quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Doce e amargo*

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De vez em quando há notícias a que, à partida, não prestaríamos sequer atenção, mas que acabam por não nos deixar virar-lhes as costas. Foi o que aconteceu com esta, que não tem nada a ver com a língua portuguesa, mas tem tudo a ver com a língua portuguesa.


Dizia em letras gordas: "No Brasil, gigante da fast food McDonald´s também se chama “Méqui””. E era ilustrada por uma fotografia de uma loja em que, no reclamo, “Méqui” surgia ao lado do conhecido duplo arco (que também sugere o “M”, de McDonald´s). Irresistível!


Fui ler e percebi que se tratava de uma arrojada campanha de marketing deste gigante da globalização, presente em 200 países do mundo e que serve diariamente 70 milhões de clientes, em cerca de 40 mil estabelecimentos. E percebi que a McDonald´s percebeu o jeito que os brasileiros têm para pôr açúcar na língua portuguesa, acrescentando-lhe a musicalidade e a competência expressiva que a transformam numa das mais bonitas – se não mesmo a mais bonita - língua da humanidade. E percebi que percebeu como isso lhe poderia ser útil como instrumento de fidelização à marca.


As opções eram muitas – “Mecão”, “Mecoso”, “Mequizinho”… - mas ficou “Méqui, a meu ver o mais representativo deste gingar da língua, para dar nome a duas lojas, uma em S. Paulo e outra no Rio de Janeiro


Como comecei por dizer, uma notícia que não tem nada a ver com a língua portuguesa, tem tudo a ver com a língua portuguesa. Com a sua dimensão mundial, com a flexibilidade que o Brasil lhe acrescenta todos os dias, e com um potencial afectivo que não escapa aos criativos do Marketing da expressão máxima da globalização onde, por definição, tudo se guia por padrões tão estandardizados quanto o próprio modelo de negócio com que, em 50 anos, conquistaram o mundo.


E lê-se na notícia que não tencionam ficar por aqui. Que, num um mercado mais apetitoso que um Big Mac, o português adocicado faz bem ao negócio.


Acabamos de ler a notícia e ficamos a pensar na triste figura de uns quantos que, sem mais nada em que pensar, um dia se lembraram de parir um acordo ortográfico. Não devem fazer bem ideia do que é uma língua como a portuguesa, mas acham-se especialistas. Já lá vão quase 30 anos, e ainda não perceberam que azedou. Amarga. Sabe mal. Nem se pode cheirar!


* A minha crónica de hoje na Cister FM

8 comentários:

  1. Li o título de relance e, sem mais, supus ser brincadeira. Não era.
    E disseste tudo.

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  2. Muito bom, Eduardo. Não tinha visto.

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  3. Louro, fiquei orgulhoso com este escrito, lá no fundo eu estava convencido que sim, que sabias assobiar, mais, que sabias assobiar em modo tropical, ao sabor da brisa das palmeiras em entardeceres frescos de sol brilhante.
    Eu já dou por mim a dizer que falo brasileiro, e de facto não percebo nada de fatos.
    Entretanto, vou reler um qualquer do Jorge Amado, e sentir o doce embalo de uma rede de baloiço ao som da espuma das ondas do mar da Bahia.
    Parabéns, Eduardo Louro.
    O português para mim é a língua mais bonita, mais completa e mais importante do mundo, e também é a única em que eu me entendo a dizer asneiras. Talvez mais por isso.
    Obrigado.

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  4. Não emprestamos a língua a ninguém. Demo-la para que se fizesse à vida. Para que na diversidade se fizesse maior e melhor, e não para a amputar na pequenez do absurdo seguidista.

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  5. Concordo em absoluta. Aflige-me que o meu filho, como todas as crianças da sua faixa etária, tenha começado a "aprender" a língua na sua forma mutilada. Vamos falando sobre isso e eu, confesso, vou boicotando a nova grafia sempre que posso, mostrando como se escrevia antes deste desacordo, na esperança, talvez absurda, que isto ainda tenha emenda...até podia ficar calada, mas, olhe, também não fico.

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  6. Claro que é concordo em "absoluto", e, por uma vez, a culpa não é do acordo...

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