terça-feira, 14 de setembro de 2010

Reposições #4- Alemães*

Por Eduardo Louro


 


Confesso que, ao contrário da minha filha mais velha, a Joana, que desde pequena sempre foi uma admiradora dos alemães, e com justificadíssimas razões, entre as quais a forma como souberam renascer dos imensos dramas de duas guerras mundiais consecutivas e o rigor da organização social, eu nunca fui um particular entusiasta da coisa alemã, à óbvia excepção dos seus produtos e das suas tecnologias. Aí há muito que sou o mais fanático dos alemães!


Comecei por apresentar este antagonismo emocional com a minha filha para salientar a forma como os acontecimentos pesam em função da sua proximidade com cada geração. A minha foi ainda muito marcada pelo nazismo, não tanto de forma directa mas naquilo que foi transportado para o regime em que crescemos. De modo que via aquela língua como uma coisa agressiva, quase que emitida a partir de uma boca preenchida por aquele bigodinho ridículo…Depois, confesso que no futebol, aquela coisa deles não jogarem nada mas ganharem sempre, também não contribuía nada para captar as minhas simpatias.


Enfim, mas tudo isso já ficou para trás e, agora sou, também eu, um admirador, já não só dos carros e dos equipamentos alemães, mas dos próprios alemães. E olhem que é coisa recente!


O primeiro passo foi dado através de uma estória que envolvia um alemão, um experimentado marinheiro português, uma prestimosa assistente de bordo, e a personagem principal: uma genoa. Nem vale a pena contar a estória, nem teria espaço para o fazer. Fica apenas o registo do meu primeiro momento de aproximação simpática a um alemão!


Pouco depois, dava eu próprio aqui conta de um gesto só ao alcance dos grandes cidadãos: um multimilionário alemão, Dieter Lehmkuhl de seu nome, quando o seu governo anunciava baixar os impostos, tomava a iniciativa de promover o lançamento de um imposto apenas para eles próprios, para os multimilionários. Já não era necessário mais nada para, definitivamente, me tornar num grande admirador dos alemães. Afinal isto não é possível em mais nenhuma parte do mundo!


Mas não é que na passada semana tomo conhecimento de mais um gesto nobre de uma cidadã alemã? Conta-se em poucas palavras: a senhora era gerente bancária, e geria contas de gente de baixos recursos, que muitas vezes as deixava, se bem que por pequenos montantes, a descoberto, com todas as implicações que bem conhecemos, e de gente como a do tal senhor. Então a senhora transferia destas últimas os valores necessários para que os desgraçados não fossem ainda mais desgraçados. Logo que essas contas estivessem regularizadas pelos seus titulares voltava a repor os valores nas contas mais abastadas.


Aí pensei quão injusto eu havia sido para um povo que é composto por pessoas como estas!


Mas a história não acaba aqui! Porque alguns dos ditos desgraçados, quando viram dinheiro na conta voltaram a gastá-lo, a dita senhora não conseguira repor todos os valores. Por isso, mas sem utilizar um único cêntimo em proveito próprio, agora reformada, a senhora tem de dispor da totalidade da sua reforma para ressarcir os titulares das contas mais abonadas, que não conseguira repor.


Cheguei então a pensar pedir ao tal dito senhor que lhe desse uma ajudinha, porque bem a merece!


Em Portugal temos muitas histórias parecidas… diferem é no destino dado ao dinheiro. É também essa pequena diferença que nos faz tão diferentes de um povo que merece ser admirado!


 


 


 


*Publicado no Vila Forte em Dezembro de 2009

5 comentários:

  1. Olá !

    É sempre inútil ter preconceitos contra um povo.

    E os primeiros resistentes contra o nazismo foram os Alemães. E também foram os primeiros a experimentarem os campos da morte.

    Tive imensos camaradas alemães e alemãs.

    Era na altura em que cada liceu Francês recebia turmas inteiras de Alemães. Era preciso esquecer a guerra e construir a Europa. O que mais nos marcava era a amnésia total dos nossos camaradas Alemães quanto à guerra. Nada sabiam do passado. Para eles, a história da Alemanha começava em 1945 ( era a época da rfa-rda ).

    A cultura Alemã é essencialmente ianqui, mesmo se hoje tenta recuperar o passado.

    Quando se atravessava a Alemanha, nos inter-cambios, o número de bases ianqui era visível e os carros não eram mais que produtos de surcussais ianquis ( opel -general ford )

    Com o Nazismo, a cultura Alemã sofreu uma hemorragia da qual dificilmente se levantará no imediato.

    Pessoalmemte, gsto da literatura Alemã. Mas acho que após 1945 não saiu nada de novo. Infelizmente.

    Poder-me-ão citar Berlin. Mas não vejo em quê esta cidade é criativa.

    Talvez seja interessante pensar porque é que o Alemão é cada vez menos escolhido como língua de ensino.

    Aquela que era tida pela língua do rigor, do classicismo, foi superada pelo espanhol ( o brasileiro vem logo atrás ) pelo barroco

    Tanto melhor ? Claro que não. O ideal seria o equilibrio.

    Espero não ter dado muitos erros em Brasileiro ?

    Nuno

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    1. Viva Nuno,

      Muito gosto em tê-lo de novo por cá.
      Não tinha a noção desse fenómeno de “migração” de alemães para os liceus franceses embora tivesse a ideia clara do enorme esforço que fizeram para esquecer a guerra, para se demarcarem de uma história que os envergonhava.
      Não sei se a perda de influência da língua alemã a que se refere resultará também disso. Creio que, apesar de tudo, esse desinteresse pelo alemão é consequência da “ianquização” que refere com a globalização. A generalizada utilização do inglês (nascida com a tal “ianquização”) fez com que a língua alemã não crescesse com o crescimento da influência económica da Alemanha no mundo. Por outro lado, e por ter passado ao lado da História do Colonialismo, perde claramente para o espanhol (castelhano) e para o português.
      Mas, neste aspecto, acho bastante mais significativo o que se está a passar com a língua francesa, sempre uma língua bastante mais forte que a alemã, parte activa no processo histórico da colonização através da França e até da Bélgica, sem nenhum revés histórico – antes pelo contrário, a França sempre esteve no que se poderia chamar o lado certo da História e na liderança da cultura europeia – e, no entanto, perdeu e continua a perder peso.
      Este é um tema onde o Nuno tem certamente uma opinião crítica bastante fundamentada e que seria interessante conhecer. Se calhar até daria para publicar um post em seu nome no Quinta Emenda… Que acha? Não há qualquer problema com o português, mas também poderia ser publicado em francês, se fosse esse o seu desejo.
      Fico à espera que possa responder a este meu abusivo convite!
      Um abraço Nuno.
      PS Claro que a língua portuguesa tem a projecção que tem pelo peso do Brasil (onde agora estou). Percebo que tenha enfatizado isso quando se referiu ao brasileiro. Mas valha-nos isso, com acordo ortográfico e tudo, a língua é portuguesa!

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    2. Ainda mais uma achega.
      Eu tenho uma tese que é a seguinte: se todos os países tivessem atingido o mesmo grau de desenvolvimento ao mesmo tempo, no mundo apenas se falaria inglês.
      Na Europa desenvolvida há muito que o inglês é a segunda língua. Na Alemanha é-o há mais tempo não por ser o mais desenvolvido mas pelo tal processo de “ianquização” do período a seguir à guerra.
      Para fazer negócios com esses países não é necessário falar alemão, francês, italiano ou holandês. Basta falar inglês!
      Mas para fazer negócios no mundo agora chamado de emergente é preciso falar castelhano e português.
      Aí está: se não existissem países subdesenvolvidos, agora emergentes, se todos fossem países desenvolvidos, apenas se falaria inglês… Seria isso bom?

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    3. Olá !

      É com prazer que tentarei escrever um post sobre a situação da língua Portuguesa. Ficará para as férias de todos os santos. Ou seja, inícios de Novembro.

      Algumas considerações :

      A história recente da Europa é uma história de guerras. E sobretudo entre a França e a Alemanha ( antes Prússia ). Creio que foi por essa razão que, hoje, todas as ecolas fr estão geminadas com escolas alemãs. E não deixa de ser curioso que essa geminação tenha dado bons frutos. Melhor dizendo há cada vez mais casais mixtos franco alemães.

      Mas creio que o objectivo dos projectos Eramus, Sócrates é também esse : Criar mobilidade e união e conhecimento recíproco junto dos jovens Europeus.

      Essas geminações libertaram a palavra. Se no início era o verbo, este ainda não se conjuga junto dos Alemães que conheceram a guerra ou dos Franceses que colaboraram com o nazismo.

      E até mesmo junto da historiografia Portuguesa : Quantos pt sabem quem é Souza Mendes ? E quem sabe que Salazar mandou descer a bandeira em sinal de luto, aquando da morte de Hitler ?

      Não creio que a cultura Francesa no mundo esteja a declinar. É claro que já não tem a pujança de antigamente. Por exemplo as ementas de Dom Carlos eram apresentadas em Francês. Mas não deixa de ser verdade que os textos teóricos de matemática ( a França continua pioneira ) são escritos primeiro em Francês e, depois, traduzidos. Há mais exemplos.

      Mas talvez tenha razão : A França não é Paris ou vice versa.

      Mas ainda hoje a França está na ponta da cultura.

      Quer se queira ou não, não é um azar se a França é o primeiro destino turístico do mundo, como também não é um azar se a França aparece no topo dos países que melhor qualidade de vida oferecem. É verdade também que com o turboliberalismo de Sarkozy estamos a regressar

      A língua Portuguesa perdeu tempo. O Acordo ortográfico dos anos 1980 foi deitado às urtigas pelos Governos Cavaco Silva e consórcios da extrema esquerda até à extrema direita que não tinham qualquer noção de linguística.

      Todavia : Não deixa de ser curioso que o primeiro país a eleger um presidente operário, eleito democraticamente, foi um país de língua Portuguesa. Como também foi um país de língua Portuguesa a eleger um Presidente que não sabia falar Inglês ( Lula / Brasil ) .

      Haverá sempre línguas francas. Hoje é o Inglês. Mas na feira, de segunda até sexta, venderá melhor aquele que saberá falar a língua do comprador ou cliente.

      Deste ponto vista, note que a França é o único país europeu a apresentar o ensino do Português como língua viva no mesmo plano que o Russo, o Espanhol, o Árabe, o Inglês, etc.

      O liceu Louis Le Grande, em Paris, dá um leque de opções loucas. Desde o Chinês, passando pelo Português e Holandês, até ao Vietnamita.

      Mas entrar nesse liceu que é público, visto as notas pedidas, é quase impossível.

      Talvez o que esteja a fazer confusão seja o facto que os intelectuais Franceses não se adaptem à globalização, continuando críticos e exigentes.

      Talvez seja essa exigência que incomode o mundo do twitter. O que não os impediu de eleger José Gil como um dos maiores pensadores do século XX. Na lista, não há nenhum Francês.

      No fundo, penso, quanto à França, que o que atrai e repulsa é a máxima "liberté, egalité, fraternité".

      Talvez seja natural : É uma História muito recente na História da Humanidade.

      Nuno













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    4. Fixe Nuno! Fico à espera desse post.
      Quanto ao resto ... assino por baixo. Se bem que a questão que eu levantava era não tanto sobre o decínio da cultura francessa tout court mas a da língua francesa. Em Portugal parece que já é difícil preencher turmas de francês: a miudagem escolhe o óbvio inglês e o espanhol.
      Um abraço

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