quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Rainha de Inglaterra tem coragem?

Por Eduardo Louro


 


 


Neste início de Agosto, o mês em que o país pára – se bem que parado pareça estar há muito –, em que nada se passa, algo se mexe e nos prende a atenção. Dois acontecimentos que parece nada terem em comum. Mas se calhar até têm!


A presidente da Câmara de Rio Maior, Isaura Morais, após cinco anos de agressões físicas e psicológicas sob a forma da mais cobarde violência – a violência doméstica, que se vale do silêncio das paredes da intimidade, da indiferença da sociedade e da vergonha social – teve a coragem de dizer basta e apresentar queixa na Polícia Judiciária.


Uma lição de coragem, a mesma coragem que me lembro de ver anunciada, ao lado da sua fotografia, num cartaz da sua candidatura à Junta de Freguesia de Rio Maior, nas penúltimas autárquicas: coragem de romper com o ciclo de medo e de vergonha, coragem de dar nome às nódoas negras que lhe marcavam o corpo, coragem de enfrentar o mais manipulador, perigoso e cobarde de todos os agressores, coragem de não se deixar escravizar pela função que ocupa e coragem de enfrentar uma sociedade que pensa que a violência doméstica é flagelo exclusivo das suas margens.


Que grande lição quando, com toda a dignidade, se enfrenta o mais indigno dos crimes!


O Procurador Geral da República (PGR), não se sabe bem com que objectivo mas claramente no quadro das circunstâncias do arquivamento do chamado processo Freeport, veio reclamar da falta de poderes: era como a Rainha de Inglaterra, disse!


Não foram palavras de coragem. Eventualmente não foram um exemplo de dignidade.


Porque não é verdade que o PGR não tenha poderes: teve poderes suficientes para tomar as decisões que tomou, por exemplo, no processo Face Oculta, quando se opôs às decisões do Procurador de Aveiro, tornando a coisa porventura ainda mais oculta. E porque, quando aceitou o cargo – se bem me lembro vai para quatro anos – conhecia as competências que o integravam. Não compete a quem aceita um cargo público discutir as suas competências, compete-lhe conhecê-las e aceitá-lo ou recusá-lo.


O PGR não dignificou o cargo, um dos mais altos e prestigiados do Estado, nem contribuiu para outra coisa que não seja o aprofundamento do contínuo descrédito da Justiça. Tal como, conforme descreveu na altura o Jornal de Notícias, o Tribunal de Peniche: quando lhe foi apresentado o agressor da Presidente da Câmara de Rio Maior, detido por posse ilegal de duas armas de fogo e duas brancas, encontradas pelos inspectores no quarto onde o casal dormia na residência da autarca, o Tribunal, apesar de todos os indícios e até de ameaças de morte, mandou-o em liberdade apenas com termo de identidade e residência.


 


 

1 comentário:

  1. Concordo consigo.
    Fui testemunha num processo em tribunal e talvez um dia tenha pachorra para relatar ao que assisti.
    Não há percepção da justiça por parte da sociedade. A justiça não pune devidamente e por isso não dissuade nem educa.
    A justiça portuguesa é uma das realidade em que se depreende do nível paroquial da nossa sociedade. Todos os intervenientes, procuradoria, magistrados, sindicalistas dos magistrados, políticos, advogados, jornalistas... todos se conhecem pessoalmente, todos já se conheciam antes de desempenharem estes cargos e todo o background pessoal toma também posse das funções. Dessa forma, relacionamentos que nunca deveriam ser mais que institucionais, são pessoais e demasiadas decisões são poluídas por pequenas vinganças e acertos de contas. Será que estou a exagerar? Visto daqui é o que parece.

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