
Nesta terceira deslocação ao Minho do campeonato, na penúltima jornada, o Benfica tinha de enfrentar um grande Braga. Aquele que deu um banho de bola ao Porto, no Dragão, e que empatou em Alvalade, com todo o mérito. Quis a Comissão de Arbitragem que tivesse também de enfrentar o árbitro João Gonçalves, mais um especialista na arte de roubar o Benfica (basta lembrar, só no último campeonato, o AFS-Benfica, o Benfica-Famalicão e o Estoril-Benfica) e nos arranjinhos ao Sporting, com o canto fantasma que lhe deu três nos Açores ainda fresquinho. E o Tiago Martins, que dispensa apresentações, com a espinha da final da Taça atravessada na garganta dos benfiquistas.
Começo por aqui simplesmente porque, conhecidas as nomeações, não ouvi ninguém do Benfica dizer o que quer que fosse sobre o assunto. Porque o Benfica "come e cala", como já o próprio Mourinho tem que vir a público dizer. E por isso ninguém se pode espantar com o que lhe acontece.
Agora o jogo: o Benfica entrou com o onze tipo, com Barreiros de regresso à equipa, e Prestiani ao banco. E entrou bem, com um início tranquilo, só perturbado quando Dahl resolveu encetar uma série de asneiras que iriam marcar a mais desastrada exibição individual da primeira parte.
Tudo começou quando, sem grande pressão, resolveu ganhar um lançamento lateral chutando a bola contra as pernas do adversário. Saiu-lhe mal, como tudo acabaria por lhe sair mal sempre que, defender, que é a sua primeira responsabilidade, era a sua obrigação, acabando por ser manteiga quente para a faca afiada de Zalazar.
Desse primeiro premonitório erro resultaram os primeiros calafrios junto da baliza de Trubin. E a inversão completa do sentido do jogo. Não sei se por terem minado a confiança dos jogadores do Benfica, se por lhes ter sabido a banho de humildade em modo de complexo de inferioridade. Sei é que foram ouro para a auto-estima dos de Braga, e para lhes encher o ego de confiança.
A partir daí o Braga passou a dono e senhor do jogo, a fazer lembrar o que tinha feito ao Porto, no Dragão. Com uma diferença: não conseguia criar oportunidades de golo.
O Benfica demorou a reagir à superioridade do adversário. Tanto que só conseguiu o primeiro remate aos 25 minutos, o primeiro de muitos, e quase todos desastrados, de Rios. Quando, três ou quatro minutos depois, fez o segundo, na resposta de cabeça de Otamendi ao exímio pontapé livre de Sudakov, e abriu o marcador, o Benfica apenas ainda tentava equilibrar as forças em confronto.
Pensou-se então que aquilo a que se chama sorte do jogo tinha caído para o Benfica. E que, a partir daí, era só controlar, coisa que os últimos jogos mostravam que a equipa sabia fazer bem. Durante 10 minutos, e até porque o Braga continuava sem conseguir construir situações de golo, pareceu que assim seria. Só que bastaram cinco minutos, os últimos da primeira parte, para o Benfica voltasse aos erros que oferecem golos.
Primeiro foi Dahl a voltar a falhar, desta vez na disputa da bola nas alturas, chegando atrasado e acabando por levar com a bola no braço. Penálti, que o excelente Zalazar converteu com classe no golo do empate. O golo da reviravolta resultou de um festival de asneira. Começou numa desatenção de Aursnes, lá na direita, a trair a linha de fora de jogo que permitiu, no outro lado, a um jogador do Braga dar sequência a uma bola recuperada. Passou pela enésima banhada de Zalazar a Dahl, comido de cebolada mais uma vez, e acabou com Rios, bem posicionado dentro da área, a interceptar o cruzamento do uruguaio mas, inexplicavelmente, a querer sair a jogar. Escorregou - ou fez-se de escorregado quando viu que já tinha perdido a bola? - e a classe de Pau Víctor fez o resto.
Ninguém poderia dizer que, face ao que cada uma das equipas jogou, o resultado ao intervalo não fosse justo. Mas poderia dizer-se que o Benfica entregara o ouro ao bandido. Que, mesmo que tivesse jogado mais, e melhor, o Braga não tinha criado mais oportunidades de golo.
Na segunda parte tudo mudou. Mourinho não mexeu no onze, manteve até o Barreiro, que nunca se tinha encontrado com o jogo, e o Dahl destroçado às mãos (aos pés) de Zalazar, mas foi outro Benfica. Pegou no jogo, e não o largou mais.
Foi preciso pouco tempo para mexer também no marcador. Bastaram 8 minutos de superioridade clara para Aursnes mostrar a Rios como se faz, com um grande golo, num excelente remate fora da área, descaído sobre a direita. E as oportunidades de golo passaram a suceder-se a um ritmo tão avassalador quanto a exibição do Benfica. De tal forma que, ainda antes de esgotado o primeiro quarto de hora, Vicens lançou mão do truque da lesão do guarda-redes.
Não lhe valeu de muito. Nada quebrava o Benfica da segunda parte. Ao Braga valia o (também excelente) guarda-redes Hornicek, que ia defendendo tudo o que lhe aparecia pela frente. E valeram ... claro, aqueles senhores com que comecei, lá em cima.
João Gonçalves foi sempre habilidoso, na forma do costume, mas só isso. Na primeira oportunidade, aos 73 minutos, anulou o golo limpo de Dahl. Do 2-3, da vitória. No VAR, Tiago Martins chamou-lhe um figo!
O jogo teve mais peripécias, incluindo a expulsão, tardia, já no fim, do Ricardo Horta, o Benfica mais oportunidades para ganhar o jogo, mas é mais este golpe, hoje decisivo no afastamento definitivo do Benfica dos dois primeiros lugares do campeonato, que fica. Depois de direcção do Benfica ter deixado passar em claro mais uma nomeação provocatória, de nada vale o que agora venha dizer.