
Cristiano Ronaldo é possivelmente o maior desportista português de todos os tempos, é certamente o mais mediático de sempre, é seguramente o português mais conhecido no mundo, e é uma das maiores marcas mundiais.
Tive a primeira noção da dimensão comercial de Cristiano Ronaldo há mais de uma dúzia de anos quando, na Primavera de 2006, em Paris, me deparei com os Campos Elísios literalmente forrados com a sua imagem. Loja sim, loja também, das mais diversas e das mais prestigiadas marcas mundiais. Assim mesmo, no mais emblemático centro comercial de uma das mais cosmopolitas capitais do mundo. E com 21 anos, acabados de fazer…
Nos doze anos que se seguiram tornou-se numa lenda mundial, num caso único de performance desportiva, num fenómeno de imbatível popularidade. A uma carreira de sucesso ao mais alto nível, Cristiano Ronaldo juntou uma gestão de excelência da sua imagem pública, tornando-se num ícone planetário.
O primeiro revés surgiu há pouco mais de um ano, com a acusação de um conjunto de crimes fiscais, que acabariam por lhe custar umas duas dezenas de milhões de euros, e por levá-lo a abandonar Madrid. Mas nada de irremediável: a Juventus recebeu-o em Turim de braços abertos, os milhões não são problema e, não sendo hoje em dia motivo de orgulho, as faltas fiscais também não são uma nódoa que nunca mais saia. E não passava pela cabeça de ninguém responsabilizar moralmente Cristiano Ronaldo por um pecado fiscal. De fiscalidade têm de perceber os seus assessores, ao que sabe principescamente pagos.
O que agora por aí corre – que, estranhamente, os media nacionais fizeram por ignorar, pegando-lhe apenas quando o seu silêncio já era ensurdecedor – tem outra dimensão. É outra coisa. O movimento “me too” tornou-se num furacão incontrolável, pronto a engolir Cristiano Ronaldo e capaz de acabar com uma carreira, com uma marca planetária e com uma lenda histórica!
Ache-se o que se achar deste terramoto com epicentro em Los Angeles, a verdade é que o fabuloso mundo das grandes estrelas do “show bizz” passou a dividir-se em duas eras: antes, e depois do “me too”.
* A minha crónica de hoje na Cister FM
Com violadores como Donald Trump, Roy Moore ou Brett Kavanaugh, a maior parte dos portugueses (salvo meia dúzia de comentadores profissionais cuja única missão na vida é poluir as caixas de comentários) não tem dificuldade em acreditar que eles sejam uns monstros não só na política, mas também na sua vida privada (que deixa de ser privada no momento em que o consentimento deixa de existir).
ResponderEliminarQuando se trata de um ídolo, o melhor jogador de futebol português de sempre (sim, atrevo-me a dizer que Ronaldo é melhor que Eusébio), aí os portugueses mostram-se relutantes e acreditam que um alegado pagamento em dinheiro iliba o Ronaldo de tudo.
A maior parte dos portugueses acha, e bem, que a violação é um crime abjecto e que deveria ser severamente punido. Porque é que isso muda de repente quando se trata de alguém de quem gostamos?
Porque aos ídolos não lhes reconhecem dimensão humana para errar.
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