Por Eduardo Louro
Hoje fui a uma consulta médica no hospital. Estava marcada há dois meses (nada mau!), tinha sido confirmada por carta pouco depois da marcação e, no fim-de-semana, tinha recebido por sms um último aviso. Planeei bem a deslocação e, tendo em consideração os imponderáveis do trânsito e do estacionamento, preparei uma almofada de tempo que a prudência aconselha. Resultado: 40 minutos antes da hora estava a entrar no serviço e proceder à confirmação e ao pagamento da consulta!
Tinha um longo período de espera pela frente. Fiz contas: 40 minutos mais, na melhor das hipóteses, meia hora de inevitável atraso dá uma hora e dez minutos! Que fazer com todo esse tempo?
A falta de rotina nestas andanças não ajudava nada. Não tinha comigo um livro, uma revista. Nem sequer o jornal. A loja dos jornais do hospital fica do outro lado – teria de sair e dar uma volta inteira, pelo exterior, ao hospital. Não era opção! Olhei à volta e lá estava, ao canto, a inevitável mesinha coberta de jornais e revistas já amarelecidos, como se tivessem estado ao sol. Não era bom augúrio. Confirmei: aqueles títulos - que não me interessavam minimamente – tinham já alguns dias. Semanas mesmo!
Regressei ao meu ponto de partida, à entrada da sala, donde poderia ouvir o meu nome a sair de uma das portas daqueles gabinetes.
Sentei-me. À minha frente, do outro lado, estava uma senhora com ar rural e aspecto que lhe dava à volta dos 70 anos. Chamou-me a atenção por ter a perna esquerda alongada pela cadeira ao lado, ocupando duas das três cadeiras daquele lugar estratégico da sala. Uma outra mulher de semelhante condição, talvez com menos uns (poucos) anos, acaba de entrar acompanhada pelo marido. Lança um olhar recriminatório sobre aquela perna ali estendida a roubar-lhe um daqueles lugares privilegiados, feitos à sua medida e à do seu marido. A outra finge que não percebe e é o marido que toma a iniciativa de ocupar a única cadeira realmente vaga, obrigando-a a entender. Retira a perna e o oferece o lugar enquanto vai explicando que precisa daquela posição para a perna não inchar, o que leva a nova conviva, enquanto avançava decididamente com o bem preenchido traseiro para a cadeira agora vazia, a fazer aquelas figuras de não … ó …mas deixe-se ficar … E, sem mais intervalos, lançaram-se para uma conversa que não mais despegou. De doenças, claro: uma sempre mais doente que a outra. O marido, visivelmente encantado com a conquista da mulher ali mesmo ao lado, fixava os olhos na televisão e puxava-lhe o braço uma, duas, três vezes: “olha ali aquela cobra na televisão”. Não valia de nada, a mulher não queria saber nem do marido nem da cobra. Aquela conversa é que não largava por nada…
Olho para lado, ali junto ao guichet e vejo duas mulheres a chegar. Bem diferentes das que deixara de observar: ar urbano e relativamente bem-postas. A da frente parece quarentona e seca de carnes: nem bonita nem expressiva – magra, que nem sempre é elegante. A que vem atrás parece-me pouco mais velha e tem um ar balzaquiano: bem cheinha, sem deixar perceber que tinha sido uma moça bonita.
Reparo que se conhecem. E que já não se vêm há muito! Percebo que a conversa chega aos filhos e que sacam dos respectivos telemóveis para se presentearem com as fotografias dos que foram os seus rebentos. De repente aquela voz e aquele sorriso começam a parecer-me familiares: aquele tom de voz e aquelas gargalhadas resgatam uma cara bonita e um sorriso ainda mais bonito daquela figura balzaquiana. Ah! Já sei quem é!
Tinha sido recepcionista numa empresa onde eu trabalhei muitos anos e donde saí há quase vinte. Lembro-me que terá saído um ou dois anos antes. Em resultado, se não estou em erro, de um daqueles romances de trabalho que normalmente dão mau resultado. As duas iam matando saudades e pondo as novidades em dia enquanto eu ia procurando o nome daquele sorriso: Idalina? Não, não me parece… Vieram-me mais três ou quatro nome à cabeça até que, quando ouvia chamar pelo meu – no único sítio onde o poderia ouvir, havia escolhido bem a minha cadeira – se fez luz: Margarida!
Olhei para o relógio e só tinham passado dez minutos da hora marcada. Enquanto me levantava olhei em redor e vi que nem a perna da senhora da frente tinha inchado nem a conversa entre ambas tinha acabado.
Quando saí do gabinete médico a Margarida já lá não estava… Mesmo assim nem sempre é mau não ter um livro à mão!
Fantástico... queria ler mais e saber mais como esses olhos vêm e enaltecem os intervalos da vida.
ResponderEliminarNão se precisa de um livro, quando se pensa como um (dos bons)...
Talvez tenha chegado o momento de explorar outros formatos para além do "Quinta emenda".
Que gentilesa... Mas fico agradecido: obrigado!
ResponderEliminarFinalmente um novo registo no quinta emenda! Adorei!! Afinal ainda é possível acreditar que se pode escrever (e bem!) sobre qualquer coisa que não seja actualidade ou futebol (ou Volta à França...).
ResponderEliminarGostei mesmo muito! Fico à espera de mais...
Está explicada a opção e desligar o computador e de te virares para o "Guerra e Paz". Mas há espaço para tudo... Ou para quase tudo! Chama-se ecletismo!
EliminarUm beijinho.
Leitura recomendada no Delito de Opinião: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3243322.html
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