
A corrupção e a criminalidade dentro das forças militares e de segurança tinham um padrão: as multas de trânsito, que muitas vezes acabavam a descambar em autênticos processos de extorsão, nas forças policiais e em especial na GNR, e os aprovisionamentos, nos quartéis militares. Pequena criminalidade, muitas vezes dentro do socialmente aceitável num país de brandos costumes, que facilmente tolera, e até enaltece, o espertismo. Depois, mais tarde, começaram a surgir, aqui e ali, notícias do envolvimento no tráfico de drogas, subindo a parada para outros patamares menos aceitáveis.
A notícia de ontem, do envolvimento de militares portugueses em missão da ONU na República Centro Africana no tráfico de ouro, diamantes e droga, pela dimensão, pela grau de sofisticação das práticas criminosas, e acima de tudo pelo contexto, é outra coisa. Atinge o patamar do crime organizado à mais alta escala da miséria ética e moral.
Militares, e ao que se sabe, jovens formados nas tropas especiais, e alguns já, depois, integrados nas forças de segurança do país, em representação de Portugal numa missão da ONU no terceiro mais pobre país do mundo, onde lidavam quotidanamente com a fome, a guerra, e a mais vil exploração, movidos por uma inqualificável ganância sem limites, usaram o ouro e os diamantes de sangue arrancados por crianças de tenra idade e subnutridas enfiadas em buracos de lama, para alimentar o luxo a milhares de quilómetros de distância, e com ele a sua própria ganância.
Estavam ali, e sabiam porque estavam ali. Viram com os seus próprios olhos, não precisaram que ninguém lhes contasse toda aquela miséria. E sabiam que estavam ali num esforço nacional e internacional para a combater, E ainda assim, escolheram fazer o que são acusados de terem feito.
Estes crimes não ferem apenas a instituição militar que prometeram honrar, e o país que juraram defender. Matam a sangue frio a honra, a esperança e o futuro!
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