segunda-feira, 6 de junho de 2022

No domínio do absurdo

Costa e Temido relativizam: casos positivos sobem porque há mais testes


Temos um sério problema com os salários em Portugal. 


As empresas queixam-se de falta de mão de obra. Queixam-se de falta de gente para trabalhar as dos sectores que recorrem a trabalhadores menos qualificados - como os sectores do turismo e da construção. E queixam-se de falta de trabalhadores qualificados as que pretendem recrutar talento. Isto é: a procura é maior que a oferta mas, ao contrário da lei máxima da economia de mercado, os salários não sobem.


As primeiras oferecem o salário mínimo e procuram pessoas para trabalhos duros e com horários reais superiores às 40 horas semanais. E parece que não há gente disponível para isso, para muito trabalho por pouco dinheiro. As segundas - estudos dizem que  85% dos empregadores têm dificuldade em contratar trabalhadores qualificados - procuram talentos que o país formou, mas que cá não quiseram - e continuam a não querer - ficar. Porque cá as empresas se habituaram a pagar pouco pelo muito que procuram.


As empresas que operam na lógica do salário mínimo daí não saem. A imigração haverá de lhe resolver o problema. E as que procuram e não encontram talento não têm forma de daí saírem.


Temos um problema de salários, e com ele um grave problema de qualificação da nossa economia.


Na campanha eleitoral do início do ano o primeiro-ministro reconheceu este problema. Há dois dias, no sábado, voltou a ele, sublinhando que há um diferencial entre o peso dos salários no conjunto da riqueza nacional (45%) e o que têm no conjunto dos países da União Europeia (48%), concluindo que “isto significa que temos nos próximo quatro anos de conseguir fazer todos em conjunto - a sociedade, o Estado, as empresas - um esforço para que o peso dos salários dos portugueses no PIB seja, pelo menos, idêntico ao que existe na média europeia”. O que  “implica um aumento de 20% do salário médio no país”. “Esta é a meta a que nos temos de propor e que temos de ser capazes de, colectivamente, alcançar”, acrescentou.


É a meta colectiva "da sociedade, do Estado e das empresas", enfatizou. O governo pode influenciar a "sociedade" e as "empresas". No "Estado", decide!


E o que é decidiu?


Decidiu nem sequer ajustar os salários à inflação. Salários que, depois daquele golpe eleitoralista de Sócrates, há 13 anos, só variaram para baixo. E decide abdicar de princípios e critérios de gestão de recursos humanos para captar e manter os melhores. Isso é transversal a toda a Administração Pública, e a todos os ministérios, mas é no da Saúde, e no SNS, que atinge o domínio do absurdo.


Um absurdo que já destruiu o SNS, e que levará à completa eliminação do que era a jóia da coroa do nosso Estado Social. O país - o Estado, todos nós - forma profissionais de saúde - médicos e enfermeiros - em quantidade suficiente e de qualidade reconhecida por todo o mundo. Mas não os retém, vão saindo a ritmo galopante, do SNS e do país. E por isso faltam cada vez mais profissionais de saúde no SNS. E nos hospitais cada vez mais ainda. 


E no entanto vamos ouvindo sistematicamente o governo falar do aumento do investimento na Saúde. Este ano são mais não sei quantos milhares de milhões de euros, em cima de outros tantos no ano anterior.


Paradoxo? Não, apenas absurdo.


Uma peça da SIC Notícias da última semana relata o absurdo que os profissionais de saúde há muito vêm denunciando, mas que a espuma dos dias tem apagado, entre quezílias e falsas questões à volta do público e do privado. Só no primeiro trimestre deste ano o SNS gastou 34 milhões de euros em serviços prestados, chegando a pagar 90 euros á hora a médicos tarefeiros contratados, que comparam com os 20 euros valor médio por hora pago em trabalho suplementar - horas extraordinárias - aos médicos que trabalham no SNS, com um salário médio que pouco passa dos 2 mil euros mês.


Relata ainda a peça que no Centro Hospitalar do Oeste, dos 31 médicos necessários para manter a Urgência, apenas 7 pertencem aos quadros do SNS. Os restantes, 24 - mais do triplo - são contratados. E que são abertos concursos, mas não surgem candidatos.


É assim o absurdo. Sem estratégia de gestão, valorização e reconhecimento dos seus recursos humanos, o Ministério da Saúde vai depois pagar o triplo ou o quádruplo aos profissionais que deixou sair. Mas - pior ainda - não encontra condições salariais e de motivação para manter os profissionais integrados em equipas e ligados aos doentes, para depois contratar, com o triplo do custo, profissionais que se distribuem à tarefa pelos diversos hospitais, hoje aqui, amanhã ali, desligados de qualquer equipa e, mais ainda, dos doentes.


Tão absurdo como o chefe de um governo que decide assim querer ser levado a sério naquela meta colectiva "da sociedade, do Estado e das empresas"!


 

4 comentários:

  1. Caro Eduardo Louro,

    O povo está feliz, se assim não fosse não teria dado a maioria absoluta ao dr Costa
    Pedro Cunha

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  2. Não sei se foi por estar feliz, ou se foi por receio de ficar ainda mais infeliz, caro Pedro Cunha.

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  3. Os números poem a nu o absurdo da situação. Entretanto estou há um ano sem médico de família.
    Há 3 questões que gostaria de colocar a todos os governos;

    Porque razão toda a administração pública (incluindo ministros e deputados) não usa exclusivamente o SNS?

    Porque razão os nossos governantes não usam exclusivamente os transportes públicos nas suas deslocações diárias?

    Porque razão há tantos membros do governo e parlamento com os filhos a estudar no privado?

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  4. Eu apontaria mesmo para a segunda opção. O povo não quis um governo PSD que poderia vir a fazer acordos com a extrema-direita.

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