sexta-feira, 11 de março de 2022

Ao lado da guerra

Guerra da Ucrânia inaugura nova era na informação em tempo real - Notícias  - R7 Tecnologia e Ciência


Já na terceira semana da guerra, desta guerra que é já o maior conflito armado na Europa desde a II Guerra Mundial, poderemos visitar alguns dos seus dramas à margem dos mais marcantes que são, evidentemente o sofrimento, a destruição, a morte e tudo o que é a desumanidade de se alimenta. E que a alimenta.

 

Esta é uma guerra diferente das outras. Em todas há a tendência para as dividir entre bons e maus, e nós colocarmo-ns sempre do lado dos bons. O lado dos bons é sempre o nosso, onde quer que nos posicionemos. Nesta Putin facilitou-nos a vida, é certo. Mas não foi só ele. Foi também a cobertura mediática, e essa nunca foi tão grande.

 

Em todas as guerras tivemos imagens de destruição, de cidades arrasadas, de espoliados, e notícias de refugiados. Nesta tivemo-las ao vivo, diariamente, com rostos e relatos na primeira pessoa. Esta entrou por nós dentro como nenhuma outra tinha antes entrado, e mostrou-nos a mentira de muitos dos pressupostos de uma das partes - a do agressor Putin. Se a Ucrânia não existia como país, mostrou-nos não só que existia, como o conhecíamos, mas que existia também a nação, que desconhecíamos. E que provavelmente não existia antes. Se os ucranianos fossem povo russo não poderiam ser bombardeados, expulsos e sacrificados como estão a ser.

 

Foi por isso fácil escolher o nosso lado nesta guerra. Mas para o espaço mediático não bastou que escolhêssemos o lado certo da guerra. Foi preciso fazê-lo sem vírgulas nem reticências em cada frase. Sem advérbios explicativos. Apenas com pontos de exclamação!

 

Qualquer "mas" era a ponte para o outro lado. Como qualquer explicação, como sucedeu com os comentários dos militares nas televisões, que tanta polémica abriu. Uma ponte que não servia de passagem, mas de expulsão para o outro lado.

 

Nesta espécie de orgia comunicativa foram, há uma semana, por decisão do Conselho Europeu, encerradas as televisões russas que operavam na Europa, um silenciamento inédito e - francamente - pouco consentâneo com os nossos valores, os do nosso lado. E, ontem, aberta a permissão no Facebook e no Instagram a apelos á violência contra russos e a ameaças de morte a Putin e a Lucashenco sempre que o assunto seja a invasão na Ucrânia. Como se também isso caiba nos nossos valores. por muito que caiba nos dos interesses da Meta, do Sr Zuckerberg, onde a violência, tout court, e os apelos à dita, são pratos fortes do menu.

 

Percebido isto, direi que talvez se possa começar a introduzir vírgulas e reticências nas frases. Mais, que talvez já dê para substituir alguns pontos de exclamação por pontos de interrogação. É que só esses provocam respostas, em particular a alguns dos outros dramas desta guerra.

 

3 comentários:

  1. "E, ontem, aberta a permissão no Facebook e no Instagram a apelos á violência contra russos e a ameaças de morte a Putin e a Lucashenco sempre que o assunto seja a invasão na Ucrânia."
    Que se apele à morte de Putin e de Lukashenko é uma coisa, eu próprio acho que esses dois senhores deviam falecer, e ontem já era tarde. Agora o discurso de ódio contra pessoas que têm o azar de partilhar a nacionalidade com o ditador Putin não pode ser tolerado. E, tal como em 2016 no Brexit e na eleição de Trump, o Facebook está mais uma vez a promover a xenofobia, mas do oligarca americano Mark Zuckerberg ninguém fala.
    Morte ao ditador Putin! Morte à xenofobia!

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  2. Eu que o diga. Quando procuro explicações sobre esta guerra - porquê, porquê agora, porquê a Ucrania - sou acusado de apoiar Putin. Ora nunca fui com a cara dele e nem confundo Putin com a Rússia, menos ainda com o povo russo, que tem dado algumas lições de coragem, protestando publicamente contra a invasão.
    Sendo que a guerra muito raramente tem justificação, não é menos verdade que há razões, geralmente feias e complexas, para a fazer. Desde que estou neste mundo nunca deixou de haver alguma guerra em qualquer parte do planeta.
    Lamento que os media afinem todos pelo mesmo diapasão, e simplifiquem os factos como se fôssemos simplórios. A única coisa simples é que esta guerra não devia existir. Mas existe e é importante perceber porquê. E isso não é justificar Putin.

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