Hoje era o dia da "etapa rainha" da prova, o da subida ao mítico Alto do Angliru, na Sierra del Aramo, nas Astúrias.
Apesar de ser relativamente recente na Vuelta - apenas passou a entrar no traçado em 1999 - a subida ao Angliru já ganhou o seu espaço na mitologia da prova e do ciclismo mundial. Imortaliza quem lá chega em primeiro e, ao fim de um quarto de século, apenas um lá ganhou por duas vezes. Foi Alberto Contador, em 2008 e 2017!
Não é pela altitude, que lá no alto se fica pelos 1573 metros (o Angliru não é sequer o ponto mais alto do Aramo, esse é o Pico Gamoniteiro, com 1791). É pelo que se vê a seguir na fotografia: o desnível de 1266 metros, que leva a pendentes de 23,5%!
Desta vez chegou à 13ª etapa - costuma ser mais tardia -, numa distância de 200 quilómetros, contados a partir de Cabezón de la Sal, e contou com duas subidas de primeira categoria, antes daqueles últimos 12,5 quilómetros infernais, que parecem não ter fim. Que os melhores demoram mais de 40 minutos a percorrer. E era aguardada com grande expectativa.
Por tudo o que aqui havia deixado escrito na última visita à Vuelta, e porque, ontem, a UAE reforçou a imagem de uma casa sem rei nem roque. De um bordel em auto-gestão. O que se viu ontem, numa etapa de aperitivo para o prato forte de hoje, foi o espanhol Soler a trabalhar numa fuga, até à exaustão, para a vitória de Ayuso na etapa. Lançar dois dos principais corredores da equipa para uma fuga de longa duração, em montanha, na véspera da etapa rainha, decisiva, é tão absurdo que não pode ser decisão desportiva da hierarquia. Só pode ser uma acto de insubordinação, e uma inadmissível falta de respeito pelo João Almeida dos dois corredores espanhóis. Com a conivência, ou não, do espanhol Joxean Fernández, mais conhecido como Matxín, o director desportivo da UAE.
Para atacar o Angliru João Almeida contou apenas com o Ivo Oliveira, com os austríaco Grossschartner e com Vine. Os espanhóis, nem vê-los: no Angliru o valentão Ayuso foi 90ª, e penúltimo da equipa (atrás dele apenas o dinamarquês Byerg), a quase meia hora de João Almeida; e o seu cúmplice, Soler, foi 47º a quase 20 minutos, ali perto do português que deu a maior ajuda ao João.
A 6 quilómetros da meta - que demoram quase 20 minutos a fazer - João Almeida estava sozinho, sem qualquer companheiro de equipa com que pudesse contar. E decidiu atacar. Responderam, e com ele seguiram Vingegaard, com a melhor companhia que podia ter, o seu colega Sepp Kuss, o penúltimo vencedor da Vuelta, e Hindley (Red Bull Bora). Todos, sempre na roda do português. Até o americano da Visma, e o australiano da Red Bull, deixarem de aguentar o ritmo do João, menos de dois quilómetros depois.
Vingegaard aguentou-o. Aguentou esse ritmo, e aguentou todas as tentativas que o João fez para o deixar para trás, não se sabe bem como. O galáctico dinamarquês nunca deixa perceber em que estado vai. Aquela esfinge de miúdo permanece inalterável. Sabe-se é que, se viesse em boas condições, teria atacado. Nunca o fez, nunca saiu da roda. E, quando o João teve força para atacar a a meta, e ganhar a etapa, não conseguiu responder.
Foi uma vitória épica. Se já é épico ganhar o Angliru, nas condições em que o João ganhou, mais épico se torna!
Nada está decidido, tudo fica adiado para a terceira semana. Mas ficou claro que apenas Vingegaard e João Almeida têm condições de ganhar a Vuelta. O dinamarquês tem a vantagem de contar com uma grande equipa. O português sabe que só pode contar com ele próprio.
Pidcock foi sétimo na etapa, perdeu cerca de minuto e meio, e mantém o terceiro lugar. Mas com Hindley, terceiro na etapa, à espreita.
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