À medida que os resultados eleitorais foram sendo analisados começamos a surpreender-nos com as circunstâncias em que pela primeira vez, no regime democrático, a extrema direita chega ao Parlamento. Tínhamos mais ou menos por adquirido que o extremismo radical de direita, racista e xenófobo, mesmo que com algum acolhimento em alguns sectores da sociedade portuguesa, nunca teria expressão política que alguma vez lhe permitisse eleger um deputado que fosse. Afinal teve, e mesmo descontando os exageros da excitação do momento, que até já prometem triplicar a votação daqui a quatro anos, e governar daqui a oito, a tendência será mais para subir que para descer.
Mas não é essa a maior surpresa. O mais surpreendente é que este é o resultado da transferência directa de votos do eleitorado comunista. Tal como tínhamos por adquirida a falta de expressão política e eleitoral da extrema direita, dávamos por garantida a inamovibilidade do voto comunista, e por blasfémia qualquer hipótese de transferência para a extrema direita fascista.
Sabíamos que esta transferência de votos, ainda há poucos anos de todo imprevisível e inaceitável, estava a acontecer em muitos pontos da Europa. Sabíamos que, em França, o crescimento da Frente Nacional de Marie Le Pen tinha justamente acontecido assim, com o voto, anteriormente comunista, dos operários das grandes cinturas industirais do país. Mas em Portugal era diferente. Em Portugal o Partido Comunista mantinha-se forte e socialmente activo, enquanto por toda a Europa os seus congéneres há muito que tinham desaparecido.
Dizem alguns analistas que o fenómeno se explica pela globalização, pela transferência das indústrias para outras regiões do globo e pela nova economia dos países mais desenvolvidos, fortemente terciarizada, que tirou referências e futuro às massas proletarizadas, lançando-as para os guetos das sociedades modernas.
Acredito que sim, que seja esta a explicação. Mas também aqui há em Portugal algumas diferenças, e algumas coisas não batem certo. É verdade que poderemos rever esse quadro em zonas sub-urbanas da grande Lisboa, onde essa transferência de voto teve evidente expressão. Mas já não vemos nada disso em muitas zonas do Alentejo, onde esse fenómeno foi igualmente notório.
E lá voltamos, mais que à especificidade portuguesa, à especificidade do Partido Comunista Português. Quando, nos anos 70 e 80, se pôs fora do chamado euro-comunismo, na realidade a aceitação expressa do jogo democrático ocidental, em rotura com a mãe pátria União Soviética, o PCP fechou-se na sua aldeia gaulesa e acrescentou alguns anos ao seu prazo de validade. E isso permitiu-lhe adaptar-se, com sucesso - diga-se - às novas circunstâncias do pós queda do muro de Berlim, enquanto os então poderosos Partidos Comunistas de Itália (de Enrico Berlinguer), de França (de Georges Marchais) ou de Espanha (de Santiago Carrillo) iam desapareceram sem praticamente deixar rasto.
Mais de 30 anos depois todos os outros, com a geringonça, o PCP entrou activamente no jogo, e abandonou o seu último reduto, lá deixando muitos dos seus fiéis, agora perdidos, sem referências e perante mentiras que sempre lhe haviam sido dadas por verdades. E vice-versa.
E esta é a outra face da moeda. A que tem o escudo bem português!
Esta tua reflexão tem resposta, mas de momento não tenho tempo. Volto cá mais logo. Mas 2 pontos rápidos: o racismo e a justiça penalizadora por si só não colocam o Chega na Direita mais extrema - o conservadorismo social não lhes passa disso. É compatível com a transferência de votos dos menos ideológicos. 2. Economicamente pouco discurso tem, logo desconhece-se a posição face ao Estado Social (ao contrário do IL que diz bem ao que vem). Também nisso não é a transferência incompatível.
ResponderEliminarResta perceber se o Chega é um fenómeno Cofina ou um movimento político de origem popular.
Enquanto espero pelo teu regresso pego pelo fim: acho que é fenómeno populista "Correio da Manhã"que poderá suscitar alguma adesão popular.
ResponderEliminarA escumalha do Chega diz bem ao que vem: quer extinguir os serviços públicos. Essa escumalha é contra o SNS e a educação pública. Essa escumalha é contra o subsídio de desemprego, um direito que os trabalhadores têm por descontarem para a segurança social. Desejam que Portugal seja como os EUA pelos piores motivos.
ResponderEliminarE por isso temos que combater essa escumalha de todas as formas possíveis. Eles são do mais anti-patriótico que há, pois desconhecem que a nossa constituição reconhece a saúde e a educação como direitos humanos incondicionais.
Quem tem como bandeira acabar com o Estado Social é a IL. O Chega pretende... nem sei bem se é o Chega que pretende, ou se é o Ventura.
ResponderEliminarOra cá estou :)
ResponderEliminarEm números absolutos, não me parece impossível esta transferência. Pelos pontos que deixei, também me parece compatível.
Mas:
Se por um lado o eleitorado nos 50-60 se possa sentir atemorizado pela falta de emprego e de oportunidades, e se deixe levar pelo discurso de "eles tiram-nos os lugares e os subsídios" e tudo o mais que dizem que eles tiram, por outro este eleitorado não era assim tão lato que contivesse tantos eleitores.
Portanto, a compatibilidade defronta a probabilidade. E penso que sai a perder. Porque alguns votos, sim, pode ter sofrido tal transferência (não há impossibilidades), mas parece mais uma deslocação sequencial à direita - os eleitores da Geringonça não terão percebido o peso desta, ou terão gostado de que o PS actuasse muitas vezes à revelia dos acordos, ou sentem-se mais confiantes com uma maioria absoluta. Não sei. Mas o PSD é que se fragmentou, e não acredito que os votos do CDS tenham ido para o PS (nem cancelaram a campanha pelo homem que lhes fundou o partido e cujo retrato mandaram para o Rato, recordas?), para o Aliança ou para o Iniciativa Liberal. Não, parece-me que o Chega bebeu muito entre abstencionistas e democratas cristãos desiludidos com Cristas.
Se o TEM pegar no CDS, verás como chegaram daí...
Olha que "o algodão não engana". No Alentejo foi onde o tipo teve mais votos. Na grande Lisboa, Mem Martins é outro exemplo. Mas essa é apenas uma face da moeda. Que tem duas, como todas...
ResponderEliminarNão aposto fichas. Aguardo.
ResponderEliminarO Alentejo tem derrapado para o PS, e continuando a dizer ser possível não vejo que seja provável.