quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Vuelta 2025 (I)


Vai já quase a meio, a 90ª Vuelta a España. Começou em Itália, no Piemonte, pela primeira vez. Partiu de Turim, a 23 de Agosto. Passou por França. Começou a aquecer em Andorra e está nesta segunda semana quase incandescente na alta montanha do norte de Espanha.


Vingegaard vai de vermelho, depois de ter vestido a camisola símbolo da liderança pela terceira vez. Vestiu-a pela primeira vez  logo à segunda etapa, ainda em Itália. À quarta, a primeira em França, passou-a (foi mesmo assim, quis ver-se livre dela) para o francês Gaudu, para a voltar a vestir no dia seguinte, no contra-relógio colectivo de Figueres, ganho pela UAE, do João Almeida. Voltou a despi-la - a Visma, a sua equipa, não queria, de todo, suportar o peso da vermelha - no dia seguinte, à sexta etapa, em Pal, em Andorra, para a entregar ao norueguês Traeen. Ontem, na 10ª etapa, em El Ferial Larra Belagua, na segunda vez em que o australiano J. Vine ganhou, vestiu-a pela terceira vez.


Às três é de vez?


A etapa de hoje, a 11ª, corrida em Bilbau, sempre a subir e a descer, não teve vencedor. Manifestações em favor da Palestina, aproveitando a presença no pelotão da equipa de Israel, precisamente patrocinada pelo estado israelita, colocaram em causa a segurança dos corredores na meta, pelo que a organização decidiu anular a chegada, e antecipar o final da etapa em 3 quilómetros.


Incidente à parte - se é que a anulação de uma chegada à meta se pode considerar mero incidente -, esta etapa não diferiu muitos das três últimas, a que antecedeu, e as duas que se seguiram ao primeiro dia de descanso, na segunda-feira. Três etapas de montanha que, se não decidiram nada, definiram muita coisa.


A primeira é que o britânico Pidcokc (Q 36,5), apontado como candidato a entrar no top ten, é um claro candidato ao pódio. Foi protagonista sempre que as dificuldades surgiram, e foi hoje o protagonista principal, acabando por ser o mais prejudicado com a anulação da chegada, porque tinha tudo para ser o vencedor da etapa.


A segunda é que Vingegaard não precisa de estar no melhor da sua forma - e não parece que esteja,  apesar de já ter ganhado por duas vezes - para ganhar a Vuelta. Porque dispõe de uma verdadeira equipa ao seu serviço. Para além de ser composta por grandes ciclistas, a Visma é um bloco que nunca o abandona. E isso vê-se a cada quilómetro de cada etapa. Vingegaard nunca está sozinho, tem sempre três ou quatro colegas de equipa a protegê-lo até à altura das decisões. Ou a lançá-lo estrategicamente, como aconteceu no domingo, na nona etapa (Alfaro-Estacion de Esqui de Valdezcaray), quando subitamente, e a 10 quilómetros da meta, atacaram em bloco para o levar à à segunda vitória e à primeira vez em que, em estrada, ganhou tempo a João Almeida. E a Pidcokc à única.


A terceira - a última, mas a mais significativa - é que, decididamente, a UAE não é uma equipa. É um bordel!


A João Almeida, à partida o único adversário capaz de discutir a vitória, em Madrid, com Vingegaard (Pidcokc, ainda é apenas a surpresa do momento), a UAE entregou o dorsal número 1 e mandou-o às feras. Poderia emergir Ayuso. E se isso acontecesse tirava-lhe o tapete. Ficou claro.


Ayuso falhou, bem cedo. Logo na sexta etapa, a primeira que Vine ganhou, quando perdeu 12 minutos. Para no dia seguinte atacar e ganhar a etapa em Andorra. Para se voltar a afundar logo a seguir, na subida à Estacion de Esqui de Valdezcaray, na nona etapa, no domingo, perdendo aí 22 minutos. Nesse dia, no tal em que a Visma lançou o ataque em bloco, Vine perdeu também mais de 13. O João Almeida olhou à volta e para trás - estava sozinho. E foi sozinho, a 10 quilómetros da meta, que foi montanha acima, atrás de Vingegaard. Rebocou Pidcock, que nunca colaborou, e limitou as perdas a 24 segundos. 


Não é de se queixar mas, no fim, queixou-se. E disse o que lhe ia na alma. No dia seguinte, no descanso, obrigaram-no a penitenciar-se. No regresso da corrida, depois do descanso, em vez de uma equipa unida à sua volta, focada em ganhar a Vuelta, João Almeida viu J Vine atacar a corrida para somar pontos para a classificação da montanha. E ganhar a etapa, a segunda. E voltou a ver Ayuso atacar. E Vine. E Soler...


Na decisiva etapa de hoje em Bilbau começou por sair Vine, e andar largos quilómetros em fuga. Depois foi Ayuso. E por fim Soler. Quando chegou a altura da decisão da etapa Vingegaard estava rodeado de quatro companheiros de equipa. João Almeida olhou à volta, olhou para trás, mas nada. Ninguém lá estava. Vine, Ayuso, Soler todos tinham acabado nas fugas em que se meteram. Para se ter uma ideia do que estão a fazer, Soler é o melhor classificado (25º, a 22 minutos do João); Vine é o 44º, a quase 50 minutos e Ayuso o 65º a bem mais de 1 hora.


Sozinho, o João atacou. Uma vez, duas vezes. Havia sempre alguém da Visma para responder, e trazer Vingegaard de volta. Até que foi a vez de Pidckoc atacar. Forte. O bi-campeão do Tour sentiu dificuldade, mas lá conseguiu recuperar a roda do britânico. E foram embora, não até à meta, mas até ao fim, ganhando 10 segundos ao João Almeida.


Que é segundo, a 50 segundos (menos de metade perdidos em estrada, o resto vem das bonificações) de Vingegaard, e com apenas 6 segundos sobre o surpreendente Pidckoc. 


 

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