quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tem de ser evitável que o país arda todos os anos

  Convidada: Clarisse Louro *


 


Os incêndios continuam a devastar o país e a despedaçar-nos a alma. Não sei se este ano arderam mais ou menos hectares que nos anos anteriores, recuso-me a medir a devastação dessa forma, sempre pronta a circunscrever os incêndios à lógica da inevitabilidade, na perspectiva do mal menor, que tende a reduzi-los quase sempre à dimensão de catástrofe natural.


Esta é uma lógica que alimenta uma certa cultura de incêndio que grassa no país que alimenta - e é alimentada, numa espiral viciosa e viciada – a economia que cresce à volta desta catástrofe que atinge em Portugal dimensões como em nenhum outro país. Uma cultura que não se deve a razões exclusivamente climatéricas e que tem raízes profundas na negligência das políticas públicas mas também na sobreposição dos interesses de uns poucos aos de todos os outros.


Negligência das políticas de solos e de florestas, bem patente na forma como os poderes públicos sempre fizeram ouvidos de mercador a mais de quarenta anos de avisos de Gonçalo Ribeiro Teles, o mais autorizado especialista nacional e uma das mais respeitadas e prestigiadas vozes mundiais na matéria. Negligência da política de desenvolvimento regional, que desertificou o interior, acabando com as pessoas, com a pastorícia e com o amanho da terra que mantinham a harmonia e os equilíbrios naturais, em favorecimento dos interesses imobiliários florescentes no litoral. Sobreposição dos interesses da poderosa indústria da celulose, substituindo as espécies autóctones da nossa floresta, adaptadas às condições climatéricas e orológicas do país, por eucaliptos. Que, com o pinheiro, a transforma numa floresta regada com petróleo.


Negligência na política de prevenção, onde o país nada investe para, depois, tudo gastar no combate aos incêndios, alimentando também aí interesses que não podem ser ignorados. Há uma economia do fogo.  Que vive disto, do que arde e do combate ao que arde, perante o olhar complacente do Estado. Que, por exemplo, compra submarinos mas não compra aviões Cannadair. Que compra helicópteros para as Forças Armadas, mas não os compra equipados para o combate a incêndios. Que contrata tudo isto a empresas privadas, que vivem justamente disto…


Há, na própria Organização de cúpula dos bombeiros, estruturas de interesses, mesmo que mesquinhos como sucede na maior parte das vezes. Uma coisa são os bombeiros, os jovens, os homens e as mulheres que colocam as suas vidas ao serviço da comunidade, de comunidades que muitas vezes nem sequer são as suas, e outra sãos as suas estruturas de cúpula.


Há um circo montado à volta dos incêndios. Um circo de Verão com televisões e políticos bronzeados. Com debates estéreis e até com muitas vaidades. Que alimenta esta cultura, que não só banaliza os incêndios como faz deles qualquer coisa tão indispensável a esta época do ano como os festivais de Verão. Que leva muitas vezes mentes mais perversas, ou tão simplesmente mais débeis, a confundir a linha que separa o acto de diversão do acto criminoso. E à dificuldade de distinguir o responsável do irresponsável!


Os detidos, constituídos arguidos e acusados de crimes dos últimos grandes incêndios são maioritariamente jovens. Muito jovens mesmo, alguns mesmo menores. Um deles publicara na sua página do facebook um agradecimento à jovem bombeira Ana Rita Pereira, que perdera a vida no incêndio do Caramulo; o mesmo que, momentos depois, em Tribunal, confessaria tê-lo provocado. Não me parece um mero faits divers!


Este ano os incêndios medem-se em vidas, mais que em hectares ardidos. Talvez seja tempo de olhar para esta unidade de medida para perceber que é imperioso exigir respostas responsáveis a este flagelo. Os fogos florestais não são uma inevitabilidade, longe disso!


Muitas foram já as vidas perdidas, numa lista que continua por fechar. Vidas de jovens, muito jovens na sua maioria, que um dia decidiram colocá-las ao serviço dos outros e que, por isso mesmo, são vidas que valem mais. De mais para serem perdidas desta forma!


Não podemos continuar a aceitar que tudo continue na mesma, ano após ano. Não podemos continuar impávidos e serenos à espera que em Julho, Agosto e Setembro tudo se repita.


 


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

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