quarta-feira, 13 de julho de 2011

CONTRA O LIXO

 Por Clarisse Louro *


 


 


Há pouco mais de um ano começamos a ouvir falar de rating e de agências de rating. E de notações: os resultados das avaliações de risco!


Não fazíamos ideia de nada disto mas rapidamente aprendemos. E depressa nos fomos familiarizando com estes nomes: Moody`s, Fitch, Standard & Poor´s. Aprendemos que havia AAA – o triple A - em inglês, pois claro. E que isso era bom: tão bom que era, em 2008 e um mês antes da falência, a classificação que tinham atribuído ao Lehman Brothers. Mas que, depois, pode cair. Para um único A, depois para B+, para B- e por aí abaixo. Até chegar a lixo!


 Foi aí que acabamos de chegar: a Moody`s avaliou a nossa dívida externa como lixo. Junk, em inglês. Mas aqui o português sobrepõe-se ao inglês, e é lixo! Porcaria!


Há pouco mais de um ano isto tinha acontecido à Grécia. E nós estamos fadados para nos guiarmos pela lanterna grega. Estamos num buraco negro, completamente escuro, onde apenas sabemos que ali à frente vai a Grécia com uma lanterna. A luzinha que vemos não é a famosa luz ao fundo do túnel: é a da lanterna grega!


Já devíamos ter percebido isto há muito. Mas não quisemos! Daí a indignação que tomou conta do país. Há muito que não víamos o país tão unido em torno de uma causa. Se calhar desde a causa de Timor!


A indignação e a revolta com esta classificação uniu os portugueses. Para já não se percebe que nos tenha unido em torno de qualquer coisa, a favor de um objectivo ou de uma missão. Mas percebe-se que nos uniu contra a Moody´s! Contra a Moody`s marchar, marchar… No facebook, evidentemente!


O país está mobilizado e unido nesta guerra. Bem organizado sob o comando do comandante-chefe das forças armadas: o Presidente da República. Foi o primeiro a sair, a dar o corpo às balas, a dar o exemplo. Logo ele, que ainda há bem pouco tempo – já bem depois da lanterna da Grécia por aqui ter passado – era o primeiro a dizer que não era esse o inimigo. Que nem sequer deveríamos falar neles, porque isso era desviarmo-nos das nossas obrigações. E os mercados? Bem, esses tinham sempre razão…


Esta é uma guerra para ganhar. Claramente, sem sombra de dúvida: estamos todos unidos, com uma liderança clara – a do Presidente da república – mas, mais, com a Europa connosco, como já não estava desde os tempos do PREC. Quando, estando com Mário Soares, estava connosco!


E nem sequer é a Europa do Durão Barroso – se bem que essa também esteja, apesar de não contar para nada -, é a Europa da Alemanha. Essa mesma, a da Senhora Merkel. Connosco como nunca antes tinha estado. E a do Sr Trichet – na verdade também é da Senhora Merkel – do Banco Central Europeu, que veio logo dizer que os ratings das agências, para ele, já não contavam nada. E até já veio explicar que bem podem tirar o cavalinho da chuva, porque em países intervencionados – o nosso, a Grécia e a Irlanda e deve ficar por aqui, porque já não há dinheiro para mais – eles não irão poder meter o nariz.


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

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