sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Futebolês #57 FIM D´ANO

Por Eduardo Louro


 



O ano está a chegar ao fim! Está por um fio…


O futebol tem um calendário diferente. O ano chama-se época e o calendário não tem dias, semanas e meses: tem a sequência ordenada dos jogos, distribuída por duas voltas que quase dividem o ano ao meio. Quase, porque a primeira volta, por cá, acaba já por Janeiro dentro. Vai de Agosto a Janeiro. Não tem grande importância mas sempre atribui um título: o de campeão de Inverno!


A segunda volta prolonga-se até Maio, fechando-se a época com a final da Taça. É assim em praticamente toda a Europa: a excepção é a Rússia, pouco dada aos usos e costumes ocidentais.


Depois vêm as férias. E a agitação do defeso – um paradoxo, o defeso que supõe acalmia, interregno e pausa para limpar armas, é afinal um tempo de grande intensidade – das contratações que irão alimentar todas as aspirações da nova época. Das falhadas e das concretizadas!


De dois em dois anos Junho é mês de selecções, em campeonatos ora da Europa ora do Mundo. Julho é mês da preparação e de afinação física, técnica e táctica da equipa. E em Agosto há o reveillon: o início do novo ano, a nova época que arranca com a Supertaça, a tal que este ano tramou o Benfica.


É assim há muito tempo! Dá a ideia que o calendário civil terá sentido alguma inveja disto e, por isso, arranjou forma de encontrar alguma da graça da passagem do ano do futebol. Da passagem da época!


Arranjaram-se umas férias para o Natal, coisa a que apenas os ingleses, que nisto do futebol são os alemães da economia, souberam resistir. E introduziu-se-lhe o melhor da festa. Que não é o fogo de artifício, são mesmo as contratações. A abertura do mercado de Inverno reproduzia nesta altura do ano o maior factor de agitação do defeso de Junho e Julho.


É evidentemente um segundo mercado: uma réplica do original mas nem por isso coisa despicienda. Os jornais que o digam: chamam-lhe um figo!


E como o que vende é o Benfica … está tudo dito. Se em Junho e Julho todos os dias entram e saem dezenas de jogadores, em Dezembro e Janeiro a coisa não lhe fica muito atrás. Já perdi a conta aos jogadores que estão a caminho do Benfica, aos que estão mesmo prontos a assinar, vindos de todos os cantos do mundo. Uns mais cantos que outros: a Argentina é que é agora o canto – o canto dos cantos!


A maior estrela desta telenovela - vem não vem, por 10, por 11 ou por 12 milhões -, é um tal de Funes Mori. Argentino e craque, como não podia deixar de ser! Pela minha parte já nem aguento tanto suspense


No sentido inverso há o David Luiz. Dantes era o Luisão, mas esse já passou de moda. In mesmo é o rapaz dos caracóis: ora sai por 20 milhões ora não sai e fica à espera do Verão e de um mercado mais aquecido. E o Fábio Coentrão: é o Real Madrid, é o Manchester United, é o Barcelona…


Mas há ainda a outra parte da festa. É como que a outra face da moeda das férias de Natal: o regresso dos jogadores. Compreende-se: por lá é tempo de Verão, sol, praia, bikinis …e regressar a este frio e a esta chuva não é a melhor coisa do mundo. Daí que haja sempre uma outra telenovela. Brasileira, claro! Bom este ano até é mais paraguaia: o actor principal foi o Cardoso. Do Benfica, pois então!


Já regressou mas é como se lá estivesse. Por culpa da gripe A, que afinal anda por aí…


E agora deixem-me confessar-vos um feito: neste último Futebolês do ano consegui a proeza de não utilizar uma única palavra em futebolês. Mas, como isso vai contra os Estatutos, a época faz esse papel. De acordo?


E pronto. Apresso-me a desejar a todos um Bom Ano. Bem sei que é um desejo muito difícil de concretizar, mas se o fizer já – e daí me ter apressado – antes que passe a meia-noite, sei que pelo menos ainda não paga imposto!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O BPN

Por Eduardo Louro


   


É estranho. Muito estranho! De um momento para o outro o quarto poder resolveu que o BPN existe.


Explico melhor: o BPN está definitivamente instalado na campanha eleitoral. Não é o que possam estar a pensar: isso foi na campanha de há cinco anos atrás, nas últimas presidenciais! Nessa altura é que estava a financiar a campanha de um dos candidatos. Do que ganhou!


Esclarecido que não é por estar a financiar a campanha de ninguém – afinal enquanto lá não pusermos mais os tais 500 milhões não há dinheiro nem para mandar cantar um cego (que me perdoem os invisuais e os mais puristas, mas é uma expressão corrente do tempo em que as sensibilidades não eram tão susceptíveis ao politicamente correcto) – resta dizer que é por, finalmente, ter sido aceite como matéria de campanha.


Nem mais! O poder mediático, que tinha classificado a matéria como campanha suja, inaceitável e intolerável num estado de direito democrático, afinal já entende que é matéria definitivamente instalada na campanha eleitoral. E mais: quando há poucos dias era a honorabilidade do presidente candidato que estava a ser atacada por terroristas, agora já é matéria incómoda para o mesmo presidente candidato.


Mas então a que se deve tão surpreendente reviravolta?


É simples: é que agora foi o candidato Manuel Alegre – como não poderia deixar de ser mas, mesmo assim, com muito pouco jeito, como que também a medo – a introduzir a questão no debate de ontem. A diferença é só esta: outro qualquer candidato, daqueles que só existem para atrapalhar, não pode falar do caso BPN. Manuel Alegre, um candidato com cheiro a poder, já pode. É assim que funciona o quarto poder!


Pronto, agora que já se pode falar do BPN, por muito que incomode o presidente candidato – coisa que evidentemente incomoda tanto o poder mediático instituído – já posso dizer que acho muito estranho que Cavaco Silva remeta a explicação do famoso e super lucrativo negócio das acções da SLN (sociedade detentora do BPN) para as suas declarações de IRS. E que acho muito estranho que nenhum jornalista até hoje ache isso estranho: que nem um único se atreva a dizer-lhe que a declaração de IRS não explica nada disso, que apenas explica que pagou os impostos sobre o rendimento anormal do negócio. Mas que também acho estranho que Cavaco Silva seja tão crítico com a actual gestão do BPN – dando até o exemplo dos bancos ingleses, numa desajeitada e inaceitável tentativa de misturar alhos com bugalhos, o conhecido gesto de atirar areia para os olhos – e não tenha uma única palavra para a gestão criminosa do passado.


Acho estranho e deplorável. É que não é apenas por parecer que protege os seus compagnons de route agora trazidos à condição de prováveis criminosos. É que permitiu ao governo sair em socorro da gestão da CGD no BPN, esquecendo a responsabilidade pela desastrosa decisão da nacionalização. Que nem um euro custaria aos contribuintes, lembram-se?


 


 


PS: Já depois da publicação deste post a administração da CGD emitiu um comunicado obedecendo a uma ordem dada publicamente pelo governo (bem ouvi, esta tarde, Pedro Silva Pereira dar a ordem, em defesa da honra).


Nem o governo mandou, nem a administração da CGD entendeu necessário, emitir qualquer comunicado a explicar por que não se consegue vender o BPN. Nem a explicar por que é que pedem agora mais 500 milhões, quando a irregularidade de capital é de uma ordem 5 ou 6 vezes maior. Nem quando e como é que este pesadelo vai acabar!


É por isto que eu acho que Cavaco Silva foi um mau presidente, é um mau candidato e voltará a ser, infelizmente, um mau presidente. Porque, sucessivamente, não resolve coisa nenhuma e promove este tipo de coisas!


 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Que país é este?

Por Eduardo Louro


   


Os preparativos para o novo ano estão em ritmo acelerado. É normal, já só faltam dois dias…


A nova taxa de IVA está prontinha… o novo Código Contributivo já espreita por trás da cortina... os cortes de salários estão mais que preparados! Os aumentos de portagens, transportes, água, electricidade, telefones e sei lá mais o quê … estão aí! Já ao virar de sábado para domingo!


Faltavam as novas taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde. Porque já só faltam dois dias o governo acabou de publicar as respectivas portarias: uma vergonha, conforme nos conta o Rui Rocha no Delito de Opinião!


Pois bem, enquanto isso o big brother da SIBS – não sei se já tinham percebido que o cartão multibanco é uma espécie de câmara oculta que, mesmo sem nos mandar sorrir, nos expõe por completo borrifando-se para a nossa intimidade – diz que neste Natal se gastaram mais não sei quantos milhões. Os stands de automóveis estão em rotura de stocks, as agências de viagens não têm mãos a medir para pôr esta malta a passar o ano por esse mundo fora – com os mais exóticos destinos já esgotados –, o Algarve está cheio (de portugueses, porque os outros pensam em poupar uns cêntimos) para a passagem de ano e até os saldos são um êxito que espanta os próprios relações públicas das grandes marcas.


Quem é que pode entender este país?


Assim já se entende que Sócrates possa fazer tudo o que faz e continuar a ter lata para se dizer o grande defensor do estado social. E vamos percebendo que ele possa, rapidamente e com a maior desfaçatez, despir o fato de coveiro (do estado social) para vestir o camuflado de tropa de elite que defende o estado esquizofrénico do país.


Um fraco rei faz fraca a forte gente: dizia-nos Camões! Há muito que não somos forte gente, tantos têm sido os fracos reis, mas … caramba! Se isto não é esquizofrenia o que será?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Que cenário!

Por Eduardo Louro


   


A actual situação política, económica e social do país faz convergir os portugueses na responsabilização da classe política. Na descredibilização dos partidos e do próprio sistema político. Hoje os portugueses não têm dúvidas em apontar os partidos, e em particular os partidos do sistema ou do arco do poder, como os grandes culpados da situação a que o país chegou.


Os sucessivos escândalos que envolvem a classe política – desde a óbvia corrupção, confirmada ou apenas suspeita, à cadeia de favorecimentos à volta do poder, passando pela incompetência nas decisões – mais não fazem que agravar a perspectiva que os portugueses têm dos políticos.


Isto é, nós portugueses não só responsabilizamos a classe política clássica, do governo à oposição, pelo buraco em que o país está metido como, dada a conta em que os temos, ainda lhes não reconhecemos qualquer capacidade para nos tirarem desse buraco.


E, no entanto, pelo que vamos vendo pelas sondagens, tudo indica que o comportamento dos portugueses, na hora de fazer uso do mais decisivo instrumento que a democracia lhes disponibiliza, se dispõem a entregar o seu voto como se nada disso fosse verdade. Parece que, ao contrário do que se passou há pouco mais de um ano, penalizam um pouco mais o governo, é certo. E premeiam o principal partido da oposição, contrariando o discurso generalizado, como se o nosso sistema político mais não seja mais que um circuito de vasos comunicantes. Fazem como precisamente sempre fizeram até aqui!


Entretanto, e perante o tsunami de sacrifícios exigidos sempre aos mesmos, lado a lado com os milhões que se enterram no BPN, ou com a antecipação dos milhares de milhões de dividendos para fugir aos impostos do próximo ano, alguns tentam dar umas alfinetadas. Tentam espevitar uma imensa mole humana meia anestesiada, que acusam de mansos e incapazes de vencer a inércia para se mexerem e protestar. Dar um safanão em tudo isto. Gritar bem alto e esbracejar para que eles vejam que existimos e que somos capazes de muito mais do que simplesmente aguentar com a carga que nos põem em cima.


É neste quadro que decorre a campanha para as próximas eleições presidenciais, supostamente um período de intenso debate.


E o que vemos?


Vemos a comunicação social a levar ao colo o actual Presidente da República e candidato maior do regime. Vemos os media a estabelecer as balizas do discurso da campanha exactamente à medida dos poderes presidenciais: se alguém toca num qualquer problema é logo acusado de ignorante ou mesmo de demagogo, porque bem sabe que aquilo não cabe nos poderes do presidente. Como se ao eleitorado não interesse saber o que pensa um candidato dos problemas do país. Como se as decisões do presidente, dentro da sua esfera de poderes, se não enquadrem num pensamento político, em opções ideológicas ou simplesmente em valores.


Vemos que o caso BPN, mesmo que plenamente justificado pela actualidade – início do julgamento, insucesso da operação de venda, insucesso da gestão após nacionalização, mais 500 milhões para as aflições (apenas para mais uma aflição, porque não cobre sequer um terço do valor negativo dos capitais próprios, portanto não resolve problema nenhum) – não pode ser trazido a debate. Que é jogo sujo, populismo, demagogia … É até tiro no pé!


E vemos o único candidato vindo de fora do sistema, aquele que parecia ter todas as condições (um assinalável capital de prestígio e um total descomprometimento com o sistema) para protagonizar uma candidatura de rotura e de esperança numa nova forma de fazer política e de, em última instância, fazer implodir o edifício velho e caduco que alberga este sistema político podre, doente e viciado tornar-se, num ápice, parecido com os outros. Com os mesmos tiques, praticamente o mesmo discurso, os mesmos truques…


Vemos uma esperança transformar-se numa desilusão. E a comunicação social a falar de falta de experiência política sempre à luz de um padrão que segue um guião amarrotado, bafiento e falido!

O Exemplo

Por Eduardo Louro


   


Rui Tavares é deputado no Parlamento Europeu. Foi eleito pelo Bloco de Esquerda nas últimas eleições, em Junho de 2009: precisamente o terceiro e último a ser eleito, num ambiente de suspense, surpresa e, finalmente, festa!


Pouco depois de chegar a Estrasburgo, no final do seu primeiro ano de mandato, soube-se da sua intenção de oferecer parte do seu salário de deputado europeu – um salário suficientemente generoso que, em tempo de constituição das listas para essas eleições, transforma as sedes partidárias em verdadeiros sacos de gatos assanhados – para bolsas de estudo. Não sei – nem me interessa – se essa decisão teve alguma coisa a ver com o cenário de suspense daquela noite eleitoral, ou mesmo com a surpresa desse êxito eleitoral decorrente de uma eleição à partida tida como muito pouco provável. Sei é que ainda há pessoas que têm da vida uma visão diferente daquela que faz carreira.


Soubemos agora, e apenas seis meses depois, em plena semana de Natal que, prescindindo de um quarto do seu salário, financiou quatro projectos de investigação de outros tantos jovens concidadãos. Ficamos a saber que o Rui Tavares, licenciado em História da Arte e a terminar um doutoramento em Paris (sobre a censura no tempo de Marquês de Pombal) é um político que cumpre o que promete – o que, como sabemos, devendo ser a coisa mais natural é a mais extraordinária do mundo. E que cumpre a partir do seu próprio bolso, o que é ainda mais extraordinário! Mas mais: ao que parece não pretende tirar dividendos políticos disso!


Simplesmente – ao que diz – ajuda porque quer, porque pode e porque acha que é seu dever. Diz que não quer outra leitura para além dessa. E que não está fazer nada que não lhe tenham já feito, ele próprio bolseiro da Fundação da Ciência e Tecnologia e licenciado na qualidade de ex-bolseiro da Universidade Nova!


Mas ficamos a saber mais: ficamos a saber que a ideia lançou amarras. Que outros políticos lhe seguiram as pisadas? Não! Evidentemente que não! Mas que três elementos dos Gato Fedorento se lhe associaram permitindo duplicar o valor das bolsas!


Tudo isto sem parangonas. E, sem que queira dar o exemplo, seja de facto o exemplo! Nem que seja apenas o exemplo de que “eles” não “são todos iguais”. Ou que não “querem todos o mesmo”

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Futebolês #56 NATAL

Por Eduardo Louro


 


 



No futebol também há Natal. Já o inverso não é verdadeiro: No Natal (não) há futebol!


Em Portugal, ao contrário de Inglaterra, onde o dia de Natal – o chamado boxing day – assume a expressão máxima do futebol como espectáculo de família, o futebol mete mesmo férias. Logo que começa a cheirar a filhós ou a bolo-rei é vê-los a partir… Para o Brasil, para a Argentina, já é para todos os destinos da América do Sul. Nos aeroportos a azáfama é grande! Maior só mesmo no regresso, quando aos regressados se juntam mais uns quantos que, pela chamada janela de Inverno, vêm alimentar sonhos de uns e matar os de outros!


As férias tornam-se sempre num marco. Sejam elas quais forem há sempre um antes e um depois de férias. É assim na actividade escolar, é assim na actividade económica e, claro, é assim no futebol. Por isso o Natal é mesmo um marco mais importante do que o final da primeira volta, que acontece umas semanas depois. De resto, e estando cumprida a 14ª jornada da I Liga, portanto a uma desse marco que assinala exactamente o meio da prova, não se compreende muito bem que não tenha sido feito um esforço para acertar os dois calendários. Se não se faz esse esforço é mesmo para não retira ao Natal o papel principal. São os treinadores que não chegam ao Natal… São os campeões encontrados no Natal… E ninguém fala no treinador que não chega ao fim da primeira volta. Nem do campeão da primeira volta!


Este ano os treinadores resistiram bem ao Natal. Mas tudo tem uma explicação.


No Sporting, apesar da crise crónica, o Paulo Sérgio lá se foi aguentando. Dificilmente poderia ser de outra forma: já tinham pago ao Guimarães para o trazer; voltar a pagar para o mandar passar o Natal a casa era despesa a mais. Mas não foi por isso que deixaram de assinalar esta quadra: se no ano passado fora assinalada com a chegada de um novo treinador (o hoje comentador televisivo Carlos Carvalhal) este ano, na impossibilidade de repetir a cena, chega um director geral. É tudo em grande. Não fazem a coisa por menos: um director geral – José Peyroteu Couceiro – para cima de um director desportivo!


Não há Natal sem Jesus. E sem Jesus não há salvação, quem o diz é Pinto da Costa. Por isso no Benfica o treinador teria sempre de chegar ao Natal, por muito que as coisas estivessem complicadas. Como estiveram… Quem não chegou ao Natal foi a águia, a Vitória. Que é bem pior que perder um treinador, mesmo que se chame Jesus. Treinador é fácil de substituir, há logo mais de 100 a apertar o nó da gravata e a esticar o pescoço. É rei morto rei posto! Águias é que não há por aí à mão…E aqui que ninguém nos ouve, com a qualidade do futebol apresentado este ano, a melhor parte do espectáculo era mesmo, em grande parte das vezes, o voo da Vitória. Raramente televisionado, o que constituía fortíssimo atractivo à presença na Luz!


O treinador do Porto é normalmente menos vulnerável ao Natal. Quando o é é-o logo em dose dupla. Ou tripla! Para o Porto Natal joga mais com campeão. É mais dado a isso de campeão no Natal!


No FCP é assim: ou é ou não é, não há cá meias tintas. As coisas são tão bem feitas que produzem resultados imediatos. Nem sequer a curto prazo, é logo: tiro e queda! Veja-se bem: esta época à 4ª jornada já estava tudo arrumado. Nove pontos de avanço permitiram-lhe gerir as outras dez jornadas nas calmas – um penalti aqui outro acolá – e chegar ao Natal com oito. Bem dizia o Pinto da Costa que no ano passado se distraíram…


Bom Natal para todos!


 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Debates presidencias: Não há pachorra!

Por Eduardo Louro


   


 Confesso que assisti a poucos debates entre os candidatos às presidenciais. Nunca me senti decididamente motivado para isso. Nem suficientemente entusiasmado ao ponto de alterar o que quer que fosse das minhas rotinas para não perder pitada.


Parece-me que não estarei sozinho. Pelo menos estou acompanhado pelo novo candidato José Pinto Coelho: chegou hoje – precisamente um mês antes das eleições, o que mostra que nunca é tarde para apresentar uma candidatura – e diz que não perde nada por ter chegado atrasado aos debates: porque ninguém lhes liga nenhuma. Os próprios comentadores televisivos também lhes apontam falta de audiências e são unânimes a reconhecer que estão a passar ao lado dos portugueses.


Mas tenho-os acompanhado. À distância, mas sem os perder de vista: dou uma espreitadela aos debates (debates sobre os debates, mas é assim mesmo), leio o que se escreve e, claro, não perco o campeonato dos debates – quem ganha e quem perde! Um campeonato, pelo menos o que passa na televisão, também viciado, onde os árbitros são tudo menos imparciais.


Para não fugir à regra também não vi o de hoje: entre Cavaco Silva e Defensor de Moura. Mas vi o pós-debate, aquela coisa que parece copiada do futebol, do flash interview!


E, nesse flash interview, vi um Cavaco Silva extraordinariamente nervoso, a dizer coisas com pouco sentido. Percebi logo que alguma coisa tinha corrido mal. Ou talvez não, afinal o presidente candidato tem dito coisas com pouco sentido. Com pouco sentido entre si e com pouco a ver com a realidade: com o que fez, com o que não fez e com o que diz. Por exemplo, ainda hoje se soube que afinal o candidato que diz que nem vai ter outdoors para poupar nos gastos da campanha é o que, com grande diferença para o segundo (Manuel Alegre), mais dinheiro gasta.


Mas o que é poderia ter enervado tanto um Cavaco com sondagens cada vez mais favoráveis e nitidamente trazido ao colo pelos media?


Ah! Afinal foi o Defensor de Moura – que se candidatou para se pôr em bicos de pés (Cavaco dixit) – que se pôs a falar do BPN: dos amigos e das acções. Pois! Foi isso que enervou o candidato – que não é político, recorde-se – que qualquer um só consegue igualar em honestidade depois de nascer duas vezes!


É por essas e por outras que não tenho dúvidas em afirmar que, apesar de só hoje chegar a terreiro, e lá bem longe, no meio do Atlântico, o madeirense José Pinto Coelho foi o único candidato a dizer alguma coisa de jeito. Começou por dizer que, depois de 48 anos de fascismo salazarista e de 35 de fascismo jardinista, era tempo de os madeirenses terem direito à democracia. E depois comparou-se ao Andorinhas de Cristiano Ronaldo. Sabe que vai defrontar os grandes e perder por 10 ou 20 a zero, mas vai enfrentá-los. Assim é que é!


 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Aurélio Márcio (1919-2010): o fim de uma geração!

 


Por Eduardo Louro 


 


   


 


 


Partiu o último de uma geração ímpar no jornalismo português, do jornalismo desportivo e de A Bola: Aurélio Mário deixou-nos, aos 91 anos!


 


Com Vítor Santos, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Alfredo Farinha e Homero Serpa constituiu a geração que se seguiu aos fundadores de A Bola. A geração que deu asas à criação de Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Afonso de Melo e que lhe acrescentou a qualidade que fez de A Bola uma referência prestigiada da História do jornalismo nacional.


 


Uma geração de jornalistas que soube, como poucos, cuidar da pátria de Pessoa. Com quem também uma geração de portugueses aprendeu a ler e a escrever. E a gostar de futebol... E tantas outras coisas!


 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Futebolês #55 RECEPÇÃO ORIENTADA

Por Eduardo Louro


 



Diz-se que a essência da técnica no futebol se encontra no passe e na recepção. Quer dizer, aquelas fintas mirabolantes e aqueles toques malabaristas, que tantas vezes tanto impressionam, são meros acessórios. Secundários, como tudo o que é acessório! O que verdadeiramente conta, o que faz realmente a diferença, é a precisão no passe. O passe para o sítio certo: nem mais, nem menos. Mas também o passe de rotura ou, como agora se gosta de dizer, fracturante: que rompa com a estrutura do adversário, que surpreenda e que desequilibre.


O passe longo, a romper e a desequilibrar, só rompe e só desequilibra se for bem feito. Se houver precisão! Porque, se não houver, é apenas uma maneira simples de perder a bola, pouco se distinguindo de um qualquer charuto. Que, em futebolês, nada tem a ver com o puro, o habano, que faz as minhas delícias, mas apenas com uma das maiores agressões de que a bola é vítima quando, em aflição, o jogador apenas a quer despachar, livrar-se dela sem qualquer sentido e para bem longe!


Depois do passe vem a recepção. Compreende-se bem: de nada vale um passe brilhante se, depois, quando a bola atinge o destinatário, este não lhe der a devida sequência. E a sequência imediata é, evidentemente, a recepção. É preciso saber receber bem a bola, e bem sabemos que receber bem é uma arte!


Mas para jogar futebol não basta a técnica. Não basta ser tecnicamente dotado para ser competente. É necessária, como em tudo, inteligência.


É verdade! Quem diria? O jogador de futebol tem que ser inteligente… Há inteligência de passe, evidentemente! Há inteligência na deslocação, no movimento para ir receber o passe. Na desmarcação, como se diz em futebolês! E há inteligência na recepção, que mais não é que definir a melhor sequência a dar à bola: um novo passe, um drible ou um remate.


É isto a recepção orientada: receber a bola sabendo já o que vai fazer com ela e, dessa forma, orientar todo o movimento para o passo seguinte.


É aqui que encontro um dos maiores encantos do jogo. Porque, sendo o futebol um jogo de dinâmica colectiva, saber antecipadamente o que fazer da bola implica saber o que vai fazer o colega que em cada momento a tem em seu poder. E o que vai fazer o outro, o próximo.


É pensamento estratégico no seu melhor. Que requer muita competência, a melhor combinação de trabalho e inteligência.


Perdoem-me a insistência, mas é isto que encontramos no actual Barcelona: não só a mais fantástica máquina de produzir um futebol fantástico, mas também uma das mais fabulosas marcas da actualidade, gerida com grande competência.


Estive lá no passado fim-de-semana, precisamente quando ficamos a saber que os exóticos organizadores do Mundial de 2022 irão pagar 170 milhões de euros para ocupar aquele espaço das camisolas que um dia, numa das mais inteligentes decisões estratégicas, foi entregue gratuitamente à Unicef. E assisti a um espectáculo bem diferente daqueles a que estou habituado a ver por cá. E não me refiro – claro – ao espectáculo de futebol propriamente dito: esse não é passível de qualquer tipo de comparação. Refiro-me a um estádio cheio que nem um ovo. Sem claques! Com muitas mulheres e crianças: um espelho de uma nova realidade de famílias mono parentais. Com muitas mães a vibrar com os seus filhos com os espectáculos de Camp Nou. Refiro-me a um ambiente único onde mais de cem mil se limitam a aplaudir os artistas: como na ópera. Ou no ténis! Não há gritos, nem berros, nem protestos. Apenas palmas que passam para o relvado a premiar cada lance, entrecortadas de quando em vez por um espaçado e uníssono Baaaaarça!   


E, no fim, aquela multidão feliz e deleitada inunda toda uma comunidade disposta a partir para uma nova semana de trabalho com a confiança e o optimismo de quem vive nos píncaros da auto-estima. Que chuta para bem longe a depressão colectiva que as nuvens carregadas da crise teimam em arrastar!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Táctica e carácter

Por Eduardo Louro


   


 


O Presidente Cavaco Silva voltou a promulgar uma lei vergonhosa – a lei do financiamento partidário – que, curiosamente e num momento como o actual, é o esplendor do regime no seu pior: esta partidocracia que federa os interesses asfixiantes do centrão, justamente o maior responsável pelo estado do país.


Choca-me que o Presidente tenha promulgado, ao contrário do que obviamente devia, uma lei inaceitável e inoportuna. Talvez não lhe tenham sido apresentadas muitas outras, tão inoportunas e tão inaceitáveis, em que o dever de veto fosse tão óbvio, e onde o país pudesse perceber para que serve de facto o Presidente. Mas o que eu não consigo mesmo perceber, nem sequer aceitar, é que, mais uma vez, ele venha dizer que promulgou mas não concorda.


Já assim fizera com a chamada lei do casamento gay. Tacticismo puro, disse-se então. A tão portuguesa esperteza de matar dois coelhos com uma paulada: não afrontaria o loby gay e a esquerda em geral e, expressando o dito sentimento da sua consciência, passaria a mão pelo pêlo ao seu eleitorado natural.


Discordo em absoluto desta tese. Para mim não mata dois coelhos nenhuns: deixa-os fugir a ambos! Por mim não permitiria sequer que a mão se aproximasse do meu pêlo. Para mim isso é uma grande falta de respeito pelo eleitorado. Para além de evidente traição, Cavaco menospreza o seu eleitorado, passando-lhe um autêntico atestado de menoridade. Porque a mensagem é esta: o voto deles está seguro. “Faça eu o que fizer eles lá estão, sempre caninamente fiéis”!


Agora voltou a fazê-lo. Só que desta vez no tabuleiro colocou outras peças. São outros interesses! Mas a mesma estratégia: promulga e não afronta os seus interesses e os dos partidos em que se apoia (sim, apoia-se também no PS e, no fim de contas, quem é que o PS no fundo apoia?), mas diz que discorda para que, mesmo na pele do mais antigo de todos os políticos no poder – está na actividade política há mais de 30 anos –, possa continuar a dizer que não é político profissional e, com toda a candura, que está acima dos partidos. Para o eleitorado não concorda com a lei. Para as máquinas partidárias concorda, aplaude e promulga. Que é afinal o que realmente conta!


Podem achar que não, mas eu acho que há aqui um problema qualquer. E antigo… E é de carácter! Que joga com outro, também bem antigo: a curtíssima memória dos portugueses!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Futebolês #54 CIRCULAÇÃO

Por Eduardo Louro


 



A circulação, em futebolês, nada tem a ver com ruas, estradas ou auto-estradas. Ou com peões, motas e carros. Ou com engarrafamentos. Refere-se à bola e à forma como ela evolui no tapete verde ao sabor dos movimentos dos jogadores.


Fazer circulação quer apenas dizer que uma equipa consegue fazer passar bola sucessivamente pelos seus jogadores. Aos adversários apenas é dada a cheirar!


Nesse sentido tem alguma coisa a ver com posse, outra das expressões do futebolês.


Uma equipa que privilegie a posse, como se diz, faz circulação. Quer dizer: desenvolve o seu processo de construção a partir de uma filosofia de posse e circulação, ao contrário de uma equipa que assente o seu jogo no passe longo ou no contra ataque a partir de transições rápidas (100% futebolês)!


Evidentemente que o actual expoente máximo da circulação de bola é o Barcelona, seguido pelo Arsenal. Fazem as delícias do espectador e, atrevo-me a dizê-lo, da própria bola. Que se delicia com a forma como é tratada por gente daquela categoria: Messi, Xavi, Iniesta, Nasri, Fabregas ou Van Persie são de um cavalheirismo ímpar no tratamento da bola. Fazem-na feliz!


Não faz circulação quem quer. Fá-la quem tiver, na quantidade necessária, jogadores de enormíssima qualidade para o fazer. Como são, entre outros, aqueles três primeiros – todos às ordens do mestre Pepe Guardiola – que esgotam a short list de onde sairá o melhor do mundo a anunciar daqui a poucas semanas, no início do ano.


Como também se consegue perceber, dispor de um conjunto de jogadores de altíssima categoria, sendo condição necessária não é, no entanto, suficiente: falta o mentor da filosofia de jogo, o treinador. Se não pertencer à escola que faz da circulação uma ideia de jogo, não conseguirá construir uma equipa capaz de fazer da posse e da circulação da bola um espectáculo ímpar como é um jogo de futebol. De ataque e de golos!


Essa é a escola que, com pequenas variantes, encontramos em Barcelona e em Londres e que se exibem para o mundo a partir do Nou Camp e do Emirates Stadium, sob as batutas de Guardiola e de Wenger! E que há 40 anos nasceu em Amsterdão!


Que a selecção espanhola, campeã da Europa e do Mundo, importou da Catalunha. Como a holandesa de há trinta e muitos anos, a laranja mecânica do então futebol total de Rinus Michels, importou do Ajax de Amsterdão.


Em Portugal a circulação parece que não é a mesma coisa. Não encontramos exemplos desta nobre dimensão do jogo, apesar de ainda recentemente a nossa selecção ter engasgado a circulação espanhola, como que a lembrar os engulhos da introdução de portagens nas SCUT. Mas isso foi uma ocorrência. Apesar de saborosa uma mera ocorrência!


Por cá a circulação tem mais a ver com jornais do que com a bola -se calhar não é por acaso que a circulação, no caso a circulação paga, seja utilizada na avaliação de desempenho comercial dos jornais – tem a ver a forma como se põem a circular notícias com objectivos de uma precisão cirúrgica!


Que o Benfica vai mal todos sabemos. O tema tem sido aqui frequentemente abordado ao longo desta época, desde Agosto.


O que se calhar nem todos sabemos é das notícias postas a circular com o objectivo, único e preciso, de aprofundar esse estado depressivo. De carregar bem para baixo!


Agora são as contratações de Janeiro. Nomes e mais nomes, todos os dias!


Com que objectivo? Com dois: destabilizar a equipa e desmobilizar os adeptos, com os inevitáveis falhanços!


A última destas notícias então é fantástica: dava conta que Kleber, jogador do Marítimo por empréstimo do Atlético Mineiro, chegaria ao Benfica já em Janeiro. Toda a gente sabe que a transferência deste jogador para o FC Porto é assunto arrumado desde o Verão passado. Que só não se concretizou na altura por falta do acordo com o Marítimo, circunstância que levou o jogador, em retaliação, a adiar sucessivamente o seu regresso ao Funchal.


A circulação desta notícia, cuja origem é bem fácil de identificar – difícil mesmo é perceber a facilidade com que lhe foi dada cobertura –, conseguia juntar um terceiro àqueles dois objectivos: exaltar mais uma banhada do FC Porto nesta guerra das contratações.


Que raio de circulação!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Apetites

Por Eduardo Louro


   


 


Sem que o esteja anunciado anuncia-se para o primeiro trimestre do novo ano um novo jornal. Ano novo, jornal novo: um semanário! Promovido, ao que se diz, pelo famoso Rui Pedro Soares, dirigido por Emídio Rangel e pronto a fazer cumprir um velho desígnio do PS, tantas vezes perseguido, outras tantas atingido e outras tantas ainda falido.


Mas assim é que é: quem quer controlar jornais ou fá-los ou compra-os! O Rui Pedro Soares, para não falhar este desígnio, aposta nos dois tabuleiros: quer comprar o SOL, ao que se diz em troca da indemnização que reclama, mas, prevenindo qualquer eventual insucesso nesta pretensão, avança no plano B e vai fazer o seu próprio jornal!


Não tenho dúvidas sobre o sucesso do projecto. Por uma lado um eminente gestor – o boy Rui Pedro – e, por outro, um senhor comunicação que lançou a TSF e a SIC e recuperou a RTP! Uma dupla perfeita e … de sucesso!


Ao primeiro, capacidade empresarial não falta. Como se viu na PT, onde foi o verdadeiro mentor da ambiciosa estratégia de desenvolvimento empresarial a partir da decisiva aposta na indústria de conteúdos de que a TVI era, obviamente (e apenas!!!) o principal pilar. Nem sequer capacidade de gestão, como se viu no Tagus Park. Nem capacidade financeira, depois do curto mas intenso processo de acumulação de capital que a sua passagem pela administração da PT lhe proporcionou – ao que se diz 1,533 milhões em salários em 2009 acrescidos de 1,8 milhões de indemnização pelo abandono prematuro do Conselho de Administração.


Ao segundo, a Emídio Rangel, não lhe falta perfil. Ao profundo conhecimento operacional acumulado em jornais, rádio e televisão, juntou as recentes aptidões de comentador e defensor oficial da situação. É o dois em um do projecto!


Só há um pormenor, um pequeno problema. Não, não é o facto do negócio de jornais ser um quase ilimitado sorvedouro de recursos, porque dinheiro, para estas coisas, nunca será problema: ninguém liga nenhuma ao Eric Cantona. É o mercado! Ou será que, também para estas coisas, nunca haverá crise? Que haverá sempre os mesmos do costume dispostos a assegurar muitas páginas de publicidade?


Afinal os negócios não estão parados. E há apetites insaciáveis!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Coisas esquisitas

Por Eduardo Louro


   


 


 Segundo o Diário Económico de hoje o primeiro-ministro José Sócrates admite reforma das leis laborais. Entrando na notícia fica a saber-se que “o primeiro-ministro promete revelar em breve pormenores sobre a reforma do mercado de trabalho, uma das recomendações de Bruxelas”.


Ainda há bem poucos dias Sócrates jurava a pés juntos que não havia nada a mexer neste domínio. Que a reforma da legislação laboral já havia sido feita!


Estamos, evidentemente, habituadíssimos a que este primeiro-ministro diga uma coisa e, logo a seguir, o seu contrário. O que por aí não faltam é vídeos e recortes de jornais a ilustrar este mimetismo camaleónico da personagem!


Não é portanto esse o ponto: já não vale a pena bater mais no ceguinho!


É outro… Ou outros! É que não somos nós a decidir o que quer que seja, é que perdemos completamente a soberania. Perdemos a vergonha, perdemos a cara e, claro, perdemos a coluna vertebral.


A Europa – esta actual União Europeia (UE) – é que decide o que temos ou não temos de fazer. E depois comunica-nos as decisões de uma maneira verdadeiramente extraordinária: quando decidiu que a Irlanda teria recorrer ao fundo europeu FMI(zado), e à sua receita associada, diz-nos que a Irlanda decidiu pedir ajuda! Quando chama a Bruxelas o nosso ministro das finanças para lhe dar ordens diz que o governo lhes apresentou um sério programa de reformas. Quando decide, com critérios e bases técnicas insondáveis – ninguém consegue perceber qualquer relação causa/efeito entre esta crise, seja ela nacional, internacional ou lá o que quiserem, e a legislação laboral –, que Portugal tem que liberalizar o despedimento individual (é só isso que, como é evidente, está em causa) faz uma mera recomendação.


E quando recusamos aumentar o salário mínimo em 25 euros mensais – para uns míseros 500 euros –, à revelia de tudo o que há muito estava acordado entre os parceiros sociais e da sua própria vontade, sim mesmo contra a vontade das entidades patronais, e à revelia do mais elementar bom senso, fazemo-lo com medo, sim com medo, da reacção da UE.


Claro que, chegados onde chegamos, todos percebemos que há facturas a pagar. Percebemos que não é em vão que se fazem tantas asneiras como temos feito, ou como temos permitido que fizessem. Percebemos, caídos no desgoverno em que caímos, que temos inevitavelmente de perder soberania. Muitos, nas actuais condições, até o desejam: creio que, entre os portugueses, nunca terão sido tantos os federalistas.


Mas o que não percebemos é que essa perda de soberania seja apenas isso. Sem nada em troca e apenas, mais uma vez e como sempre, um mero exercício de humilhação!


Tão esquisito quanto as coisas esquisitas que de lá vêm…

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Inclusão

Por Eduardo Louro


   


 


 A Câmara Municipal, o Governo Civil e o Instituto Politécnico, todos de Leiria, aproveitaram a passada sexta-feira, dia 3 – Dia Internacional da Pessoa com Deficiência – para realizar a I Gala da Inclusão: uma iniciativa a todos os títulos meritória para, a partir de Leiria, sensibilizar a sociedade para a inclusão de pessoas portadoras de deficiência mas igualmente portadoras de múltiplas capacidades e virtudes. E, acima de tudo, credoras de respeito e dos mais variados factores de dignidade.


Foi bonito ver sair de Leiria um exemplo destes, virado para a realidade global da inclusão que, como tudo, começa nas crianças, e passa pelas acessibilidades, e pela educação. E pela formação! Mas que passa por muito mais: passa por nós, passa pela nossa própria sensibilização e pelo combate ao preconceito!


Foi bonito saber que em Leiria, no Instituto Politécnico, há quem se preocupe seriamente com estas coisas. Que há um Centro de Recursos de Inclusão Digital (CRID) que produz um fantástico trabalho em prole da inclusão. E que lançou uma campanha – “mil sorrisos, mil brinquedos” – através da qual uma enorme quantidade de brinquedos convencionais foi convenientemente adaptada à utilização por crianças portadoras de deficiência.


Foi bonito de ver a distribuição destes brinquedos por diferentes delegações de todo o país da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.


Foi bonito saber que já há em Portugal empresas e organizações que dizem não ao preconceito e que promovem de facto a inclusão, cruzando muitas vezes empreendedorismo e pioneirismo.


E foi bonito de ver, como não podia deixar de ser, o espectáculo transmitido em áudio descrição e interpretado em linguagem gestual. Fiquei a perceber que é possível cantar em linguagem gestual, o que é absolutamente extraordinário. Que nem a surdez impede que se apreciem a música e as canções do David Fonseca!


 


PS: Para que conste, os galardões foram atribuídos ao grupo Impresa (comunicação), à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, UTAD (Curso de Engenharia de Reabilitação), grupo Auchan (boas práticas), World Bike Tour (desporto), ZON Lusomundo (acessibilidades) e Alunos da Escola Superior de Tecnologia e Gestão – ESTG do IPL (mérito regional, pela campanha “mil sorrisos, mil brinquedos”).

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Futebolês #53 MANDAR

Por Eduardo Louro


 


 



No futebolês, o verbo mandar tem grande paralelo com o verbo queimar, aqui trazido há duas semanas. Também é de uso e abuso!


Poderíamos ser tentados a pensar que o verbo mandar tivesse passado de moda: não se manda, tomam-se decisões. Decide-se colegialmente, nada se impõe! E implementa-se, não se manda fazer! Lidera-se, pura e simplesmente…


Mas isso é nas novas teorias das organizações e na modernice dos novos processos de liderança. Ou simplesmente no domínio do todo-poderoso politicamente correcto! No futebol, apesar do seu contributo para as teorias de gestão, e em particular das comportamentais, com gurus de dimensão mundial – com Mourinho à frente de todos –, ainda se manda! E de que maneira!


Manda-se no jogo. Bom, dir-se-á que quem manda no jogo é o árbitro. E de certa forma assim é! Mas isto traz-me à memória aqueles azulejos que se viam nas lojas de artesanato ou de artigos regionais – pelo menos na minha região. Diziam assim (hoje já não seria politicamente correcto): “Cá em casa manda ela … e nela mando eu”!


Pois, no jogo manda o árbitro. Mas, depois, há quem mande nele! Tem havido…quem, assim, tenha mandado no jogo!


Mas mandar no jogo não é sequer isso. Não é nesse sentido. Mandar no jogo, assumir uma atitude mandona, tem a ver com isso mesmo. Com a atitude com que e equipa entra no jogo, impondo-se claramente ao adversário. Impondo a lei do mais forte e subjugando o mais fraco. Pode até deixá-lo respirar, não o sufocar. Mas subjugá-lo claramente! Assim como o Barcelona fez ao Real Madrid no início desta semana!


Isto de mandar no jogo tem que se lhe diga. Diz-se em futebolês que um joga o que o outro deixa. Transfere-se assim para o domínio da relatividade o desequilíbrio no confronto de duas equipas num jogo de futebol: pegando no exemplo anterior, o Barcelona jogou muito porque o Real, jogando pouco, o deixou; ou, ao invés, que o Real jogou pouco porque o Barça, jogando muito, não o deixou jogar mais.


Transportando isto para o mandar também se poderá dizer que cada um manda o que o deixarem mandar. O que não deixa de apontar para uma subliminar mensagem de apelo à subversão. Mesmo à revolução!


Mandar é mesmo atitude de mandão, de patrão à maneira antiga que não à patrão do futebolês – que é bem outra coisa, como aqui vimos já há muito tempo.  De dono e senhor! E por isso mandar no jogo é também tornar-se dono e senhor do jogo!


No entanto no jogo manda-se em muitas coisas e mandam-se muitas outras. Mesmo sem mandar no jogo!


Manda-se o árbitro para todo o lado. Que se vinga e manda os jogadores para a rua. E os treinadores! Veja-se o caso do Vilas Boas: dois empates, duas vezes para a rua. E já disse que ainda iria mais vezes… Eu espero que sim. Mas, se têm de o mandar para rua cada vez que empata, como será quando começar a perder?


Também os jogadores fazem tudo para mandar os colegas (??) adversários para a rua, quando deveriam ser eles próprios a ser mandados porta fora. Há por aí muitos especialistas. Fazem cada fita… Quando começarem a ser mandados ficar de fora talvez se emendem. Por vergonha e por lealdade é que já vimos que não!


E também ainda se manda à fava. Ou às ortigas. Foi o que Jorge Jesus fez no domingo ao repórter da TVI. Mandou-o à fava e, com um tchau, deixou-o a falar sozinho.


Uns acharam bem. Outros nem por isso. Uns acham que é apenas mais um episódio no folhetim de um ataque aberto da comunicação social. Outros que não passa de mais um sinal da desorientação que este ano se apossou do treinador do Benfica


Uns e outros poderão ter alguma razão. Quem a não tem, e que nada tinha a ver com isso, é seguramente o FC Porto, que se apressou a emitir um comunicado descabido: mais uma mera acção de guerrilha. Mandar o barro à parede? Não, apenas mandar areia para os olhos!


 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Candidatura P(IIG)S

Por Eduardo Louro   



 


E lá foram eles… Já lá estão, contentes e confiantes!


E nós cá ficamos, presos a um olhar distante fixado nos mercados. Percebemos que riem. Que riem perdidamente!


Não percebemos o que dizem … Mas lemos-lhes os lábios: “ … loucos e contagiados, o que é que lhes havemos de fazer?”


A mim inquieta-me apenas uma dúvida: em que candidatura votará a Alemanha?


E o que pensará a Srª Merkel disto tudo? Nunca o iremos saber... Vão fechar o Wikileaks!

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...