
Dada a forma com a competição tem estado a decorrer, às diferenças apertadas no topo da tabela, em especial entre os dois primeiros, os únicos com condições de chegar de vermelho a Madrid, o contra-relógio de hoje, em Valladolid, era dado como decisivo.
Deixou de o ser logo que, mais uma vez pelas manifestações contra a presença da equipa de Israel na Vuelta, a direcção da prova decidiu encurtar a distância do contra-relógio de 27 para 12 quilómetros (mais duzentos metros). Depois de, pelos mesmos motivos, terem tirado 3 quilómetros à etapa 11, em Bilbau e, anteontem, 8 à etapa 16, em Castro de Herville, ali na região de Pontevedra. Estes, justamente os 8 quilómetros dos mais altos pendentes, até à meta, que muita coisa poderiam também ter decidido.
Nunca se conhecerá a verdadeira extensão das consequências desportivas destas manifestações. Mas é como as bruxas em Espanha - que las hay, las hay. Os corredores (que não os colegas do João Almeida, da UAE, que na altura já estavam todos desaparecidos, sem combate) traziam certamente uma estratégia para atacar aqueles oito quilómetros da subida ao miradouro de Castro de Herville, e de repente a etapa acabou ali. Da mesma forma que, por exemplo, a etapa de ontem poderia ter sido corrida de outra forma se, em vez dos 27 quilómetros com que contavam para o contra-relógio de hoje, os ciclistas soubessem que teriam apenas 12 para fazer.
Mas as coisas são o que são, e não o que poderiam ser. O contra-relógio foi o que foi, e no que foi tivemos dois portugueses nos primeiros cinco classificados. Qualquer coisa de impensável ainda há pouco tempo: João Almeida, confirmando que, pela sua parte, tinha tudo para ganhar a Vuelta, ganhou 10 segundos a Vingegaard (apenas nono no contra-relógio), e foi terceiro, atrás de Vine, e a 8 segundos de Ganna, o italiano da Ineos que ganhou, com 13 minutos exactos; Ivo Oliveira foi quinto, a 11.
João Almeida parte para os últimos três dias - se a etapa de Madrid, a última, não vier, pelos mesmos motivos, a ser cancelada, como já se ouve à boca pequena - a 40 segundos de Vingegaard, e com dois minutos de vantagem sobre Pidcock. Para conseguir ganhar a Vuelta tem que apostar as fichas todas na penúltima etapa, na Bola del Mundo, de alta montanha, com a meta (se não houver surpresas) lá no alto (2300 metros de altitude) do Puerto de Navacerrada.
Se voltar a acontecer o que aconteceu até aqui, e voltou a repetir-se nesta semana de montanhas galegas, o João estará sozinho a subir para Puerto de Navacerrada, a responder aos ataques da Visma, de Vingegaard, e da Red Bull, de Hingley e Pellizzari. E ganhar será praticamente impossível.
Se na UAE - a única equipa completa, com todos os oitos corredores, quando a Visma tem apenas seis - surgir finalmente um pingo de vergonha e, em vez de se porem ao fresco à primeira dificuldade, Ayuso (68º, a 2 horas e meia), Vine (31º, a quase hora e meia), Soler (22º, a mais de 53 minutos), Grossschartner (26º a mais de uma hora), Ivo Oliveira (105º, a 3 horas), Bjerg (136º, a 3 horas e 40 minutos) e Novak (141º, a quase 4 horas), colaborarem, por uma única vez, o João ainda pode ganhar a Vuelta.
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