terça-feira, 22 de março de 2011

A CRISE POLÍTICA II

Por Eduardo Louro


 


A opinião que ontem aqui deixei – que estamos todos bem mais preocupados em nos vermos livres de Sócrates e sus muchachos do que com a crise política – não pega nas hostes socialistas, repentinamente transformadas nos mais altos arautos da salvação nacional.


É estranho que, enquanto Sócrates e os seus governos foram construindo o percurso que nos trouxe até aqui, ninguém os tenha ouvido. Agora falam todos, e todos com a suprema preocupação de poupar o país a uma crise política: de António Costa já aqui se falou por mais do que uma vez, e em particular daquela tirada sobre a incompetência política de Teixeira dos Santos, saída da cartola que nem uma bóia de salvação atirada ao náufrago Sócrates. Mário Soares faz hoje um “apelo angustiado” ao Presidente da República e até Ferro Rodrigues, que julgávamos esquecido – confortavelmente esquecido, deve adiantar-se - lá para a embaixada da OCDE, diz “que ainda há tempo para evitar uma crise política que seria desastrosa”!


Vamos admitir que têm razão! Vamos tentar admitir que a pior coisa que nos pode acontecer é a demissão deste governo…


Já tentei! Não fui capaz, confesso. Não me consegue entrar na cabeça que o pior cenário que temos pela frente seja a demissão deste governo. Eu tenho é dificuldade em dissociar os cenários de catástrofe deste governo!


Acresce que admitir essa hipótese levar-me-ia a uma outra conclusão muito difícil de aceitar. Seria esta: os verdadeiros patriotas, as únicas pessoas que se preocupam com a país neste momento, os únicos portugueses que querem verdadeiramente salvar Portugal desta crise são os socialistas, com Mário Soares à cabeça!


Tento aceitar esta conclusão e também não consigo…


Por isso, posso estar enganado mas continuo a achar, conforme ontem aqui escrevi, que não há motivo nenhum para segurar Sócrates mais tempo. Apesar de, para surpresa minha, ele não ser assim tão aldrabão como se diz por aí. Explico porquê:


Depois de apanhado na curva Sócrates viera dizer que o PEC que apresentara em Bruxelas, e que Bruxelas aplaudira em comunicado, não era para levar muito a sério. Insinuou-o na entrevista à SIC Notícias, disse-o pela boca de António Costa e repetiu-o sucessivamente a partir daí, anunciando a disponibilidade para o negociar. Ainda hoje, as Instituições Europeias – e designadamente Jean Claude Juncker – vinham dizer claramente que os compromissos assumidos por Portugal eram mesmo para cumprir. Mas também já hoje, sabe-se lá por que carga de água, as mesmas Instituições contrariam o mesmo Juncker e dizem que o PEC entregue na semana passada, e que eles tanto elogiaram, é afinal negociável! Precisamente como Sócrates vinha dizendo…


Há coisas extraordinárias neste país e neste governo! Mas também nesta Europa, não acham?


 

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