terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Táctica e carácter

Por Eduardo Louro


   


 


O Presidente Cavaco Silva voltou a promulgar uma lei vergonhosa – a lei do financiamento partidário – que, curiosamente e num momento como o actual, é o esplendor do regime no seu pior: esta partidocracia que federa os interesses asfixiantes do centrão, justamente o maior responsável pelo estado do país.


Choca-me que o Presidente tenha promulgado, ao contrário do que obviamente devia, uma lei inaceitável e inoportuna. Talvez não lhe tenham sido apresentadas muitas outras, tão inoportunas e tão inaceitáveis, em que o dever de veto fosse tão óbvio, e onde o país pudesse perceber para que serve de facto o Presidente. Mas o que eu não consigo mesmo perceber, nem sequer aceitar, é que, mais uma vez, ele venha dizer que promulgou mas não concorda.


Já assim fizera com a chamada lei do casamento gay. Tacticismo puro, disse-se então. A tão portuguesa esperteza de matar dois coelhos com uma paulada: não afrontaria o loby gay e a esquerda em geral e, expressando o dito sentimento da sua consciência, passaria a mão pelo pêlo ao seu eleitorado natural.


Discordo em absoluto desta tese. Para mim não mata dois coelhos nenhuns: deixa-os fugir a ambos! Por mim não permitiria sequer que a mão se aproximasse do meu pêlo. Para mim isso é uma grande falta de respeito pelo eleitorado. Para além de evidente traição, Cavaco menospreza o seu eleitorado, passando-lhe um autêntico atestado de menoridade. Porque a mensagem é esta: o voto deles está seguro. “Faça eu o que fizer eles lá estão, sempre caninamente fiéis”!


Agora voltou a fazê-lo. Só que desta vez no tabuleiro colocou outras peças. São outros interesses! Mas a mesma estratégia: promulga e não afronta os seus interesses e os dos partidos em que se apoia (sim, apoia-se também no PS e, no fim de contas, quem é que o PS no fundo apoia?), mas diz que discorda para que, mesmo na pele do mais antigo de todos os políticos no poder – está na actividade política há mais de 30 anos –, possa continuar a dizer que não é político profissional e, com toda a candura, que está acima dos partidos. Para o eleitorado não concorda com a lei. Para as máquinas partidárias concorda, aplaude e promulga. Que é afinal o que realmente conta!


Podem achar que não, mas eu acho que há aqui um problema qualquer. E antigo… E é de carácter! Que joga com outro, também bem antigo: a curtíssima memória dos portugueses!

2 comentários:

  1. Concordo Eduardo,
    Em tempos escrevi algures que iria votar em branco, ou para reduzir a abada ou para ajudar ao susto da segunda volta. A campanha Alegre não ajuda ao susto mas mesmo assim não levará com o meu voto.
    Como diz, o resultado das políticas dos compromissos podres está à vista.

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    1. Ele há estatutos do diabo, Paulo! Conseguir andar sempre a a pôr-se de fora do jogo político mais baixo e ao mesmo tempo sempre a jogá-lo já é obra. Mas fazer isto tudo sem que minguém dê por nada, e sempre sem penalização, é de mestre! Mestre na arte de bem lidar com as fraquezas portuguesas!
      Eu gostaria de ter outro Presidente da República, que não estivesse fora deste lamaçal apenas pelo verbo. Que não estivesse enterrado até ao pescoço e a dizer que nada tem a ver com aquilo. Gostaria de um que não tivesse mesmo nada a ver com esta "chafurdice"!

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