segunda-feira, 31 de julho de 2017

Cristiano Ronaldo não merecia passar por isto

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Cristiano Ronaldo foi ao Tribunal, na qualidade de investigado, para ser ouvido - diz-se que mais para ser espremido que propriamente ouvido - sobre os crimes fiscais que as autoridades fiscais espanholas lhe tentam imputar.


Percebe-se que a coisa não terá corrido lá muito bem. Sabe-se que terá dito à juíza que só ali estava por se chamar Cristiano Ronaldo, o que, evidentemente, não podia agradar à senhora magistrada. Que não se terá ficado pelo simples e resignado: "olhe que não, olhe que não Sr Cristiano..." Foi certamente por isso, por as coisas não terem corrido muito bem, que deixou pendurados 200 jornalistas de todo mundo, entregando o palanque especialmente montado para o efeito à saída do Tribunal a um personagem meio descomposto que, sem jeito, se limitou a comunicar que o Sr Cristiano estava a caminho de casa.


Esta é a espuma que corre, lado a lado com quadro da moldura penal.


Dentro da complexidade natural destas coisas, acrescida da complexidade que, por razões óbvias, sempre se lhes quer acrescentar, não será muito difícil explicar que Cristiano Ronaldo, sobre os tais rendimentos de direitos de imagem, não pagou impostos entre 2010 e 2013, pagando-os todos em 2014, como rendimentos de capital, através de uma sociedade que o fisco espanhol diz ter sido constituída para o enganar. 


E que, nisto tudo, a única coisa que haverá para discutir é a natureza dos rendimentos: se são de capital, como foi o objecto de liquidação, ou de trabalho. Se o sujeito passivo fosse o atleta, não haveria dúvidas. Sendo uma sociedade, até em função do enquadramento da sua actividade, já as poderá haver. Tudo o resto são factos susceptíveis de prova. É, evidentemente, possível provar se os rendimentos apenas foram "postos à disposição" em 2014, como argumenta a defesa de Cristiano Ronaldo. Ou se, pelo contrário, foram pagos (ou "postos à disposição") ao longo dos anos anteriores. Mais fácil será provar a data de constituição e a actividade declarativa da sociedade que o fisco espanhol diz ter sido constituída para o burlar, e que a defesa garante utilizar desde Manchester, e portanto antes de se ter tornado contribuinte espanhol.


À parte de tudo isto, sobra a certeza que Cristiano Ronaldo não merecia estar a passar por uma situação destas. E a dúvida se terá o melhor retorno dos milhões que certamente paga para estar bem assessorado.


 

As coisas são o que são

Capa do i


 


Ontem à noite, na sua SIC, Marques Mendes anunciou o fim do enamoramento, e decretou o fim da cooperação institucional. Hoje o i dá-lhe capa.


As coisas são o que são. E são como sempre foram... Os mesmos corredores, e as mesmas portas. Sempre abertas, andem por onde andarem.


 


 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sem pingo de vergonha*

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Bem cedo se percebeu que a tragédia iria ser objecto de aproveitamento político. Que o diabo anunciado para o Verão passado estaria para chegar, com um ano de atraso, e agora no seu habitat natural, nas chamas do inferno em que o país se tornou.


Tudo começou, se bem se lembram, com a notícia da queda do avião que não caiu, ainda em pleno combate ao incêndio do Pedrogão Grande. Logo a seguir surgiu a notícia dos suicídios, dada pelo próprio profecta do diabo, a que se sucedeu a inacreditável série de artigos publicados no El Mundo, assinados por um jornalista virtual, o tal Sebastião Pereira, que continua a monte. Sem que ninguém se preocupe muito em encontra-lo.  


Num país onde coubesse um só bocadinho de vergonha, esta sucessão de episódios, inspirados nas fake news, que Trump passou a exportar para todo o mundo, teria ficado por aqui.


Não ficou. Neste país já não há lugar para um pingo de vergonha. Não admira que, por isso, tenha sido um jornal dito de referência, o maior e mais influente semanário do país, a não ter vergonha de usar a primeira página para lançar o boato sobre o número de mortes anunciadas. Vergonha ainda mais indesculpável quando, depois, o corpo do texto não tem nada a ver com o título puxado para manchete.


Muita gente se indignou com a chegada de Trump à presidência da América. Mas nem todos perceberam o que isso poderia vir a significar. Muitos percebemos que Trump era um grande mal para a América, poucos perceberam que seria um mal muito maior para outras partes do mundo. É que, por lá, continua a haver jornalistas capazes de o desmascarar, e de denunciar as suas fake news. Por cá, não!


Não houve – não há – jornalista que escrutine e valide a notícia antes de a dar, como mandam a ética e a deontologia. Uma lista de uma senhora, ao que se diz empresária, e ao que se conhece de currículo pouco respeitável, foi quanto baste para suportar um boato macabro. Ninguém se preocupou em compará-la com o que quer que fosse. Ninguém se interessou sequer em ver que lá havia nomes repetidos…


Não. Era preciso lançar a bola de neve. Um número interminável de abutres, maior que o da lista que apregoavam, estava à espera. E este jornalismo não gosta de os fazer esperar!


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

Do salmão ao cor de rosa

 


Exame


 


Para não falar de fogos, falemos de ricos. A revista Exame apresenta-os ao quarteirão, mas fica-se pelo primeiro. É a lista dos 25 mais ricos, e é uma agitação por esses jornais fora...


"Os mais ricos estão mais ricos" é a notícia.mais repetida. Só que, por definição, não é notícia. É tão natural os ricos estarem mais ricos como o cão morder o homem... 


Talvez por isso o Diário de Notícias tenha entrado por outra porta, e descobriu que as "maiores fortunas do país valem tanto como dívidas dos portugueses ao fisco". Pode até ser o homem a morder o cão. Pode até ser verdade, pode até ser que a soma dessas fortunas coincida com o valor das dívidas ao fisco. Não se percebe é o que é que uma coisa tem a ver com a outra...


Bem se podiam ficar pelas banalidades habituais. Não que façam mais sentido, mas têm a vantagem de já estarmos habituados. E, mesmo sem notícias e com banalidades, bem podiam ter mais um bocadinho de rigor no que escrevem. Escrever no mesmo texto, com o intervalo de meia dúzia de caracteres, que "as 25 maiores fortunas do país cresceram 3,8 mil milhões de euros no espaço de um ano" e que "no total, os milionários do top 25 amealharam ao longo do último ano 18,8 mil milhões de euros", diz bem do que por aí vai.


Havia uma antiga tradição (baseada no respeitado Finantial Times) da cor salmão para os jornais (ou os suplementos) que se dedicavam aos temas da economia. Agora mudaram de cor, e tornaram-se autênticas revistas cor de rosa.


 

terça-feira, 25 de julho de 2017

Ezquizofrenia


 


A ezquizofrenia tomou conta do país, tão avassaladoramente quanto as chamas que o consomem. Há um mês, com a catástrofe do Pedrogão Grande no auge da discussão pública, Mação era o modelo, o mais acabado exemplo de sucesso para enfrentar esta calamidade. De capital dos fogos, Mação passara a capital da prevenção e combate a incêndios.


Um mês depois, Mação arde tão dramaticamente, se não mais ainda, quanto tantas vezes ardeu no passado. Ameaçando povoações, e desalojando ainda mais pessoas.


Nada que preocupe a ezquizofrenia instalada, agora que a grande prioridade nacional foi cumprida, com a publicação da lista dos mortos do Pedrogão, nome por nome. Provavelmente ainda dentro das 24 horas do ultimato do outro...

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O ultimato

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Nunca foi tão forte a sintonia entre a direita em geral, e o PSD em particular, e a comunicação social.


Não. Não é no que respeita a ideologia, é na imbecilidade!


E quanto mais fundo cai o nível da qualidade dos seus dirigentes políticos mais se reforça essa sintonia, que terá certamente o seu ponto mais alto no ultimato desse grande vulto político que acaba de chegar à liderança parlamentar, que se dá pelo nome de Hugo Soares.

Já não há paciência...

Capa do Expresso


 


O Expresso - já é costume -  lançou a confusão. Uma vez lançada meteu-se a caminho, que palmilha a passo acelerado sem saber nem onde nem quando vai parar. 


Os mortos do Pedrogão eram mais, muitos mais que os 64 divulgados, começava o Expresso por adiantar. A direita entrou em êxtase. Passos nem cabia em si, profundamente convencido que é na desgraça que encontra a salvação. O governo escondia a lista oficial dos mortes porque, claro, numa lista é fácil contar.


Com a lista que o governo não quer divulgar, era canja: chegava-se aos 64 nomes e e a lista continuaria por ali baixo, alegre e contente, como se em vez de mortos estivéssemos a consultar uma lista de premiados da Santa Casa.


Então o Expresso tem  acesso à lista e conta, um a um. Dá 64. Não, esperem: dá 64 por causa dos critérios, que excluem as mortes indirectas. Fossem outros os critérios de lá teríamos de certeza muitos mais que os 64. Fossem outros os critérios e teriam contado com aquela mulher atropelada, a fugir do fogo. Fossem outros os critérios e, contando esta mulher, seriam 65. Muito mais que 64!


Acredito que haja quem ache isto interessante. Mas serão certamente (também) muitos mais os que já não têm paciência para isto...

domingo, 23 de julho de 2017

Tour de France (X e último)


 


"Aux Champs Elysées"... Ponto final na 104ª edição do Tour de France. A etapa final foi, como sempre é, de consagração. Tudo estava arrumado - o pódio já era este, mesmo com o terceiro lugar preso por um simples segundo - só faltava a sempre apetecida vitória no último sprint. Coube ao holandês Dylan Groenewegem, um jovem sprinter debutante, que bateu o especialista alemão André Greipel, cliente habitual da meta dos Campos Elíseos. Que este ano, com este segundo lugar como melhor resultado, constituiu uma das desilusões do Tour. Creio não estar enganado ao dizer que este é o primeiro Tour que o alemão acaba em branco.


Para o ano há mais.

sábado, 22 de julho de 2017

Tour de France (IX)

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O Tour acaba amanhã, com a festa nos Campos Elíseos, mas ficou hoje decidido. Mesmo que o último lugar no pódio esteja preso por apenas 1 segundo, na linha da tradição instituída, na etapa de amanhã a única coisa que se discute é a vitória no sprint final, junto ao Arco do Triunfo.


Claro que há bonificações em jogo, e 1 segundo é a mínima fracção de tempo. Mesmo assim, seria um autêntico golpe de teatro se Mikel Landa se conseguisse intrometer na disputa do sprint final, e lograsse ganhar uns segundinhos. Seria mesmo a extrema ironia que Bardet, que se insurgiu contra as bonificações de Uran nas etapas de montanha, quando disputava o primeiro lugar, viesse a perder o seu terceiro lugar na última etapa justamente pelas bonificações.


Tinha aqui dado por garantido que os lugares do pódio já tinham dono. O contra relógio de hoje, com apenas 20,5 quilómetros, apenas servia para dar o seu a seu dono. Foi assim, mas apenas pelo tal segundo. Porque o francês, que, não tendo sido capaz de ganhar, pretendia naturalmente repetir o segundo lugar de há um ano, teve um mau desempenho no contra relógio onde, dos três, era o menos habilitado. Foi claramente ultrapassado por Uran, que fez o oitavo tempo, e quase ultrapassado por Landa, muito longe de ser um especialiista.


A troca de Bardet por Uran no segundo lugar não foi a única entre os dez primeiros. Também no fim da lista houve troca, com Contador - excelente contra relógio, com o sexto melhor registo - a superar o rei dos trepadores, Barguil, que é bem melhor contra as montanhas que contra o relógio.


Froome foi dos melhores, sem surpresa. Foi o terceiro melhor, apenas com mais 6 segundos, e ganha o Tour sem ganhar qualquer etapa. Não é caso único, mas quase. Surpresa foram Tony Martin, pela negativa, que foi apenas quarto, a confirmar que nunca esteve ao seu nível neste Tour. E os dois polacos - no dia nacional da Polónia - nos dois primeiros lugares, separados por um simples segundo, com Maciej Bodnar à frente de Michal Kwiatkowsky que, mesmo sendo 57º da classificação geral, fez um Tour absolutamente fantástico.


Tiago Machado, o único português presente, exclusivamente ocupado no trabalho de equipa - a Katusha, dirigida pelo José Azevedo, que foi absolutamente discreta - ficou-se pela 74ª posição.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Polémicas da semana*

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Enquanto o país real continuava a arder, o país digital foi tomado por duas polémicas daquelas que o rasgam ao meio.


Um conceituado médico, de ineludível referência, numa entrevista a um jornal também de referência, tornou públicas posições sobre a homossexualidade em termos que, se à luz da sua condição de conservador possam ser compreensíveis, serão porventura mais dificilmente aceitáveis à luz da sua condição de médico. A sua condição de médico não constitui qualquer limitação à sua liberdade de manifestar as suas convicções, mas obriga-o ao rigor da argumentação. Apenas aí, ao nível do rigor dos argumentos evocados, será objecto de censura. Só e apenas isso.


Um candidato autárquico, que uma pequena parte do país só conhecia como comentador desportivo, que os lamentáveis programas da especialidade com que as televisões o intoxicam transformam rapidamente em figuras públicas, assumiu posições racistas tendo os ciganos como alvo.


Homossexualidade e racismo não são apenas temas fracturantes que, se para uns dividem direita e esquerda, conservadores e progressistas, para outros, são aspectos básicos e fundamentais da cidadania e da civilização.  


Embora no mesmo quadro de fundo, as duas polémicas que marcaram a semana constituem, no entanto, quadros completamente distintos. No primeiro estamos perante a manifestação de uma opinião pessoal, mesmo que feita de forma infeliz. No segundo, e por muito sério que o problema seja, e é, por muito que deva ser discutido, e deve, estamos no domínio do calculismo político e do recurso ao mais desprezível populismo. Só isso. Só que, aqui, isso é tudo.


 


*Da minha crónica de hoje na Cister FM

Tour de France (VIII)

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Pronto. Os Alpes já ficaram para trás. Na frente, nada de muito novo porque, sendo novo que os três primeiros saiam das altas montanhas finais separados por menos de meio minuto, a verdade é que este ano tem sido sempre assim. Tudo preso por escassos segundos.


Quarto e quinto, respectivamente Mikel Landa e Fabio Aru, estão também separados por apenas 19 segundos mas, com as contas a serem feitas ao segundo, o minuto e picos que os separa do terceiro parece uma barreira intransponível. Daí que os três lugares no pódio já tenham dono!


Estas duas últimas etapas de alta montanha, em grande parte corridas acima dos dois mil metros de altitude, confirmaram o guião da Sky e, praticamente, a quarta vitória de Froome. Mas confirmaram mais. Confirmaram a grande corrida de Barguil - ganhou hoje, e pela segunda vez -, que ganhou a classifcação da montanha com uma autoridade raramente vista. Não teve culpa que o seu antecessor, Raphal Majka, tenha sido mais uma das vítimas das quedas, é mesmo um grande trepador, e terá certamete assegurado um lugar nos dez primeiros.


Confirmaram que Aru nunca poderia ganhar este Tour. Faltou-lhe força e faltou-lhe equipa. A Astana nunca se viu como equipa, como a etapa de hoje mostrou com toda a clareza, sem ninguém para ajudar o líder, e no entanto com corredores a integrar as fugas, e até a atacar a etapa, sem nada para de lá tirar. Confirmaram a decepção Quintana, ontem simplesmente penoso. Confirmaram a fibra de Alberto Contador. Quando já não pode dar mais, luta. Ganhou o prémio da combatividade por duas vezes, e acabará mesmo por segurar a última vaga nos dez primeiros, onde tantas vezes entrou e donde tantas saiu.  


Não faltaram quedas, também nos Alpes. Kittel, o rei dos sprints, com cinco vitórias e a camisola verde garantida, foi a última vítima. Logo nos Alpes, que não eram o seu campo de batalha.


E lá vão os três mosqueteiros decidir tudo no contra-relógio de sábado. Com o colombiano Rigoberto Uran e o francês Romain Bardet, separados por seis segundos, sem grandes condições para superarem o britânico Froome. 

Um exemplo, dizem...

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Nega o caos instalado na Venezuela, apelida de revolução bolivariana um regime corrupto a cair de podre, e chama desenvolvimento à miséria instalada e à falência económica. Não condena o louco e tirano Estado da Coreia do Norte, nem a sua perigosa e irresponsável aventura nuclear. Opõe-se ao voto de pesar pela morte do prémio Nobel da Paz, o dissidente chinês Liu Xiaobo. Coloca-se ao lado das mais reaccionárias posições homofóbicas, desde que ocorram no domínio do território que, por outrora ter sido soviético, continua sagrado. Não reage, é o único que não reage ao populismo, e às posições marcadamente racistas, de um candidato adversário num concelho que é uma das suas principais bandeiras. Opõe-se a que, no projecto de reestruturação florestal, as terras florestais sem dono conhecido sejam incluídas num banco de terras do Estado .


É o Partido Comunista Português. Que os analistas gostam de apresentar como exemplo acabado de imaculada coerência política...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Lei da rolha

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Os bombeiros não vão mais prestar declarações sobre os incêndios. A partir de agora, tudo o que seja comunicação passa a caber exclusivamente à Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Que dirá tudo o que queira que se saiba em dois briefings diários, a partir de Lisboa. 


Não está mal. Mas bom mesmo seria acabar com as declarações dos populares. Isso é que o governo devia fazer, transferindo essas atribuições para o "fórum" da TSF e para o "Opinião Pública" da SIC Notícias. Isso é que era serviço...


 


 


 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Coisas de hoje

 


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Há duas semanas ficamos a conhecer o Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Caixa Geral de Depósitos, um Relatório redondo e risível. Era preliminar, um draft, para ver no que dava. O relatório final é hoje aprovado.


Pelo que já se conhece, o relator, o socialista Carlos Pereira, pensou melhor, teve conhecimento das suspeitas do Ministério Público, e lá concluiu que, afinal, as coisas não eram bem como preliminarmente tinha concluído.


Nem sempre os preliminares correm bem, como se sabe de outras estórias. Não chega, nem de longe, às suspeitas de crimes graves que esperamos estejam a ser investigadas, mas já admite nomeações partidárias, utilização para fins de política orçamental e até alguma "sensibilização" para determinados projectos.


Mas nada que sirva de salvação a estes Relatórios Parlamentares, preliminares ou finais. Nada que os credibilize, nada que os liberte dos despudores de cada maioria circunstancial.


Entretanto o país continua a arder, parece que já não há por cá quem saiba apagar fogos. E as comunicações continuam a falhar porque, descobriu agora o primeiro-ministro, são utilizados cabos aéreos, por cima da floresta densa, onde circulam em paralelo informação urgente e informação corrente, ou comum. Coisa que, evidentemente, desconhecia quando há uma dúzia de anos assinou o contrato. Está mesmo a pedir mais uma CPI ...


 


 


 

domingo, 16 de julho de 2017

Sem tréguas

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Um mês depois de Pedrogão Grande, o país volta a arder com violência. Portugueses voltam a ver as suas casas a arder. E o SIRESP volta a não funcionar.


E com tanto Verão pela frente...

Tour de France 2017 (VII)

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Perdeu a amarela à entrada dos Pirinéus, mas já a tem de volta à entrada para os Alpes. Na despedida dos Pírinéus, ontem, numa etapa praticamente sem montanhas, mesmo que no Maciço Central, Froome reconquistou a liderança. Quando menos seria esperado, até porque as indicações que estava a deixar não eram as melhores.


Seria sempre difícil a Aru, nesta altura da competição, segurar a amarela por muitos dias. Sabia-se que não tinha equipa, e víamo-lo sempre sozinho, sem qualquer protecção. Mas, na etapa de ontem, é que não. E no entanto percebeu-se logo que seria mesmo nessa etapa entre Blagnac e Rodez quando, a 3 quilómetros da meta, se via Aru sozinho (passe o pardaoxo mas, tão acompanhado, a ponto de não poder sair dali, nunca terá estado tão sozinho) no meio de um pelotão compacto a grande velocidade. A dúvida era se estava ali porque se tinha distraído, ou se estava ali porque queria ver-se livre da amarela. A certeza era que, numa etapa com a meta colocada no fim de uma rampa de 300 ou 400 metros, as movimentações do sprint final provocariam cortes. E, no meio do pelotão, com apenas 6 segundos de vantagem sobre Froome, não havia milagres.


É provável que a Astana, sabendo que não poderia defender o seu líder, tenha entendido preferível sacrificar a liderança de Aru. A etapa de hoje, a 15ª, na despedida do Maciço Central e na véspera do último dia de descanso, contribuiu para credibilizar esta hipótese. Viu-se pela primeira vez o que parecia uma equipa à volta de Aru, viu-se uma mancha azul celeste à volta da sua camisola de campeão italiano, mas isso não durou nem metade da etapa. Nem sequer nunca aconteceu na frente do pelotão.


Ao mesmo tempo viu-se uma grande etapa da equipa de Bardet, a AG 2 R La Mondial. E, claro, não era preciso ver mais nada da Sky, mas viu-se como, quando Froome teve uma avaria e de repente perdeu 50 segundos para a concorrência, rapidamente reagiu a trazê-lo de volta.  


A súper desfalcada Astana não tem mesmo condições para defender uma liderança. Por isso, nesta altura, a amarela não lhe interessa. Nem ao próprio Aru. A quem interessa manter este estado de coisas, a apenas 18 segundos de Froome, numa tabela com seis ciclistas separados por um minuto e 17 segundos.


Quintana e Contador lá continuam como elásticos. Há apenas dois dias parecia que o colombiano tinha reentrado na corrida. Hoje veio por aí abaixo e só parou no 11º lugar, já fora dos dez melhores. Onde se mantém Contador. Por enquanto.


 

sábado, 15 de julho de 2017

A limpeza final

Capa do O JogoCapa do Jornal de Notícias


 


A notícia faz capa em dois jornais do Porto, afectos ao FCP, e o destaque que "O Jogo" lhe dá é natural.


Uma década depois, o Conselho de Justiça (CJ) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) ilibou Pinto da Costa no processo que a investigação judicial deu a conhecer por "Apito Dourado" e que a Justiça desportiva, diria agora que premonitoriamente, chamou "Apito Final".


Na altura, vai para 10 anos, a Justiça desportiva, então na Liga de Futebol Profissional, condenara Pinto da Costa com uma multa de 10 mil euros e com dois anos de suspensão. Punira o FCP com a perda de seis pontos nessa época temporada, que não tinha qualquer efeito na classificação,  e com a multa de 150 mil euros.  E suspendera o árbitro Augusto Duarte por seis anos, por corrupção na forma consumada.


Agora, 10 anos depois, com a Liga presidida por Pedro Proença, a Justiça desportiva, já na Federação presidida por uma das personagens envolvidas no fornecimento de deusas (ouvir aqui), anula todas as condenações. Como se obrigada aos mesmos constrangimentos técnico-formais, recorreu ao mesmíssimo argumento da ilegalidade das escutas telefónicas que a Justiça usou para arquivar o processo, e declara que o Apito Dourado acabou. Nem chegou a existir...


Está cumprida a primeira parte da missão de Fernando Gomes na FPF. As restantes já não são difíceis de adivinhar...


E quem julgava que as encenações dos e-mails se destinavam apenas ao assalto que aí vem, ficou a perceber que não. Que, conforme bem se percebia, tinham como primeiro objectivo preparar a limpeza final do apito dourado.


Apagam tudo. Tudo menos aquilo que sabemos que fizeram. As gravações estão aí e não se apagam!


 


 


 


 


 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Tour de France 2017 (VI)

Warren Barguil vence 13.ª etapa


 


Correu-se hoje a 13ª etapa, a segunda dos Pirinéus, e a mais curta de todas, com apenas 101 quilómetros, entre Saint-Girons e Foix. Pequena mas, como não podia deixar de ser, grande em história. Desde logo por ser corrida no dia nacional da França, o 14 de Julho, da tomada da Bastilha.


Neste dia, mais do que em qualquer outro, os franceses querem ganhar. Fazem sempre tudo por isso, mas nem sempre isso é suficiente. Desta vez foi, mesmo que Alberto Contador, como que ressuscitado, se tenha também feito passar por francês.


Havia grande curiosidade para saber como decorreria a corrida, pela primeira vez liberta da ditadura de Froome que a Sky impõe, em dia de liberté, fraternité et egalité. Desde cedo se percebeu que a estratégia da equipa britânica não era a mesma. Que não se iria colar à cabeça do pelotão, impor o ritmo e dominar os acontecimentos.


Fez diferente e, em vez disso, deixou fugir quem quis - com limites, evidentemente - mas quis sempre boleia. Quando Contador foi embora, teve de levar o compatriota Mikel Landa - o mesmo de ontem - que não o largou mais. Depois foi a vez de partirem Barguil e Quintana. E lá tiveram que levar com Kwiatowsky, outro que ontem fizera grande trabalho. Depois, com a percepção que os dois grupos acabariam por se fundir, o polaco descolou do segundo grupo para esperar por Froome, e acompanhá-lo até ao final da etapa.


Com esta estratégia a Sky protegeu-se, sem desproteger Froome, provavelmente a atravessar dificuldades. E permitiu ao espanhol subir uns lugares e chegar-se também lá acima, não vá alguma coisa acontecer com o britânico. Porque nem Aru, e nem sequer Uran, têm equipa para o que quer que seja. E Bardet, de equipa, também não está muito melhor...


No fim, Barguil, que pontuou fortemente na montanha e reforçou a liderança na camisola das bolinhas, cumpriu a sua missão patriótica  de ganhar a etapa, batendo Contador ao sprint que, por milímetros, acabaria ainda superado por Quintana. Parece maldição!


Com os quase dois minutos ganhos aos cinco primeiros, Quintana pode ter relançado a sua corrida. Contador regressou ao top 10 e "voltou a contar". Para isso, não para mais. E Mikel Landa subiu ao quinto lugar, a pouco mais de 1 minuto, passando Daniel Martin, que desceu para sexto. Os primeiros seis classificados cabem num minuto e meio (1´32´´, mais precisamente). E só é preciso mais meio minuto para lá caberem oito.


Temos Tour!


 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Palhaços (pobres)*

 


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Faz hoje uma semana, dava aqui conta da preocupação que atravessava o país com o roubo das armas em Tancos. Com o roubo em si mesmo, e com tudo o que o envolvia – "uma questão de soberania". E de dignidade, concluía então.


Volto aí: ao roubo de Tancos e à dignidade. Porque, regressado de férias, o primeiro-ministro juntou as máximas chefias militares e pô-las a dizer que, afinal, não se passara nada. O material roubado tinha o inexpressivo valor de 34 mil euros e estava inoperacional. Não prestava, era sucata.


Concluía por isso o primeiro-ministro que o roubo de Tancos não punha minimamente em causa a segurança nacional.


Era isto que realmente lhe interessava fazer passar.


Não é por acaso que a parte “suja” ficou a cargo das chefias militares, desvalorizando ridiculamente aquilo que antes tinham – e bem – valorizado. O que tinha sido o vexame, a desonra e a vergonha, não passava agora de uma coisa sem importância nenhuma. Um simples "murro no estômago", só para não dar a ideia que nem sequer doera nada. O ridículo, praticamente a sugerir que a coisa tinha acabado até por ser um bom negócio, que se se tivesse de pagar a desmontagem e remoção daquela sucata os custos teriam sido bem maiores, rebentou nas mãos do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. O “sentido de Estado” ficou para o primeiro-ministro, ancorado na “sagrada” palavra do comando das forças armadas.


Não se percebe como pode ficar sagrada uma palavra que acabou de ser ridicularizada, mas essa é a arte da política, de que António Costa é o mais exímio dos praticantes.


A dignidade e a vergonha serão sempre os palhaços pobres no circo da política.  


 


*Da minha crónica de hoje na Cister FM

Américo Amorim (1934-2017)

 


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Era conhecido por ser o homem mais rico do país. Mais do que mais ou menos rico, nas volatilidades da Forbs, Américo Amorim foi um grande empresário português. E foi, com Belmiro de Azevedo, o rosto do capitalismo português do pós 25 de Abril e, nessa medida, o obreiro de um novo país virado a norte.


Tão importante como saber investir é saber desinvestir. É saber sair, é perceber exactamente qual é o momento de saltar do negócio. E nisso Américo Amorim era insuperável: foi um dos maiores investidores imobiliários, mas soube sair antes que a crise o pudesses sequer chamuscar; foi banqueiro, mas saiu sempre antes de tudo e de qualquer coisa. 


No princípio era a cortiça... Daí nunca precisou de sair. Aí era o maior do mundo!

Tour de France 2017 (V)

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O Tour entrou hoje nos Pirinéus, na 12ª etapa que ligou Pau - a clássica porta de entrada - a Peyragudes, também uma chegada clássica, em 215 quilómetros de da alta montanha.


Foi uma grande etapa, de verdadeiro espectáculo. O que não impediu que, durante grande parte dela, se pudesse ter instalado no espectador interessado a ideia que este Tour estava a ser demasiado estereotipado. Nas etapas planas, as equipas dos sprinters permitem toda a animação mas, chegados aos últimos quilómetros, tomam a frente do pelotão, anulam as fugas, lançam os seus ciclistas mais rápidos e, no fim, ganha o alemão Kittel. Invariavelmente. Já ganhou cinco etapas. Nas de montanha, é a Sky que permite que todos se divirtam, até certo ponto. A partir daí vai para a frente e puxa do seu manancial de recursos para endurecer a corrida e deixar quase toda a gente para trás, levando Froome fresquinho até aos últimos metros.


A etapa de hoje era mais uma dessas. E tudo estava a acontecer como se de um guião se tratasse. Primeiro foi Quintana a perder o contacto. Depois foi Contador, a maior vítima de quedas - que hoje voltaram a afastar mais um concorrente de peso, desta vez Fuglsang - ainda  em prova que, depois de por duas vezes ter dado um ar da sua graça, a descolar. Lá na frente todos pareciam dever reverência a Mr Froome. Quando um pequeno incidente o fez sair de estrada toda a gente esperou por ele. Toda a gente porque Aru estava tão fixado nele que o acompanhou no precalço.


Regressaram juntos, sem qualquer dificuldade. Froome ainda dispunha do apoio de dois colegas de equipa, ninguém o atacava, e o que se esperava era que fosse ele a saltar para a vitória na etapa, ganhando mais alguns segundos aos mais directos adversários. Mas desta vez o guião falhou: naqueles últimos metros daquela subida terrível para a meta, Aru atacou e Froome ficou nas covas. Rigoberto Uran e Bardet - finalmente um francês a revelar condições de discutir o Tour - responderam. Mikel Landa ficou ali sem saber se devia ficar com Froome ou discutir a etapa, e acabou por não fazer nem uma coisa nem outra. Ficou em quarto lugar, atrás de Aru, que desta vez passou de terceiro na etapa para primeiro na geral. Bardet ganhou, com dois segundos de vantagem. 


E de repente o Tour é outro. Nunca Froome tinha perdido a camisola amarela. E com o resto dos Pirinéus pela frente Aru tem 6 segundos de vantagem para o anterior líder, 25 para Bardet e 55 para Uran. 


Quintana, a pagar a factura da sua participação no Giro, e que ainda passou Contador, é oitavo a mais de 4 minutos. Contador... já não conta. Nem para os dez primeiros! 


 


 


 

Choques

Capa do i


 


A notícia da condenação de Lula da Silva a mais de nove anos de prisão não deixou toda a gente surpreendida. Mas deixou muita a gente chocada.


Confesso que admitia que me tinha ido habituando à ideia. Mas não. O choque não me deixou dúvidas, ainda esperava secretamente que nada daquilo fosse bem assim. Não é por nada, é que eu tive a oportunidade de ver, "com estes dois que a terra há-de comer", o que Lula mudou o Brasil. E não tolero o "rouba, mas faz"... 


Se calhar é por também ter ficado chocado que o jornal i fez esta capa. Se há coisa em que o i se tem distinguido é pelas suas primeiras páginas. Esta é má de mais. Choca também, mas pelo mau gosto!


 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O estado da nação

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O Ministério Público acusou todos os 18 polícias da esquadra da PSP de Alfragide de racismo, tortura e sequestro. O que se vai sabendo do comportamento dos ditos agentes é de arrepiar. 


Claro que serão inocentes até prova em contrário. É bom nunca esquecer que a presunção da inocência é um vector fundamental, mais que do Estado de Direito, do Estado Civilizado. O  Sindicato dos Profissionais de Polícia, e em particular o seu presidente, António Ramos, é que não ajudam nada. Mesmo nada!


É este o estado da nação. Escondê-lo, também não adianta nada!


 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Acabaram-se as dúvidas

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Depois de duas semanas de pânico e horror, depois de, por todos os meios e das mais variadas formas, presidente, governo e forças armadas terem assumido o enxovalho, eis que, num golpe de magia, o roubo de Tancos não tem importância nenhuma. Afinal aquilo não valia nada, uns míseros 34 mil euros, nada mais. Nem servia para o que quer que fosse, era tudo simples sucata. Que alguém fez o favor de remover...


Se dúvidas houvesse, acabaram-se: António Costa não pode ir de férias!


 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

As coisas têm nome

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O Ministério Público suspeita de crime de gestão danosa na Caixa Geral de Depósitos. Não há grande novidade disso, na verdade há muito que todos suspeitamos disso: quando um banco empresta dinheiro para comprar acções, bastando-lhe como garantia as próprias acções que financia, não está apenas a pôr-se a jeito... E quando, depois das coisas terem corrido mal, se esconde que correram mal, não está apenas a esconder. Está-se também a enganar...


Estranho - ou talvez não - é que um Tribunal suspeite de tão grave crime onde a Comissão Parlamentar de Inquérito, há apenas uma semana, não encontrou nada de especial. Mesmo salvaguardando que pudesse ter havido...


 


 


 

O Sol e a vantagem indevida

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No dia em que se sabe que três (ex)-secretários de Estado foram constituídos arguidos por terem viajado à conta da Galp para o Europeu de França, há um ano, é de lembrar que foi público que também três deputados do PSD por lá andaram à conta da Olivedesportos. Sem vantagem indevida, ao que parece!


Um deles era - e ainda é - líder parlamentar. Outro apresta-se para o substituir. 


 Ao contrário do Sol, a vantagem indevida, quando nasce, não é para todos!

Na passadeira vermelha do Delito

Hoje pisamos, com muito gosto, a passadeira vermelha do Delito de Opinião. Levamos "Paradoxos" debaixo do braço. Vale a pena passar por lá.


De qualquer forma aqui fica:


 


Paradoxos


 



A comunicação é provavelmente o maior instrumento de relação ao serviço das sociedades. Sempre foi assim, mesmo quando, por dificuldades de circulação, por falta de acessos e de veículos, e até por excessos de policiamento do tráfego, disso se não dava conta.


Hoje a comunicação circula a uma velocidade estonteante, em auto-estradas de quarta geração, sem limites de faixas nem de velocidade. Sem constrangimentos de qualquer espécie - nem polícias, nem semáforos, nem rotundas, nem filas - em veículos de alta cilindrada. Toda a gente dá por ela, toda a gente percebe a sua importância.


Paradoxalmente, quando tem condições como nunca teve para se exponenciar como instrumento de relação, e mecanismo de aprofundamento da vida em sociedade, revela-se, como nunca, uma arma estratégica de destruição massiva. Literalmente. Uma poderosa arma de guerra de que ninguém abdica, em nome de coisa nenhuma.


As estratégias de comunicação sobrepõem-se a tudo e a todas as outras. Tanto mais quanto mais insondáveis forem os objetivos que se destinem a servir. Tanto mais quanto maior for a ambição de manipular, condicionar e enganar…


É assim, em especial, na política e no futebol, mas também em muitas outas áreas da sociedade. Não importa o que se faz, importa o que se diz. Os factos já não contam, contam – e cantam-se – os factos alternativos. O virtual toma conta e sobrepõe-se ao real. A substância é oca e a verdade esvazia-se na opulência da pós-verdade. Mais que reescrever a História, reescreve-se o próprio conhecimento.


É o tempo das fake news, dos Abrantes e dos Sebastiões. Dos directores de comunicação como peças centrais nas estruturas organizacionais. O tempo de cavar trincheiras à volta de dogmas, de levantar muros à volta de crenças. De semear ódios, de acentuar clivagens e de explorar o que mais primário há em cada ser humano.


Não era isto que seria suposto a comunicação servir. Não deveria ser para isto que deveriam ser utilizadas as auto-estradas que temos à mão, cheias de gente vazia de ética e auto-desobrigada dos mínimos deontológicos. Mas os dias de hoje também não são muito mais do que isso: uma sucessão de paradoxos.



 

Viagens caras

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Um ano depois - passa hoje um ano sobre a fantástica vitória da selecção nacional de futebol em Paris, com que se sagrou campeã europeia - demitiram-se os três secretários de Estado, e ainda o assessor económico do primeiro-ministro que, a convite da GALP, patrocinador oficial da selecção nacional, tinham ido assistir a um dos jogos da selecção no Europeu de França.


Quando veio a público que aqueles três membros do governo tinham obtido vantagem indevida - como agora é criminalmente tipificado - ninguém deu muita importância ao caso, tido por prática habitual. O governo, achando aquilo de alguma forma censurável, criou um código de conduta para evitar que algo de semelhante se repetisse. Os visados, simbolicamente ou de facto, reembolsaram o patrocinador das despesas dessas viagens, e o caso foi dado por encerrado.


Só que o assunto não morreu. O Ministério Público avançou com um inquérito, e terá chegado a hora de chamar à pedra os três secretários de Estado e o assessor. À beira de serem constituídos arguidos - por iniciativa própria ou não, para o caso pouco importa - não lhes restava alternativa: teriam mesmo de se antecipar e pedir a demissão.


Muito caras saíram estas viagens a António Costa. No pior momento, perde três dos mais próximos e notáveis secretários de Estado: Rocha Andrade, com excelente desempenho nos Assuntos Fiscais, João Vasconcelos, um homem cá da terra e da indústria 4.0, grande dinamizador das causas da inovação e do empreendedorismo, e Jorge Costa Oliveira, com grande trabalho na internacionalização da economia e, em especial, no estabelecimento de sinergias com os gestores portugueses espalhados pelo mundo.


Poderá sempre acusar-se a Justiça por excesso de zelo nas pequenas coisas quando, por incapacidade ou desleixo, deixa passar os elefantes da corrupção, Pode. Mas não se pode é esquecer que não é possível combater a corrupção deixando passar incólumes as más práticas enraizadas na sociedade portuguesa. Que, não configurando - nem de perto nem de longe - actos criminosos de corrupção, abrem-lhe muitas vezes o caminho!


 

domingo, 9 de julho de 2017

Tour de France 2017 (IV)

Rigoberto Urán


 


O Tour chegou ao final da sua primeira semana. Como a duas restantes - Giro e Vuelta, e aqui "restantes" é mesmo o termo exacto, porque  o Tour é um caso à parte - grandes competições do cilismo mundial, é uma prova de três semanas. A primeira é normalmente para roladores, com as diferenças a serem feitas por incidentes da corrida: um dia de ventos laterais que levam a cortes, as quedas - sempre as quedas - ou, quando é o caso, e não o foi neste ano, o famoso pavée. A segunda e a terceira são semanas de alta montanha, com os Pirinéus e os Alpes, sem que a ordem seja fixa. Desta vez surgem primeiro os Alpes, mas com direito a regresso, na terceira semana, depois dos Pirinéus.


Apareceram ontem, depois de um primeiro cheirinho a montanha na quinta etapa, na chegada a Statíon des Rousses, onde o  francês Lilian Calmejane venceu, depois de uma grande fuga e de um final dramático, conseguindo resistir às câimbras.


Hoje correu-se a mais dura etapa dos Alpes. E provavelmente a mais decisiva do Tour porque, para além das dificuldades que integrava, ficou marcada por várias quedas que obrigaram ao abandono, entre outros, de Garaint Thomas, segundo classificado e primeiro "maillot jaune" e de Richie Port, provavelmente o maior adversário de Froome.


Quedas à parte, e no mero plano competitivo, a etapa deixou Contador irreversivelmente fora dos primeiros lugares, Quintana porventura fora da disputa da vitória e Aru fora das graças do público. Atacou quando Froome "anunciou" uma avaria, o que é sempre feio. E não ganhou nada com isso, mesmo que tenha chegado ao segundo lugar da geral.


A etapa foi de Barguil, que ganhou montanhas, umas atrás das outras, conquistou com naturalidade a camisola das bolinhas vermelhas, e pensou que ganhou a etapa. Não ganhou, porque o vídeo mostrou que foi o colombiano Rigoberto Uran a ganhar, por escassos milímetros, como Kittel, há dois dias atrás. E de Froome, que mostrou a habitual autoridade, deixando todos os adversários em sentido.


Só um acidente lhe retirará o seu quarto Tour.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Uma questão de soberania*

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O furto – como mandam as tecnicidades dizer – de Tancos pôs nu um rei que já calculávamos que andasse mesmo nu.


Por trás de umas missões aqui e ali, e de uns gritos de “presente” nas paradas da Nato, escondiam-se umas forças armadas despidas de verdadeira capacidade de acção. Tancos, sede de uma das mais míticas tropas de intervenção das nossas forças armadas, foi o biombo que caiu e deixou tudo à mostra. E mostrou, mais que um rei nu, um rei ridículo.


Um buraco numa rede por tapar. Câmaras de vídeo-vigilância obsoletas e há anos avariadas. Patrulhamento aos paióis desprotegidos feito de vez em quando e – é difícil acreditar mas é o que se diz - feito por patrulhas desarmadas, sem balas nas armas. Nem uma única bala, nem uma atada a um cordel para puxar depois de disparada, como na guerra de 1908 do saudoso Raúl Solnado. Apesar de tudo isso, de todas essas fragilidades, a suspeita de que só com envolvimento de alguém de dentro teria sido possível um roubo desta dimensão com tal limpeza. Onde até uma revolução se fez sem tiros, poderá admitir-se que até um assalto destes se possa fazer sem um tiro. Mas não abona ninguém. E menos ainda numa semana em que um conjunto de militares da força aérea, entre os quais altas patentes, foram presos por corrupção, nos velhos e gastos esquemas de abastecimento das messes


Mas, se em vez de uma perigosíssima mistura explosiva, tudo isto fosse apenas um bolo, lá estaria a cereja, bem no topo: as instalações dos militares que têm por missão defender o país são, elas próprias, defendidas por empresas privadas de segurança.


Meus senhores, não brinquem com isto. É a soberania do país que está em causa. E um mínimo de dignidade!


 


* Da minha crónica de hoje na Cister FM


 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

De mãos dadas

Capa do Correio da ManhãCapa do RecordCapa do A Bola


 


É sempre bonito ver os jornais de mãos dadas.


 


 


 

Tour de France 2017 (III)

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Ao quinto dia chegou a montanha, mesmo que ainda não tenha vindo para ficar. O que não impede que a amarela tenha chegado ao seu destino natural: isso mesmo, à primeira montanha voou direitinha para o tronco de Froome, como seria suposto.


Lá no alto, na estância de ski com o sugestivo nome de Planche des Belles Filles, o italiano Fabio Aru impôs-se à concorrência e ganhou a etapa, com 16 segundos de vantagem sobre o irlandês Daniel Martin e vinte sobre Froome que, mesmo terceiro, não só chegou à liderança como ganhou mais uns segundos aos crónicos mais directos adversários, incluindo aqui Quintana e Contador.  


Se Froome foi de terceiro na etapa para pimerio na geral, Fábio Aru fez ao contrário: de primeiro na etapa para terceiro na geral. E disse que também conta para as contas do Tour!

Pode haver melhor. Mais redondo não há de certeza!

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Das Comissões Parlamentares de Inquérito espera-se tudo. Ou seja: nada. Dos seus relatórios espera-se sempre ainda mais. Do relatório preliminar da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos não se poderia esperar melhor conclusão: não ficou demonstrado pressões dos diferentes governos para a concessão de crédito, o que não quer dizer que não as tenha havido.


Pode haver melhor. Mais redondo não há de certeza! 


Mas, atenção: é preliminar. Na versão final já será tudo mais a sério... E consequente.


 

terça-feira, 4 de julho de 2017

Tour de France 2017 (II)

 


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O quarto dia do Tour, o primeiro integralmente corrido em solo francês, volta a ser dia de más notícias. Más notícias - mais dois nomes grandes que ficam pelo caminho - pelas piores razões: Sagan por um comportamento inaceitável e impróprio de um campeão, e Cavendish com uma clavícula fracturada.


Peter Sagan, o eslovaco bicampeão de  mundo e um dos nomes maiors do Tour, tinha ganho na véspera, numa etapa que terminava à sua medida, num sprint depois de um a ligeira subida. Esta chegada à estância termal de Vittel era diferente, mais dirigida aos mais puros dos sprinters. Boa  parte deles tinha ficado fora do momento de decisão, numa queda na última curva - que atingiu também o camisola amarela, Geraint Thomas - e Sagan já só praticamente teria que se haver com Mark Cavendish, ainda o maior dos maiores sprinters do Tour. 


Propositadamente ou não - nunca se saberá - resolveu a coisa com uma cotovelada que mandou o britânico contra a vedação e daí para o hospital. Ficaria em segundo - ganhou o francês Arnaud Demare - mas por pouco tempo. Foi desclassificado e expulso.


Mais um dia mau para o Tour...

Medina Carreira (1931-2017)

 


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Morreu Medina Carreira, que um dia reclamou um hora de televisão para mudar o país. Deram-lhe centenas, e não se deu por nada...


Sei que não é isto que se diz, quando as pessoas morrem. E também sei que nestas alturas se recordam outras coisas, mas eu recordo esta que, ainda noutras paragens, escrevi vai para uma década


Que descanse em paz!


 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Pensamento do dia

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Podemos encomendar estudos de popularidade, e os resultados até podem ser bons. O que não podemos é ir de férias logo a seguir...

domingo, 2 de julho de 2017

E no fim...

 


 


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Tudo normal na Taça das Confederações. A Alemanha ganhou, o Chile - do bravo guarda-redes que é o guarda-redes Bravo, que ensombrou os jogadores portugueses - ficou em segundo e Portugal, ressuscitado por um penalti depois de morto nos penaltis, em terceiro. Na geografia do futebol, um pódio natural: campeão do mundo, campeão sul-americano e campeão da Europa.


Mesmo que o campeão do mundo se tivesse feito representar pela equipa B, a trazer de volta à actualidade a mais famosa exressão de Gary Lineker:"são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha". Que está de novo a ganhar tudo o que há para ganhar. Até o Europeu de sub 21, que ganhou à armada invencível de Espanha que, por sua vez, tinha vencido a invencível (seis anos sem perder, que não renderam qualquer título) selecção portuguesa.


Na Rússia, a selecção nacional, provavelmente a principal favorita, andou sempre pelo meio da ponte, sem saber bem se deveria prosseguir, e atravessá-la, se voltar para trás. Sem nunca saber muito bem se deveria puxar dos galões de campeão da Europa, e assumir-se como uma equipa dominadora, capaz de mandar no jogo, se como equipa retraída, manietada pelo primado do equilíbrio defensivo que faz a imagem de marca de Fernando Santos. 


Fica sempre a ideia que os jogadores dão para muito mais do que aquilo que a selecção dá. Nunca foi exuberante, nunca apresentou um futebol capaz de nos entusiasmar. Mas também nunca foi inferior a qualquer adversário, nem mesmo, à excepção do caricato na marcação das grandes penalidades, na meia-final com o Chile.


"São onze contra o onze, e no fim ganha a Alemanha". Mas também se pode dizer que "são onze contra o onze" e, no fim, Portugal não perde... A diferença entre ganhar e não perder é que é muito grande...


 


 


 


 

sábado, 1 de julho de 2017

Tour de France 2017 (I)

 


 


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Aí está a maior competição mundial do ciclismo. O 104º Tour de France deu hoje as primeira pedaladas, em Dusselforf, na Alemanha, com o prólogo, um contra relógio de 14 quilómetros. 


Um tanto ou quanto surpreendentemente - o favorito, o alemão Tony Martin, foi apenas quarto classificado -  ganho pelo britânico Geraint Thomas, da também britânica Sky, que classificou quatro ciclistas no top ten, entre os quais Chris Froome, de novo o principal candidato à vitória final, em sexto, e já com ganhos significativos para os principais concorrentes.


Apesar da novidade no primeiro maillot jaune, a principal nota deste prólogo marcado pela chuva, sempre um dos maiores adversários dos ciclistas, é uma péssima notícia para a competição: o espanhol Alejandro Valverde, uma das grandes figuras do ciclismo mundial e sempre um dos maiores animadores da prova, encontrou a meta no hospital, vítima da chuva e de uma queda com tanto de aparatosa quanto de grave.


Dificilmente, no plano desportivo, o Tour poderia começar pior. Esperemos que se recomponha mas, sem Valverde, já não é a mesma coisa. Para nós, portugueses, sem Rui Costa - presença habitual e galharda dos últimos anos - também não!


Como é habitual, e já um clássico, o Quinta Emenda irá dando notícias do que se for passando ao longo das próximas três semanas, neste que é um dos maiores acontecimentos desportivos do mundo.

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...