O futebolês tem destas coisas: na anterior edição o tema era a goleada. Como, por estranho que pareça, depois da goleada se voltou a falar de túnel … o tema de hoje só poderia ser o túnel!
Porque logo se voltou a falar no túnel, nessa arma de arremesso que alguns criaram na época passada e que agora voltam a tentar ressuscitar. O Hulk está em grande forma, assustou (e de que maneira!) o Jorge Jesus, e lá se volta a falar em túneis, como se fosse possível trocar de culpados, inverter a realidade ou mesmo esquecer um túnel do terror que esteve á guarda de um famoso guarda da PSP, mais influente que o comandante geral.
Mas não é desse túnel que vou falar. Nem tão pouco do verdadeiro túnel do futebolês, aquele gesto técnico que não mata mas desmoraliza como nenhum outro. Desse já aqui falei como uma das maiores maldades que se podem praticar num jogo de futebol.
O túnel de aqui quero falar é outro.
Entre o muito que se escreveu sobre o desastre do Benfica no Dragão houve alguém que o comparou a um cataclismo numa mina, sugerindo-me o drama daqueles 33 mineiros chilenos.
Aquilo mais parecia uma equipa de mineiros abandonados por uma estrutura que não lhes criou as condições mínimas para que pudessem desenvolver o seu trabalho. E, ao contrário dos mineiros chilenos, sem sequer um chefe de turno que pudesse emergir e assumir a liderança que permitisse recuperar alguma da ordem perdida…
Agora há que começar a escavar o túnel que os há-de trazer de volta. E que proceder a uma avaliação séria do que falhou, do que os enterrou lá em baixo!
Começaria por aqui. Já aqui falei por demais no erro da supertaça, que desde logo mostrou a deficiente preparação da época, que se tentou esconder num discurso errático (saídas de Di Maria e Ramires, antes dados por convenientemente substituídos), inoportuno (o Hapoel como a surpresa da Champions ou a normalidade do Benfica ganhar em França) e desmobilizador (o insubstituível Cardozo), que culminou, agora, numa nota de culpa muito simples: Hulk e os jogadores que não o conseguiram parar!
Diz-se por aí que a estrutura do Benfica não soube gerir o sucesso. Não sei se não soube gerir o sucesso, sei que não soube gerir o que tinha que gerir. O topo – leia-se Luís Filipe Vieira (LFV) – não soube gerir nem o ego nem o espaço do Jorge Jesus, permitindo-lhe que extravasasse funções e entrasse em esferas de decisão que deveriam constar de outras competências. Que, por sua vez, ao arrepio do princípio de Peter e inchado pelo sucesso, se demitiu da gestão dos imensos recursos que tinha à disposição para, de mestre da táctica, passar a catedrático do futebol, matando a maior e a mais apreciada das virtudes: a humildade, o primeiro elo da cadeia do sucesso.
Já aqui me referi a Jesus à luz de um princípio do Prof. Manuel Sérgio: “Pode saber-se muito de futebol mas, quem só sabe de futebol, nem de futebol sabe”. A gestão de uma enormidade de factores que actualmente são determinantes para marcar a fronteira entre o sucesso e o insucesso no futebol, entre os quais recursos humanos tão especiais como são os jogadores de futebol de topo, dificilmente estará ao alcance de quem apenas saiba, mesmo que muito, de futebol.
Mais importante e decisivo que inventar na constituição e disposição da equipa no Dragão, foi a evidente demonstração do medo de jogar com o Porto. Jesus ressuscitou, não Lázaro, como há 2 mil anos, mas um fantasma de décadas que se julgava definitivamente morto e enterrado! Um medo que já vinha de trás e que aquele último quarto de hora do jogo com o Lyon, como aqui se previra a semana passada, transformou em terror. Terror que a goleada do Dragão transforma em pesadelo, numa escalada a que há que saber pôr fim de imediato: o tal túnel de resgate a que há que deitar mãos!
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