sexta-feira, 10 de junho de 2022

Uma questão de verdade

Urgência fechada. Grávida perde bebé no hospital das Caldas da Rainha


Há poucos dias, no início da semana, num texto em que o tema central era os salários em Portugal, e o exemplo do Estado em política salarial de gestão de recursos humanos, referia uma série de "absurdos". E em particular o absurdo que se vive no Ministério da Saúde, e no Serviço Nacional de Saúde. Socorri-me de uma peça da SIC Notícias que referia a Urgência no Centro Hospitalar do Oeste. Que hoje, em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, se tornou notícia do dia, saltando para o topo dos telejornais, pela morte de um bebé no Hospital das Caldas da Rainha.


O Hospital não conseguiu garantir a Urgência Obstétrica, e fechou-a. Como já sucedeu em muitos outros hospitais. Como já terá acontecido nesta ou noutras urgências, em outras circunstâncias. E como não terá acontecido noutras ocasiões, em que, mesmo sem condições para garantir o seu funcionamento, se terá recusado a fechá-las. 


Em comunicado, a administração do Centro Hospitalar do Oeste garante “não há nenhum nexo de causalidade estabelecido entre a morte do bebé e as limitações no preenchimento das escalas”.Tanto quanto é já conhecido, mesmo sem que sejam conhecidos os resultados do inquérito aberto, isso é verdade. O bebé terá morrido por uma muito grave e rara complicação obstétrica. Que acontece, e que não teria outro desfecho se a Urgência não estivesse fechada. Nem teria sido outro o desfecho em qualquer Urgência Obstétrica em funcionamento noutra qualquer unidade hospitalar. Tanto quanto é conhecido, apesar de a Urgência estar fechada, foi prestada assistência especializada e apropriada ao parto.


A acontecer em qualquer Urgência Obstétrica em funcionamento, o incomparável sofrimento daqueles pais, e em especial o daquela mãe, não seria diferente daquele que está a viver. O dos profissionais envolvidos - e com a Urgência fechada são muitos os profissionais envolvidos, e não apenas os que intervieram directamente no acto médico propriamente dito, desde logo nos diferentes processos decisão - e o alarme social provocado é que poderia ter sido evitado  Aí, sim, há nexo de causalidade. Não é notícia - mesmo sendo o mesmo o sofrimento dos pais - a morte de um bebé no parto numa Urgência Obstétrica em funcionamento. Nunca deixará de ser notícia alarmante numa unidade hospitalar que a fechou.


A responsabilidade da Administração do Centro Hospitalar do Oeste, e do Ministério da Saúde em última análise, está no procedimento com que pretende esconder a falta de condições para manter as urgências em funcionamento, omitindo à população o seu fecho. Comunica-a ao CODU/INEM - evidentemente - mas nem todas as pessoas chegam à Urgência de um hospital numa ambulância requerida através do 112. As parturientes, na sua esmagadora maioria, chegam pelo seu próprio pé, pelos seus meios. Se não há informação pública do fecho da Urgência, esperam evidentemente encontrá-la em funcionamento, e é para lá que se dirigem. 


É verdade o que é referido no comunicado Centro Hospitalar do Oeste. É verdade que "a urgência externa do Centro Hospitalar do Oeste estava desviada para outros pontos da rede do Serviço Nacional de Saúde", como refere o Ministério da Saúde. Mas é porque falta VERDADE que estas coisas acontecem assim!


 

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