quinta-feira, 30 de abril de 2020

"A música agora é outra"

tapairportugal on Twitter: "Tail whip greetings ...


 


A (re)nacionaização da TAP está decididamente em cima da mesa. Era uma questão de tempo, que a actual crise resolveu rapidamente.


As contradições eram imensas, mas tornaram-se completamente insanáveis quando o comando foi entregue a um Bolsonaro dos aviões. "A música agora é outra" - proclamou ontem o ministro Pedro Nuno Santos numa audição regimental na comissão parlamentar de Economia, Inovação, Obras Públicas e Habitação. Salvar a TAP é uma coisa, salvar os seus accionistas privados é outra, como também, e tão bem, disse.


Uma - a primeira - poderá ser papel do Estado. A outra evidentemente que não. 


Nos tempos que correm, ter uma companhia de aviação de bandeira poderá ser um luxo. Mas também é soberania. Poderá sempre dizer-se que as coisas não estão para luxos. E que a soberania há muito que já lá vai... Mas ... "a música agora é outra"!

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O senhor Liberdade já tem nome


 


O Presidente não telefonou, e demorou mais a conhecer-se o homem que no passado sábado encheu a Avenida da Liberdade que a conhecer o Luís. Mas já tem nome.


Chama-se Carlos Alberto Ferreira, tem 71 anos, comemora todos os anos, na rua, o 25 de Abril ... que ajudou a fazer. Há 46 anos estava no Largo do Carmo, às ordens de Salgueiro Maio no cerco ao quartel da GNR, a aguardar pacientemente a rendição de Marcelo Caetano. 

Emergências

Acionador Manual / Botoeira de Alarme e Emergência Quebra Vidro ...


O presidente da República, anunciando que não iria ser renovado, anunciou ontem o fim do estado de emergência. Que, conforme opinião que abundantemente aqui expressei, nunca deveria ter sido declarado. 


Serviu apenas para o Presidente Marcelo apanhar o comboio em andamento que tinha perdido na estação, por se ter fechado em casa sem ninguém saber bem por quê. Serviu Marcelo, não serviu o país!


 Não serviu o país porque, como é hoje absolutamente evidente, nada do que foi feito durante o estado de emergência teria deixado de se fazer na sua falta. Tudo o que foi necessário fazer tinha sustentação legal fora do quadro do estado de emergência. Mais, e mais decisivo ainda: o confinamento já estava em curso, auto-imposto pelos portugueses.


Não serviu o país mas, pior, abriu um gravíssimo precedente. Porventura uma caixa de pandora. E era esse o ponto, o fulcro da minha oposição à lamentável e anti-patriótica iniciativa do Presidente Marcelo. Não que, por uma vez, tivesse algum receio que este Presidente, este governo, ou este Parlamento pudessem ferir a democracia de morte neste estado de emergência. É pela caixa aberta que fica para o futuro, à mão de um outro presidente, de outro governo ou de outro Parlamento. É pelo exemplo vivo, e bem à vista de todos, do que se está a passar na Hungria e do que Viktor Órban fez com o estado de emergência.


E não serviu o país, e pode prejudicá-lo severamente, ainda pelas consequências do seu levantamento. É uma medida tão excepcional que não pode ir para além de períodos de quinze dias. Foi renovada por duas vezes, e não o poderia ser por muitas  mais. Não o permitiria nem a situação económica do país nem a resiliência dos portugueses.


Ao ser levantado transmite a ideia que, se não passou já tudo, pelo menos o pior já passou. E esta ideia, exactamente quando a resiliência das pessoas começa a rebentar por todas as costura, é altamente inflamável. Ao ser levantado numa altura em que o número médio de contágios por cada pessoa infectada (indicador R0) está pior do que há algumas semanas, mais alto do que seria recomendável para o início do desconfinamento, e ainda  mais alto do que estava nos países que já começaram a iniciar esse processo, tem tudo para se poder transformar no detonador de uma segunda vaga. Como, de resto, vai avisando a comunidade médica!


A "emergência" de Marcelo quando se viu em terra, e com o comboio a partir, deu nisto. 


 


 

terça-feira, 28 de abril de 2020

Ordem para desconfinar

Desconfinamento, uma estratégia com riscos


 


Com o passar dos dias, semanas e já meses, a abertura à vida é inevitável. As pessoas já não têm mais tolerância para o confinamento e a economia não pode esvaziar-se mais.


Tudo se encaminhou para parecer que bate certo. A curva achatada, o Ro abaixo de 1 e, the last, not the least, começou a haver máscaras... Mesmo que o planalto se mantenha, e se não veja ainda lá ao fundo o início da rampa de descida. Que o Ro tenha acabado de passar de 1. E que as máscaras que já há possam voltar a não resolver tudo...


Temos que sair de casa. E a economia tem que ser reaberta. Porque já não aguentamos lá mais tempo, e a falta de ar na economia nos sufoca. E mata, mais que o vírus...


Como vamos fazer? 


Por apalpação, diz o primeiro-ministro: se a determinado momento tivermos que dar um passo atrás, daremos. Prendendo os velhos, dizem os especialistas mais economicistas: apenas os grupos de risco se devem manter confinados, fechados em casa ou nos lares, agora RPI - residências para idosos. 


Primeiro-ministro, Presidente, deputados e até membros do Conselho de Estado reúnem-se hoje com a comunidade científica à procura de respostas. Que não podem fugir muito desta espécie de simbiose: velhos fechados em casa e tudo o resto a apalpar. 


Cuidado no momento do passo atrás: sem ver, e sem querer, podem esmagar os velhos a fugir de casa...


 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Um compêndio

Como funcionavam as câmaras de gás na 2ª Guerra Mundial ...


 


Ainda no quadro da histeria que se instalou no país na contestação à evocação do 25 de Abril na Assembleia da República, surgiu mais um episódio que encerra um autêntico compêndio da realidade política deste país.


Conta o JN de ontem que um funcionário da Câmara Municipal da Trofa, um dos muitos portugueses que se manifestaram nas redes sociais incomodadíssimos com o 25 Abril, para quem a celebração foi apenas um instrumento útil para a manifestação desse incómodo profundo, escreveu no seu facebook, convencidíssimo que estava cheio de graça que, se houvesse alguém que pusesse a Assembleia da República a funcionar como uma câmara de gás, pagaria o gás. Expressão que é o que é, mais tudo aquilo que sugere que é. 


E que, nessa plenitude, mereceu mais de uma dúzia de "gostos", entre os quais o do Presidente Câmara Municipal da Trofa (e também o do seu adjunto), e líder da estrutura local do PSD. Partido que tem na Assembleia da República dois deputados do próprio concelho da Trofa. E que, através da sua "distrital" do Porto, sem revelar qualquer incómodo com aquela (ex)posição publica, a que não atribui qualquer  relevância política, prefere exaltar o excelente trabalho do Sérgio (assim se chama o Presidente da Câmara) e o seu carácter, de que “ainda agora tivemos todos prova ... quando anunciou que tinha decidido doar o seu salário do mês de abril a instituições de solidariedade social do concelho, bem como à Delegação da Trofa da Cruz Vermelha”.


Um autêntico compêndio. Basta reflectir um bocadinho e encontramos aqui praticamente tudo o que nos permite entender o momento político que atravessamos.


 

sábado, 25 de abril de 2020

Enchente na Avenida da Liberdade


 


Não sei quem é este homem, que sozinho encheu a Avenida da Liberdade neste 25 de Abril. Depressa se saberá quem é. Se tão rapidamente se soube quem era o Luís, que estava bem mais longe, mais depressa se saberá quem é este manifestante da liberdade.


O nosso Presidente deverá já estar a telefonar-lhe, se é que não anda ainda à procura do cravo que lhe caiu da mão à entrada do Parlamento... E depois logo saberemos quem é este cidadão que ousou furar o confinamento e comemorar o 25 de Abril como tem que ser celebrado, enchendo a Avenida da Liberdade.

Os governos do poder provisório

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Hoje, no 25 de Abril, aqui ao lado fala-se dos governos provisórios que de lá sairam. E dos militares que o fizeram, e que fizeram História.


Vale uma espreitadela?

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Brilhante ignorância infinita

 


Trump usa processo de impeachment como estratégia de campanha e ...


 


De ignorância infinita e estupidez ilimitada Trump, com o país a bater todos os recordes de infectados e a encher valas comuns de mortos, descobriu, num neurónio escondido, a cura para a covid-19 e arrasou por completo a comunidade científica mundial.


A teoria é tão simples que até custa a perceber como ninguém lá chegou primeiro: se os desinfectantes que utilizamos matam num minuto o vírus nas nossas mãos, também o matam dentro do nosso organismo. Se os injectarmos desinfectantes no organismo farão o mesmo que fazem nas nossas mãos, ou seja, matam o vírus num simples minuto - concluiu brilhantemente o presidente da América.


Pena que não possa ele mesmo testar a sua brilhantes descoberta. O mesmo se não poderá dizer dos seus seguidores, que esses estarão certamente já estar a correr para a salvação.

Sem surpresas

Bolsonaro sobre Moro: 'Eu sou o técnico e ele é um jogador ...


 


Até o inenarrável Sérgio Moro, o principal obreiro da sua eleição, já abandonou Bolsonaro. Que já entrou em decomposição e, fedorento, sem surpresa começa a cair de podre. Da última vez ainda encontrou um médico disposto a dar-lhe a mão. Agora já precisa de um juiz, e em breve não haverá quem lhe valha. 


Que assim seja!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A polémica em corrida de estafetas

10 programas para celebrar o 25 de Abril em Lisboa e Porto


 


Assinala-se amanhã o 46º aniversário do 25 de Abril. Disse assinala-se, e não comemora-se, e muito menos festeja-se, porque o confinamento não dá para festas e a comemoração será coxa.


Em todas as ocasiões anteriores sempre o dia da revolução dos cravos foi comemorado oficialmente no Parlamento e festejado nas ruas de todo o país, com o ponto alto na capital, na descida da Avenida da Liberdade ao som da Grândola do Zeca que os capitães de Abril ergueram a hino da revolução.


Com todos em casa, onde continuamos a ter de nos manter, como teríamos de continuar independentemente do estado de emergência vigente, os festejos de rua estavam evidentemente fora de causa. Restava a sessão oficial - ou solene, chame-se-lhe o que quiser - na Assembleia da República, em pleno funcionamento, como se tem visto e ainda anteontem se viu no debate quinzenal, o terceiro desde que nos confinamos.


Não é a mesma coisa. Basta até chamar-se “oficial” ou “solene” para que não seja a mesma coisa quando se festeja uma revolução. Tem o vermelho dos cravos que enchem as bancadas e os palanques dos discursos repetitivos, é certo. Mas é o único colorido que emerge daquele cinzentismo pasmaceiro onde se contam os cravos na lapela como se contam espingardas, mas já das que não têm cravos na ponta.


Mesmo assim, sinal dos tempos, a polémica estalou. E assistimos a uma espécie de corrida de estafetas, que começou ao nível do trogloditismo argumentativo - Páscoa, missas, funerais, Fátima e até aniversários dos filhos - até que o testemunho fosse finalmente entregue a portadores tecnicamente mais dotados e capazes de trazer outra dimensão argumentativa para a competição como, por exemplo, a insensatez de festejar a liberdade quando os cidadãos dela estão privados.


O argumento pode tornar-se até sedutor quando acrescenta que dela estão privados por decisão do governo, proposta pelo Presidente e aprovada pelos deputados, depois todos reunidos a festejá-la. Mas não é uma borracha que apague da fotografia os trogloditas que iniciaram a corrida…


* A minha crónica de hoje na Cister FM

Fisgas e bazucas

Covid-19: António Costa precisa de saber se UE disponibiliza “um ...


 


Hoje só não é um novo dia D para a Europa porque - todos o sabemos - nada hoje ficará decidido no aguardado Conselho Europeu. Mas será o princípio do dia D, daqui sairá a resposta da União à depressão económica mundial em curso e, dessa resposta, a sentença do seu futuro. A bazuca ou a fisga - nas palavras do primeiro-ministro - para combater as crises sanitária, económica e social em que o coronavírus nos fez mergulhar.


A retórica a que temos assistido nos últimos dias aponta para a bazuca. As palavras da Srª Merkel, de voz própria, e as da Srª Van der Leyen, fazem-nos acreditar que desta vez será diferente. Mas também sabemos que são retórica, e que o governo holandês só persiste na fisga porque está apoiado pelas instituições alemãs. Sabemos que é a Alemanha a desviar-se para o lado e a mandar a Holanda para a frente.


Mesmo que a retórica aponte para a bazuca ninguém sabe do que na realidade se trata. Não se sabe do seu poder de fogo, quer dizer, do número de zeros que transporta, nem da forma de a transportar. Se tiver pouco poder fogo não deixa de ser fisga na mesma. Se tiver a capacidade de um míssil resolve muita coisa, mas fica em aberto o destino e o transporte até esse destino. Os zeros têm de ser bem distribuídos por quem mais precisa, e esses são sempre os mais pobres. Os mesmos de sempre. E como esses são também os mais endividados, se esses zeros lhes chegarem em cima de dívida, ajudam. Mas dificultam logo a seguir.


Só sabemos que, muitos zeros, os onze de Mário Centeno, a fundo perdido, é coisa que não existe. Não sabemos mais nada. Nem nós nem António Costa, que está à espera disso para responder à questão da austeridade, que os profetas da desgraça insistem em transformar no alfa e no ómega da actualidade política.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Uma vergonha"

Brasil Isso É Uma Vergonha - Home | Facebook


 


As vagas de desinformação e populismo não param. Sucedem-se umas atrás das outras ao ritmo das marés vivas nas praias que não podemos pisar.


A última vaga foi a do aumento dos funcionários públicos. Não importa se foi um aumento de 0,3%, qualquer coisa como 3 a 4 euros no ordenado, em média. Depois de anos de cortes salariais. Isso não importa mas, acima de tudo, não importa mesmo nada que se trate simplesmente de uma consequência da entrada em vigor do Orçamento de Estado para este ano, superavitário e produzido e aprovado quando não havia bola de cristal que permitisse vislumbrar as circunstâncias que vivemos.


Em vez de oops - este aumento é tão bom, não era? - ouviu-se a palavra mágica da desinformação, da demagogia e do populismo: vergonha! Desta vez até Rui Rio cedeu.


Hoje ou tudo é uma vergonha, ou tudo se resume na sua expressão mais simples a uma vergonha. Não é preciso saber nada de coisa nenhuma. É uma vergonha e ponto final.


De tal forma que, por vergonha, não digo que é uma vergonha que o Ministério da Saúde tenha permitido que os seus profissionais tenham os únicos a ficar privados dos seus 3 ou 4 euros deste mês. Logo eles, médicos e enfermeiros hoje por hoje a tropa de elite do país que a nação aplaude... Mas digo que é mais um tiro no pé do Ministério de Marta Temido!

terça-feira, 21 de abril de 2020

Chinesices

As 5 teorias da conspiração mais bizarras sobre o novo coronavírus ...


 


As teorias conspirativas sobre a origem da pandemia que virou o mundo do avesso, insinuadas por Trump e logo agarradas pelos Camilos Lourenços desta vida, parecem-me uma patetice. Não tanto pela impossibilidade de demonstração, com a discussão sempre capturada pela especulação, isso seria o menos. Mas porque desvia o foco daquilo que importaria discutir.


Se a China criou ou não o vírus, em primeira análise, e se a sua disseminação foi acidental ou propositada, é um enredo que só interessa à China, e aos interesses chineses, que nunca são apenas chineses. Ao mundo democrático e civilizado basta a inegável ocultação, durante semanas, do que estava a acontecer em Whan. Basta considerá-la acto hostil e exigir da China a sua reparação, que é como quem diz o financiamento de um programa de recuperação das economias dos outros cantos do mundo afectadas pela pandemia. Não aceitar outra coisa que não exactamente isso, e recolher a mão que tem tido estendida para receber as migalhas da campanha que a diplomacia expansionista chinesa pôs em marcha.


Tão simples quanto isto. 


Abrir-se-iam então duas vias: ou a China assumiria essa obrigação, e era definitivamente colocada perante as suas responsabilidades no mundo, acabando com as ambiguidades dos seus compromissos internacionais; ou, o que seria mais provável, rejeitaria essa responsabilidade, e o mundo votá-la-ia ao isolamento com que agora nos vimos confrontados, com um total embargo comercial e político.


Só que isso acabaria com os baixos custos de produção das grandes multinacionais lá instaladas, e com a maior fatia do mercado das suas marcas de luxo. E, claro, é de custos e vendas que se fazem os lucros.


É por isso muito mais interessante alimentar teorias da conspiração. Que não passem de chinesices para que tudo fique na mesma. Ou o mais próximo possível!

domingo, 19 de abril de 2020

O 25 do cravo vermelho

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Se a celebração do 25 de Abril já incomoda muita gente, este ano incomoda muito mais. 


Temos visto de tudo. Uns que comparam esta celebração com a da Páscoa, outros com as do 13 de Maio, e outros até com a do aniversário dos filhos. Sim, o Camilo Lourenço, por exemplo, está preocupadíssimo porque que não sabe como explicar à filha por que não pôde festejar o aniversário, se se pode festejar o 25 de Abril.


O que nos faltava ver mostra-nos agora o respeitável José Milhazes, no Observador, ao propor que, já agora, já que estamos assim, comemoremos o 25 de Abril lá mais para a frente, quando isto já tiver passado. Lá para Novembro. A 25, precisamente!


Pode até parecer brincadeira, mas talvez não seja. Até porque o antigo correspondente em terras soviéticas não é muito dado a brincadeiras. Não é mais que a consagração de um velho sonho de uma certa direita: diluir o 25 de Abril no de Novembro, e misturar bem até tudo ficar em 25 de Abril, nunca; 25 de Novembro, sempre!


Não será fácil levar isto por diante. Se calhar, o melhor, mesmo, é ficarem-se pelas comparações com a Páscoa. Ou com Fátima. Com o aniversário dos filhos também não parece boa ideia. Vinda de quem vem... também não era fácil...


É que, o 25 de Abril todos sabemos o que é ... e o que foi. Conhecemos-lhe todos os cantos. Já do 25 de Novembro só sabemos o que é. Ninguém sabe muito bem o que foi. Sabemos que no 25 de Abril, viemos todos para a rua. E que no 25 de Novembro, fomos todos obrigados a ir para casa. É melhor não misturar. Cada macaco no seu galho, e cada um a fazer festas a quem quer...


 


PS: A foto é uma pintura da minha neta Emília, de sete anos. Acabou de ma enviar para provar que 25 há só um: o do cravo de Abril, e mais nenhum!

sábado, 18 de abril de 2020

Uma história de governos

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O Rasurando voltou. Retomou o fio à meada com o "poder executivo". Hoje fala de governos. E de História. Vale a pena uma vista de olhos. É aqui ao lado.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Pulhice

João Almeida planeia moção de estratégia a congresso do CDS e não ...


O deputado do CDS João Almeida não se limitou, ontem no Parlamento, à mais ignóbil demagogia, à mais miserável manipulação e, em suma, ao mais reles que a política pode ter. Quando proclamou que o Parlamento "não pode proibir a celebração da Páscoa, mantendo a celebração do 25 de abril" o deputado do CDS reduziu a sua estatura política à simples dimensão do ressabiamento.


Ressentido pela derrota que o Partido lhe infringiu, amarrado à frustração, e desesperadamente à procura de espaço, João Almeida pode ser contra o 25 de Abril e contra todas as formas de o celebrar. Tem esse direito e a liberdade de o manifestar, que o 25 de Abril lhe garantiu ainda antes de nascer. Não pode é, sem passar a fronteira da pulhice, comparar a celebração do 25 de Abril na Assembleia da República, nos termos em que foi votada, com a proibição de celebrar a Páscoa, que simplesmente não existiu para lá das condições gerais de recolhimento estabelecidas para o país.




Surpresas

Bolsonaro se atrapalha até com máscara e Brasil vira piada na ...


 


A surpresa não é que Bolsonaro, sozinho em marcha acelerada em contra-mão, tenha nesta altura demitido o ministro da saúde, o médico Luiz Henrique Mandetta. Surpreendente é que outro médico, Nelson Teich, um oncologista, tenha aceitado substituí-lo. 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Luís Sepúlveda (1949-2020) - Rúben Fonseca (1925-2020)

Luis Sepúlveda - Portal da Literatura


 


Mais uma vítima da covid-19. O chileno Luís Sepúlveda, o mais multifacetado dos escritores, morreu hoje, depois de semanas de internamento, logo depois da sua última aparição pública. Em Portugal. Na Póvoa de Varzim!


Ontem desaparecera Rúben Fonseca, vítima de enfarte, outro grande mestre das palavras. Em língua portuguesa. A que homenageou o seu talento com o Prémio Camões, em 2003.


E também assim vamos ficando mais pobres... 


 


Escritor Rubem Fonseca morre aos 94 anos | Cultura europeia, dos ...

Pequenas primeiras páginas

Capa Diário de Notícias


 


Veja-se esta "preciosidade" de primeira página: "Países que testam mais obtêm taxas de letalidade mais baixas. Conta faz-se dividindo o número de mortes pelo total de infectados e a seguir multiplicando-se por cem".


Mais um efeito do regresso às aulas. Só pode...

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Números para a recessão

FMI prevê recessão global de 3% em 2020, maior descida desde ...


 


Numa altura em que tanta gente dá palpites, e todos fazem contas à vida, havia uma certa expectativa para a divulgação das previsões económicas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ninguém gosta muito do que de lá vem, a sua reputação não é das melhores, mas ninguém despreza os seus dotes adivinhatórios. Mais a mais numa altura destas...


No Relatório com as Perspectivas Económicas Mundiais, ontem divulgado sobre o "Grande Confinamento", como chamou aos tempos que vamos vivendo,  o FMI admite que este ano a economia mundial vá viver a sua pior recessão de sempre, depois da I Guerra Mundial e de a Grande Depressão de 1929.


Para a economia portuguesa prevê uma recessão de 8,0% - quase o triplo da quebra na economia mundial, e acima dos 7,1% previstos para a União Europeia, e dos 7,5% para a Zona Euro - uma taxa de desemprego de 13,9%, e um défice de 7,1%. 


Números terríveis, bem acima dos das últimas previsões do Banco de Portugal (26 de Março) que apontavam, no pior cenário, para uma quebra de 5.7% no PIB e para 10,1% de desemprego. Mas condizentes com as palavras de Mário Centeno quando, dizendo há apenas dois dias, em entrevista à TVI, que não há previsões que valham sem se saber quando é que este confinamento poderá acabar para colocar a economia em movimento, dizia também que cada período de 30 dias (úteis) de paralisação provocava uma recessão de 6,5%.


Querendo isto dizer qualquer coisa como 4,5% ao mês, bastam 1,8 meses para atingir o terrível número do FMI. Um mês já lá vai e, para já, vem aí mais metade de outro em renovado estado de emergência ...

terça-feira, 14 de abril de 2020

Regresso a quê?

Calendário escolar 2019-2020: Conheça todas as datas


 


O regresso às aulas enche hoje as capas dos jornais, com o arranque de um terceiro período como nunca se viu, marcado pela desigualdade que as aulas à distância e a internet, que ainda não é para todos, provocam.


A igualdade da oportunidade de aprender em sala de aula não se tele-transporta para casa de cada aluno. Aí, as desigualdades que o professor e a sala de aula escondem, vêm todas ao de cima. E a educação transforma-se num elevador avariado, sempre com a porta fechada.


Quando se fala de abertura, de regresso à normalidade, à normalidade possível, não é apenas de economia que se fala... 


Não faz muito sentido falar hoje de regresso às aulas. Nem de regresso de férias. Não há por enquanto regresso a coisa nenhuma. Nem regresso de coisa nenhuma. Não há aulas, como não houve férias.


Há apenas a mesma anormalidade que começa a tornar-se insuportável. Perigosamente insuportável!


 


 


 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Sempre em cima do acontecimento

A BOLA - Marcelo agradeceu pessoalmente o trabalho do enfermeiro ...


 


Boris Johnson já teve alta, regressou a casa e, em breve, regressará ao Nº 10 de Downing Street, provavelmente já sem dúvidas sobre a covid-19. Mas a notícia é o Luís, o enfermeiro português que, ao lado de uma enfermeira neozelandesa, o primeiro-ministro inglês colocou no topo de uma lista donde sobressaíam nomes pouco britânicos.


As catástrofes têm muitas vezes destas coisas...


Pronunciado o nome "Luís, de Portugal, perto do Porto" logo por cá se instalou o lufa-lufa de tirar o Luís do anonimato. E pouco depois já havia fotografia, já se sabia que tinha 29 anos, estudara em Lisboa e que "perto do Porto" era Aveiro.


Ainda não se sabia disto e já se sabia que o Presidente Marcelo já tinha falado com ele... Sempre, sempre em cima do acontecimento!


 


 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Manhosos

CM de hoje (10/04/2020)


 


 


Aí está o Correio da Manha (a falta do ~ não é gralha), incansável ao serviço do André. 


"Indulto especial permite a saída de homicidas e pedófilos". É mentira, mas não se importa. O que importa é ajudar o pobre do André. Que - coitado - até teve que inventar uma oposição interna que não existe, e encenar uma demissão que ninguém percebe, para que, sem programas de futebol na televisão manhosa, não esteja reduzido à sua insignificância. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Era uma vez um anão*

Era uma vez… uma “Branca de Neve” escravizada, sem o seu beijo ...


 


A ideia de que o futuro da União Europeia depende da resposta que conseguir dar à actual crise provocada pelo coronavírus, começa a ganhar cada vez mais nitidez. Poucos serão os cidadãos por esta Europa fora com dúvidas que todo este projecto de paz e prosperidade começado a desenhar no Tratado de Roma, há 63 anos, acabados de fazer no passado dia 25, cairá que nem um castelo de cartas se a União Europeia não for capaz de dar capaz resposta a esta crise.


As primeiras indicações não são animadoras. E são tanto menos animadoras quanto mais claramente vamos identificando os factores de bloqueamento com os próprios cidadãos europeus. Era tudo muito mais fácil quando pensávamos que a origem de todos os males estava na arquitectura do edifício do poder europeu. Quando olhávamos para Bruxelas e facilmente apontávamos o dedo a uma elite burocrática virada para dentro de si mesma.


Esta crise actual é novidade também nisso. Eventualmente porque também agora as instituições europeias estejam mais bem servidas de liderança, com gente de muito mais qualidade, como parece particularmente claro na presidência da comissão europeia. Mas acima de tudo porque deu a conhecer a toda a gente que o problema não é este ministro das finanças holandês, exactamente igualmente ao anterior, aquele primeiro-ministro finlandês, ou aqueloutro ministro austríaco. O problema é que os seus povos, os que neles votam, se estão nas tintas para a solidariedade com quem quer que seja. Pensam neles e no seu próprio bem-estar ao nível do mais básico, mais elementar e mais imediato do pensamento humano. E que falta às respectivas lideranças políticas estatuto e dimensão para lhes mostrar que as fronteiras não são trincheiras de defesa do seu superior bem-estar.   


Em mais de 60 anos os europeus não conseguiram lidar com a política. Permaneceram reféns das soberanias nacionais, e entenderam que tudo se resumia a negócio. A mercado, primeiro, e a moeda para melhorar o negócio, depois. E criaram um gigante económico num corpo de anão político.


Bastou uma pandemia para mostrar como tudo foi errado. Como um anão político transforma rapidamente em anão um gigante económico. Não foi sequer preciso que desabasse a ameaça militar, cada vez mais visível no horizonte!


 


* A minha crónica de hoje na Cister FM

Acesso bloqueado

Sérgio Godinho - O Acesso Bloqueado - YouTube


 


Adivinhar o futuro
É muito duro, é muito duro ...


Adivinhar o passado
É mais seguro, é mais seguro ...


Agora adivinhar o presente
Mesmo se fosses vidente
Isso é que é mais complicado
Tem o acesso bloqueado


Estas são as palavras com que Sérgio Godinho fez a canção a que fui roubar este título, que espelham o que se está a passar na Europa, com o bloqueamento do eurogrupo. Primeiro, Alemanha, Áustria, Finlândia e Holanda, bloquearam qualquer forma de dívida conjunta para financiar o ataque à pandemia e à recessão por ela provocada. As eurobonds, ou coronabonds como agora lhe quiseram chamar para lhe dar novidade e cortar qualquer ligação com o passado recente da crise das dívidas soberanas, propostas por Espanha, França, Grécia, Itália e Portugal morreram aí. Por muito que Itália, mas também a França, continuem a insistir na ideia. 


Não havia alternativa, e o financiamento para esta encruzilhada em que nos encontramos teria de ser encontrado no chamado mecanismo europeu de estabilidade (MME), o mesmo que tinha sido utilizado para os chamados programas de ajustamento em Espanha, e na Grécia e Portugal,  com a troika. Apuraram-se os montantes e tudo parecia que parecesse avançar. Os montantes eram claramente insuficientes, mas poderia argumentar-se que era para as primeiras impressões. Depois haveria mais...


E o grande bicho de sete cabeças do MME estaria afastado.


Na Europa tudo tem nomes bonitos, e até a um bicho enorme e monstruoso com sete cabeças, se chama, com alguma ternura, condicionalidades. Ou outros nomes igualmente ternurentos como "condições económicas". Ninguém lhe chama austeridade brutal para pagar com língua de palmo esse financiamento.


Portugueses e gregos sabem bem o que é isso. E os italianos viram-no bem de perto.


Quando Centeno esfregava as mãos, e já pegava no copo para brindar, o senhor Wopke Hoekstra - mais um nome impronunciável, de mais um ministro das finanças holandês, porque só as moscas mudam - diz que não senhor. Quem recorrer ao MME tem de se sujeitar "às condições económicas". 


A Holanda - e não é porque o senhor Wopke Hoekstra assim o queira, é porque assim quer o Parlamento holandês, e porque assim querem os holandeses, que votam - não aceita sequer que qualquer país membro recorra a estes financiamentos sem ficar obrigado a um programa de intervenção que garanta o regresso a curto prazo ao cumprimento dos critérios do défice e da dívida. 


É cada vez mais claro que este problema, único e sem precedentes, não se resolve apenas com dívida, é também necessário imprimir dinheiro. Isto, a que estamos a assistir, é como alguém, numa emergência, ter que sair de Lisboa para chegar ao Porto impreterivelmente duas horas depois e ficar bloqueado ali em frente ao Ralis.


 


 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O nó górdio europeu

A lenda do nó górdio - Motivação e Foco


 


A reunião do Eurogrupo donde sairia a resposta europeia à devastação que a pandemia vai criando nos seus países ficou em nada. E só não acabou em nada porque está suspensa, está inconclusiva, não acabou ainda. Mas sabe-se que o melhor a que se poderá chegar é a activação dos meios do mecanismo europeu de estabilidade (MEE) com condições, mesmo que mitigadas, do que, pelo menos Finlândia e Holanda, não estão dispostas a abrir mão. E que esse melhor será dificilmente aceitável, particularmente para a Itália. Mas também para Espanha e Portugal.


É no entanto notória, pela primeira vez visivelmente notória, uma diferença de posições entre os órgãos que representam e vinculam da União e os que, na União, representam os países que a integram. Tivemos oportunidade de, pela primeira vez, percebermos claramente que a Comissão Europeia, da Senhora Van der Leyen, e o Banco Central Europeu, da Senhora Lagarde, têm uma visão europeia do problema, e que o Eurogrupo se guia pelos interesses particulares dos países, de cada país, com mais propriedade.. 


E é esta a contradição central da União Europeia, o nó górdio do bloqueamento da construção europeia. Que não se reduz à simples dimensão do tabuleiro do xadrez institucional da União. Antes fosse. Isso seria resolúvel, com maior ou menor dificuldade. Mas não é. O pior é que são na realidade os cidadãos europeus que bloqueiam o processo de integração que, evidentemente, não tem por onde progredir sem passar pelo federalismo. E este é o círculo vicioso que alimenta o nó: os cidadãos desconfiam da União e, por isso, não lhes dão condições para demonstrar que merece a confiança que lhe negam.


Não é por serem governados por gente ignorante, mal formada e egocêntrica que os países mais ricos do norte não querem partilhar coisa nenhuma com os mais pobres do sul. É apenas por democraticamente serem governados por políticos que precisam dos votos dos seus cidadãos para serem eleitos!


Alguém fez com que, ao fim de mais de meio século, as coisas chegassem aqui. E somos bem capazes de ficar surpreendidos quando começarmos a pensar nisto, a passar o filme atrás e a ver passar nas imagens muitos dos que nos habituamos a chamar grandes estadistas europeus.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Números com nomes

 


        Radomir Antic, antigo treinador de Atlético, 'Barça' e Real ...


 


Não é apenas com números que se está a fazer a história desta pandemia. É também com nomes.


É quando os números ganham nomes que deixam de ser simples números. Os números dos óbitos tinham já nomes famosos do teatro, do cinema, da música, da dança. da comédia, do desenho ... A partir de ontem têm também nomes do futebol. Radomir Antic, o treinador sérvio que se tornou numa lenda do futebol espanhol, e o único a treinar os três grandes de Espanha, aos 71 anos, emprestou o seu nome a este números. Pepe Guardiola emprestou o da sua mãe...


Que tenha sido Boris Johnson a emprestar o seu para o número de infectados em cuidados intensivos poderá ser simples ironia do destino. Que não se deseja a ninguém. Nem aos que, com ele, mais exuberantes foram na primeira fila da negação da realidade.


 


Boris Johnson confiante | Euronews


 

domingo, 5 de abril de 2020

Nem a chuva os pára

Trânsito condicionado no acesso ao túnel do Grilo no sentido Odivelas


 


Voltamos este domingo a assistir ao degradante espectáculo de filas de automóveis, especialmente na capital. Que o movimento sincronizado dos limpa pára-brisas tornava ainda mais chocante.


Nos anteriores fins-de-semana, fosse há duas semanas nas marginais das praias do Norte fosse, no último, na ponte 25 de Abril, haveria a desculpa do apelo do sol. Grande em todo o lado, como se viu ontem em Inglaterra, mesmo que, aqui, o sol seja uma espécie de metal precioso, e não a comum vulgaridade que é para nós.


Ontem, por cá, em vez de sol havia chuva. E muita. Torrencial, muitas vezes. O que é poderia empurrar as pessoas para a rua?


Corre por aí que, para a Páscoa, já anda toda a gente a estudar percursos para os mais diversos destinos por estradas secundárias.


Está provavelmente aqui a resposta: a mola que faz saltar esta gente para os seus automóveis é a adrenalina da irreprimível sedução dos portugueses pela violação das normas. É aquela irreverência infantil a que se chama falta de educação!

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Notícias*

British American Tobacco usa folhas de tabaco na fabricação de uma ...


 


 


Há boas notícias. Más notícias. E notícias assim-assim…


E há notícias inacreditáveis, daquelas de primeiro de Abril, mesmo que dadas noutro dia qualquer. Hoje mesmo. Fresquinha, nada requentada.


Apenas requintada. Com muito requinte … nem que seja de malvadez…


Vamos a ela, à notícia inacreditável que diz que uma tabaqueira americana, proprietária de duas das principais marcas de cigarros do planeta, tem a cura que falta e que cientistas de todo o mundo procuram desenfreadamente noite e dia. Isso: tem nas mãos a vacina para a Covid 19.


E diz que está já na fase de "testes pré-clínicos", e que estará em condições de produzir até 3 milhões de vacinas por semana já no próximo mês de Junho, e que não tem quaisquer objectivos de lucro.


A notícia diz ainda que a tabaqueira usa as folhas de tabaco e a tecnologia utilizada para o seu crescimento rápido, e dá conta de uma série de vantagens associadas. À tecnologia e às plantas do tabaco. Muitas. Tantas que nem dá para enumerar…


Parecia uma notícia vinda directamente do twitter de Trump.


Fui investigar e lá encontrei o COMUNICADO da British American Tobacco, proprietária das marcas Camel e Lucky Strike, a confirmar tudo o que a notícia que corre em alguns meios de comunicação adiantava.


Pronto. Não vinha de facto do twitter de Trump. Se calhar porque ainda não teve tempo de chegar à Casa Branca. É tudo muito recente. Afinal o COMUNICADO, tem a data de 1 de Abril...


 


* A minha crónica de hoje na Cister FM

A voz que vale a pena ouvir

Estado de emergência. A entrevista na íntegra a Ramalho Eanes


 


António Ramalho Eanes deixou-nos ontem à noite, numa entrevista à RTP 1 - mesmo reconhecendo-lhe alguns méritos profissionais, não gosto do tom (do tom, do registo, dos apartes...) da entrevistadora, confesso -  mais um exemplo do que é uma voz autorizada e respeitada. Ou do que é a reserva moral de uma nação.


Eanes tornou-se acidentalmente, pode dizer-se, Presidente da República. Ainda jovem, e em condições históricas muito particulares, como se sabe. Na altura, e nessas condições históricas, foi eleito pela direita, em 1976,  e reeleito pela esquerda, em 1980. Criou o "eanismo" e deixou Belém em 1986, no meio de alguma turbulência com a criação do PRD, onde andou entre um pé fora e outro dentro, a que deu e tirou gás, deixando sempre uma sensação de não saber muito bem o que fazer com o seu próprio espaço político, que desapareceria com os finados do partido às mãos do cavaquismo. 


 Recordo-me de uma entrevista à mesma RTP, então ainda televisão única, na véspera da despedida de Belém, onde chegaria no dia seguinte Mário Soares, um "velho" inimigo político. Eanes concluía 10 anos no mais alto cargo da Nação sem nunca ter revelado o seu lado mais humano e pessoal. As suas manifestações públicas esgotavam-se nos actos oficiais, e na verdade era uma pessoa desconhecida,  sempre escudada naquela esfinge imperturbável e austera.  A minha expectativa era grande. Livre das amarras da função, e com ambições políticas,  soltar-se-ia finalmente da esfinge - admitia eu - e daria finalmente a conhecer-se. O seu mundo, o seu pensamento, a sua verdadeira dimensão política.


Recordo-me como fiquei decepcionado com a entrevista. E com o vazio político de um homem que tinha sido Presidente da República e que, aparentemente, mantinha aspirações políticas para continuar a influenciar o país.


Por tudo isto, no meu ponto de vista, a história deste homem na História do país estava feita. Já teria pouco a acrescentar.  


Mas é aqui que tudo muda. Eanes abdica dessas aspirações, deixa cair o PRD e, caso único em Portugal e não sei se no mundo, dedica-se ao estudo e à investigação científica, culminando no doutoramento pela Universidade de Navarra, em 2006, com a tese "Sociedade civil e poder político em Portugal". E inverte completamente o destino que o meu ponto de vista lhe traçara no fim daquela entrevista há 34 anos.


À honradez e a dignidade, que sempre estiveram na esfinge austera da sua imagem de marca, Eanes acrescentou vida, exemplo, conhecimento, experiência e prestígio. E por isso é, aos 85 anos, a voz que os portugueses escutam com respeito e atenção. E que vale a pena sempre ouvir!


 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

E se falássemos de outras coisas?

Maduro acusa Portugal de ato de "terrorismo e pirataria". Barco da ...


 


Um navio comercial a navegar sob bandeira portuguesa chocou com uma lancha da marinha de guerra venezuelana, a norte da ilha de La Tortuga, a pouco menos de 200 quilómetros a nordeste de Caracas. Consta que do choque terá resultado o afundamento do barco venezuelano, e que não há vítimas a lamentar.


O incidente carece naturalmente de investigação, como acontece em todas as ocorrências do género. Para começar, não há como não  partir da hipótese de se tratar de um acidente. No fim, confirma-se  esta ou outra hipótese e apuram-se responsabilidades. 


Para Nicolas Maduro, não é nada assim. Simples e inequivocamente o barco da sua marinha foi brutalmente abalroado num acto de terrorismo e de pirataria internacional. Não há qualquer acidente para esclarecer, há sim um acto terrorista para investigar!


E lembrar-mo-nos nós que ainda há tão pouco tempo se vendiam casas e computadores. E pernis de porco. E promessas de amor...


PS: Quando ia a preencher as tags reparei que, pela primeira vez em muito dias, não tinha qualquer referência ao coronavírus. Escolhi o título e pensei: até que enfim... Foi então que me lembrei que me tinha faltado referir que Maduro proferira aquelas declarações no palácio presidencial de Miraflores, em Caracas, durante a activação do Conselho de Estado para debater soluções para combater a pandemia da covid-19. E pronto. Lá teve de ser...


 

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...