quarta-feira, 19 de julho de 2023

Tour 2023 - V

Tadej Pogacar: ″Era como se nada chegasse às minhas pernas, tudo ficava no  estômago...″


Se ontem matou, hoje Vinguegard esfolou. Era a 17ª etapa, entre  Saint-Gervais Mont-Blanc e Courchevel, não chegava aos 166 quilómetros mas tinha cinco contagens de montanha. Cinco contagens porque se calhar não dava para contar mais, porque as subidas eram bem mais. A própria meta final estava no fim de uma tremenda subida, e já não contava nada para a classificação da montanha. Seis quilómetros antes, no Col de la Loze, atingia-se o ponto mais alto deste Tour, a mais de 2300 metros de altitude, com pendentes acima dos 20% nos últimos quatro quilómetros.


Era a etapa rainha deste 110º Tour de France, tida por decisiva. E foi certamente a mais decisiva, não apenas da edição deste ano, mas dos últimos largos anos.


Foi corrida como o são as etapas de alta montanha. Uma fuga numerosa, a formar-se bem cedo, e cheia de gente que sabe subir, para, depois, as equipas dos principais corredores agarrarem a corrida até a entregarem aos que fazem a diferença. 


Pogacar sofreu uma queda, e ficou com os membros superiores e inferiores esquerdos algo esfarrapados. Era um contratempo, talvez um mau pronúncio, mas nunca ficou a ideia que tivesse mais consequências. Vingegaard e a sua equipa não quiseram aproveitar o incidente para atacar - e só lhes ficou bem! - e Pogacar regressou ao pelotão, para por lá se manter sem grandes sinais de inferioridade.


Faltavam 6 quilómetros para o alto do Col de la Loze e o grupo do camisola amarela, onde seguiam os primeiros classificados, era puxado pela Ineos, com os olhos postos no último lugar do pódio, que Carlos Rodriguez tinha para atacar, e Pogacar cedeu. Não conseguiu acompanhar o ritmo e começou a ficar para trás. 


Adam Yates, com o terceiro lugar da geral para defender, continuou no grupo - a Emirates, e o próprio Pogacar perceberam que nada havia a fazer - e foi o espanhol Marco Soler a "cair" da fuga (onde vinha há muitos quilómetros preso por elásticos) para fazer o que podia pelo líder. Não podia muito. Ainda assim, o pouco que podia era muito para o que podia Pogacar. 


Rapidamente, e sem que Vingegaard mexesse uma palha, limitando-se a seguir o ritmo dos da frente, Pogacar perdeu bem mais de um minuto. Quando, a 4 quilómetros do alto o camisola amarela resolveu atacar a corrida, e tentar ainda ganhar a etapa, a diferença para Pogacar começou a ganhar contornos de escândalo.


Vingegaard fez então uma notável demonstração de poder, ultrapassando sucessivamente dezenas dos ciclistas da fuga. Não lhe valeu para melhor que o quarto lugar na meta (atrás de Felix Gall, Simon Yates e Pedro Bilbao, que já tinha ultrapassado, mas que recuperou em cima da dificílima linha de meta), mas valeu-lhe quase 6 minutos para Pogacar, que Soler levou penosamente até à meta, onde seria 22º, a 7 minutos e 37 segundos de Gall. 


E o que era um Tour discutido nos segundos das bonificações, de repente acabou na maior das diferenças dos últimos largos anos. No ano passado Vingegaard venceu sem que conseguisse convencer. Pogacar tinha sido negligente com a alimentação, e acabou traído pelo excesso de confiança. Vingegaard, tinha apenas sido mais humilde. E dizia-se, teve sorte. 


Ontem, Vingegaard mostrou estar muito melhor que o esloveno. Hoje, mostrou estar muitíssimo melhor. Pogacar é, tudo o indica, melhor ciclista. Mas nunca conseguiu melhor. O descalabro de hoje deve-se provavelmente muito mais à clara derrota no contra-relógio de ontem que a qualquer outro factor. Incluído o da queda de hoje.


O vencedor do Tour está encontrado. O pódio, provavelmente também. Adam Yates hoje ganhou claramente a Carlos Rodriguez. A não ser que os problemas de Pogacar se agravem, e o descalabro continue nos próximos dias. Ou que nem sequer encontre condições para continuar...


O que, pelas manifestações de apoio e carinho dos colegas de equipa, hoje na meta, seria verdadeiramente inaceitável!

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