
À entrada para a segunda fase do desconfinamento, com a perspectiva da abertura condicionada de creches, escolas, restaurantes e cultos religiosos, já com vista para centros comerciais e para o futebol, mas ainda a ajustar as contas para a abertura da época balnear, e em particular para o acesso às praias, o país ouviu o estrondo abafado do rebentamento de uma crise política.
Era tudo o que não precisávamos neste momento. Combalidos, desconfiados e cheios de incertezas, tudo o que não precisávamos era mesmo de mais incerteza e de mais desconfiança, sob a forma de crise política.
Fica-se com a ideia que com tanta acrimónia da oposição, e com tanta cumplicidade entre o chefe do governo e o Presidente que até o anúncio da recandidatura foi feito, e o tabu desfeito, pelos dois em conjunto, o governo sentiu alguma falta de adrenalina e resolveu dinamitar a sua própria estabilidade.
Mesmo que há muito tenhamos dado conta da guerra surda entre o primeiro-ministro e o ministro das finanças, em grande parte sustentada em distintas, e por vezes até antagónicas, concepções políticas, temos alguma dificuldade em perceber como de repente descambou, e rebentou com estrondo na transferência de mais 850 milhões de euros para o buraco sem fundo em que se tornou o Novo Banco.
Tanta mais dificuldade quanto mais nos pareça que tudo foi propositado. Que a falha de informação, que serve de desculpa a Mário Centeno, não foi uma simples e acidental falha. Tal como a confusão de auditorias, que no fim serviu a António Costa para o desculpar, não foi uma simples e acidental confusão.
Menos dificuldade teremos, no entanto, em perceber a intervenção do Presidente da República no conflito. Que, em vez de apaziguador, como se esperaria, tomou ele próprio a iniciativa de accionar o detonador, ao acusar o ministro das finanças de desleal ao primeiro-ministro.
Se nos lembramos que, logo no início desta pandemia, Mário Centeno, chamado a Belém pelo Presidente especificamente para o efeito, lhe terá dado garantias de se manter no posto durante este período crítico, percebemos qual a deslealdade que realmente doeu a Marcelo.
E deslealdade é coisa que Marcelo até pode esquecer. Mas não perdoa!
* A minha crónica de hoje na Cister FM
Ainda não parei a pensar no assunto, mas nada do pouco que li e ouvi sobre este assunto me faz muito sentido... é tudo tão absurdo, e falamos de políticos tarimbados como Marcelo e Costa, que desconfio que haverá mais qualquer coisa. O que aconteceu percebeu-se logo, mas o porquê ainda não me satisfaz.
ResponderEliminarCIDADÃOS À MARGEM ESTREITA
ResponderEliminarJunto se envia ofício nº 5205
Com os melhores cumprimentos,
DSDA - Correspondência
Secretaria-Geral da Presidência da República
De: Aarmar@sapo.pt [mailto:Aarmar@sapo.pt]
Enviada: 15 de abril de 2020 07:26
Para: Belem <belem@presidencia.pt>
Assunto: SISTEMA ELEITORAL
Tomo a liberdade de solicitar que esta exposição seja distribuída por todos os Exmos. Conselheiros de Estado, para no caso de esta questão ser considerada apropriada e útil possa ser abordada numa próxima oportunidade em conselho a efetuar.
Nestes termos começo por fazer referência ao Artigo 2.º da Constituição da Republica:
"Estado de direito democrático
A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa".
Agora o que se me oferece dizer sobre o tema em titulo::
Um sistema eleitoral ao permitir que os Deputados da Nação sejam burilados nos meandros partidários, para que representantes do povo sejam escolhidos por obediência a gosto das direcções partidárias, não parece ser nem constitucional nem tolerável.
Fica ferido de morte pela base o preceito mais importante da participação cívica, em que é negada aos eleitores uma responsável e individualizada escolha no ato mais importante de cidadania em que lhes é permitido participar.
Será não só justa mas também obrigatória a exigência da sociedade no seu conjunto, para que sejam definidas regras imparciais, respeitáveis e transparentes que não obriguem a aceitar por declarada imposição interesses de acantonamentos, por via de tutelas tão paternalistas como abusivas.
Muito obrigado pela atenção que possa ser dispensada.
Atentamente,
Aarão Marques
BI 1795908
O que diz o oficio nº 5205 oriundo do Conselho de Estado:
“Exmo. Senhor, encarrega-me Sua Excelência o Presidente da Republica de acusar a receção da mensagem de correio electrónico de V.Exa., que mereceu a melhor atenção desta casa civil.
Mais informamos que a competência do Conselho de Estado se encontra estabelecida no artigo nº 145 da Constituição da Republica Portuguesa, pelo que nos termos constitucionais os cidadãos não podem dirigir-se ao Conselho de Estado. Assinado..
Meu comentário: Com o devido respeito, é meu entendimento dever sublinhar que a intenção não foi a de me dirigi diretamente ao Conselho de Estado.
A exposição enviada para os serviços da presidência tinha por objetivo deixar à consideração de Sua Excelência o Presidente da Republica, se o assunto considerados os argumentos aduzidos, poderia conter suficiente interesse para justificar convocação do órgão citado para eventual avaliação de Sua Excelência
Respeitosamente,
Quanto a Marcelo, a minha tese está aí, exposta à vista. É normal haver quem perdoe mas não esqueça, mas Marcelo pode esquecer, como esqueceu a da vichyssoise, mas não perdoa. Já quanto a Costa ... o homem é tarimbado mas não é de ferro.
ResponderEliminarRealmente... Os serviços de Sua Exelência poderiam até achar a questão impertinente. Não podiam era, em vez de responder, atirar com areia para os olhos.
ResponderEliminarObrigado pela atenção, só pretendo acrescentar que já consultei o tal artigo 145, e não vi nada que possa impedir a convocação do conselho de estado para além das situações extremas referidas.
ResponderEliminarSe as altas esferas acham que os preceitos constitucionais estão a ser cumpridos no que respeita a um Estado de direito democrático, nomeadamente no que respeita ao aprofundamento da democracia participativa, então digo-lhes cara a cara que em vez de respeito pelo povo, temem a sua participação critica que lhes possa morder os calcanhares em obscuros, eticamente reprováveis e ilegítimos interesses pessoais e de casulo. .