quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Noite mágica em Haifa


Está bem agarrado a raízes profundas este extraordinário futebol do Benfica. Ninguém diria que as sementes que Schemidt começou a semear no início do Verão desenvolveriam tão rapidamente raízes tão sólidas e profundas.


Só essas raízes explicam tudo o que de épico e extraordinário aconteceu nesta noite de glória de Haifa. 


Sem Enzo, até aqui peça fundamental desta máquina de futebol de Schemidt, impedido pelo castigo pelos dois cartões amarelos, havia Aursenes. Já tinha dado garantias de ser capaz de manter a máquina a funcionar em pleno. Só que o norueguês não resistiu mais que meia hora, tendo de sair lesionado. Porque um mal nunca vem só, pelas mesmas razões, e em simultâneo, também Gonçalo Ramos abandonou o jogo. Duas substituições "queimadas" logo à meia hora!


Ficou a ideia que ambas as lesões não seriam motivo de impedimento imediato de ambos. Que o treinador do Benfica simplesmente entendeu não arriscar que pequenas lesões se transformassem em lesões mais graves. E que, sabendo da robustez das raízes, não teve qualquer receio em fazer o que entendeu, e bem, que tinha de fazer.


E isto é bom senso, confiança e coragem!


Apoiado por um ambiente daqueles que empurram qualquer equipa muito para lá dos seus limites, com o estádio repleto de uma massa humana tomada de um entusiasmo fanático, focados no objectivo do terceiro lugar no grupo, que lhes garantia prosseguir a temporada na Liga Europa, o Maccabi Haifa entrou no jogo a todo o gás, pressionando em todos os metros quadrados do campo, e disputando cada bola como se fosse a última.


Nada a que este Benfica não esteja habituado. A equipa sabe o que tem a fazer nessas condições, não treme. Sabe que depois desse tempo vem outro, o seu. E depressa!


Voltou a ser depressa, nesta noite. Bastaram cinco ou seis minutos para o Benfica esvaziar o ímpeto inicial da equipa israelita, e colocar em pleno funcionamento a sua máquina de futebol, e esperar que ela comece a produzir oportunidades de golo.


A primeira chegou de imediato, mas a bola rematada por Gonçalo Ramos preferiu o poste à rede da baliza israelita. Pouco depois, a segunda, num extraordinário remate de Rafa, que o guarda-redes Cohen defendeu de forma verdadeiramente extraordinária. Às três foi de vez: da cabeça de Otamendi, a responder ao passe espectacular de Aursenes a mudar o flanco do jogo, cruzar toda a área,  à cabeça de Gonçalo Ramos para o golo. Tinha o jogo apenas 20 minutos, e já dono. Só o Benfica mandava.


Só que jogo é jogo e, seis minutos depois, o VAR conseguiu convencer o inglês Anthony Taylor que Bah jogara a bola com a mão. Assinalou mais um penálti manhoso - ontem foi também assim que o Sporting foi afastado da Champions e, já em última hora, remetido para a Liga Europa - e o Maccabi empatou.


Nada, mais uma vez, a que o Benfica não esteja habituado. Por isso reagiu, como sempre. Só que logo de imediato surgiram as lesões de Aursenes e Gonçalo Ramos, substituídos por Chiquinho e Musa, e temeu-se pela capacidade de reacção. Até porque as coisas também não estavam a sair bem a Neres.


Nada disso. João Mário recuou para o lado do Florentino, não para fazer de Aursenes, ou de Enzo, mas para fazer o que sabe fazer, e bem, naquela posição. E foi quase como se nada tivesse acontecido.


Mantendo-se o empate, e com o público sempre a puxar pelos jogadores, o Maccabi repetiu na entrada para a segunda parte o que fizera na primeira. E lá voltou o Benfica a fazer, também, o mesmo. Só que, desta vez, mais depressa e ainda melhor!


Bastaram pouco mais de dez minutos para que Musa (finalmente) marcasse, igualmente à terceira oportunidade de golo criada, e acabasse com a resistência israelita, após grande assistência de Bah. Em grande. Dez minutos depois Grimaldo fez o que sabe fazer bem, e marcou o terceiro, num livre primorosamente cobrado, silenciando as bancadas e desbaratando por completo o adversário, já em completo desespero. Mais quatro minutos, e Neres, já recuperado, assistiu para o belíssimo golo de Rafa.


Faltavam dois golos, e mais de um quarto de hora de jogo para, mantendo-se o resultado em Turim, onde o PSG ganhava por 2-1 à Juventus, chegar ao primeiro lugar no grupo.


Tranquilamente, Schemidt decidiu poupar as duas estrelas, que acabavam de construir o quarto golo. Ou refrescar a equipa?


Entraram Diogo Gonçalves e, finalmente, o miúdo Henrique Araújo. O primeiro só não fez o quinto porque a bola teimou em ir outra vez ao poste. O miúdo, em pouco tempo mostrou tudo o que se sabe que vale. E marcou o quinto, a dois minutos dos 90, com selo de marca registada. Aquela desmarcação, e aquela finalização, é marca de Henrique Araújo!


Festejava-se o golo quando, de novo tranquilamente, como se não estivesse a um golo do objectivo maior para esta Champions, Schemidt nos quis dizer que o Lucas Veríssimo está finalmente de volta. Na euforia da celebração quase não dávamos pela entrada do internacional brasileiro, em substituição do menino António.


Faltava um golo. E lá estava João Mário. Em noite de gala, com tanta diversidade de marcadores, merecia ser a ele a marcar o golo mágico. Jogava-se o segundo dos três (mais uma maldade do Sr Taylor) minutos de compensação, e era o final perfeito para uma noite de glória!


O Benfica atingia 14 pontos. Nunca antes lá tinha chegado. O PSG, também. Mas essa era a sua obrigação. Com 16 golos marcados e 7 sofridos. O PSG, também. Tinham empatado ambos os jogos, a um golo. 


Teve de se recorrer ao sexto e penúltimo critério de desempate. O Benfica tinha marcado mais três golos fora de casa que o PSG. Era primeiro no grupo!


Poderia ser pelas bolas nos ferros. Não é. Mas aí também o Benfica ganharia!


Ninguém acreditaria nisto, há meses, na altura do sorteio. Ninguém, ontem,  hoje, ao início do jogo, ou mais ainda ao minuto 30 do jogo, acreditaria ser possível superar a diferença de golos dos ricos de Paris.


O que de melhor que tínhamos para acreditar era que estivéssemos agora a lamentar os golos desperdiçados nos dois jogos com a Juventus, ou mesmo as duas bolas de hoje ao poste. É esta a dimensão épica desta mágica noite de Haifa! 

3 comentários:

  1. Quem ama o Benfica não pode deixar de amar Roger Schmidt, o homem está a fazer desta equipa uma máquina infernal de jogar á bola. Ontem, mesmo sem Enzo, sem Aursnes, a partir dos 32 minutos, sem Neres, que com exceção do lance do 4º golo, passou literalmente ao lado do jogo e sem Chiquinho, que é bom rapaz, mas não tem vida para isto, o Benfica fez história, ao conseguir ultrapassar o PSG, na linha da meta e com recurso a photo finish.
    Rafa foi considerado man of the match, mas foi João Mário o maestro, que dirigiu a orquestra, em mais uma noite de gala.
    Agora venha o diabo e escolha… O Club Brugge.
    Que este outubro vermelho, que se estendeu até novembro, se prolongue até 10 de Junho de 2023, em Instambul.
    Por mim, cancelava-se de imediato o mundial do Catar, estar mais de 1 mês sem ver este Benfica jogar á bola é tempo demais.
    E Pluribus Unum.

    ResponderEliminar
  2. Chiquinho é bom rapaz e tem lugar neste Benfica, como ontem demonstrou. Merece mais oportunidades
    Mais uma noite épica como já tinha sido aquando da recepção à Juventos. Recorde de pontos, 1º lugar num grupo onde prontificavam apenas PSG e Juventus, tudo equipas de dimensão menor.. Quando raio nos calha uma equipa a sério?
    E depois dos jogos para as provas internas e os da champions, constatamos deveras agradados que foi o Caldas quem nos deu mais luta.
    Vai Benfica.
    Abraço a todos os Benfiquistas.

    ResponderEliminar
  3. Completamente de acordo, exceto no que diz respeito ao Chiquinho, mas insisto, é bom rapaz...Como bons rapazes são o Rodrigo Pinho, o Helton Leite e o Gil Dias, mas para jogar no Benfica é curto...Até o próprio Diogo Gonçalves, que ontem até entrou bem, chutando uma bola ao poste, vai ter que pedalar muito para se impor.

    ResponderEliminar

Tour de France - V

  Espectacular, esta 21ª, e penúltima etapa do Tour! Era a etapa rainha, neste segundo dia dos Alpes, e não desiludiu. Começou com Nelson Ol...