
O Presidente Marcelo acabou de iniciar o seu segundo, e último, mandato prometendo ser o mesmo do primeiro, promessa que ilustrou com a repetição, praticamente passo por passo, de todos os que tinha dado na sua primeira tomada de posse.
Foi o mesmo na tomada de posse do segundo mandato, mas é impossível que seja o mesmo até ao fim. Porque é essa a realidade histórica em Portugal - o segundo mandato presidencial é sempre muito diferente do primeiro. Não porque as circunstâncias do país o imponham - e desta vez, impondo-o ou não, elas mudarão como provavelmente nunca tenham mudado - mas porque a circunstância do presidente é distinta. No primeiro mandato o objectivo central é alargar a sua base eleitoral, para garantir a reeleição. Atingido esse objectivo, já sem nada a perder, e re-legitimado, o presidente revela-se em toda a sua plenitude, e solta todos os esqueletos do armário. Tem sido sempre assim, com todos os presidentes. Foi assim com Eanes, que até inspirou e promoveu a constituição de um Partido. Foi assim com Soares, a romper com Cavaco e a ridicularizá-lo. Foi assim com Sampaio que, mesmo que o menos assim de todos, foi o primeiro a dissolver o Parlamento. E foi mais tristemente assim com Cavaco, a revelar todo o fel meio escondido durante anos.
E será também assim com Marcelo, mesmo com uma personalidade completamente distinta de qualquer dos seus antecessores. É certo que todos julgamos que conhecemos melhor Marcelo do que conhecíamos qualquer deles, e que estamos convencidos que não tem lados obscuros, escondidos na sombra de uma personagem de afecto fácil e coração aberto. E que admitimos ele é mesmo assim, e vai ser sempre assim, como a Gabriela, de Jorge Amado.
Mas também sabemos que, sendo assim, ele é um catavento, como dizia Passos Coelho (lembram-se?), sempre disponível para dançar conforme sopre o vento, ou pronto a apanhar qualquer onda que lhe passe por perto.
Não é portanto na personalidade de Marcelo que encontraremos motivos para contrariar a História. Mas também sabemos que desta vez as circunstâncias do país são diversas das anteriores. Por força do mapa político, mas acima de tudo por força da pandemia, e das consequências que ainda não sentimos todos, mas que estão à vista, como inevitáveis.
Enquanto a pandemia se mantiver teremos o mesmo Marcelo. Depois, inevitavelmente não. Na sua própria antevisão do seu mandato, ele já anunciou que "há vários mandatos dentro deste mandato". E percebemos que há pelo menos um, que termina com a pandemia, ou mesmo com esta sua fase aguda. Outro com a legislatura, segura pela própria pandemia e pelo actual quadro político, sem perspectivas de alternativa. E outro com o que resultar das eleições legislativas de 2023. Em que, vislumbrando uma janela política alternativa, procurará sem dúvida intervir activamente.
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