


 


Marcelo entrou logo no início da semana em quarentena - e terá até sido o primeiro português a fazê-lo - e fez disso notícia-espectáculo. Chegou ao ponto de divulgar todas as suas rotinas domésticas, que aos portugueses interessam, ou deveriam interessar, zero. É o seu registo, e percebeu-se claramente que estava a dar o pontapé de saída na sua campanha para a reeleição do próximo ano. 


Entretanto o país entrou nos últimos dias num período de emergência como nunca antes tinha vivido, com a taxa de propagação da doença a crescer em progressão geométrica, e do Presidente da República ... nada. Apenas silêncio. O silêncio ensurdecedor de quem sempre fala sobre tudo, de quem sobre tudo tem sempre tudo a dizer... Mas sem nada para dizer na maior crise do seu mandato!


Acusamos frequentemente os políticos de não primarem pelo exemplo, que caricaturamos pelo "façam o que eu digo, não façam o faço". Admitamos que o sexto sentido político de Marcelo o atirou para aí: não diz nada, para que não façam o que diz, mas o que faz. Quietinhos em casa!


E isso é bem capaz de ser o que de mais importante haja nesta altura para dizer. Só que tem um problema: é muito à frente e os portugueses terão alguma dificuldade em acompanhar!

quinta-feira, 12 de março de 2020

O vírus da irresponsabilidade*

Resultado de imagem para conferencia de imprensa ministra da saude


 


Portugal foi dos últimos países a ser atingido pelo Covid -19. Já a epidemia, agora pandemia, ia avançada em muitos países do mundo, mas, diga-se também, controlada em alguns outros, quando cá chegou.


Quer isto dizer que nós, portugueses, tivemos mais oportunidades que outros para nos prepararmos para enfrentar esta calamidade. Parece-me que somos cada vez mais os que pensamos que não tiramos grande proveito disso. Que não aproveitamos, como devíamos, essas oportunidades.  


Tem sido notório que as autoridades portuguesas têm tido como principal objectivo evitar alarmismos. Seria normal que assim fosse. Manter a tranquilidade em circunstâncias altamente críticas, e evitar situações de alarme social, é prova de responsabilidade.


O problema está no tom com que isso tem sido feito, que não se adequa nada ao laxismo e à irresponsabilidade que nos caracteriza. E que caracteriza de uma forma geral toda esta gente cá do sul da Europa.


As pessoas continuam a achar que não têm nada a ver com isto, que é sempre com os outros, sem quererem perceber a dimensão colectiva do que está em causa, e a responsabilidade cívica, em primeiro lugar, mas também criminal, que lhes advém dos seus comportamentos.


As Universidades fecham para que as pessoas cumpram o isolamento social, mas os estudantes inundam as esplanadas. Criam-se condições de quarentena, mas as pessoas aproveitam-nas para no primeiro dia de sol encher as praias. Fecham-se os estádios de futebol, mas as pessoas vão apoiar o seu clube do lado de fora.


Discute-se o encerramento das escolas, mas chamam-lhe antecipar as férias da Páscoa. Não. As escolas não fecham para os alunos irem de férias. Fecham para evitar contacto social e reduzir as condições de propagação da doença.


Este é o momento de ganhar a batalha pela contenção do vírus, e não de outra coisa qualquer. É vital para todos nós ganhar, e depressa, essa batalha. Quem está informado e consciente da gravidade deste momento está profundamente alarmado. Os que não querem saber, os indigentes morais, têm que ser abanados para acordar para esta realidade. E isso não se faz sem alarme social. 


Percebemos ontem à noite que o primeiro-ministro já percebeu isto. E que percebeu que tinha de comunicar em aberta contramão com aquelas duas senhoras que andamos fartos de ouvir. 


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

Combate cívico

Praia de Carcavelos cheia em dia que foi decretada pandemia devido ao coronavírus


 


A doença do Covid-19 foi oficialmente declarada “pandemia” pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a segunda deste século. Quer isto dizer que o vírus alastra pelo mundo fora, mesmo que em algumas partes dele esteja já sob controlo, o que reforça a necessidade de mobilização das sociedades e dos cidadãos para a batalha da sua contenção. 


A declaração da OMS é acima de tudo um alerta para a gravidade de uma doença que se combate pelo ataque à sua transmissão. E esse é um combate de comportamento cívico, de pequenos gestos, de consciência do bem comum, de respeito pelo outro. 


É para esse combate que urge mobilizar os portugueses, chamando as coisas pelos nomes e acabando com os paninhos quentes com que pretende evitar o alarme social. Quando as Universidades fecham para se encherem as esplanadas, e ao primeiro dia de sol as pessoas correm a encher as praias depois de esvaziarem os supermercados, percebe-se a maturidade cívica de uma sociedade.


E isso terá também a ver com a comunicação que tem sido utilizada. Que, de tanto fugir com medo do alarme social, validou a irresponsabilidade inata dos portugueses. 


 

quarta-feira, 11 de março de 2020

Vírus da estupidez

Resultado de imagem para vírus da estupidez


 


"Obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo" - Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.


Super Dragões vão apoiar fora do Estádio em Famalicão - na capa do Record.


Coisas difíceis de entender... Ou talvez não. Diz-se que Einstein dizia que só duas coisas eram infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas que em relação ao Universo ainda não tinha a certeza.

terça-feira, 10 de março de 2020

Saber fazer

Resultado de imagem para entrevista face time marcelo à tvi


 


Enquanto cada vez menos fala de recandidatura, Marcelo cada vez faz mais por ela. Já quase não faz outra coisa, mesmo.


E faz bem. Faz bem no sentido do saber fazer, não no sentido do dever fazer. Porque ele sabem fazer bem estas coisas. Como poucos, como ninguém mesmo.


Completaram-se ontem quatro anos da sua presidência, e António Costa deu-lhe os parabéns. Por isso e pelo resultado negativo no teste ao coronavírus a que se submeteu. António Costa também sabe como estas coisas se fazem... Mas Marcelo é professor!


Aproveitou os parabéns de Costa, não lhe ligando nenhuma, e aproveitou tudo o resto a partir da clausura de uma inédita e mediática quarentena, numa entrevista via Facetime, a Miguel Sousa Tavares, no telejornal da TVI. Com aquela saída no aniversário do "Publico", na semana passada, dos inícios de legislaturas que mais parecem fins de ciclo, a mais certeira das suas certeiras tiradas, e com esta entrevista de ontem, Marcelo lançou o sprint para a recandidatura. 


Está lançado e, venha quem vier, já demonstrou que não vai facilitar.

segunda-feira, 9 de março de 2020

À beira do caos

Resultado de imagem para bolsas mundiais


 


Em Itália, onde só ontem morreram 133 pessoas infectadas pelo Covid-19, os jogos de futebol disputam-se à porta fechada, como sucedeu no Juventus - Inter de ontem, um dos mais importantes do campeonato italiano. E a Lombardia está fechada ao exterior, com 16 milhões de pessoas impedidas de sair da região. 


Por todo o mundo todos os negócios vão gradualmente parando. Cancelam-se feiras, viagens, transportes... Cancelam-se todos os grandes acontecimentos desportivos. 


Os países produtores de petróleo ensaiaram um acordo para baixar a produção, e assim conterem os danos da descida de preços por esmagamento da procura. A coisa não correu bem e saiu tudo ao contrário, com a Arábia Saudita, o maior produtor mundial, a abrir uma guerra de preços com a Rússia, e a anunciar aumentar a produção e inundar o mercado.  E os preços a caírem com estrondo. Já está nos 30 dólares por barril, e só vai parar nos vinte. 


Petróleo a 20 dólares. Pode parecer uma boa notícia, mas não é. É péssima. Poucos, muito poucos, são os países produtores que sobrevivem a esse preço. Imagine-se o que daí poderá vir...


Pois é. Isto vai muito para além de escolas fechadas, de proibição de visitas a hospitais, lares de idosos e prisões ou de um Presidente da República fechado em casa. Isto é o caos a aproximar-se a alta velocidade!

sábado, 7 de março de 2020

Irresponsabilidade

Resultado de imagem para vitoria setubal benfica


 


 


É mais profundo do que se imaginava, esse buraco negro em que o Benfica caiu. A exibição da  passada segunda-feira, e o empate que entregou de bandeja a liderança do campeonato, tinham deixado a ideia que a equipa ainda não tinha batido no fundo. Que havia mais para cair.


Hoje, em Setúbal, isso ficou confirmado. O Benfica caiu ainda mais, muito mais. E nem assim deixou a ideia de já lá ter tocado. O que se ouviu não é aquele som do estatelar final. 


Bruno Lage mexeu na equipa. Mexeu no meio campo: voltou Cervi, retirou Weigl e juntou Samaris a Taarabt. E no ataque tirou Rafa e meteu Chiquinho. Na defesa, tudo na mesma. Não há por onde mexer... E mexeu na cor o equipamento, trocado as nossas camisolas berrantes de papoilas saltitantes por umas tristes, feias e irreconhecíveis camisolas cinzentas. 


Foi a única mexida que se notou!


Por isso, do jogo não há mesmo nada a dizer. O comportamento da  primeira parte não é apenas lamentável e negligente. É irresponsável!


Só a irresponsabilidade de jogadores e treinadores podem justificar que uma equipa que acabou de desperdiçar a larga vantagem de que construíra, que sabe que tudo tem de fazer para inverter o rumo das coisas, e que tem de dizer aos adeptos que nada está ainda perdido, tenha a atitude que teve na primeira parte.


Como é irresponsável, neste contexto actual, em que cada penalti é ouro, pôr Pizzi a marcá-los.  É quem mais penaltis falhou esta época em Portugal, falhou bem mais do que os que concretizou. Falhou três dos últimos quatro!


O único que não falhou foi o primeiro de hoje. Depois de o marcar só uma enorme irresponsabilidade, do próprio e do treinador, o indicaria para um segundo. E lá se foram quatro pontos em dois penaltis falhados em dois jogos consecutivos. E a liderança. E provavelmente o campeonato!


Que só não ficou hoje praticamente perdido porque o Rio Ave, de Carvalhal, fez o que o Benfica, de Lage, estava obrigado a ter feito. Mas não fez, e acabou nisto a que estamos a assistir...

sexta-feira, 6 de março de 2020

Trocos da vida*

Resultado de imagem para tempestades de s.tomé e príncipe


 


Passou despercebidamente em alguns jornais em notícia de rodapé: "portuguesa assassinada em S. Tomé". 


Chamava-se Catarina Barros de Sousa, e tinha chegado há uma dúzia de anos àquelas paragens equatorianas como voluntária de uma ONG integrada num programa de apoio a crianças de rua. Crianças em dificuldades, que por lá é coisa que não falta.


Apaixonou-se por aquele sol, por aquelas tempestades e por aquela gente e, terminado o voluntariado, ficou. E fez de tudo – trabalhou numa roça de cacau, numa companhia de aviação, foi guia turística… Trabalhava há dois anos num resort ecológico, no Norte da Ilha de S. Tomé. Que percorrera de lés a lés, distribuindo sorrisos na sua motorizada, conhecendo-lhe todos os cantos. 


Tinha 51 anos, e foi no início da semana encontrada morta a golpes de catana, banhada de sangue no chão do seu gabinete, no hotel em que trabalhava, num cenário dantesco de rara violência, a sugerir a condição de vítima de um ódio que de nenhuma forma casava com o carinho e admiração que toda a comunidade local lhe dispensava.


Após as primeiras investigações as suspeitas recaem sobre um funcionário do hotel, a quem a Catarina tinha instaurado um processo disciplinar por faltar ao trabalho, faltas que lhe terá descontado no vencimento.


Terão afinal bastado uns simples trocos para franquear as portas a um ódio que não tinha por onde entrar. Uns simples trocos acabaram suficientes para pagar o preço que a vida não tem. Como se a vida nunca passasse de trocos…


 


* A minha crónica de hoje na Cister FM

quinta-feira, 5 de março de 2020

Decisões e tentações

Resultado de imagem para substituição do governador do banco de portugal


 


António Costa aproveitou o debate quinzenal de ontem no Parlamento para anunciar a guia de marcha a Carlos Costa: "no final do mandato do governador, o governo exercerá a sua competência e designará um novo governador” - disse, numa resposta a Catarina Martins.


Não há aqui novidade nenhuma, Carlos Costa foi claramente o pior governador do Banco de Portugal de sempre. Não tem nada de subjectivo, são os resultados que o dizem. São as dezenas de milhares de milhões de euros que nos saíram do pêlo que fazem dele o pior de sempre. São as catastróficas resoluções dos BES e do BANIF, foi e é o desastre do Novo Banco, são as permanentes suspeitas de lavagem de dinheiro, são mentiras e contradições, e é a própria gestão interna do Banco de Portugal, onde não faltam acusações, como a anulação de um concurso para director do Gabinete de Estudos, só porque foi ganho por quem ele não queria que fosse ganho. Por acaso, na altura, Mário Centeno!


Se já a sua recondução, em 2015, fora escandalosa - pelo seu desempenho e por Passos Coelho o ter feito em final de mandato, a escassos dois meses das eleições - nova confirmação nesta altura seria simplesmente impensável. 


Nada a apontar portanto ao primeiro-ministro. Nem na decisão, nem na sua comunicação. Outra coisa bem diferente seria se, para a sua substituição, tivesse na cabeça, como corre por aí, o nome de Mário Centeno. 


Poderá não ter. Mas não custa nada a admitir que tenha tido. Sabe-se que  tentação é grande. Quem se lembra de Vitalino Canas para o Tribunal Constitucional é capaz de se lembrar de tudo. Mas até por isso, pela lição que daí terá de tirar, é impossível que António Costa continue a pensar no ministro das finanças para substituir Carlos Costa.


Já que não é possível tomar decisões por razões de Estado, e pela observação dos princípios fundamentais que devem reger as instituições do regime, que seja ao menos por pressão da opinião pública...


 


 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Diferentes

Resultado de imagem para silas rúben amorim


O Sporting é diferente, dizem. Ou diziam, porque agora a diferença já não é suficiente para cobrir tanta bizarrice, muitas delas verdadeiros anacronismos.


A última aconteceu ontem à noite, com o treinador despedido  a anunciar o que o vem substituir. Isto depois de ambas as notícias - despedimento de Silas e contratação de Rúben Amorim - circularem durante quase uma semana na comunicação social. Sem uma palavra dos dirigentes ... Talvez para não terem de explicar por que fazem de um treinador com pouco mais de um mês de experiência na I Liga e, tal como o agora despedido, sem as qualificações requeridas para a função, o treinador mais caro da sua História. Que já contava com o treinador mais caro do futebol em Portugal!


Mas ainda acabarão a esclarecer que tiveram de o ir buscar para que ele não fosse para o Benfica...


 

terça-feira, 3 de março de 2020

Acordo de paz no Afeganistão

Resultado de imagem para eua e talibãs assinam acordo de paz


 


Os Estados Unidos e os talibãs afegãos assinaram neste fim de semana, em Doha, no Catar, um acordo de paz que põe fim a 18 anos de uma guerra que esteve no epicentro do terrorismo internacional deste século. Na última quarta-feira, o terceiro dos oito episódios da oitava e última série de "Segurança Nacional", ou Homeland no original, deixava-nos exactamente aí: em Doha, na assinatura do acordo de paz. Construído pelo extraordinário Saul Berenson!


A série sempre teve tudo para ser imperdível. Mas é verdadeiramente insuperável na actualidade dos guiões. 

segunda-feira, 2 de março de 2020

Já está!


 


O Benfica já entregou a liderança ao Porto. Pelo que se foi vendo nos últimos jogos parece até que a pressa era grande.


Este jogo de hoje, com o Moreirense, na Luz, não foi em nada diferente dos últimos. Foi simplesmente mais do mesmo, porque já não há equipa que não saiba explorar as imensas fragilidades deste Benfica.


Enquanto a equipa gozou de níveis de eficácia acima da média, ainda foi dando para esconder muita coisa. Depois, quando as oportunidades deixaram de ter esses níveis de aproveitamento, só ficaram os defeitos à mostra para toda a gente ver. E toda a gente os vê, sem que o Bruno Lage os consiga resolver.


Percebeu-se logo no início do jogo que voltaria a ser assim. Nem se pode dizer que o Benfica tenha entrado mal no jogo, a equipa circulava bem a bola, e ao contrário de outros jogos não falhava muitos passes. Viu-se até o Veigl deixar pela primeira vez algum do perfume do seu futebol, mas ficava claro que faltava velocidade na circulação do jogo.


Neste registo o Benfica empurrou o Moreirense lá para trás, chegou a ser sufocante, recuperando bolas, umas atrás das outras, ainda em cima da grande área adversária. Só que, ao ritmo de uma vez a cada dúzia de minutos, o Moreirense escapava a essa pressão alta do Benfica e largava quatro ou cinco jogadores em direcção à baliza de  Vlachodimos e, por inacreditável que pareça, criou quase tantas oportunidades de golo como o Benfica com 70% de posse de bola, em regime de asfixiamento.


A segunda parte arrancou no mesmo registo, mas com mais carga dramática. Nos primeiros quatro minutos o Benfica desperdiçou um penalti (Pizzi atirou para fora) e teve um golo confirmado e depois anulado pelo árbitro, depois de recorrer às imagens  VAR. Nessa altura, ainda antes do minuto 50, não houve quem não ficasse convencido que desta vez ... já não dava.


E a partir daí a equipa caiu a pique. As substituições, como também é habitual, não melhoraram nada, e tudo passou a ser mal feito. Foi sem surpresa que aos 67 minutos a bola entrou, mas na baliza de Vlachodimos. E só por milagre não voltou a entrar um quarto de hora depois!


Ao minuto 90 o Benfica acabou por chegar ao empate, na única forma em que poderia marcar. E mesmo assim... Sim, de penalti. Pizzi voltou a falhar, marcando pessimamente. Valeu-lhe a recarga, que evitou a derrota e deu no primeiro empate neste campeonato. Que deve ter sido hoje  entregue ao Porto em bandeja de prata!


Bateu no fundo, o Benfica? Não creio. Há ainda mais fundo para cair daqui para a frente.


 

Pronto: já há portugueses infectados em Portugal!

Resultado de imagem para jornal de notícias já há infectados de coronavirus em portugal


 


Até que enfim... Finalmente já há portugueses infectados pelo coronavírus em Portugal. Confirma-se. e espera-se agora pela festa nas televisões e jornais.


Havia portugueses infectados, mas fora do país. Havia infectados no país, mas não eram portugueses. O Covid-19 era, como dizia ontem o Ricardo Araújo Pereira, uma espécie de eléctrico 28 - há em Portugal, mas é só para estrangeiros.


Pronto: resolvido este problema, e ultrapassada esta angústia mediática, agora é só esperar que o vírus faça o seu papel e se espalhe a sério pelo país fora...

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...